Depois da conversão da noite

Espreguicei no silêncio,A alma repleta de sábado.Respirava fundo,Sentia o cheiro de luz.A madrugada, úmida,Tinha som de marolasE de grilos preguiçosos.Lá, extasiada, fui convertidaÀ igreja do corpoE das memórias perdidas.Acharam-se, elas, numa lua escondidaNum céu de nuvens-bálsamoEncoberto pela escuridão.Cresci um tanto de centímetrosNos sonhos.Hoje, eles alcançamO longe das planícies.Atravessam montanhas,Correm junto aos rios,E se metem aContinuar lendo “Depois da conversão da noite”

Planeta Mar

Quando me apresentaram a tiEu era uma criançaE tu já eras uma entidade:Aquela que deveria nomear o planeta,Planeta Mar.Desde então,Eu que nasci nas montanhas,Te ouço chamar meu nome.E tuas infinitas cores,Conchas, ondas, corais,E a vida marítima toda que se agitaSobre ti e dentro, em tua musculatura azul,São poesia que me levam a acreditar.Basta que euContinuar lendo “Planeta Mar”

Poema para renascer

Foi antes da madrugada da vidaQue ficou a minha luminosidadeE as borboletas se tornaram sombrasPor muito longo e tortuoso tempoVoando ao redor dos segredos Mas no agora o sol reluzComo nasce atrás das montanhasNa plenitude dos dias azuisE se põe no mar aos olhosEstupefatos dos adoradores do verão Só no agora, neste instante presente,No qualContinuar lendo “Poema para renascer”

Revelação

Escrevo poesia quando menos esperoNo aguardo da poesia mesmaOu flertando com aquelaQue brota do concretoTodo o tempo ela assopra no meu ouvido:vai, Vanessa, me revela!E as palavras me saemComo vazamentoNo bueiro da calçadaInvadindo a arquiteturaE toda a forma muito bem estruturadaSuja, bela, inesperadaPalavra amorfa que se amoldaAo que transbordaNessa hora eu poderia ser qualquer coisaChão,Continuar lendo “Revelação”

Diante do concreto

Disponíveis antes que a força brutaDesmantelasse os ossos de tempos sofridosEstávamos, eu e tu, diante do concretoO relógio marcava 23 horasChovia fino, havia silêncio, fazia calorTeus olhos quase claros e gestos singularesNão davam margem para dúvidasE eu permanecia sentada observando,Como se a qualquer momento o mundoFosse entrar em guerraE seríamos os dois, em duvidosa moral,carregadosContinuar lendo “Diante do concreto”

Nós, os egoístas

Ah! Como são tantos a falarDos geminianos sem coraçãoQue se importam, mas não tantoEsses de alma tortaQue mudam de casaMais que de sapatoE começam e começamA deixar os fins para os outrosOu nas palavras rabiscadas em cadernos– Porque não há fimTanto quanto só há fim –Nós, os obscurosEstudantes dos astrosPara quem a vida é umaContinuar lendo “Nós, os egoístas”

Humanos

No insondável, habitamosSólidos, planetáriosTrajamos corpos limítrofesCom almas imortaisJá nos havíamos encontradoQuando, onde, que importaQuanto tempo tem uma vida?Quantas vidas cabem na aorta?Estamos no agoraE carregamos naves insanasNo meio do peitoQue polidas no viverInvadem a massa cinzentaDe nossa arrogânciaE observam, elas, a maravilhosaPerfeição da impertinênciaDe sermos, tão somente, humanosCarnes que se querem e apodrecemMas almas queContinuar lendo “Humanos”

Depois das ruínas

Sobre adentrar recônditos escuros,Espera-me, amor,Que as ruínas são nossasPara compartilharmosDa sede da reconstrução. Há um gosto amargoLançado ao chão?Eu só vejo luminânciaNeste castelo repletoDe teias de aranha. Cada pedaço de madeiraQue despenca na dormênciaDos nossos coraçõesÉ o fogo-fátuo que nos despertaDe uma sombria hipnose. Faz-se um clarão ao longe,No subterrâneo,E há sempre um corpo queContinuar lendo “Depois das ruínas”

Se há cansaço

Se há cansaçoE uma vez vivo, haveráHá também a casaPedaço imenso de confortoSingularQue descansaO que a lida cansaE nos convida a recuar Nessas horas pesarosasPouca coisa importaO essencial se portaHorizonte em nobre cenaSob as folhas que balançamPlenas de sua fotossínteseAo céu estreladoFragmento do óbvioQue atrai o homo sapiensDesde o seu primeiro espasmo E o silêncioContinuar lendo “Se há cansaço”

Babel

Minha missãoÉ “incorrer em tautologias”Nasci erradaUso mantras diariamentePor necessidade e prazerNão sei olhar no espelhoQue não seja para ver as rugasQue escalam os fossos do cérebroO azul me enervaPosto que é cor que não se soubePor muito tempoSe uso óculosNão é para melhorar a visãoToda a gente já nasce enxergandoMas esqueceMinhas mãos não me entregamContinuar lendo “Babel”

Catedral

Há tempos atrásSonhei para nós doisUma gótica catedralDe pedras firmesE torres bem altasPara delirarmosA ilusão da eternidade Mas ervas daninhasProliferaram  nas cabeçasDos gárgulasE no fim dos temposO que restouFoi nada Até nos esbarrarmosNa velha cidadeSob o leitoDa madrugada VanessaeVanessa

Apenas de poesia

Se eu pudesseViveria só de poesiaEncarnada na belezaE na crueldade do sutilLargaria os delírios erradosAs planilhas sem vidaOs contratos que amarramA burocracia construída Pois amanheci desejando mergulharNo que revelam aqueles olhosFoi por pouco que não te disse,Não sei bem de que maneira,Que devias ser meu, por que não Amanheci querendo o brilho dos girassóisDos quadrosContinuar lendo “Apenas de poesia”