ninho

minha casa está aberta para o mundo
mas não deveria sempre ser assim!?
porque a casa está na terra,
mas tem portas e janelas
minha casa tem memória e saudade
uma parede vermelha
uma  parede amarela
tanta gente e tantos lugares
minha casa tem presente
e um futuro esplendoroso
tem apenas eu nesta hora
mas estão todos aqui
amigos, amores, família
filmes, discos e livros
tudo aquilo que ou nos amarra
ou nos liberta
prefiro abrir as gaiolas
pássaros só os que vem de fora
minha casa tem cerveja e gengibre na geladeira
chá de hortelã e pé de alecrim
tem suco de caju e de uva
vinho que não se dispensa
tapete colorido e insanidade boa
agora minha janela leva meus sonhos por aí
tem bandeira de oração
presente de coração
a minha casa tem sofá pra meditar
bicicleta dobrada na sala
pertinho da porta
pronta pra sair
tem xilogravura
livro de arte
guarda-chuva
Mondrian
tem fotos
incenso, Buda, artesanato
almofada, flor e cacto
e tem uma cama
grande pra sonhar
tem mesa pra juntar
cozinha pra celebrar o amor
“mas ela é uma casa, não é o mundo”
aí é que você se engana
um dia não haverá nada disso
e ainda assim haverá casa
não haverá móvel, fogão,
rádio, computador
a casa vai ser flutuante
mas será a mesma casa
reconfigurada
porque a casa mora aqui
dentro do peito
qualquer que seja ela
ainda que seja breve
pequena, sem “nada”
terá sempre alegria
saudade, memória
cheiro, paladar
os de sempre e os recentes
e tapete colorido
isso é imprescindível
a casa só é o mundo
quando o mundo é a casa
a casa deve ser uma janela sempre aberta
e uma porta que nunca totalmente se fecha

poesia de domingo

domingo é o dia do possível
quando a semana se renova
e a gente deve regá-la

é dia de calma,
de flor, de livro
tudo é mais fácil num domingo
e nos de sol…
ainda mais possível

domingo foi dia de luz
de almoço entre amigos
abraço apertado
saudade expressada
sem medo
um domingo enfim
com Caymmi e abará
histórias pra contar e rir
muitos discos pra encantar
jogos que inventamos
culinária lúdica
feita com amor

domingo, olha só
rima com lindo

gostosura esse viver assim
sem fim
sem tempo
sem nada que impeça a alegria
um domingo ao fim
de lua
essa amiga dos poetas
que brilha no mar e nina o coração

um domingo se vai
mas outros virão

rima simples assim

da música que ouço agora

esse comunicar das músicas

estranha telepatia
eu aqui, você aí
e de resto
o mundo todo vivendo
e girando sem fim
um dia vai explodir?
dor pra todo lado
corações despedaçados
neblina
o que você quer de mim?
ou melhor seria o que eu quero de você?
mas as cores ainda existem
e são muitas
as árvores continuam crescendo
(quando não são cortadas)
os coelhos procriam
os botos trepam por prazer
e as libélulas não cessam de voar
no ártico dizem que o efeito estufa
derrete os icebergs
mas ainda há gelo de sobra…
e lá do outro lado do mundo
algum mestre espera o seu discípulo
o tempo não pára
a vida corre feito um trem disparatado
é poesia pra todo lado
no mar então, nem se fala
aqueles barcos todos, se pudessem falar…
e vinho pra celebrar
é preciso celebrar
até mesmo a dor
é preciso celebrar
a espera
a derrota
o não saber
tudo é luz nesse mundo incerto
e certo é que a vida é feita de encontros
que feliz é esbarrar com o que não tem jeito
os encontros que foram, estão
os que virão
todos eles
potência desmedida
loucura querida que me afeta o peito
e o que vale mais que isso?
a vida
essa amiga um tanto calada
que às vezes não diz nada
e nem sempre aparece pro café
gosta mesmo é de pregar peças
melhor
é deixar a porta aberta

Rarefeito

Hoje eu me descobri
Aquela que paira na superfície
Que busca a satisfação imediata
E finge ser a rainha da paciência
Mentirosa
A terapia mais cruel e efetiva
É a solidão deliberada
Masoquismo em se descobrir o que é
Estou sufocada
Como o mergulhador que resolve descer ainda mais
Pra se afastar o máximo que pode da terra
E aí lhe resta uma escolha
Será mesmo escolha?
Ou ele se vai
Ou sobe e encara
Encara que não gosta da sua própria narrativa
E que não é esta que gostaria de contar
Por isso talvez ele se afaste…
Encara que essa narrativa foi mais construída por outros
Que por ele mesmo
E que a maior parte da sua vida lhe passou alheia
Mas então ele tem um deja vu
E se recorda dos momentos em que a vida, essa mesma,
Lhe deu a chance de ser o seu próprio desejo
Aqueles decisivos instantes
Assim, ele tem a certeza
Certeza de que é inconstância e movimento
Quando tudo o mais é raiz e permanência
E não sabe ainda construir o próprio mundo…
Ele cai
E se transforma em formiga
Porque o que ele queria era um barco e muitos portos
E não sempre o mesmo dia
Ele sabe dos seus medos e fraquezas
E quer se libertar
Pra descer no mar somente por prazer e não por fuga
Mas ainda falta estrada
E ele só se acalma com os seus parentes de alma
Ele sabe que é raso
E que tem medo do perene
Ele sabe que se engana dizendo ser feliz com seu trabalho
Ele cansou do excesso do intelecto
E quer corpo e mente integrados
Sem mais nem menos
Ele sabe que só é feliz nos momentos de encantamento
E que se não os vive morre devagar
Ele sabe que amor acontece de repente
E que ama tudo o que lhe toca tão profundo
Mesmo o que acabou de conhecer
Ou o que já conhece faz tempo
Mas o que fazer se nos cobram que sejamos fracos
Se cobramos tanto de nós mesmos?
Amiga pássaro,
Sabemos que precisamos voar e não o fazemos
Amigo filho do sol
Nossa jornada ayurvédica nos espera
Amigo oceano
Você tem razão
Está tudo errado.
Tudo!
O que fazemos então?
O ar rarefeito me tira a respiração

Poema herança 2

uma latinidade escorre de mim
antes que eu possa reagir
antes que eu possa desejar reagir
porque não quero fazê-lo
quando ouço essa guitarra
mas essa latinidade quer atravessar o oceano
ela, pacífica e atlântica
que ser também índica
– quando ouve a tabla enlouquecida da divindade –
e amar de perto os mestres
que, de longe, já são seus
ela quer sentir o cheiro das especiarias
lá de onde elas vêm
cortar o quase continente do sul tropical
ao gelo do seu norte
e realizar ásanas de luz sobre a montanha
provar sabores de incenso
sentir os cheiros das povoadas cidades
e do rio tão sagrado e abençoado
encontrar com Shiva em sua morada
e agradecê-lo
simplesmente agradecê-lo
saudar o sol de tanta história
de uma vida sofrida e miserável
que foi capaz de produzir budas
iluminados a nos ensinar que a vida só é dor
porque queremos que ela seja nossa
tem esta terra Sidhu a nos ensinar uma beleza
pra que sejamos fluxo
toquemos o tambor
e aticemos fogo para que o universo se refaça
na dança eterna daquele povo anterior
que amava a natureza
de uma iluminada Índia que resiste
que nos ensina que tudo é feito de amor
que só ele é capaz de tocar a dureza de suas castas
e incentivar a luta por algo mais que apenas o pão
mas pela alegria infinita de sermos todos divinos
filhos do Tantra
luz que irradia luz
a sonhar com as passagens abertas
por um deus elefante
que possa erguer em nossas rodas luminosas
lótus de mil pétalas
luzes resplandecentes de amor universal
prana ativado, canais em ebulição
evocando a união sagrada do corpo
Shiva e Shakti
me encontro em prece
sempre estive lá
Om Namah Shivaya
e parto em direção ao infinito em mim

Poema herança 1

uma música que me lembra o futuro
é esta que ouço agora
não menos carregada de genética
“céu da Mouraria, ouve…
vai chegar o dia novo!”
e me traz aquelas lembranças das mesas postas para o domingo
no gramado, ao lado das árvores,
onde se sentam todos os desejos ao sol
as crianças correm até brincar de cair no mar
do arquipélago distante de onde veio parte de mim
vem uma música cravejada do sonho dos mundos além-mar
lá onde nasceu o desbravador Sr. Vieira Cristo
para quem muito bem poderia ter sido escrito
que tudo vale a pena se a alma não é pequena
talvez sim, ele tenha sido homem de garra
que do mar não teve medo
e foi guiado pela mulher de profundos olhos castanhos e guerreiros
talvez deles tenha eu herdado essa vontade incontrolável
de ser capitã de um maestro dos mares
porque meu barco já tem nome, caro avô
e o sabor que sinto em minha boca
é de azeite fresco que escorre como se não tivesse fim
pedindo de acompanhamento o vinho que esquenta
os momentos de paixão
eu sei, esse violão, essa poesia
trazem toda aquela alegria molhada
de maresia corroendo o ferro
que me faz desejar ser aquele pirata
para quem a pátria é onde o vento passa
esse cheiro dos Açores
atravessou tantas gerações e veio reviver em mim
me fez tecelã de palavras de melancolia e amor
e do meu corpo a eterna casa daquela palavra…
a mais bela e triste que poderíamos
herdar de tanto sangue
saudade
sempre ela
que tão bem revela o que nasci para sentir
então eu, maruja
viajante solitária das estrelas
que só deseja tudo
e só espera viver no instante do entusiasmo
me curvo
ao fogo que arde e me leva longe
onde pássaros ainda desconhecidos fazem sua morada
nas ilhas de fogo
e nas calmas praias necessárias
todos esses lugares
todo o mundo
cheios, todos eles,
dela
a saudade

Julho

eis que julho se foi
esse mês imperador
em que meu ego césar se afirmou diante do meu corpo
eis que se foi o julho do suposto fim do mundo
e esse meio do fim despertou a ânsia do agora
mas atravessei a linha do meio
sobrevivi
eu que não me apego mais a santos
que vivo numa Roma pagã
anterior ao peso de carregar um nome-eternidade
minha revolução foi solar em excesso
brilhou dentro de mim tudo que era escuridão
fui abismo
oceano em revolta
quase tropecei
e vejam que aqui saturno retornou faz alguns anos
mas até hoje ele parecia estar completando seu ciclo
daqui a pouco terá chegado o ano temido
teremos viajado
teremos fracassado
teremos tido sucesso
teremos desejado feliz natal
teremos já brindado o fim do ano aguardando mais um carnaval por vir
e o que será de nós?
o que será do mundo que anda tão pequeno e é tão grande?
das pessoas do mundo que andam olhando para o chão?
o solo é para dar firmeza para olharmos para o céu e o horizonte
o que será de todos nós?
mas já não me contorço em querer saber
cheguei perto do tempo
ele me desafiou, me chamou pra batalha
eu fui, olhei nos olhos dele e disse: façamos as pazes
afinal, vc sempre será o meu primeiro companheiro
isso é perene até que se vá, definitivo
o que muda é o que é necessário
o que faz a roda da vida girar
uma carta para o dia: roda da fortuna
não poderia ter sido mais claro
e eu sorrio
o que está em cima
no outro dia está embaixo
fortuna imperatrix mundi
sorrio
e vou calma passear de bicicleta
comprar umas frutas e beber água de côco
ouvir Los Hermanos já sem medo do que revelam suas palavras
pegar aquele velho disco também
do que outrora foi a referência
aquele Radiohead que tanto era melancolia
hoje é a constatação de que a roda gira
então, eu ponho um samba e danço com o vento
convido Paulinho e afirmo com toda a certeza:
não sou eu quem me navega
quem me navega é o mar

prece

agradeço, vida,
pelo que pôde e o que não pôde ser
o excesso e a falta
o que simplesmente foi, é e será
e toda palavra que aqui ponho é pouca
para mostrar minha gratidão
porque tudo na vida é luz!
é preciso que se abram os corações
é preciso sempre não deixar pra amanhã o que se sente hoje
porque amanhã será diferente
e ignorar será um câncer e uma promessa,
isso de que não deveríamos nos ocupar,
a promessa de um barco no cais que nunca sai pra navegar…
barcos foram projetados para a precisão da navegação,
e não do porto,
– esse é temporário -,
e para a indefinida trajetória quando vem a tempestade
porém, se calmo, o vento aponta para o leste, não brigue com ele
seja amigo que aceita o outro incondicionalmente
e se ele aponta pra todos os lados e quase te joga ao mar
seja pêndulo
aprenda com ele a flutuar e ir de um lado a outro
confunda-se nas tempestades
e elas passarão
e vc nem perceberá
e sorria
sempre
(re)concilie-se com si mesmo
na dor, na dúvida e na tristeza
na alegria extrema, nos dias de tesão e naqueles em que nada faz sentido
sorria porque o universo sorri
e porque cada um de nós é um universo particular
e uma energia potente do grande universo
que muda o curso da história
e faz revolução com um simples olhar
nossa luz irradia luz para o mundo!
sorria
e acredite
mas não seja tolo
se finja de bobo
e construa um mundo todo seu
a vida é mais do que nos fizeram acreditar
ela é o que quisermos
abra espaço para ela
levante
estique o corpo
saia correndo
abra a janela quando chover
deixe o sol tocar sua pele e fazê-la brilhar
viaje pra longe
permita que passe o ar
seja ar em movimento
crie vento
abra espaço
e refaça tudo de uma nova forma
se ficamos sentados no sofá a vida passa
e basta que pisquemos e uns bons anos já terão eliminado a força
então, abra espaço para a luz
para o novo
jogue fora daí de dentro o que não cabe
o que não serve
provoque a desordem
é ela que permite uma nova ordenação
permita-se
se jogue no vazio
se lance do alto da montanha
acredite…
tudo se encarrega de lhe fazer cair em algum lugar
não brigue com o tempo
ele é inevitável
faça bom uso dele
seja criativo
seja destemido
seja doce
seja intempestivo
se lance
e voe
voe
que não há nada mais belo que voar
eu, que tantas vezes sou amarrada por teias
só desejo o vôo livre
coisa mais bela
coisa mais querida
mais admirada
então, voemos!
e avoé!
sejamos pássaros libertos
todos nós
todo o universo

sendo

não queira me entender
não queiram, nenhum de vcs
perderão seus preciosos tempos
que deveria alimentar de amor seus corações
dizem por aí que meu nome é aventura
eu digo que é ansiedade e dúvida
nada me conforta mais que a certeza
ainda que ela dure um segundo
é por esses segundos de certeza que eu vivo
e por aqueles que consigo esticar para durarem mais
são eles que me movem
a arriscar viver o agora
por isso, não adjetive tão cedo
não queira dar explicações
a única explicação é que sou como vc
infinita, iluminada e cheia de deus
como qualquer ser humano
apenas desejando a alegria
que seja por um minuto
por uma noite, um dia
por uma daquelas eternidades momentâneas
que nos dão energia pra continuar a gargalhada
não queira me entender
é preciso aprender a só ser