Viver é bom nas curvas da estrada…

A solidão é uma puta velha
Ela chega cheia de ressentimento
Vai contando aquelas histórias mais bizarras
A gente se sente meio constrangido porque ela não tem papas na língua
Fala das dores passadas, das vezes que não queria
Ela gostaria de se vingar
Mas percebe que não há vingança possível
A quem? Ela se pergunta
E começa a contar outras histórias
Talvez elas nunca tenham existido
Mas se não existiram, não são menos reais
Só sei que de ressentidas não têm nada
E são uma celebração da vida, daquela forma mais inusitada
Diferente do comum, daquele comum que criamos como couraças
E o ressentimento vai ficando para trás quando se esquece
Ela vai esquecendo e vai tecendo o novo
Ela vai dizendo da montanha que escalou, do país que conheceu
Do homem que amou, das loucuras que cometeu
Se é verdade não importa,
Já produziu em mim uma alegria torta de viver
Tudo aquilo que posso fazer, todo o mundo inteiro pra sentir
E depois de contar todas as histórias, a puta velha se vai
Um tanto cansada, um tanto maravilhada
E eu fico, um tanto cansada, um tanto maravilhada…

sobre o amor

eu amo o que amo e quem amo
e isso é o que tenho para lutar!
e tudo e todos que amo
amo porque existem e nada mais
não os quero para mim
quero que queiram o mundo
amo o mundo porque antes de mim
ele já aqui estava,
e depois que eu me for
ele permanecerá
amo amar porque isso é viver
e viver é estar em movimento
amo o movimento
e me consolo ao saber que os dias
se alternam com as noites
todos os dias
amo porque amo
e é isso que tenho para lutar!

eu, o que é

“sou uma sombra, venho de outras eras”
“pirata sempre rouba alguma coisa”, me disse uma amiga querida
e completou: “vc é pirata que rouba corações”
não sou humilde
mas não confunda alhos com bugalhos…
observadora na grande máquina do mundo
lançadora de projéteis, os quais pretendo que alcancem longas distâncias
frágil ser que se encanta e manda o medo se jogar da prancha do navio
gente que faz…
e desfaz!
shiva nataraja?
para mim “a melhor maneira de viajar é sentir
sentir tudo de todas as maneiras”
“gosto de uivar no vento com os mastros
e de me abrir na brisa com as velas
e há momentos que são quase esquecimento
numa doçura imensa de regresso…
a minha pátria é onde o vento passa”
definitivamente amo…
você, o mar, a música, o tempo, as cores
definitivamente odeio…
mas não quero perder tempo com isso
“uma parte de mim é todo mundo
outra parte é ninguém: fundo sem fundo”
sou o que se conserva e o que morre súbito
nascida sob o signo duplo e que ascende fogo
meu mapa é carregado de muita terra…
e é por isso que um dia, com um chapéu e uma maleta
me mando para o mundo num veleiro, guiada pelas estrelas
leio, escrevo, canto, meu critério é a paixão…
embora evite me apaixonar pelo poder
bem como suscitar em mim um general
meu corpo é símbolo e sangue
tem desenhos e sua desesperadamente
meu mundo tem cores de oceano e selva,
vento de tempestade e maresia
tem cheiro de nostalgia e presente
gosto de vinho, manjericão e baunilha
tem som de pássaro, água de nascente, batuque da áfrica
tem música flamenca, lamento de fado e grito de rock´n roll
tem labrador, tartaruga que viaja e pinguim imperador
tem frio e calor, nem só um nem só outro
e tem amor… de índio, de bicho, de planta, de planeta!
é repleto das pessoas mais lindas que eu poderia conhecer!!!
e com isso me alegro e me pergunto sempre: por quê?
também assim, é um mundo solitário
como é a solidão melancólica do faroleiro…
se acho que tudo isso parece só poesia?
não, é vida.. atenta, sentida, como deve ser

desabafo

viver pairando sobre as brisas
para depois lançar-me novamente
pudera eu ser brisa
e toda a vida pareceria mais leve
mas eu sinto até os interfones quando tocam
e as britadeiras espalhadas por todas as cidades
que hoje já são grandes até mesmo sem sê-las
e que agonizam em obras sem fim
quero ser poeta do meu tempo
mas não sei até onde isso é possível
recolho as folhas e os gravetos de outono
para que não perca de vista minha alegria de mudanças
porque elas doem
e eu sinto doer cada pedaço do mundo
as agonias, a força vencida pela arma
os peixes, as tartarugas, e tudo o que sofre no mar
tão invadido de garrafas
carregadas de uma mensagem que preferia não ler
sinto a dor de cada árvore derrubada,
cada planta impedida de crescer,
cada inseto que se esquiva no concreto
e por tudo o que é grande
porque é difícil desejar a grandeza em terra de ovelhas
e é por isso que eu amo as putas que querem ser putas
os vagabundos por opção
as chuvas e as trovoadas
navios, aviões, grandes máquinas
eu não concebo presente sem passado e sem futuro
o tempo não é linear, nem o passado e o futuro
são menos reais que o presente
e por isso vivo por aí uma solidão errante
sem curtir as baladas sociais
ou as reuniões em torno de cadáveres
onde não se diz nada e só se esquece que se vive
quero sempre sair por aí
mas não sei o quanto o meu querer
é suficiente para eu me jogar

celebremos!

só o desejo é definitivamente o que arrebata
um tesão doido de viver
e de enlouquecer a lucidez cotidiana do rebanho!

viva a diferença!

eu amo com o corpo
eu sinto com o pensamento
eu gozo com as palavras,
a lida, a dita, a cantada, a que escapa

eu transpiro com os risos

vivas a morte da moral!
eu desejo e isso não é nietzschiano.
isso é vida!

desejo uma doçura interminável,
mas apenas até onde esbarro no limiar do doce
e cedo lugar a pimenta de olhar nos olhos da vida e dizer:
foda-se!

em 22 de julho de 2009

série forças – a água

ela faz a vida ao abraçar o mundo todo
é a mais vermelha das coisas sem cor
imprevisível, porém certeira
colchão para chegar mais perto das estrelas
espelho do céu, fonte de poesia
colcha que guarda o inimaginável
uma vida que de tão profunda
nos chega apenas um sussurro
estrada para sonhadores, trabalhadores,
viajantes e horizontes
estrada perigosa
fúria que mantém a dança do universo
corpo que explode e esbraveja
e chega ondulado na terra…

série forças – a rocha

estou
eu, a meditar sob a rocha
ela, parte de mim
tolerante e paciente
a resistência do mundo
o que persiste no tempo e conta todas as histórias
aquela que guarda portões sagrados
e os mistérios das idades da Terra
sua fala é de anciã
rocha-mãe que abriga e acolhe
e endurece o que deve ser endurecido
casa para toda diversidade de seres
que dela se alimentam para o seu sono
pois ela nunca dorme
e diz mais quando tudo se aquieta e escurece