o corpo nada sabe das palavras
ele apenas vive… como cheiro, gesto, carne
mas escrevo versos para criar realidade
vive, no corpo, a palavra poética
ganha a palavra, no corpo, métrica
Autor: Vanessa Rocha
novos poemas encontrados num caderno
filosofia corpórea
eis um mistério:
o que fazer com o corpo
e aquilo que nele nasce
após um acontecimento
o que fazer com o que fica dentro
parte nova a integrar o corpo,
que, pelo que se deu, torna-se novo
o que fazer com o corpo…
tomado ele de torpor e encantamento?
e de tudo que vem com o tempo
o que fazer com o corpo
depois do acontecido,
e com o volume que lhe toma,
e até então, lhe era desconhecido
o que fazer com a densidade
de uma nova informação?
e tudo o que não se sabe
e o que se deseja de um encontro
e toda a densidade do outro
que lhe soprou o outono…
mas muda o corpo a todo instante
posto que é errante
é preciso acostumar-se ao novo
e ao estômago do mundo
onde nos lança
cada acontecimento profundo.
blackbird
que nome eu poderia ter agora?
pergunto a mim mesma
diante do espelho das horas
eu…
uma gama de histórias ainda não contadas
poemas guardados que precisam de tempo
para serem revelados
a multiplicidade do desejo
e um desejo que confunde o que eu vejo
a ansiedade de querer, com os braços,
envolver o mundo inteiro
mas é que agora,
caiu a moldura
chegou a hora das batalhas mais duras:
as de enfrentar os grandes medos
porém, calma estou
porque já os conheço
e é preciso coragem
para se olhar no espelho
calma estou para iniciar
o que deve ser feito
é preciso foco, ar,
é preciso jeito
disciplina é liberdade
eu ouvi há muitos anos
e guardei como mantra
na caixa daquilo
que não explicamos
apenas voando
é que sabemos que ela existe,
a liberdade,
e que insiste
sou então, nesta hora,
um pássaro que deixou a gaiola
no eterno retorno de romper
e me reconstruir na aurora
novamente identificando minha delicadeza
que recupero depois de tanta fina dureza
que a vida fez passar por este corpo
e é nesse movimento
que preparo o café como quem massageia o ser amado
e escrevo minha vida
para trocar laços com o que há de mais humano
laços que amo e que são sagrados
sou pássaro negro reaprendendo a voar
a vida inteira,
eu estive esperando
esse momento chegar
canto
fez-se calma
minha ansiedade
que à luz palpitava
fez-se silêncio, então,
o que sedento pulsava
fez-se o tempo…
aquietou-se o campo
esplendorou-se o vento
atravessei flores
a tomar chá de jasmim, pensava
e busquei, dentro de mim,
a harmonia do mundo que dançava
atravessei pilotis
senti aquecer, o sol, meu rosto
e cruzei imensas estradas
encarando o meu desgosto
havia fome, frio, poço
havia…
arco para cruzar debaixo
sem saber o que haveria,
oposto
se fundo
ou raso
mas revelou, caminho novo,
o fim da estrada
cheiro de incenso raro
e novos livros foram postos
abrindo segredos nas minhas mãos
novas folhas de papel em branco
novas tintas, novos tons
e veio,
ela,
a voz
luzente
a espalhar semente
que emociona
multiplicando
em cada célula
do meu corpo
o canto
alegria inefável
que cala todo o meu pranto
aceito
aceito
dica de bolo
filosofia pra queimar o miolo
uma taça de vinho
um caliente carinho
banho de chuva
mesmo no frio
loucura na rua
poesia sem rima
aceito um doce
um sonho
um sentido
uma música nova
um novo vestido
flores, festas, cervejas
gente que ama
comida na mesa
projeto de vida
projeto de um dia
criança na praça
domingo preguiça
aceito tristeza
pra lembrar da alegria
mas aceito alegria
pra ganhar o dia
aceito
nesse frio, um cafuné
aquele pé pra esquentar meu pé
um filme qualquer
só pra ficar de bobeira
aceito quem me diga
como se faz uma cadeira
só porque não sei fazer
sou dessas
aceito viver
as veias da cidade
minha poesia tem fome
como fome tem um beijo
e percorre as veias da cidade
tem aura minha poesia
e preenche os espaços vazios
do porto
e do meu silêncio
diante da paisagem
como sangue tem meu corpo
como lua tem hoje
o céu do Rio de Janeiro
eu me beiro
nessa noite clara, de estrelas
nessa noite densa, de sonho
como o sonho de uma noite de verão
mas é outonal o céu carioca,
de lua abissal,
que vejo da janela do carro
como se carro fosse o meu desejo
e pudesse me levar
onde agora festejo…
onde também a lua é vista
e a vista é a pura poesia
do que vejo
tem música essa metrópole,
do alto, do asfalto,
da ladeira que o percurso toma,
dos arcos visíveis do bar
que imprimiu um cheiro
como a minha poesia,
percorre o táxi, as veias da cidade
e um torpor circula pelo meu sangue
e invade as veias porque não pode
senão, invadi-las, e torná-las arte
atravesso a cidade
me atravesso
e atravessa meu corpo
um ar frio carregado de futuro
do cristo à floresta
quereria meu coração
estar sempre em festa
planar pela lagoa
como pássaro altaneiro
a sentir o sol da tarde
do cristo à floresta
o caminho é curto
o parque era alto
o som era a lógica
o asfalto é o trilho
o mar permanece
invade o táxi as veias da cidade
e me deixa em casa
onde encontro o silêncio exato
pra o momento certo
o de construir o presente
no elo entre o que sinto
e aquilo que é urgente
e incerto…
poema distraído
hoje eu acordei desperta!
não havia sol…
…mas havia a clave
no meu corpo ainda
hoje eu acordei um tanto leve
um tanto perdida
numa música
numa ilha
com nome e sobrenome
hoje acordei sem pressa,
sem trabalho, sem espera,
sem ferida, sem expectativa…
mas com o sangue
reverberando um perfume,
um tato de mãos sonoras
provocadoras de lume
hoje acordei um tanto distraída,
quase sem perceber…
que acordei pensando em você
só mais uma poesia contemporânea
que horas são?
uma da manhã?
que importa…
há luzes tantas
meus olhos mal sabem das estrelas
se esbaldam, eles, no excesso
cegam
te quero, penso
tenho fome,
e é tenso
quero água
já são mais de uma da madrugada
e a madrugada tem refinamento
de luz, afinada
de som, exato e diverso
do ruído do meio dia
descanso
que faria eu, se pudesse sair agora
do universo das palavras?
diria: me chama pra sair!
ou eu chamaria,
sairia da rede social,
abriria a porta, escancararia o coração
substituiria o teclado pela pele
e meus dedos seriam mais justos com o universo
solidão, pré-condição?
te digo: cuidado!
fica a dica!
#meucoraçãoémaisqueumteclado
o chão brilha
a cidade dorme, em boa parte
restam os homens de boa vontade
que circulam pela noite enluarada.
meus pés cansados procuram abrigo
numa água quente, num pé quente,
no estio, um estilo;
e ouço quem diga: beijo, me liga…
do outro lado da rua uma alma semi nua
comporia bem na casa que decoro
ela diria: adooooro!
e eu encararia com olhar semi nu a perguntar
o quanto adorar com tanto “o” pode significar
mas é curiosa essa contemporaneidade
essa pós-modernidade adocicada
essa gente perdida no meio de si
um encantamento pelo concreto…
enganam-se elas: é metafísico
muitas janelas, todas fechadas,
para os muros, voltadas
espaços da verdade
eu-objeto
meu minimalismo os exalta
exceto os buracos que separam as alegrias
nas paredes dos prédios
eu-dejeto
de que serve um ser humano que não sabe ser máquina?
pergunta o bancário, o banqueiro, o porteiro, o batista
pergunta o político, o cara que não soube ser artista
a moça hipnotizada que espera o príncipe encantado
pergunto eu
mas é por isso que o teclado é instrumento
é por isso que a rede é social por dentro
meu corpo é bandido
o que mais o carrega, é pela tela apenas disparado
nunca sentido
pode ser por ela provocado,
estudado, pela arte estimulado
mas meu corpo é bandido
se deixa levar mesmo é por um sorriso
e nesse mundo de cheiros e prantos
pergunta ele: como é possível um encontro?
que força faz com que
entre tantos
encontram-se determinados corpos,
certas vertigens,
colidam-se os corações … !?
sabemos tanto…
sabemos tudo.
temos o Google!
mas esse mundo contemporâneo
com a graça do divino espírito santo
(da diversidade)
não conseguiu resolver o mistério de sempre:
que a vida, esteja ela no tempo passado,
futuro ou presente,
é força estranha, loucura boa,
o inexplicável fascinante do existente
poema dos pequenos gestos
apertar um botão
um aperto de mão
sorrir, simplesmente
partir, de repente
jogar uma semente
uma cerveja que compõe
com o que se sente
uma dobra num papel
retirar um véu
um acorde
não me acorde
a porta quando tu entrares
a sutil conversa dos olhares
