música nova

se eu fizesse uma música agora
teria, ela, cheiro de futuro
e uma única saudade

a que ainda está por vir

se eu fizesse uma música agora
seria calma, alta e misteriosa
e voaria sobre os Alpes

seria música nova
incabível no passado
solitária e silenciosa

e não haveria qualquer nota

como se o corpo reconhecesse
apenas pulso nesse instante

se eu fizesse uma música agora…

ela não seria minha,
do que ainda reconheço

mas de quem não sei quem sou

e criaria a própria música
como se fosse a música primeira
que criou a humanidade

se eu fizesse uma música agora
eu sequer saberia que era minha

ela teria cheiro de começo

e me revelaria
o estranhamento que hoje sou

se eu fizesse uma música agora
seria a própria música cósmica
a voz de Deus a ecoar sobre o vazio

e não apenas seria música nova
que nasceria rasgando, indisfarçável

ela seria, antes,
nesse momento doloroso e mágico,
intocável

através do espelho

maldito espelho
o outro
maldita palavra alheia
que me revela
e rasga minha veia
saturada de passado

a metamorfose não é bela

pode-se morrer nela
e se perder, para sempre,

lagarta no casulo

é doloroso fazer nascer um corpo novo
quando já se está tão conformado no existente

no entanto,
há êxtase em perceber onde se conforma
e já, deforma

maldito espelho que é o outro
maravilhoso
que me revela onde falho
tanto quanto onde encaixo

bendito espelho

cristalino

como música barroca
eleva o espírito
e me lança no abismo

maldito espelho
que revela minha fraqueza

bendito seja!

ativa espera

a palavra
me salva

me amarra
a palavra

aperta

o amor
desperta

busco a palavra certa
como busco o amor liberto

e é na sua agudeza
que me embebedo de beleza

como se casco de árvore eu fosse
e escorresse feito seiva doce

e derretesse, amálgama do objeto
e explodisse, expansão do incerto

a palavra pouca
o amor que é verbo

amor que se tem certo
mas parece não ter cumprido ainda
sua caminhada no deserto

ando tateando a procura do verso mais profundo…

e me desloco de encontro, em desejo

quem sabe esteja ele a minha frente
e ainda não vejo

pois sinto uma brisa…
mas não sei ao certo o que ela diz sobre a vida

sei que traz auroras
e me responde certas inquietudes do agora

e, assim, tateando,
talvez encontrem, minhas mãos,
em suave conflito, a textura do infinito

e a palavra certa!
tanto quanto o amor que liberta

como música exata, ou poesia,
que esperaria o tempo que fosse pra nascer
e nasceria

Poema alado

lanço flores
para ressaltar a beleza
das rotas dos encontros
e expressar a delicadeza necessária
em tempos cansados do planeta

lanço-as para dar leveza
a pesos desnecessários

a vida é foda
mas é fácil

e me pisca o olho de um deus
na cumplicidade de uma certeza:
o que vem do coração
jamais pode estar errado

o que se faz com amor
é sempre um poema alado

Poemas de aeroporto

Sexta, aeroporto Santos Dumont

então, fez-se luz!
e, logo depois, verbo!
e Deus criou o homem e a mulher.
e criou o paraíso, onde plantou sonhos, música e delírio.
e fez-se o tempo.
e homem e mulher passaram a ter razão para viver o paraíso ao máximo!
mas o homem inventou o trabalho…
Deus, refletindo o por quê daquele ato,
até achou que alguns trabalhos valiam a pena…
em tempo, não pensou duas vezes:
para ajudar homem e mulher, sendo camarada e gente fina,
eis que Deus criou, então, a cafeína!

o mundo,
esse ovo curioso e fecundo
a vida,
essa coisa doida varrida

no instante seguinte em que lanço a palavra,
dela já me desapego

não a nego

mas ela sai como escarro ou beijo
e assim, lançada no mundo,
de mim, torna-se apenas lampejo

a palavra só tem peso
se a quisermos desejo

o olho do universo

estou em prece
largada ao chão a contemplar o que não descrevo

apenas sinto

o chão é gelado
e meu amor é chama consistente

o olho do universo
ilumina minha varanda
observando meus movimentos
como se soubesse o que penso
e como se compartilhasse dos meus anseios
e, cúmplice, atestasse o meu desejo

sobre a minha bicicleta, a lua cheia,
que sabe que dela nunca me canso

o som de um solo de les paul me arrasta pra longe
e eu poderia chegar agora onde jamais estive antes

assim, tão carregada de futuro…

escrevo e o céu é de um negro profundo
que arrepia os sonhos mais bonitos

chega a doer no peito tamanha beleza
e meu silêncio é uma reza em agradecimento

pois a lua cheia no alto do céu
anuncia novos dias

anuncia um despertar

e as nuvens de cores camufladas
que circulam em torno dela
e logo atrás, a montanha, vista da janela
dizem do meu corpo a querer ser pássaro

queria eu, agora, estar lá perto
a olhar bem dentro do olho do universo

é fácil ser feliz
não é preciso nada além de saber pelo que se vive
e viver por isso que se sabe

a lua atesta

o negro profundo do céu celebra

tudo está aqui
nesta noite que amplia o meu coração

e me traz, em tempos tão exaustos,
uma leve e calma respiração…

poesia de família

os poemas dedicados à família!

do corpo uno
aos meus pais
vocês,
que me conceberam…
são também o meu corpo!
está no meu sangue o código 
que vem de gerações antigas
do homo sapiens
aos nossos patrícios
seu pereira e sr. vieira cristo
outros de nome desconhecido…
mas são vocês que estão na minha pele!
de que importa o sangue?
importa a relação viscosa 
do amor de pai e mãe
a torcida calorosa na arquibancada da vida
aquele beijo dado no saguão do aeroporto
enchendo de lágrima a despedida
tão “desnecessária” 
porque logo viria o retorno
aquele semblante de cansaço…
e eu chegava com o cheiro de álcool
aquela voz levantada com o medo
aquele frio na espinha quando chegou em mim
o desejo
e então, aquele olhar
aquele que revela uma galáxia 
de quem carrega o coração fora de si
ninguém será capaz de me dizer
que tal sensação valiosa é essa
que nos torna do outro, um só 
com nosso corpo
saberei um dia
quando o meu próprio carregar a vida
por ora, sou filha
por ora, recebo o abraço caloroso
e meu corpo sabe onde pode encontrar repouso
mãe-vó
para minha avó Ceny, atriz, dançarina e encantadora
era cedo na minha vida
eu descia as escadas te chamando, mãe-vó
queria tua comida,
teu sorriso, teu cafuné, 
queria tua queijadinha
e os biscoitos amanteigados de Petrópolis
era a tua festa a minha alegria
dos carnavais no quintal
e da hora de acender as luzes da árvore de Natal
o samba, a música que sempre emanou de ti
o quarteto de cordas que carregas dentro do corpo
e o teatro inteiro para lhe receber
ah, quando te vi naquele cartaz…
o vô tão jovem e galã pra te conquistar…
grande atriz, eu quis ser como ti!
e nunca me esqueci
todo o encanto de tantos anos lá na serra
sua voz ecoando pela casa imensa
aquela água gelada que me fazia chorar
e tu, rias, e dizias que ia passar…
depois fazias um chá
senhora que és dos mistérios das plantas
carregas neste corpo a própria divindade
de quem vai floresta adentro porque sabe
que por ela é protegida
carregas em ti, mãe-vó
essa certeza da vida, uma alegria, uma energia 
que me ensinou a tanto lutar pelo desejo
tu podes nem saber, mas me deixou este legado
o da luta
o da arte
o doce sabor da música
e a poesia…
como aquelas que escrevias nos teus cadernos de receita!

Karine aos 25
para Karine Rocha em 15 de novembro de 2012

você chegou sem pressa
e de surpresa
tinha a calma de quem
parecia saber
que viria para trazer
doçura

e fazer nascer uma canção
de encantamento
e conciliação

você cresceu iluminada
de cabelos cacheados
dourada

dona de um afeto absurdo
saiu por aí distribuindo beijos
carinhos, afagos que
nunca
poderiam
ser negados

mas é hoje, ainda,
uma criança
porque na sua beleza
de se tornar gente grande
guardou aquele olhar
curioso, de quem sabe
que o mundo
ainda tem muito
pra dar

sensibilidade da água
encarnada num escorpião
pura carne do coração

você só cresce
e é grande de alma
é força tamanha
de ser amor-mundo
como se quisesse abraçar
todo esse mundo

é essa energia
em ser
amor
e mais nada

porque amor
é tudo

Karine aos 25
é mística
misticismo concreto
de ser pura magia

amor-mago
que conquista
e arrasta
para o universo sem fim
das coisas encantadas dessa vida

Poema do amor sonoro
presente de casamento para Andressa Rocha e Fábio Lessa

tanto já se falou sobre o amor…
tanto já se compôs na inspiração do amor…
e parece que nunca é o suficiente!

e lhes digo: não mesmo…
porque o mundo todo é amor!
reconheço…
e o mundo é grande!

e se é para falar e compor,
que seja sobre o amor!

assim insistem os amantes!
…e como haveria de ser diferente!?

insistem os músicos!
…e poderiam insistir em outra coisa!?
e os fonoaudiólogos!

pois amor se sente al dente,
e se sabe já no prólogo!

amor não é aquela coisa certa
que busca o casal, com uma lista,
na prateleira de um supermercado

uma lata de leite condensado
ou uma caixa de suco adoçado…

amor é incerto…
vive alternando dissonâncias
em uma sucessão de ritornelos.
às vezes provoca surdez, nos deixa mudos…

quando chega, acelera o coração
e deixa a perna bamba,
como se fosse um contrabaixo
a marcar o pulso.

amor é a doce alegria de viver no não saber!
de se fundir, de se esquecer,
de ser mais que um
e de ser um do tamanho do universo.
puro verbo, puro verso!

amor nem deveria ser dito assim,
com palavras…
pois é tatuagem rara

amor merece mais é música!
merece mais é voz, escuta!

merece uma dança desvairada,
uma cerveja bem gelada,
uma loucura a dois numa praia enluarada!

amor não comporta entendimento algum,
mas sim, uma viagem pra Cancun!

amor pode até rimar com dor,
como dizem por aí.
mas essa é rima pobre…
porque amor rima mesmo
é com alegria!

é por isso que então,
levemos corpo ao amor,
forma de gente!

hoje o amor tem a forma de um homem
cujo grave tom chegou fundo
num agudo coração profundo

e a forma de uma mulher
cujo canto de sereia e ouvido de quem sabe
chegou ao cume do coração
daquele que lhe cabe

hoje amor tem nome!
e assim como amor rima com alegria
rimam Andressa Rocha e Fábio Lessa

e a graça do amor é essa:
rimar as singularidades!

e assim também,
como hoje amor tem nome,
hoje amor é som,
no corpo sonoro de Fábio e Andressa,
para que a gente não esqueça
que a concretude do amor
é o ritmo que reverbera em todos os corpos
e a melodia da existência
que faz vibrar os corações
como cordas de aço e voz
a nos levar para os mais belos portos!

o pêndulo e o poço

quando inflama um corpo
e a mente reclama, insolente,
divergente

pra um lado o corpo,
pro outro lado a mente,

o mundo pede calma

mas o que se faz com o que não se alma
e com aquilo que se alma até demais?

quando inflama um corpo, inflama!
e nada mais

a mente tenta anuviar
nubla a memória
dispersa a história

libera palavras que tentam racionalizar

mas quando inflama um corpo, inflama!
e não há como disfarçar

a mente briga com o corpo
e relativiza o tempo
esse que corre,
oferece, tira e devolve…
sem chance pra lamento

tola mente!
porque a memória tem cheiro…

voz, carne, osso
sonhos, desejos

e desespero

e vira e mexe
a memória vira carne de novo
e a memória tem beijo

assim, inflama o corpo
e ri na cara da mente
mas, insolente, lhe olha a mente
e ri do corpo que se alma

mas se mente é a ideia do corpo
mente a mente para o próprio corpo?

apenas sei que inflama, o corpo…
em abraços longos que liberam fagulhas
revelando o que não foi dito
e todo o dito que foi tanto
e que teceu inúmeros fios de futuro

tecem, então, mais um fio, esses abraços…
com os quais se quereria fundir os corpos novamente

a mente…
que pode ela fazer diante do que se sente?

esses fios, só o tempo vai dizendo
como devem ser tecidos…

fios que são como aquela vontade louca
de água no deserto
que une a água e o corpo
como se fossem um só porto

espontânea imanência da vontade
à procura do seu poço

e você sabe que precisa caminhar
para encontrar um oásis

e espera ainda que a chuva caia em tempo,
antes que a sede se transforme
em pesado sofrimento

por isso
cabe ao corpo,
diante do tempo,
colocar-se sempre em frente

na doce alegria do movimento

leve, ainda que sedento

pois, além de equilibrar,
faz, o movimento, um dia,
aquilo que se buscava,
encontrar

ainda que se encontre
uma água totalmente diferente

o que é mais provável
quando perseveramos a procura de um poço

assim, cai o pêndulo,
e fica a água a, finalmente,
alimentar mente e corpo