Na escala Beatles, quem você seria?

Foi dada a largada! Eis o primeiro texto de muitos deste 2022. Sejam bem-vindas e bem-vindos. Levei um tempo pensativa sobre o tema com o qual começaria a série de escritos deste ano em que me tornei uma pesquisadora das sombras. Para quem ainda não sabe, estou iniciando uma pesquisa de doutorado com base na Psicologia Analítica, na qual o meu desafio é destrinchar a função psíquica do arquétipo da sombra e de seus símbolos na cultura. Mais detalhes vou revelando conforme os textos forem sendo publicados. Em função disso, eu havia pensado em dar esse pontapé no blog com um texto mais pesadinho, que fala sobre a cultura do medo. Porém, comecei o meu ano maratonando The Beatles: Get Back, série documental que mostra os bastidores da gravação do material que deu origem ao álbum Let It Be e do show/programa de TV que acabou por se tornar o icônico show dos Beatles no telhado do Abbey Road Studio, já no finalzinho da banda. A série, que está disponível no Disney Plus em três episódios, traz 8 horas de imagens de arquivo de um documentário que nunca foi lançado na época da filmagem e que agora saiu pelas mãos de Peter Jackson, o diretor de O Senhor dos Anéis, que teve acesso a mais de 50 horas de imagens e outras 80 de áudios (quem me dera poder ver e ouvir tudo isso…). Como Beatles faz parte da minha vida desde a mais remota idade, meu coração quis começar 2022 escrevendo sobre eles. Um texto, digamos, mais leve. Muito embora eu vá falar de sombra também, porque o foco dessa prosa será em como você pode se ver através dos Beatles. Estranho? Ora, somos todos um, um grande coletivo de almas que revelam umas às outras across the universe. Mas antes, conto uma pequena história para efeitos de ilustração de um texto que é mais uma declaração de amor do que uma análise.

Era 1989, festa de final de ano da escola. Eu tinha apenas 9 anos de pura curiosidade pela vida. Antes de entrar no palco para dançar Aquarela do Brasil cantada pela Gal Costa, com a turma da terceira série, um arrepio percorreu o meu corpo. Foi a primeira vez que uma música dos Beatles me arrebatou. No palco, a turma da segunda série (que hoje corresponde ao primeiro ano do fundamental) representava a Inglaterra. Naquele ano, cada turma da escola tinha o objetivo de representar um país. Até hoje, quando ouço Help, apesar das centenas de canções da banda que acompanharam diversos momentos da minha vida desde então, eu me emociono e me transporto para um lugar que só existe quando ouço Beatles, como se Beatles fosse um país à parte. Ainda me impressiono com o fenômeno cultural que eles foram e a capacidade que suas canções possuem de tocar fundo pessoas de países, culturas e situações muito diferentes. Por isso, assistir a Get Back foi, para mim, uma experiência de reencontro com muitos momentos da minha vida. Além de um baita espelho psíquico. Intenso! Os Beatles fazem parte da minha infância não apenas por esse episódio, mas porque a minha mãe era fã do Paul McCartney e desde muito nova eu conhecia aquela voz. Quando comecei a estudar inglês, aos 10 anos, foi uma emoção saber que poderia aprender a cantar Help. Já na adolescência, gostar de Beatles era como pertencer à galera mais cool da escola. Eu me lembro de, na primeira metade dos anos 1990, na Globo, ter assistido a outra série documental sobre eles. Recordo-me que começava tarde e eu fazia questão de ficar acordada. Dei um Google. Era The Beatles Anthology e foi exibida em 1995. Mais à frente, a banda embalou histórias de amor e de dor e foi a influência para eu procurar a Meditação Transcendental, na qual me aprofundei. Até nisso eles têm parte na minha história. No mais, suas músicas foram repertório de quando eu mesma tive banda. Já cantei algumas músicas dos Beatles por aí. Pois é, eu já tive banda. Duas, para a surpresa de alguns. Cantava e escrevia letras. E cantava Beatles. Tentei aprender piano, mas não fui disciplinada nos estudos e a empreitada não deu certo. Ainda penso em voltar às aulas e tenho um sonho louco: tocar e cantar Let It Be com o Paul. Paul, me espera! E já que toquei no nome de Sir Paul McCartney, é por ele que passa a tese barata desse texto.

Sabe aquela pergunta qual o seu beatle preferido? Eu nunca consegui respondê-la. Sempre amei os quatro. Eles são uma mistura muito interessante de personalidades, um mix que deu certo artisticamente, o que talvez explique em parte o sucesso estrondoso. Porém, ainda que eu não consiga responder a essa pergunta desnecessária (convenhamos que ela não tem muita função a não ser criar uma competição tola), sempre me identifiquei com o Paul, mesmo tendo profundas admirações por John e George como artistas e uma vontade enorme de abraçar o Ringo e cantar Yellow Submarine com ele. Das carreiras solo, os álbuns do John Lennon são os que mais escuto, depois os do George Harrison. Nunca gostei muito do Paul solo, mas se eu fosse um dos Beatles, definitivamente eu seria ele. Ao assistir a Get Back isso ficou claro. Como o filme é feito com imagens de bastidores, podemos ver as personalidades atuando nos momentos de tensão, de criação, de relaxamento, com suas famílias, namoradas, os produtores, os intrusos, os parceiros, a equipe técnica, os fãs plantados na porta e tudo o mais. Fiquei emocionada. É como se estivéssemos ali, fazendo parte de tudo. Em vários momentos eu quis ser um deles ou a Linda ou a Yoko, duas artistas maravilhosas que também temos a chance de observar nas imagens. Ou mesmo, parte do público que assistiu ao show surpresa no telhado, que é apresentado na íntegra no documentário. Sim, eu disse na íntegra, com depoimentos do público, polícia chegando e tudo o mais. É demais! Muito interessante também é acompanhar a criação da canção que dá nome ao filme, Get Back, que começa como uma música-protesto, e o caos na produção que levou ao álbum e ao show. Sei muito bem o que é caos em produção e nessa equipe eu não queria estar. Mas nada foi mais saboroso (acho que é essa a palavra) para mim do que ver como era a interação entre os quatro. Ringo sempre quietão durante os ensaios, doce e engraçado no geral, parecia a pessoa menos egoísta do planeta (mais um ego inflado naquele quarteto e talvez os Beatles não tivessem dado certo…). Um canceriano à procura de um abraço. Não parecia se incomodar com os direcionamentos dos demais, mas se importar com as pessoas. Porém, escondia uma dor profunda para quem estivesse disposto a ver: havia uma tristeza em seus imensos olhos azuis. Alguns anos depois ele se afundou em drogas, carregando o estigma do “beatle menor”, até conseguir se reerguer e chegar aos seus 81 anos atuais. George era o pisciano da turma, amigo dos Hare Krishna, que levou todo mundo para a Índia, visionário, criativo, caladão, romântico e sentimental, o ponto de desequilíbrio necessário da dupla Lennon-McCartney, o terceiro elemento que desestrutura para equilibrar. Só uma pessoa assim poderia ter composto pérolas lindíssimas como Something e While my guitar gently weeps, que sempre entram naquelas listas das melhores e mais bonitas canções da banda. John era John. Único, irreverente, espontâneo, passional, indisciplinado e, às vezes, distante, parecendo habitar outro planeta, lá onde ele conheceu a Yoko. Um planeta que poucos de nós conhece, de pessoas à frente do seu tempo e fora da caixa. Nasceu sob o signo de Libra, arquétipo da justiça e da paz e, ao que indica a sua provável hora de nascimento, tinha lua em Aquário, o signo do coletivo e do futuro. E, então, Paul. Extremamente criativo, mil ideias por minuto, falante e prolixo como um geminiano raiz, o líder que botava banca para organizar as coisas, o perfeccionista e controlador do grupo. Para o bem e para o mal. Que também saía de órbita às vezes. Eu já sabia que Paul tinha sol em gêmeos, como eu tenho. Ele é do dia 18 de junho, eu sou do dia 19. Por um acidente de percurso na noite do dia 18 de junho de 1980 (eu virei dentro da barriga da minha mãe e não deu para sair facilmente), nasci no dia de Chico Buarque, e não no de Paul, que era para quando eu estava prevista. Adoro essas relações astrológicas que fazem com que eu me sinta mais inteligente. Mesmo porque, as coincidências não param por aí.

Assistindo ao filme, e curiosa com a astrologia como sou, pensei: Paul tem ascendente em Virgem, só pode! Bingo! Fui no guru, o Google, e acertei. Eu também tenho. Chico Buarque também. Pausa com risos nervosos para eu refletir quando começarei a deixar o meu legado… Logo me senti representada e olhando para um espelho ao ver as atitudes do Paul. Claro, com as devidas diferenças entre o maior compositor pop de todos os tempos e euzinha aqui escrevendo no meu blog. Brincadeiras e astrologia à parte, foi muito interessante me pegar pensando em como eu ajo e reajo em grupo e em trabalhos criativos simplesmente ao observar a forma como o Paul fazia isso nos Beatles. Os comportamentos são muito parecidos. Mas eu sempre tendo à autoanálise, às vezes de uma forma até cansativa. Falando em astrologia, a maioria dos planetas mais fortes está na casa 1 do meu mapa, a casa do eu, no signo de Virgem, o analista de plantão. Se falo muito sobre mim nos textos, culpem os astros, por favor! Sei que me analisar através do que sinto ao observar o outro é uma característica minha. Muita gente simplesmente não faz isso. Não que seja uma qualidade, mas eu acho que é algo interessante de se tentar. Já tentou? Eu me vejo até em personagens de fantasia. Tenho histórias hilárias para contar sobre isso um dia. Portanto, ao me identificar tanto com o Paul, meus miolos começaram a queimar e a produzir muitos insights. Tanto na luz quanto na sombra de Paul eu vi um pouco de mim, mesmo desejando que o meu espelho fosse o John e sua postura mais “let it be” (como não usar um trocadilho desse!), ele que era o equilíbrio do controlador Paul McCartney. Equilíbrio difícil de se manter, como o da vida. Os dois ficaram anos sem se falar depois do fim da banda e, infelizmente, a trágica morte de John Lennon deu fim a qualquer retorno da parceria e da amizade.

E você? Na escala Beatles, quem você seria? É só uma brincadeira se fazer essa pergunta, claro, e assistir ao documentário com esse olhar, mas pode ser uma brincadeira profunda. A despeito disso, assista Get Back de qualquer jeito se você é fã ou artista ou os dois. É uma obra para nos deliciarmos, que revela que se toda arte é mesmo inútil como escreveu Oscar Wilde, ela definitivamente é a coisa inútil mais incrível que os seres humanos são capazes de criar, tão incrível que leva alguns desses mesmos seres humanos, nessa longa e sinuosa estrada que é a vida, a fazerem de suas vidas também uma obra de arte. Thank you, boys!

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