Depois da conversão da noite

Espreguicei no silêncio,
A alma repleta de sábado.
Respirava fundo,
Sentia o cheiro de luz.
A madrugada, úmida,
Tinha som de marolas
E de grilos preguiçosos.
Lá, extasiada, fui convertida
À igreja do corpo
E das memórias perdidas.
Acharam-se, elas, numa lua escondida
Num céu de nuvens-bálsamo
Encoberto pela escuridão.
Cresci um tanto de centímetros
Nos sonhos.
Hoje, eles alcançam
O longe das planícies.
Atravessam montanhas,
Correm junto aos rios,
E se metem a querer ser o oceano.
Tão largos, sagrados e santos!
Vez em quando fingem ser coqueiros
E deixam suas folhas serenas balançarem
Como se fossem os cabelos de Deus.

Alonguei no horizonte.
Estava escuro.
Eu via tudo…
A alma repleta!

Planeta Mar

Quando me apresentaram a ti
Eu era uma criança
E tu já eras uma entidade:
Aquela que deveria nomear o planeta,
Planeta Mar.
Desde então,
Eu que nasci nas montanhas,
Te ouço chamar meu nome.
E tuas infinitas cores,
Conchas, ondas, corais,
E a vida marítima toda que se agita
Sobre ti e dentro, em tua musculatura azul,
São poesia que me levam a acreditar.
Basta que eu venha contigo falar
E luzes acendem, no centro de mim,
Aquele estranho sentimento desertoso:
Amar! Palavra que te contém,
Temor e céu,
Oceano meu.

Bahia
janeiro/2020

Poema para renascer

Foi antes da madrugada da vida
Que ficou a minha luminosidade
E as borboletas se tornaram sombras
Por muito longo e tortuoso tempo
Voando ao redor dos segredos

Mas no agora o sol reluz
Como nasce atrás das montanhas
Na plenitude dos dias azuis
E se põe no mar aos olhos
Estupefatos dos adoradores do verão

Só no agora, neste instante presente,
No qual o passado nada mais é
Que o que ficou rabiscado num livro solene
Para ser estudado quando convier,
E o futuro, apenas a promessa da luz,
É que vive a pulsação mais quente

Como guelra de peixe, ovo de lagarto,
Asas de pássaro e cio de fêmea.
O meu!

Neste instante: o presente.
Em que me jogo vendada nos braços da vida
Com coragem, veemência e sorte
Como quem se lança de uma pedra no meio do mar
Imitando as aves em seus voos certos,
A seguir um corpo pleno da paixão pela vida,
Apenas porque segui-lo é encontrar a mim mesma.
Renascida!

Revisitei a madrugada
E com ela conversei longamente.
Ao abrir o baú das estradas dolorosas
Lá eu encontrei a verdade:
Eu era a menina de sempre,
A que sonhava e remava longos mares.
A pus no colo e a embalei
E, assim, as sombras voltaram
A ser borboletas, como nos ciclos do planeta,
E meu coração se encheu de paz novamente,
Uma janela aberta para o sempre.

Revelação

Escrevo poesia quando menos espero
No aguardo da poesia mesma
Ou flertando com aquela
Que brota do concreto
Todo o tempo ela assopra no meu ouvido:
vai, Vanessa, me revela!
E as palavras me saem
Como vazamento
No bueiro da calçada
Invadindo a arquitetura
E toda a forma muito bem estruturada
Suja, bela, inesperada
Palavra amorfa que se amolda
Ao que transborda
Nessa hora eu poderia ser qualquer coisa
Chão, parede, janela
Qualquer densidade com cheiro de musgo
Todas as vigas e varas do teto
Para saber como é ser permanente
E preparada com cimento para o acaso
Porque a poesia me ensinou
Que ser humano se prepara mesmo
É no despreparo

Diante do concreto

Disponíveis antes que a força bruta
Desmantelasse os ossos de tempos sofridos
Estávamos, eu e tu, diante do concreto
O relógio marcava 23 horas
Chovia fino, havia silêncio, fazia calor
Teus olhos quase claros e gestos singulares
Não davam margem para dúvidas
E eu permanecia sentada observando,
Como se a qualquer momento o mundo
Fosse entrar em guerra
E seríamos os dois, em duvidosa moral,
carregados a um campo de extermínio ou trabalhos forçados
Numa Gulag imprevista de um mundo
Pós-democrático
Perseguidos pela Gestapo das almas perdidas
Antes fosse história, ópera, burlesco
E, na madrugada, pudéssemos apenas
Ouvir com deleite o silêncio e os grilos
Você, a fumar seu cigarro olhando pro nada
E eu, a escrever meu livro, mais umas páginas
Antes fosse apenas filosofia
E um muro não separasse as fomes
E um oceano não se transformasse em máquina de guerra
O que virá não sabemos
Sequer sabemos o que queremos
Você anda perdido de tão encontrado
Amante de tudo nas sacadas de todos
Peito aberto até pra um holocausto
E eu devorada por palavras a todo instante
Não sei o que incita a fome de sentido metafísico
Se leitura de Proust ou Cícero
O mundo é um lugar cheio de abismos
Saibamos o som e a fúria
De nosso pranto e riso
A fortuna virá nos revelar o caminho!

Nós, os egoístas

Ah! Como são tantos a falar
Dos geminianos sem coração
Que se importam, mas não tanto
Esses de alma torta
Que mudam de casa
Mais que de sapato
E começam e começam
A deixar os fins para os outros
Ou nas palavras rabiscadas em cadernos
– Porque não há fim
Tanto quanto só há fim –
Nós, os obscuros
Estudantes dos astros
Para quem a vida é uma teia de mistérios
Da qual só sabemos existir
Pela consciência e nada mais
Pois nada nos obriga
A ter teorias sobre as coisas
Nós, os de sangue insular
Que sentem apertar ao peito
Os maquinismos
Os paquetes
Os marinheiros
Os que constroem estradas
No mar sem fim visto das esplanadas
E nos telhados de Lisboa
Ou de uma terra estrangeira
A minha, mais que a tua
E no sentir tudo de todas as maneiras
Ao íntimo, o gelo do nosso coração
É uma casca fina
De quem sente fingindo
E finge que sente
Gostamos mesmo é do drama
Como o meu em derramar lágrimas
À tua cômoda
Que graça tem a realidade
Da gente que segue os protocolos
E dá à luz o esperado?
Nós, os ridículos e solitários
Escrevemos tantas cartas de amor
Só pelo gosto de escrevê-las
Foi tanto assim o nosso amor?
Ou foi o nosso nervo fingidor?
Basta! Nascemos poeta
Deve ter algum sentido nisto
Que seja termos que criar algum
Caso a providência não saiba
O que fazer com isso
De toda forma, a ti ficou o gênio
Quanto a mim, só o tempo

Lisboa, 03 de fevereiro de 2018

Humanos

No insondável, habitamos
Sólidos, planetários
Trajamos corpos limítrofes
Com almas imortais
Já nos havíamos encontrado
Quando, onde, que importa
Quanto tempo tem uma vida?
Quantas vidas cabem na aorta?
Estamos no agora
E carregamos naves insanas
No meio do peito
Que polidas no viver
Invadem a massa cinzenta
De nossa arrogância
E observam, elas, a maravilhosa
Perfeição da impertinência
De sermos, tão somente, humanos
Carnes que se querem e apodrecem
Mas almas que vieram espelhar-se
Para fazer da vida uma obra de arte
Infinitos, até quando
Residimos nos abismos
Líquidos, como a água do rio
Que se funde no oceano divino
No silêncio, habitamos
Etéreos, terráqueos
E a cada morte
Renascemos extáticos
Um só campo, trágicos
Estrelas de uma constelação
Imperfeita, somos mágicos
No cosmos, amamos
E amar é desaprender

Depois das ruínas

Sobre adentrar recônditos escuros,
Espera-me, amor,
Que as ruínas são nossas
Para compartilharmos
Da sede da reconstrução.

Há um gosto amargo
Lançado ao chão?
Eu só vejo luminância
Neste castelo repleto
De teias de aranha.

Cada pedaço de madeira
Que despenca na dormência
Dos nossos corações
É o fogo-fátuo que nos desperta
De uma sombria hipnose.

Faz-se um clarão ao longe,
No subterrâneo,
E há sempre um corpo que jaz
Submerso aos pedaços de ferro.

Mas a luz observa à espreita.
As ruínas oferecem redenção.
Aprecio-as porque desbancam vaidades.

Espera-me, amor!
Vamos recriar a liberdade!

Se há cansaço

Se há cansaço
E uma vez vivo, haverá
Há também a casa
Pedaço imenso de conforto
Singular
Que descansa
O que a lida cansa
E nos convida a recuar

Nessas horas pesarosas
Pouca coisa importa
O essencial se porta
Horizonte em nobre cena
Sob as folhas que balançam
Plenas de sua fotossíntese
Ao céu estrelado
Fragmento do óbvio
Que atrai o homo sapiens
Desde o seu primeiro espasmo

E o silêncio inquebrantável
Do abraço que se ama
Confortável
Ruídos de grilo
Ecoando na montanha
Café e cama

Um vinhedo antigo
Lembra que o tempo
É o rei soberano
Se há cansaço
E uma vez vivo, haverá
Há também um oceano
De calma e certeza
De onde é preciso estar

Babel

Minha missão
É “incorrer em tautologias”
Nasci errada
Uso mantras diariamente
Por necessidade e prazer
Não sei olhar no espelho
Que não seja para ver as rugas
Que escalam os fossos do cérebro
O azul me enerva
Posto que é cor que não se soube
Por muito tempo
Se uso óculos
Não é para melhorar a visão
Toda a gente já nasce enxergando
Mas esquece
Minhas mãos não me entregam verdades
Meu rosto menos ainda
Tudo o que sei
Coloco em palavras
E elas não são
Absolutamente nada
Para ver de fato
É preciso abandonar
A seriedade
Gosto de descascar as sombras…

Catedral

Há tempos atrás
Sonhei para nós dois
Uma gótica catedral
De pedras firmes
E torres bem altas
Para delirarmos
A ilusão da eternidade

Mas ervas daninhas
Proliferaram  nas cabeças
Dos gárgulas
E no fim dos tempos
O que restou
Foi nada

Até nos esbarrarmos
Na velha cidade
Sob o leito
Da madrugada

Apenas de poesia

Se eu pudesse
Viveria só de poesia
Encarnada na beleza
E na crueldade do sutil
Largaria os delírios errados
As planilhas sem vida
Os contratos que amarram
A burocracia construída

Pois amanheci desejando mergulhar
No que revelam aqueles olhos
Foi por pouco que não te disse,
Não sei bem de que maneira,
Que devias ser meu, por que não

Amanheci querendo o brilho dos girassóis
Dos quadros de Van Gogh na minha janela
E quando eu olhasse a vida lá fora
Não veria apenas os carros que passam

Amanheci querendo mais a prosa de ontem
O riso amigo talhado em reencontros criativos
O prosecco providencial de uma noite sem fim
Poética dos tempos sem tempo da paixão

Amanheci querendo diluir minha alma
No andantino da quarta de Tchaikovsky
Ainda que o russo não rime com o português

Mas amanheci e já tocava o telefone
E me lembrei da moral
E já era tarde para o capital
Pois que lugar pode ter a poesia no tempo do trabalho
Pois que lugar pode ter a poesia no tempo das convenções
Pois que lugar pode ter a poesia no suco verde da manhã

Se eu pudesse
(e poderei!)
Viveria – e morreria a cada dia –
Apenas de poesia