Auto da poesia autoral

Sou poeta da autoreferênciaInterior de mim
Eu, concreta e neblina
Que carrega a casa nas costas

Não preciso de mais nada
Meu quintal é o mundo inteiro
Poeta que não escreve ou diz para ser poeta
Poeta que se gradua no cotidiano
Na hora da alvorada, do amor, da refeição
Na hora do nada
Sou poeta de mim e de tudo
Porque em mim tudo se renova
E no tudo eu me relavo
Poeta de dores profundas
Das lembranças mal quistas
Mas de grandes alegrias
Das doces memórias
E do presente em movimento
Sou poeta das águas
Aquilo que me refaz
Celeste manifestação corporal da Terra
Onde encontro o prazer da intensidade
Por fim, sou poeta da infinita curiosidade
E de um desejo sem fim de mim mesma
…Desencontrada
Planando nos céus sob abismos do mundo todo
Sempre em busca de novas madrugadas
Diverso essencial do verso de mim

Ode


Ode ao mar que me faz silêncioAo sol que me faz desejoAo mistério que me faz criançaDe todas as coisas do mundoCarrego um poucoE de todas as estrelas,virtualidade da matéria,carrego a longa permanência da luzE do caminhar à beira de breves ondassentido em meus pés desenraizadosa áspera areia brancaSei… sincero é o mais longínquo dos astrosE errôneos os que caminham ritmadosno tempo da maquinaria do mundo-gente
Observo-os de longe
da beira-mar onde estou,formigas cujas odes são ao controleE eu, nesse mesmo mar que encontro aos pés…IncontrolávelÉ o mar que lança sua força em mimDe tal modo que meu respeito a sua infinitude se diluie sou em uníssono com elePorque ouço uma voz que sempre me chamaComo vozes ouvidas antes por meus ancestraisE ouço ainda um sinalQue me guia pelo cheiro da maresiaE chego ao farolOde ao farolQue ilumina a extensão da mais profunda belezaDe lá contemplo tudo o que possa haverPela manhã o nascer do solVida pulsanteForça de naveganteDo espaço-tempo de luz e trevasBrilho da magnitudeIlumino em conjunçãoSinto o calor me tomar para siE algo me diz que também eusou estrela no infinitoQue também em mimgiram planetas em órbitaE que também por mimo mundo gira e se faz permanente movimentoE eu sinto esse calora luz a que fogem meus olhos vermelhos de luaLânguidos e suavesPorque também eu sou a aniquilaçãoE, assim, maré que vai e veme move o universoE quando tudo se calaTambém a morte pode reivindicar a vidaE vive-se na morteDa mesma forma que se vive mortoO dilema nunca é um dualismoÉ dorE a dor é forçaA dor das águas é o grito do mundo que,com força, arrasta para o profundo horizonteO mar sabe das doresEle recebe almasSente e molda o mundoA minha dor sente e molda minha vidaE faz girar moinhos quetransformam ventos em caminhosE sempre pra longe eu vouComo barco de pescadorCanoa de desejosPeixe que não se distingue da águaÁgua que remexe, expulsa e corróiE como vento e longitude, eu sigo,capitã de grandes navios piratasPorque ser pirataÉ ser marinheiro de almaNavegante por paixãoAfirmativo poder das ondasÉ ser vento que trazOra raios luminososOra cinzas tempestadesÉ ser um com o marOde aos piratasMais peixes que marinheirosOde ao marMeu segundo de eternidadeMas Terra do que a terra