era danada essa tal de Hilda,
que roubou meus versos numa ode
descontínua e remota para flauta e oboé
de Ariana para Dionísio:
decreto, com ela, o reino do impossível!
e, junto a Piaf, no jardim da boemia, o reino do incorreto:
somente a beleza, um bom vinho e o sexo!
decreto, diante de seus versos, o reino da sorte:
munida de um cigarro para espantar o medo da morte.
e, assim, decreto hoje também, o reino do improvável
e do trompete rasgado das love songs de Miles.
feliz, ao decretar o reino do cansaço
de todo academicismo reacionário!
e o que digo é, obviamente, óbvio
e nem um pouco novo:
é preciso decretar o reino do corpo!
Blog
Silêncio
dei-me o desafio do silêncio!
a partir de agora, tenho comigo
uma nova forma de respirar as horas.
mas não para negar a palavra.
sou justa!
ou negaria meu corpo.
mas para deixar que,
a partir de hoje,
e por tempo indeterminado,
fale mais o sentimento.
para que ele não se dilua
na voracidade do verbo
e a política se faça nos meus gestos.
dei-me o desafio do silêncio
para construir uma obra.
e para que a palavra possa
calmamente lapidada,
e, com o tempo, condizente,
encontrar, enfim,
a sua forma mais reluzente!
O poeta é um inventor
escrever é criar o que ainda não existe
quando algo se torna verbo
ganha status de concreto
e o poeta?
o poeta é um inventor:
exagera!
Prosa de um querer
Brevidade
O amor do lobo e do cordeiro
um lobo sempre reconhece outro lobo
pelo faro, pelo olho no olho
um lobo sabe que encontrou um outro lobo
quando sente no outro – como um calafrio –
a carne e os ossos de um grande desafio
o da própria existência
quando vê nele a mesma solidão – necessária –
e a liberdade rara de saber que a vida transcorre
em ciclos de início e de morte
que nutrem o amor infinito
que carregam em sua sorte
mas um lobo enfraquecido,
levado para longe de seu alimento,
pode enganar-se por inteiro
e ver um lobo quando encontra um cordeiro
um cordeiro também
sempre reconhece outro cordeiro
nasceram para o rebanho
e do rebanho jamais sairão
regozijam-se nele
e, felizes, mantêm fechados e nada atentos
seus pequenos olhos remelentos
todo cordeiro tem vocação para ditador
não suporta como os lobos se fortalecem de sua própria dor
nem sua calma solidão na estepe
nem como correm juntos como se corressem livres
e abafam com sorrisos falsos
toda a inveja dos olhos abertos das matilhas
mas crianças podem ser facilmente presas de cordeiros
quando enfraquecidas
um cordeiro parece saber muito bem
como enganar um lobo esfomeado de primeira
– parecendo também um lobo –
pois cordeiros são excelentes mentirosos
tanto mentem a si mesmos
e, por isso, é que podemos ver por aí
tantos lobos em peles de cordeiros
esfomeados, alimentam-se da comida alheia
e acabam por acreditar que também
nasceram cordeiros e estão presos em teias
ensinou-nos, a história,
que todo lobo é mau
e, de tanto ser ferido por cordeiros invejosos,
podem vir, os lobos, a acreditar
em tais degredos jocosos
mas lá no seu íntimo,
bem lá onde cordeiro nenhum chega,
sempre há o uivo derradeiro
um dia, mesmo alimentado por cordeiro,
o lobo sente o chamado da lua
e para ela uiva em reencontro a sua morada
um lobo sempre reconhece outro lobo
mesmo quando em pele de cordeiro
é assim que, movido por amor,
pacientemente,
desenreda cada fio da falsa pele
no outro e, em si mesmo, sobreposta
e, de olhos bem abertos,
sem medo das mandíbulas que se lhe apresentarão
desnuda o corpo de quatro patas
e põe-se a correr na estepe
a celebrar a madrugada
da qual o cordeiro, cheio de medo,
e por não ver a beleza do grande segredo,
prefere se manter distante,
dançando no estábulo, quadrado,
a dança regrada que lhe foi ensinada
é por isso que lobos e cordeiros
jamais podem ser amantes verdadeiros
mesmo quando o cordeiro assim insiste
e faz de tudo para que o lobo acredite
quando o lobo consegue alimentar-se
e, novamente, faz-se forte,
sua natureza torna insuportável
viver a vida sem encarar de frente a morte
só a morte dá origem ao amor
e só pode haver amor quando se encara o horror
é preciso a cada lobo,
matar em si, o cordeiro que camufla o necessário tremor
Gosto de Manjericão
Conto de 2007, que está publicado em meu primeiro livro, Novelo. Em 2011, o revi retornando à sua maior inspiração: Nietzsche.
outono
minha?
talvez, da vaidade
mas um outono de abandono e amor
por uma rima que não pode ser falada
Saga da autoreferência
broto como flor de cacto
hoje nasço de um mandacaru
planta forte
carregada de espinhos
eu floresço sonhos
concretude
plena sorte
de ser quem sou
mas foi preciso muito
foi preciso que esse espinho
cravasse no meu peito
a tua seiva
e derramasse nela
um ideal fugaz de vida
para que eu pudesse
construir minha fortaleza
devaneio…
mas meu muro
não é muralha
e tem tantas portas
quanto luzes acesas
passei por muitas estradas
naquela juventude já perdida
vi tantos se perderem
para nunca mais voltarem
eu definhei meu corpo novo
em copos e garrafas
vi o êxtase tomar os seres
aquela alegria que se tornaria mágoa
e vi uma dessas alegrias
se tornando pó
até desaparecer
morta
deixando frutos
mas levando sua juventude embora
magra, sofrida
e quão cheio de doçura ele era…
mas teve que partir
carregado pelas pedras
e então, eu ouvi um não
que jamais esqueci
nunca um não me fez tão feliz
e me libertou para que eu me descobrisse
liberta
já faz tanto tempo
eu fui atriz
e me apaixonei
sempre me apaixono
sou flor
que pega fácil
não precisa de muita luz
mas é necessária uma boa rega
e me lembro dos lugares onde fui
eu que andei nômade desde sempre
até hoje, só sei me definir
pelo movimento
nunca soube o que é ter raiz
embora uma terra me pertença
porque muito por lá passei
terra do império
de cheiro do musgo
o frio, a neblina
aquilo me define
também, ainda
poesia que vem de dentro
do meu silêncio
de quem nasceu na serra
e aguardava, criança,
as luzes de natal
e me defino também
carnaval
tio boêmio
mãe baladeira
avó carnavalesca
que fazia festa no quintal
atores, artistas de circo
histórias a dar com o pau
primos
música
irmãs
muita gente, muita fala
mulheres
mulher e família
sinônimos em meu universo
tantas
elas construíram, dia a dia
minha história
e, assim, fui seguindo
eu com eles
eu sem eles
sempre perto
sempre distante
“vanessa?
a gente até esquece dela”…
“não, não sei cadê vanessa”
estava eu, submersa
na água
no livro
no desenho
havia um mundo que era só meu
e nele havia sempre música
cá está ele,
ainda comigo,
e carrega as histórias todas daquela gente
que carrega parte do meu coração
e tenho uma avó com muito para contar agora
e mãe e pai que se preocupam
porque nunca sabem onde estarei na próxima hora
tive um avô
que me ensinou a desenhar
eu gosto mesmo é de fluir
sem rumo
com rumo
ir
tenho irmãs com quem compartilho
uma experiência de amor profundo
e não há nada mais profundo
que amar o que é tão diferente de você
e primos
muitos
histórias diversas
cantávamos juntos
brincávamos
torci a perna
e lembro do cheiro de mato
sempre que uma leve chuva cai
no rio de janeiro
eu me lembro aquela bruma poética
da chuva da serra
o cheiro de terra
eu roubando laranjinhas na fábrica caseira
correndo pela rua quando o tempo
era o tempo longo da brincadeira
há tanto que carrego comigo
e vem, vez em quando,
um certo desespero
de, de repente,
ver que o tempo passa
e já se passou
tanta vida em mim
mas, alguém que gosto tanto,
eu mesma, hoje sou
depois de tanto
sofri,
chorei
perdi
ganhei
o clássico
da vida de todo mundo
tive poucos grandes amores
e quis tanto todos eles
hoje, sei que amar
é essa delícia que vem
e vai
e pode ser, quem sabe,
um dia fique
é o que deseja hoje
minha estirpe
eu
que talvez tenha filhos
ou não
eu que navegarei
tive grandes amores
e os amei
tive grandes paixões
e quase morri
tive amigos
vários ao andar por aí
tenho grandes amigos
e grandes amigos
também são grandes amores
com eles eu posso ser
delírio
alguns antigos
outros chegaram agora
e já são festa no meu ser
fazem cada medida da vida
valer acordar todos os dias
transformando medidas
em desmedidas
como cada tudo que amo
eu que amo tudo nessa vida
e o mar, este amor que é eterno
com quem jamais me desentendi
fui lançada em correntezas
levada
mas sabia eu que o mar
era imprevisível
por isso o amor veio
eu e o mar somos um
inteiros
amo o que me arrasta
amo tudo que lhe diz respeito
porque não posso conceber
a vida como qualquer coisa óbvia
como se concebe por aí
a vida é tão cheia de possíveis
que posso fazer dela poesia
a toda hora
eu crio a vida
ficções
arrisco
eu mostro tudo que escrevo
eu digo o que sinto
eu concebo
eu falo em palestras
poesia
dou aula como se fizesse festa
não existe seriedade que
me faça
esquecer o que sou
não existe medo
que bloqueie o meu desejo
O amor em tempos de metamorfose
que solidão maior pode haver
que a do sentimento imponderável
cujas palavras tentam dizer
e se atrapalham
cujo olhar talvez diga
mas não tenha tanto tempo
cujo sorriso e suor revelam
mas cujo silêncio é necessário
que solidão maior a de um sentimento
que é, ao mesmo tempo,
desejo de pele e um respeito que o preze
admiração, cuidado, distância
tesão, desmedida do afeto, errância
capaz do mais profundo entendimento
e até do esquecimento – para renovar-se
à luz do qual eu seria capaz
de loucuras desvairadas
como me deixar solta ao vento
para ser carregada por tais mãos
que me arrepiam
e os olhos que me saltam com brio
solidão do corpo na madrugada, assustado
acordado por sonhos sucessivos
em noites alternadas
por mãos, janelas, quartos
no escuro que revela
as vozes que escuto não sei de onde
as visões que chegam sem bater na porta
saltando em minha aorta a respiração pesada
da certeza de algo que me revela mais
do que a estrada passada
um sentimento que não basta ser doado
que, cheio de si e de sutis e longas doses,
me torna incapaz de compreensão
nestes tempos de metamorfose
é tão meu este império de sentidos inexatos
que de fato, guardo em mim, o seu cenário mais delirante
amar é mesmo um deserto
mas há que se resguardar do sol escaldante
