País tropical

Moro num país tropical
Abençoado e maltratado
Há no parlamento
Asquerosos mal dotados
De intelecto e amor
Ladrões por toda parte
E boa parte da gente
Dá jeitinho em tudo
Pura arte?
Corrompem-se por bem pouco
E suas fraquezas esfaqueiam
As potências do outro

Dizem que todo mundo
Tem seu preço
Já me ofereçam tudo:
Cargo, dinheiro
No dia a dia
Tentam me comprar
Com vaidade, desejo
Mas eu prefiro as árvores

Moro num país tropical
E há nele um homem prepotente
Que se intitula presidente
E se eu quisesse continuar a rima
Diria que impotente
E por aí vai

Mas minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
E ela é um deleite para poetas
Pena que não se compreende mais nela
A força dos estetas, dos livros e das festas
Mancham de sangue os coretos
Rotulam jovens estudantes de baderneiros
Estrangulam as liberdades
Como estupram moças a cada esquina
E depois as culpam pela saia pequenina

Mas dizem que a história é cíclica
– Deveríamos respirar? –
E se isto nos desespera
Também nos alerta
Para lembrarmos que um dia tudo irá mudar
Mas é claro que não do seu sofá
Há que se levantar e criar!
Este é o lema
Busquemos palavras de ordem
Que sejam mais que emblemas
A forma cada um que busque a sua
Há inúmeras
E nenhuma é pequena
Pequena é a alma dos que nos acham supérfluos
A minha poesia, a sua arte, o nosso mistério

Patológicos do poder
E do rebanho
Grito alto a vossas mediocridades:
A vida bate! Mesmo que tentem matar a nossa arte.
“Subterraneamente, a vida bate”

Rio de Janeiro
Novembro/2016

Phoenix, um poema

Para Sergio Roberto de Oliveira
De tudo renascemos – Anunciou-se!
Do pó viemos ao pó retornaremos
Para dele, reerguermos sonhos – não muros,
No ciclo eterno de vida renovada
Teu corpo é de cada humano – Alvorada!
Tua dor quem sente é o mundo
Pelos fios da linguagem universal
Emoção-sal
De corpo água-forte
Respirar não é mais
Que impermanência e sorte
E, de repente, a morte
E o primeiro reviver
Simultâneos intervalos
Quando nasce a morte
Morre o passado
Ambos um só, sem hiato
E eis que ela, a vida,
Brilha no choro agudo
Da criança recém-nascida
Morre o jovem, nasce o pai!
Eis o que se consuma!
E celebra-se a bruma!
Segue-se a jornada
Em seu curso, amarrada,
A criança crescendo, o pulso, a estrada,
Dias e noites cumprindo o seu destino insano
E, então, de novo ela, dilacerando,
A morte na forma do fim do amor
Para renascer, em exato instante,
O novo amor que se torna errante
Qual relógio que passa de pai para filho
Mas em novo pulso, resignifica
Morre o marido, nasce o eterno amigo!
Eis o que se consuma!
E, então, inteiro homem!
Até que num pedido de socorro do corpo
Toda lógica perde o sentido
Tonalidade, rima, ritmo
Tudo é abismo
O que se consuma é paraíso?
O que pode um câncer?
Corpo mesmo que se dobra
E se retorce
Cada célula alimentando à si mesma
A morte
Tentando ela entender, a contraforte,
A nota distorcida,
A vibração de desejos que não mais
Compõem-se com os beijos
E definha, renega,
E, como se não bastasse tal sorte,
É renegado
Vela rasgada
De barco abandonado
Que chora
Chora rios
Hipérboles, sim, fazem sentido!
E de tal coisa abissal que é o abandono
Brota a morte de tudo ao redor
Estepe estranha da alma
Lama arremessada na calma
Cheiro de enxofre
Maremoto na noite
Intransponíveis montanhas
Era melhor que fosse mesmo lama
Infinito sem rumo do corpo nu
Era melhor que não fosses tu, mulher…
Poderia dizer
Poderia nunca mais querer viver
Mas amor…
Amor é para os fortes
É atravessar desertos sem garrafas d’água
E sobreviver!
A alma de quem ama
É suspiro em meio ao drama
Jamais adormece ou se apequena
Ou faz contas por obrigação
Silêncio em meio ao não
E festa quando tudo é trama
E a tristeza,
Ainda que o poeta diga não ter fim,
Consome-se em riste para renascer.
Verso triste este meu
Que chega a ti para dizer
Imperativo: sorria!
Que o que não tem mesmo fim
É a vida
Ainda que as células
Digam que sim
Mas tu crias!
Grades férreas
E doces de sonora poesia
Para nós a vida é eterna
Do tempo, terna senhora!
Eis o que se consuma!
E revem a aurora!
Pois, anima-te, amigo!
Veja que o horizonte faz abrigo
Uma luz de lua nasce sem sentido
Embriagada a fome nossa
Dos que criam livros
De palavras, notas
E receitas claroneadas
A natureza é sábia
E tudo ensina
Alumiando pós dias cinzas
Renasce alegria
Arrumação!
Eis o que se consuma!
Morre uma vida, nasce uma!
De tudo renascemos
Do pó viemos, ao pó retornaremos.
Anunciou-se – E fez-se som!

Vanessa Rocha
Rio de Janeiro, junho de 2016
Inspirado na história de Sergio e em sua música autobiográfica
Phoenix, para clarineta e orquestra sinfônica

Derradeiro

Ante o imponderável
Paro e sinto
Que mistérios ligam
Os meus sentidos
Ao infinito
Pensar alturas não é só para poetas
A vida tem asas e abismos
Pairando no tempo o espaço aberto
Rasga um coração
Derramamentos
Fosse meu corpo um cetro
Eu o traria agora para mim
Dono de si-realeza-interna
Cavalheiro de cor marfim

Ante o impossível
Paro e observo
O antes improvável
Torna-se certo
Que de noite seja dia
Porque não
Que o dia seja raro
O beijo desejado
Acontecido
O fosso das almas perdidas
Encontrado
Fosse minha mente uma jangada
Eu faria deste planeta um só mar
Inteiro sem fronteiras e sem leis
Cozido no amor com sabor de manacá

Ante o inconsciente
Paro e respiro
Que palavras se parecem
Com o que digo
Que as estrelas sejam olhos
Que os olhos sejam fome
Talhado na pedra o charque
Fervido na brasa o molho
Arado o solo-chão para o sexo
Fosse o meu mundo terroir
Eu distribuiria música com Dionísio
Beberíamos todos em sol maior
Aniquilados pela sorte do vinho

Ante o imponderável
Arde sempre o impossível
Inconsciente sensitivo

E ante tudo isso
Existe nada mais
Que os nossos frios e sismos

Abalos humanos desmedidos
Estejam preparados os nossos pêlos

Tudo tem origem
Num ínfimo instante

Derradeiro

Um cisne em voo solo – carta para Stefania

Querida Stefania,
espero que esteja tudo bem por aí. Por aqui teremos que aprender a conviver com a sua partida. Porque a vida segue em todos nós. Em você também, porque acredito que tudo é uma coisa só, vivemos em espirais do tempo e do espaço. Neste momento, estamos apenas em dimensões diferentes da existência. Logo, teremos que aprender a conviver com a sua partida desta dimensão aqui. 
Queria te dizer muitas coisas bonitas, mas as palavras são limitadas. Podem ser muito belas, é verdade, e eu vivo buscando beleza através delas. E, junto a elas, explicações e narrativas para o que vivo. Como faço agora nesta carta para ti. Mas acredito que é para além das palavras que a beleza se manifesta mais plenamente. Por exemplo, na natureza, que você tanto amava. E na música, que você dançava. Na noite em que eu soube da sua partida, quando eu já estava sozinha, passei um tempo mergulhada nas palavras. Escrevi para mim, escrevi para o outro, racionalizei para tentar achar sentido. Então, já cansada, recorri a uma meditação para me conectar com a natureza dentro de nós. E, depois, fui à música, como sempre. Ouvi, em sua homenagem, o Réquiem de Mozart.
Ontem foi o dia mais triste. Muito embora você fosse sinônimo de alegria. Mas foi difícil evitar a tristeza. E sei que você vai entender. Quando recebi a notícia, fiquei em choque. Eu tenho uma casca bem dura, mas no fundo sou muito sensível. E fico em choque até o tempo me ajudar a processar as coisas. Talvez por isso você me achava uma referência, porque as nossas almas conversavam. E eu te digo: que honra! Você também foi para mim! Que honra ter trocado tanto contigo nesta vida. Após a notícia, eu desliguei o celular e sentei num banco sem saber por que sentava, mas a minha vontade era sair correndo daquele lugar meio escuro e meio frio em que eu estava e ir para um lugar iluminado como você. E foi o que eu fiz. Eu saí correndo. Desci seis andares de escadas, transtornada. E cheguei a um lugar claro, segurei o braço de uma pessoa querida e pedi um chá. E a vida colocou também, neste mesmo lugar claro, uma outra pessoa para me ajudar, tão sensível quanto você, tão artista quanto você, e que segurou a minha mão e me contou histórias que eu achava nem estar processando, tamanho o estado de choque em que eu estava, que nem um choro descente me vinha aos olhos. Mas que foram as palavras que eu deveria ter ouvido naquele momento para, quem sabe, reforçar a minha fé inabalável (espero que sempre inabalável) na beleza (e nos mistérios) da vida. Era alguém que estava ouvindo falar sobre você pela primeira vez, mas que eu soube que te entenderia. Talvez não estivesse mesmo ali por acaso. Tive sorte! Depois falei com os amigos que estavam por perto, todos artistas também como você, e liguei para a minha mãe e para o meu pai e, então, liguei para uma amiga que passou por dor semelhante há pouco tempo e que tem uma sensibilidade como a nossa, desse jeito de se sentir inadequado no mundo, em busca sempre de criar o mundo à sua maneira. Ela também te entenderia. E fui compreendendo o aparentemente incompreensível. Mas ontem… ontem eu chorei muito. Imagine o que foi falar com o seu irmão sobre isso!? Com a sua mãe… Sua mãe, hoje, quando nos despedimos do seu corpo, me disse para sempre me lembrar de você com amor. E eu disse a ela que não havia outra forma de pensar em você. Afinal, eu te conheci tão menina por conta do amor. E só o que vi em ti nesse tempo todo foi amor transbordando. Seu pai me falou que serei sempre da família e, com aquele jeito brincalhão, disse que para ele, eu e Pedro seremos sempre uma coisa só. E nós conseguimos rir alguns segundos com essa frase no meio da tristeza. Imagino a gente sentada com ele, Pedro e a sua mãe na mureta da Urca, bebendo um suco, e você rindo horrores disso. Eu e Pedro uma coisa só é uma imagem engraçada. Sua tia, seu tio, sua avó, seu avô, a Maria, estavam todos lá para me dizer que eu serei sempre da família e que você me amava muito. Eu também te amava muito. Ainda que estivéssemos nos vendo tão pouco ultimamente. A Analu, que foi comigo, nos conectava também. Assim como o seu irmão. Lembra como você ficou triste quando a gente se separou? Mas, muito inteligente que era, entendeu muito bem que amor não acaba, só mudam as formas. E como você entendia de amor. Era amor em estado bruto, com uma potência tão grande que só seria capaz de implodir. E tenho profundo amor por essa família que também me constitui. Serei sempre da família sim! E sou grata por tê-los no meu coração. É bom ter várias famílias. É bom ter você como irmã, mais uma! Quanto tempo se passou, não é? Já são quase 18 anos. Você cresceu, “virou mulher”, como dizem por aí, atriz, bailarina, cisne! E cá estamos, agora, vendo esse cisne voar. E ainda dizem que cisnes não voam…
Ontem, nesse dia mais triste, eu também recorri à música. E à dança. Minha mente resistiu um pouco. Eu estava no Theatro Municipal e acontecia o ensaio geral do Lago dos Cisnes. Claro, como não pensar em você, bailarina! Resisti, mas resolvi dedicar a você aquela libertação do cisne. Chorei em silêncio e essa foi a minha oração num templo das artes para a artista iluminada que você foi, e que encheu a vida de todos que te conheceram de uma doçura, uma profundidade e uma delicadeza fora do comum. Tchaikovsky também seria capaz de te entender profundamente… Muitos seriam. O mundo está cheio de pessoas com essa sensibilidade rara como a sua. Mas infelizmente a gente, como corpo social, ainda é muito frágil. Ainda cria para o medo, oprime, sufoca as manifestações de afeto e a espontaneidade em prol do simulacro, da imagem, do ego, das personagens falsas das redes sociais e de uma falsa ideia de segurança. Temos muito medo. Coisa que você não tinha. Pessoas comprometidas com a potência da vida, que sentem a vida como um calafrio na pele o tempo todo, têm que cavar seus espaços com muito esforço no meio dessa cegueira social toda. E nós somos muitos. Alguns resistem e criam, outros decidem não continuar. Não é fácil, não é? Mas é muito bom quando a se gente se encontra e se reconhece.
Sei, Stefania, que a vida é cheia de mistérios. Hoje, depois da despedida derradeira, te vejo como um anjo. O cisne que foi dançar em outra dimensão e que, como anjo que é, vai continuar operando milagres na vida de todos nós. Quem vai saber. Quem é que sabe dos mistérios. Se vivemos em espirais, perdas e ganhos fazem parte do mesmo processo, do mesmo movimento. Tudo é uma coisa só. Movimentos do mesmo universo. Quem sabe o que se está por ganhar diante das perdas, mesmo as mais dolorosas? A vida é uma fita de impermanência, de incertezas, de fins e começos. É assim mesmo. Temos que desenvolver serenidade para aceitar o que não somos capazes de entender. E aceitar inclusive quando algo já acabou, já “deu o que tinha que dar”. Não deixa de ser também uma generosidade. Aceitar o fim é aceitar também a potência da vida. Ela só é potente porque existe esse movimento do ir e vir. Não existe vida sem finais. Ela é tão somente movimento e dele depende! Só existe uma coisa que é permanente e que conecta esse movimento do ir e vir. É o que acredito, pelo menos. Essa força é o amor. E ela está tanto nos começos quanto nos finais, diferente do que nosso medo quer nos fazer acreditar. Você sabia disso. E partiu nos deixando um legado: é preciso apostar no amor. O resto é consequência! Descanse em paz. Voe hoje como voava ainda tão nova (olha você aí embaixo, ainda pequenina). Voe, grande e belo cisne! Cisnes sabem sim voar! E daqui há um tempo, veremos o que o seu voo terá nos trazido!
Com amor,
Vanessa
10/06/2016

Imoral e física

Sou fagulha de sol
Na direção do improvável
Tudo o que imagino
Realizo
E minha aura radiante paiol
Veste túnicas de cetim sanguíneo

Há que se considerar que,
Afoita,
Jamais manseio
E que, carregada de arpejos,
Não me entrego a qualquer fato
Hoje, avalio ontem
Repenso
Estratégia me faz
O tempo me ensinou a ser selvagem
E a catarse dos momentos
A manter foco em arte

Sou arma de forte na entrada no mar
E pirata que toma os navios da realeza
Não concebo
Moral
Que a alma não aprove
E me debruço à falta dela
Porque me sirvo
Desejo

Há quem se alimente de restos
E se contente com palavras belas
Ou sou diversidade
Aquarela
Ou me recuso a ser esteta

Prefiro a imoralidade da traição
À sensação castrati de viver obrigada
De que adianta alcançar as notas
Sem que o corpo conheça
A dança apaixonada

Há quem pense em agudos
E, só depois, em graves
Eu deslizo por toda a grade

Sou fagulha de nada
Que sabe ser tudo
Não me culpo a arrogância
De me sentir um Deus

Existem ditados
Que dão lições de sentido
Ouço apenas os que traem
Nosso cotidiano cinismo

Há quem se aprofunde nos rasos
Eu, encaro os abismos

Carta a quem interessar

Não me importam as tuas narrativas
Mas o que dizem as entrelinhas
As fotos que publicas
Os poemas que recordas
As músicas que gostas
Não me dizem nada
Não sou fã das aparências
Procuro o que escapa no teu gesto
A significância do que mostras
E o desejo por trás de tuas apostas
Não me interessam
A voz bandida ou de anjo
Se tu te achas do bem
Ou se te achas do mal
Eu me divirto com adjetivos
São apenas possibilidades da linguagem
Julgamentos morais não me atraem
Pois o que realmente te faz
Fica guardado no teu plano mais secreto
Se tu gostas de mim ou não
De nada me interessa
Tua opinião é só mais uma entre sete bilhões
Quero saber o que isso me diz sobre ti
E o que te faria largar o teu ego
O que expressas numa mesa de bar
Interessa à sociologia e ao teu analista
(Como o que expresso, ao meu)
A mim interessa o que existe
Quando estás só e em silêncio
Quando toda a luz já se apagou
E toda a cultura dorme
Quando mostrar-se já não é necessário
E os medos e as dores
Já não podem ser deixados de lado
Quando sofres, me interessa!
O que te alegras a alma sem alarde, me interessa!
O que desejas quando ninguém está por perto,
O que te moves e te feres no peito,
E te fazes todo dia manter-te no caminho…
Isso é o que me interessa de ti!

Oração

Que a poesia me livre 
Das suas prisões
E das minhas e das de todos nós
E me permita, ela,
Sempre a liberdade
Ainda que subjugada
Sob a bandeira da necessidade
Ou a sentimentos presos
Em gargantas ilhadas
E que minhas verdadeiras intenções
Não sejam reveladas 
A quem não merece conhecê-las
E meus desejos mais secretos
Sejam apenas meus e daqueles que escolho
Que o tesão se faça todo dia
Nas brechas dos momentos burocráticos
E através deles
E a ironia sorria para os que mentem a si mesmos
E fingem ser o que não é
De tal forma que se tornam caricaturas ao espelho
E que venham sonhos e nos libertem, todos
E sejam eles os meus guias
Nessa estrada de vidas que se querem poucas
Que minha face mais verdadeira
Seja dada aos momentos de fato sinceros
E as máscaras certas sejam usadas
Nas horas em que só cabe sobrevivermos
Que eu não tenha medo
E ele também não 
E ela também não
E nem eles, nem nós, 
Nem irmãos ou inimigos
E sejamos todos capazes
De ver que nada somos
Para além do nosso umbigo
Para que a poesia de ser nada
Se instaure nas raízes do coração selvagem
E faça brotar uma vida mais leve
Filha da mais profunda viagem

O primeiro dia

Todo dia é sempre
O primeiro dia
Do resto de nossas vidas

Dia de dizer palavras duras
Que já não podiam não ser ditas
E ouvi-las, algumas

De descobrir que o amor se fortalece
Mesmo quando a gente esquece
– Quando se deve esquecer –
E nos dias cinzentos dos afastamentos
Que carregam a esperança
Dos novos e futuros felizes momentos

Todo dia é dia de saber
Que existe amor no sim
Mas também no não
E que não e sim
São como luz e escuridão

Todo dia é dia de jogar coisas fora
Aquelas cartas de anos atrás
Que estavam empilhadas em pastas
Por sua vez empilhadas em armários
Por sua vez empilhados – pesados –
Num excesso de memória

Dia de descobrir que elas
Não servem mais a nada
Que não à história
E é só no coração o seu lugar

Para que guardar tanto objeto
Em um mundo já repleto?
E porque represar energia
Quando deve o novo chegar?
Se o se que passou só existe
Como lembrança e aprendizado
– às vezes como o inventado –
E nem existe ainda o que virá

Sejamos poetas do agora!
Porque todo dia amanhece
Anoitece e retorna a aurora
Sempre na promessa do novo
Sempre na função de um espia
Olhando em direção ao horizonte do mar
Com olhos de quem busca a infinita alegria

Porque todo dia é de basta
Todo dia é de festa
Todo dia é de não dá mais
Todo dia é de promessa
Todo dia é do fim delas
Todo dia é de um santo
Todo dia é de engano
Todo dia é dia de dizer eu te amo!

E de aceitar
O que não se controla
O que não se isola
E deixar voar os pássaros
Que precisam sair das gaiolas

Todo dia é dia de enfrentar
O medo do suspiro derradeiro

E seja ele banhado de paz ou de dor
É sempre o primeiro

Astrolábio

Partiu mais um barco

Levou pro sem rumo da vida
Os barris de rum vazios
Quinquilharias que já não
Faziam sentido

Roupas velhas,
Papagaios mortos
E todas as cartas de um baú
Já carcomido
Onde a craca dos mariscos
Longe d’água
Começou a dar mau cheiro

Partiu mais um barco
E, em mim,
Partiu-se ao meio

Mas eu, pirata que sou,
Roubei outro para mim!

Meu sonho
Nunca é um barco abandonado
Pois é fiel ao destino
De não ficar ancorado
No mínimo,
Somos uma família de exilados
Meus sonhos, o sol, os peixes
E os pássaros
Conversando todas as manhãs
Sob um convés alado

E o que dizer do espelho?
Quando olho pro mar
E me reconheço
Sei que antes

De amar qualquer coisa

Devo sempre
Amar meu próprio zelo

No mais,
Entre uma solidão e outra
Encho os barris
E convoco a artilharia

Agora, ando apenas
Com artilharia pesada
E não há mais desejo em mim
Que passe fome
Pois a arma
Mais forte que encontrei

Foi dar ao barco
O meu próprio nome

Então, carregado o barco
De rum e pólvora de qualidade
Faço festas
E convido outros piratas

Nessas horas,
Abandonado é o coração
De quem não se permite navegar
Meu barco não!

Esse é forte, seguro,
Aguenta as tempestades

Sem renegar

Porque sem elas,
Ele não pode provar
Que é o melhor barco

Que já existiu!

Capaz até mesmo
De suportar a farra
Dos marinheiros que invadem,
Sem convite, o festejo,
Enchem o barco de música e beijo
E, depois,
O acham demasiado

É nesta hora

Que me torno meu próprio

Astrolábio
E me mantenho
Rumo às estrelas
Do mundo desejado

Partiu mais um barco
Roubei outro para mim
E o mar é um círculo

Mas tudo depende

Se paralelas se cruzam no infinito

Liberdade

Perder o que nunca foi seu
Não é perder
Nascemos sem nada
Morreremos igual

E sozinhos

E isto é liberdade

Uma vida humana
Só sabe ela mesma
O resto é sensação
E memória do outro

Então, para que preocupar-se
Com frivolidades?
E porque ter medo?

Estamos aqui para ser!
E o que restará de nós
Ainda será do mundo
(Mas nunca nosso)

E o mundo fará reverências
A quem o deixar regalos

Só construímos verdadeiramente algo
Quando não nos apegamos
Ao que estamos construindo
Mas o deixamos pertencer à vida
Sujeito, assim, às intempéries do tempo

Para ser inteiro
É preciso entregar

Pois deixar um rastro,
Filhos, livros,
Música, a ciência,
Tudo isso é legado apenas
Quando não se trata de vaidade

Não temos nada
Entendendo isso
Podemos tudo

Ao fim de cada rumo
Chega um novo
Súbito vem a primavera
E o que mais importa
Que a liberdade de ter tudo sem ter nada?
De florescer sabendo que mais tarde
O inverno levará as cores…
De pisar como bicho no ciúme, na raiva,
E nos destroços das paixões malditas
Para deixar florescer as bem quistas

As que nos dão potência
As que não aprisionam
As que fazem verão
As que permitem o outono

Não há lei maior
Que a lei da própria vontade
Porque todo ser que é humano
Só segue regras sociais
Por medo, prisão ou necessidade

A vontade é a vida!
Sempre dupla, em si mesma,
E infinita

Única regra que, por fim, dita

A alma humana é livre por natureza!

Todo o resto é somente convenção
E toda convenção
Só pode ser seguida, de fato,
Por tolos
Ou por eles formulada

Os livres escapam

Negociam, mas escapam
Estão nela, mas escapam
Podem até beijá-la…
Podem até ser por ela escravizados…
Mas escapam!
E se reconhecem uns aos outros

Sabendo que regra nenhuma vale
Além daquela da coragem
De olhar a si mesmo para ser
Mundo

Pois títulos não valem nada,
Mas as honras das batalhas!
E conselhos nada legislam
Que não suas próprias pequenezas
Construídas, letra a letra,
Por medo da incerteza

Mas quem disse que a vida é certa?
Quem disse que é a moral que nos regula?
Pergunte aos hormônios
Pergunte a lua
Pergunte ao coração que pulsa
À razão que analisa
À meditação, que silencia
Para abrir a verdadeira escuta

Nascemos sem nada
E morreremos igual
O que fazer neste tempo
Se não realizar em nós
E em nossas obras
O objetivo antitético da vida
Qual seja:
Permanecer se transformando

Por isso, obedecer
Apenas aos desígnios
Da missão que viemos ter
E missão se sabe
E exige coragem
Pois não se brinca
Com a liberdade

Esta pede disciplina
Controle do próprio tempo
Para que não o controle
Mais nada
Instituição
Moral
Legislação
Tudo isso é tão contra a vida
Que nos cabe rir e dançar

Se às coisas que criamos
Não déssemos caráter de eterno
Ou a gravidade do sério –
como alguém que franze as sobrancelhas
para dar bom dia –
Não precisaríamos nos esforçar tanto
Para sermos livres

É preciso sempre lembrar:
A voz que importa é a do silêncio
E não a do legislador
E mestra é a solidão
Para que tenhamos relações livres e potentes
Porque só assim são reais
Sem medo da morte delas mesmas
Concretas na sua incompreensão
E sábias em sua insegurança

E se houver servidão ou apego
Que sejam conscientes
E sejam voluntários
E não se cobre reciprocidade
Como juros de um cartão
E que seja por amor!
Porque não há motivo maior que este –
A resposta para todas as perguntas

Amor antes de tudo à vida e a si
Pois é preciso ser egoísta
Para ser coletivo, do outro e generoso

O verdadeiro egocêntrico
Não é o egoísta
– o que busca olhar-se ao espelho –
Não é o que luta por si
Mas o que luta em nome do outro
Seja egoísta
Não seja herói
Lute pela vida
E não por “algo maior”

Não existe algo maior
A não ser na construção diária
Do desejo compartilhado
Esta é a força real dos encontros
E não a condução por códigos
Juridicamente – ou moralmente – assinados

E se existe um rei a quem servir
Ele está dentro!
Se existe um Deus
Ele vive como eu vivo!
Porque se não nos reconhecemos
Deuses e reis diante do espelho
Jamais seremos capazes de sermos
Servos da vontade – a única justa servidão –
De realizarmos a vida em potência e comunhão
Lembrando ainda que se não soubermos
A verdadeira função de um deus e de um rei
Cometeremos atrocidades
E, o que é pior,
Em nome da liberdade

Deuses e reis
Não deveriam existir que não para servir
O rei que não serve ao seu povo
Assim como o deus que não serve ao seu
Não podem assim ser chamados

Lembremos novamente
Que o egocêntrico
É o que fala pelo outro
E não por si
Quando falamos apenas por nós mesmos
Somos a voz do universo
Porque ele, inteiro,
Reside dentro de nós
– e fala através da gente –
Falar pelo outro
É escravizá-lo
E não reconhecê-lo como igual

Pois a única servidão que vale:
A que é liberdade!
E liberdade, uma vez conquistada,
Não se vende nem se dá a escambos

Compartilha-se e torna-se o caminho!

Boa parte da dor e do sofrimento
Provém da especulação
E não do concreto
Se a mente cria o medo
É a mente que liberta
E nos revela Deus dentro de nós

E se a vida é uma eterna
Roda da fortuna
Melhor mesmo é olhar para dentro
Porque o centro nunca gira

Estar seguro é estar consigo
O resto é dúvida

Então, para que o medo?
Viva tudo o que tiver para viver!
E pergunte a si mesmo:
Qual é o meu centro?

Nascemos sem nada
E morreremos igual
Ao entendermos isto
Passamos a ter tudo!

Trinta e cinco

Blackbird… You were only waiting for this moment to arise

Era tarde e chovia
Como de praxe na revolução do meu sol.
Para criar arco-íris, é fato!
Pois não aceito nada menos que isso: cores!
Meu coração de filha do quase inverno
Inflou de alegria! Fechei os olhos para sentir
O fino da chuva no meu rosto
– Eu estava sentada no sofá do quintal,
Observava as bandeiras do Nepal,
Que me presentearam um dia,
Penduradas, voltadas para o vento,
Carregadas de prece –
Pensei: Sidarta iluminou-se aos trinta e cinco!
Trinta e cinco…
E tanto ainda por viver!
Ainda virão novos sonhos no planeta
E novas florestas serão devastadas
Virão fatos, guerras, dores,
Janelas novas, novos ares,
Cachorro correndo no jardim, outras músicas, outras paisagens
Virá o dinheiro! – Ao menos acredito nisso…
(E se eu não acreditar, ninguém, por mim, o fará)
E virão os filhos! E os livros repletos das pequenas verdades
Sim! Virão as crianças um dia
E as novas poesias
E o amor, finalmente, será
Forma de sonho compartilhado
Transformado em casa construída a maneira que se queira
Calcada em alicerces que se movem, é certo, mas alicerçam
Porque segurança é a maior das ilusões humanas
Porém, tudo resiste ao amor! Aprendi aos trinta e cinco!
Entre uma simples mortal de trinta e cinco anos e Buda
Há algo em comum: sabemos que a vida é transitória!
Mas também sabemos que há aquilo que fica.
Nos próximos trinta e cinco anos, as cidades se transformarão,
Os filhos, meus e seus, nascerão e crescerão
Haverá centenas de novas estradas, carros
Indo e vindo, o sol todo dia irá nascer e se pôr
Mesmo que os homens insistam em esquecer sua humanidade
E quem sabe até lá já não saberemos mais da dobra do universo
Nos próximos trinta e cinco anos…
Mas no meio de tudo isso, como deve ser,
Permanecerão os amigos.
Amigo é que é presente de aniversário!
Se eu contasse os últimos anos e toda a amizade perdida…
Mas na minha solidão lapidei o meu desejo
E ganhei o inesperado
Ficaram os que deveriam ter ficado
Nestes trinta e cinco…
E vieram os novos, radiantes, para iluminar ainda mais o meu cenário
Chegaram trazendo flores coloridas, violino, contrabaixo,
Fotografia, viola, violoncelo, prosecco importado!
Vejam só…
Vieram devidamente trajados!
Juntaram com os produtores, os outros fazedores de arte,
Os locutores, os bailarinos, os insaciáveis
E vieram ainda com um cravo pra o barroco nunca mais sair da minha vida!
Porque me embriago mesmo é com três coisas
– Engana-se vc se acha que é com álcool –
É com palavra, sexo e Vivaldi!
E criaram, todos eles, juntos, os novos e os antigos,
Uma festa nas terras férteis do meu coração
Onde planto as melhores uvas de palavras e afetos
Para colher os vinhos dos amigos certos.
Fizeram lavoura: remexeram na memória
Juntaram o novo com a história
E o que se produziu foi um vinho único de safra nova!
Carrego comigo hoje um livro em branco
Pronto para os próximos trinta e cinco anos
Penso que daqui há um ano, já haverá algumas páginas escritas
E quero eu poder dizer aos trinta e seis:
Era uma vez uma vida que se permitiu ser o máximo que ela podia ser!
Mas dirá o cético: trinta e cinco e o que foi que vc fez?
Duvido ter feito algo que preste…
Eu, como boa oradora que gosta de desafiar, direi:
Ah, eu fiz foi muito!
Mas como boa geminiana, obviamente queria ter feito mais!
Porém, descobri que o insaciável é algo que também transita
Na roda da fortuna da vida
E que é possível estar em paz ao variar no mesmo tema.
As variações são sempre infinitas!
E que no ir e vir de um dia estar no alto e no outro no abismo
Só o que não gira é o centro
Descobri que é no coração que a natureza persiste.
Em meio a todo o ir e vir das belezas e das incertezas
Se tudo gira, o que fica é amor!
Aquele amor incondicional pela vida que pulsa na gente
Para que amemos também o outro incondicionalmente
Com as nossas mazelas, perdas, tristezas
E nos estranhos momentos de certeza.
Aquele amor que amigo sabe que existe
E que vem com a sabedoria da idade,
– muito embora, ela só vem se a gente se abre.
Não nos enganemos!
Descobri aos trinta e cinco
Que mais feio que enganar o outro
É enganar a si mesmo
Deveríamos ouvir mais os poetas
Faz tempo já disseram que viver não é nada preciso
Precisão é coisa de astrolábio e da matemática
A música é precisa! A vida não…
Trinta e cinco…
E penso no cético! Ele poderia estar certo
O que fizemos até aqui? O que deixei de viver até aqui?
O tempo é matéria que transforma tudo
Não perdoa, tanto quanto traz o perdão
E, de repente, quando me dou conta dele
E observo a chuva, as bandeiras do Nepal,
Penso no Buda, medito, encho uma taça.
Quando me dou conta dele e penso no sorriso dos que amo
E nos seus choros, medos, traumas, desejos
Aperta-me a alma saber que os próximos trinta e cinco
Passarão como um cometa
E é nessas horas que melhor que ouvir Bach
É lembrar aquela velha canção da adolescência:
“Hoje, o tempo voa, amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir que não há tempo que volte…
Vamos viver tudo o que há pra viver!
Vamos nos permitir!”
Porque, de repente, estaremos eu, você, toda a humanidade
Sentados no sofá do fim da vida
E não queremos pensar no que nossos medos impediram,
No que a nossa falta de coragem matou da poesia.
O caminho do risco é sempre o caminho mais bonito
Não se conhece o ouro sem passar pela alquimia!
Aprendi isso aos trinta e cinco!
Idade em que Sidarta descobriu que Deus existe mesmo
É dentro de cada um de nós!
Começo um novo ciclo.
Vem vindo uma revolução e ela é solar!
E é tão cheia de amigos e descobertas
Que eu poderia dizer que sou hoje a pessoa mais rica desse mundo.
Quiçá do universo inteiro!
Já que riqueza de verdade existe mesmo é na amizade
E naquela sensação de olhar no espelho e dizer: é, eu gosto do que eu vejo!

Trinta e cinco
Nem mais nem menos
O meio

O meio do infinito!

Escrito entre 17 e 19 de junho de 2015

Rio 450 gestos

Tens um gesto que se desdobra:
Aquele que reconheço no espanto!
Não soltas, nem amarras
Encantas e provocas medo
Mas presa ao medo e ao leme
Tens sorriso curtido de malandro
Sambas o romantismo do tempo dos poetas
E a alvorada dourada da Baía de Guanabara
Corres…
Fugidia e fugindo no lamento
De veias mal tratadas
Mas, ah, és o Rio!
Dos tantos que dormem matutinos pelos trilhos da Central
E aquele do bonde de outrora que atravessa
As minhas saudades mais bonitas de pôr do sol
Trilhos que levam às salas e às senzalas
E tua força reside é nesta gente que escapa
Nos meninos que correm descalços jogando futebol
Nos que deslizam nas ondas
Nas moças de beleza eternizada em música
Que sabem que são mais que uma beleza carimbada
O Rio é de muitas caras e “maracas”!
E, porque não, do terno e da gravata
E dos sinais que atravessam a Presidente Vargas
Mas como choras…
O choro vermelho de almas tão novas
Deveriam ser anjos,
Tão somente crianças a brincar nas tuas areias –
Choras ainda o choro alegre ao qual Villa fez sua reverência
E toda noite um bar também a faz.
Até Madureira chorou!
E tu, Rio, choras em cascatas por tua urbana floresta
E suas quente, cidade sem pudor
Sob o sol dos hoje mais de 40 graus diante de tanto motor
– O Rio 40 graus ficou no século XX e hoje tu ferves uma euforia nova –
E amas! Como tu amas, urbe desordenada!
Num aglomerado de corpos que dançam e passeiam quase nus,
Ainda que vestidos, travestidos e luminosos
A desafiar tuas vizinhas econômicas sem praia
Já disseram que és caos e beleza
E que continuavas linda com o barquinho a deslizar
Mas que hoje só o porto é maravilha.
Porém, vê bem, atenta-te!
Como um rio de amor sobre as avenidas
Que partiram uma cidade arquitetada na loucura,
Até que te saíste bem, por não saber quem te pariu
Foi Dom João quem fez?
Pedro quem fez?
O negro da Praça XI, o cigano perdido,
Um Pereira de passos dúbios e compridos…
Que importa quem te fez
Se é a tua natureza anterior a qualquer Debret
Que se impõe magistral sob os arcos da Lapa
E os navios que todos os dias invadem tuas águas.
Se são as tuas montanhas rindo
Ao pé de quem passa, dizendo:
“Aqui quem manda sou eu!”
Muito embora a deliciosa arrogância carioca
Suavize todo esse esplendor em seres a terra de São Sebastião
Minha alma canta
Estou hoje a celebrar que, Rio, és um rio
Tudo que por ti passa nunca sai o mesmo
Onde toda a dor que se sente
Alivia-se no baile ou nos braços do Redentor
E tem o horizonte do mar para desaguar
(Marinheiro, marinheiro,
Chega ao Rio e logo aprende a nadar…)
Peço licença e paz, com voz
A voz do morro e a do asfalto –
Para o maravilhoso gesto
Do espanto abre-alas
A traduzir arranhas-céus e favelas
Em mistura de funk, samba, bachiana e carnaval!
Para que eu toque então, para ti, Rio de Janeiro
Uma canção de amor
No Theatro Municipal!

Rio de Janeiro, março de 2015.
Escrita para concerto da orquestra Johann Sebastian Rio no dia 17 de maio de 2015, com performance de Márcio Sanchez sob o Prelúdio da Bachiana Brasileira nº 4, de Villa-Lobos.