fragmentos de uma carta para ele

do seu olhar escandaloso

alivio um grito
do alto do meu ego destruído

respondo pela calma
em ondas de respiração profunda
(e é preciso ter postura)

por isso durmo
clamando por nada
por um espaço vazio de sentido
em uma existência apaixonada

acreditando no acaso
e também nas suas falhas
de tempo que se esgota
quando o acontecimento
se instaura

e não me farei de morta!
dança, solitário,
um Dionísio nascente na minha porta

porque não existe força que se atente
para essa ausência desmedida
e eu busco as palavras
por falta de algo mais certeiro agora
pra dizer o que eu não diria

ao menos não escondo
um sorriso errático
que busca pelo teu
encantado

sou estrela em combustão
te conto uma história
e deixo transparecer
que quero a aurora de dias mais leves

faço poesia
como quem faz o bolo pra o café
pra que o teu olhar subterrâneo
me desperte essa fome sem tamanho

no fundo desses olhos castanhos

pra que a arrogante palavra
não possa se instaurar
no meio de quereres tão libertos

você, ao meu lado,
um banco de metrô,
coração batendo e respiração
os olhos cansados
quando pega a minha mão
é roda girando nesse mundo inacabado

nada me escapa
de que teu querer estranho,
que não diz nada,
me ocupe a sede, a fome
e faça o corpo estremecer

um abraço poderia fazer
parar o tempo e a máquina
e a roda da fortuna
pela qual nos chocamos
encontrar o passo certo de girar
no embalo do encontro

e produzir som

uma música desconhecida
que a nada se referencia
que não se encaixa em melodias
pré-concebidas

vai saber…

quem sabe ela é tão desconhecida
que desconcerte esses nossos passos errantes
que vagueiam pela vida curiosos
querendo tudo e tantos lugares

solfejaríamos tanta dissonância
que a música jamais ousaria ser a mesma

porque ser livre
é condição de ser inteiro

e nesse te querer tanto,
acaso repentino,
nessa peça que a vida pregou
e que me acalma o espanto
lembro novamente dos seus olhos

de olhar escandaloso

pelos quais sou carregada
a um universo cujas palavras ressentem
porque são incapazes de dizer
tudo o que o corpo sente

nos teus olhos
a vida abre as portas pra intensidade
e a verdade é que
independente do que pode vir a ser tudo
seremos sempre almas inquietas
cujas formas se amoldam ao mundo
e que desejam todo o universo em combustão

todo o universo
profundo

de tanto te querer

de tanto desejar a lua
e castelos de areia
a obscena aura do deserto
me levou até você
numa carruagem torta
por um caminho longo

numa caravana nômade
com cheiro de especiaria

no sonho onde beijo sua face
como se beijasse o mundo
e tudo é um mágico
e iluminado segundo
que faz girar a Terra
e é capaz de cessar uma guerra

de tanto desejar o sol
uma aurora avermelhada
me leva sempre até você
onde quer que esteja
esse seu rosto claro
essa maneira certa de ser
uma encantada existência
que é vida potente
como grandes árvores
que não cansam de crescer
e carregam seu sorriso intenso
força errática, denso

de tanto desejar o mar
o azul ultramarino se fez anfitrião
e nos pores de sol diários
quando o róseo se apossa das montanhas
o desejo retorna
não descansa
é aço que derrete no fogo,
porque ama,
e um coração em eterna lembrança
da fome e da aventura

nunca esqueço
que amo nessa vida uma só coisa,
ela mesma

e de tanto te querer
quero tão mais a vida e os paladares…

… que a poesia de repente retornou festeira
fazendo carnaval o tempo todo
e me levando a buscar venturas perigosas
ainda mais sabores
ainda mais delírios
ainda mais seu beijo

e beijos sem fim pelo mundo
carnaval em peso

ainda mais
porque não pode ser de outra maneira
ainda mais
porque só pode ser o corpo
ainda mais porque é sincero
e, por isso, puro
ainda mais porque é pura vontade de existir inteira

de tanto desejar o mundo
no mundo eu dei a volta
e retornei ao ponto inicial de uma memória

muito se passou nas madrugadas desses tantos anos
muito existiu até que fez de ti um novo ponto

e de tanto te desejar um novo ponto,
eu sou alma imoral renascida num deserto branco

o coração vagueia a procurar sentidos tortos
porque sabe, não há sentido possível nessa teia

mas a busca vã não me tira essa alegria
do existente, do imaginado e do presente
ela é carruagem a trazer novas especiarias
caravela para me levar pra Índia
paraquedas para me lançar em queda livre

fundo

ser alma ensandecida
ser um corpo entregue, fecundo

de tanto te querer
hoje eu quero mais

a vida

na poesia de Hilda
na ópera que agora escuto
na montanha de gelo que encontrarei um dia
nessa tessitura
onde eu sou um barco que navega por paixão
e você um nó
de uma rede de afetos que me tomam

eu queria ser agora uma fotografia
para eternizar um sorriso meu que é só seu
porque de tanto te querer, moreno,
hoje eu quero tudo

—-

o gato de Alice

eu te olhava
ali
sentado
na minha frente

(bebíamos)

eu te dizia
tudo

(chovia)

eu era clareza
eu era saudade
eu queria
você

eu era

vontade

mais uma vez
sua mão
pegava na minha

na praça
madrugada
eu quase dormia
no seu ombro
mais uma vez
o tempo

pairava no ar
desejo
nessa noite
de outubro

eu iria
eu teria ido
pra casa
não fosse o que me arrasta
pra você
eu iria
pra onde me levasse
e fui

não!?

eu vou
quando quiser

eu só queria
cada pedaço
seu
um pouco
mais

(e que foram meus)

cada pedaço
da sua fala
da sua existência de gato
que aparece e desaparece,
deixa um sorriso
e Alice fica a perguntar:
e agora, o que será?

mas que importa
a vida
é sempre uma surpresa

eu não te perguntei
você não respondeu

estou
leve
estou
sentindo
ao som de guitarras

e eu seria um rock’n’roll

por isto
farei disto
uma música pra você

pra esse sorriso
que fica
no ar…
até desparecer

Numa noite de chuva

minha sapatilha vermelha
encharcada da chuva
só desejava vagar

tudo parecia incerto
mas foi certo como poema feito pra chorar

ela buscou os amigos errantes
e foi na sua errância sentar só

pediu uma pizza, uma cerveja e uma alegria
não aceitou a burocracia cinza
da fila e do transporte
daquela gente toda com cara de apatia
tão apegadas às suas casas
que esquecem que existe poesia
apegadas, todas elas, a uma sobrevida

que atravessam o mar todos os dias
e, moribundas, só esperam a hora de chegar na terra

respirou fundo
aquela sapatilha vermelha que foi vagar
mandou mensagens para os queridos e recebeu uma resposta
a resposta certa de uma alma errante
cumprindo deveres que a errância não entende
mas precisa aceitar

mas, nossa, que alma alegre!
eu devia era ter te sequestrado

e essa chuva então…

com o esmalte vermelho paixão
sentei na mesa coberta por um toldo verde
e lembrei também do amigo Juba, meu amor de vento,
das noites que ali passamos em nossas gastronômicas orgias de sabor

pra ti também mandei uma mensagem
e sei que um dia ela será vista e respondida
e você vai ser um grande mensageiro
com as mãos repletas de amor e busca

(posso te encontrar lá na Tijuca dia desses
naquela casa mística do reiki)

pois lá, na nossa mesa, bebi uma Budweiser 600ml
na mesa, abaixo do toldo
aquela alegria toda de poder vivenciar o Rio
parecendo minha terrinha lá na serra
uma chuvinha, uma neblina, um ar noir
só não pedi vinho pra não ficar romântica demais
e a cerveja pareceu cair melhor

e como ela, a poesia,
não haveria de vir?

chovia
eu queria botar pingos nos is
mas descobri que o alfabeto é mais extenso
e esqueci essa história de querer manter a lógica
eu senti, sentei,
chamei o garçom e fiz o meu pedido

chovia
no toldo, o barulhinho bom da vida
a luz, ofuscada,
criava no poste aquela atmosfera de mistério
uma ópera tocava no som
ninguém ao redor
todos fugiam da chuva dentro do salão

e lá estava eu,
unhas vermelhas, vestido de renda preta,
rodado, cintura definida, curto pra mostrar a tatuagem
fazendo pose de “oi, vida, estou aqui”, mangas compridas,
perfume de limão e coração tranquilo

como companhia, aquelas edificações antigas
aquela música maravilhosamente invasiva
aquela beleza toda das portas já fechando
e dos cachorros a procura de abrigo

até um professor querido veio fazer parte da memória

e ao fim
eu era uma pluma jazzística
eu era botão de rosa abrindo
eu era a moça que conversa com a garota de programa
eu era uma ajudante de mendigo
eu era a terapeuta do garçom
eu era a estranheza dos casais que passavam
e tinham cara de enterro

eu era Virginia Woolf
e contemplava as horas densas da noite molhada
eu era Gullar na noite veloz da minha cidade apaixonada
e um Maiakóvski ardente querendo desorganizar
(e olha, poeta, que bem falei com teu xará hoje
e, pra variar, divagamos sobre a vida)

mas quando vinha o cheiro de mar…
sempre a recorrência portuguesa…

e ela, a chuva, insistia

e quando eu voltava a ficar só
um sorriso bobo se esboçava
eu sei, eu sou privilegiada

eu tenho um guarda chuva vermelho só pra combinar com as unhas
porque gosto mesmo é de me molhar

e sei,
e compartilho contigo,
doce andarilho,
que esse cenário,
essa poesia,
dariam, sem dúvida,
uma bela fotografia

– e ela seria uma obra de arte –

tudo é uma questão de perspectiva
e quando a perspectiva é extática
tudo o mais também é

lembrei então daquelas meninas
todas elas, amigas

aquelas mulheres fortes e cheias de vida

e pra elas dediquei uma canção

liguei o som no celular
abri o guarda-chuva vermelho pra combinar
e saí na rua a cantarolar os versos da liberdade

chovia
e ainda chove

e eu sou um sol cheio de esperança
de que um dia
tudo vai ser uma memória doce
em tempos concretos de amor

que chova o que tiver que chover,
pois a poesia é indecente o suficiente
pra fazer da chuva
o momento mais bonito do presente

(deixa chover
e vai, mundo,
levar no vento o meu desejo

faz ele chegar onde precisa
e deixe que essa loucura toda do dia a dia
nunca seja maior que a poesia)

chove
e minha sapatilha vermelha
descansa na garupa da bicicleta lá na sala
aguardando novos dias de vagar

chove
pra que o sol volte pleno pra iluminar os caminhos da errância

para ela

te saúdo
primavera
do melhor jeito que sei
com o corpo alongado, música e perfumes
a casa já está repleta de flores

te saúdo
com aquela garrafa de vinho e o coração cheio de amor

para ti plantei um trevo de quatro folhas
em ti renasce minha alma leve
que só deseja movimento

primavera
dessa vez você coincide com a minha própria
e é, de todas, a mais bela que já vi

O mistério do planeta

não há mistério maior no mundo que o silêncio
ele não é o sim nem o não
mas a ausência mais presente do universo
talvez, nessa hora,
a certeza seja precipitar o agora
então, se não pode haver certeza
eu prefiro que fique, silêncio
porque assim, és a possibilidade
não mais que o sim
não menos que o não
mas um pulso permanente
que testa a minha ansiedade
e me enche de multiplicidade

bombas de amor

Concebo, agora, bombas de amor
E elas têm uma força absurda em ser
Concebo agora tudo o que posso ser
E percebo que sou, quando sou o mundo
Nasce, então, uma pesquisa
E ela é vida
Nasce um novo consumo
Uma nova casa
Um incomum trânsito de Saturno
Nasce uma viagem
Nasce uma terapia
Renasce em mim o humano perdido
A ancestralidade
Minha paixão se acalma e transborda
Já não posso mais conter
O amor se multiplica
Sou euforia
Nasce um grupo, um coletivo, afetos rizomizam
Agora escrevo
Agora concebo um novo mundo
Agora medito, agora poetizo
Eu não sou nada mais que ebulição
Prosa, poesia, produção
Diferença, conflito, música, sedução
Movimento
Meu ar e minha terra
Buscam teu fogo e tua água mundo
Meu cérebro é criação subjetiva, amor indecente
Meu cérebro é meu timo e meu coração
Ele vagueia a criar muito e querer tudo concretizar
Emoção desmedida
Em ser tudo o que se pode ser
E receber o que se pode receber
Abrir-se, amar, fluir

#contemporaneoemqualquerlugar

inspirada por “sexo em moscou”, de Mano Melo, ofereço meu “sexo contemporâneo em qualquer lugar”
—-
minha net, doida pelo seu crowd, 
bem funding, 
pede:
enter enter enter
com o seu wi-fi que eu libero a senha
nós 2, web 2
td bem colaborativo
face to face
seu pen drive em mim, baby
ai, essa sua nuvem de tags me deixa louca
pra twittar na sua boca 140 caracteres de puro prazer
e no meu email, ver vc
hackeando meu mundo privado
pirateando as minhas zonas de segurança
creative commons na cama
pro meu software ficar todo livre
e eu digo: i phone que eu gosto, phone!
Mac no meu corpo todo essa máquina
me mostra teu ultrabook
me joga na tela e me chama de wallpaper
conecta esse cabo na minha USB
mouse, assim,
mouse
me faz tua Wikipédia
que eu te faço meu Google
e vem, faz login em mim
depois desse hangout todo
seu aplicativo todinho no meu celular
carrega 100% de suor
sou sms multimídia
e meu whatsapp, se pudesse falar, falaria
nossas configurações se cruzam
e assim, no instagram do fim,
nós 2, web 2
imprimimos
compartilhamos
curtimos
o perigo é que do \o/ pro S2
é um pulo
e penso que melhor é dar um boot
e trocar de usuário
fico offline
mas logo, cancelo
porque sua nuvem de tags
me tira o ar
então, prefiro fazer logoff
e ficar em modo de espera
pra depois
reiniciar

Ensaio sobre a nudez

a poesia, hoje, cedeu lugar à prosa.

O que ainda não é, só se faz sob o sol quando abrimos mão da obediência.  Não a obediência em relação ao outro, mas a que impomos a nós mesmos ou a de outros que introjetamos como se fosse nossa.
(Nilton Bonder, A Alma Imoral)

Hoje, domingo, acordei com um pressentimento. Saí de casa e voltei com uma missão. Era preciso escrever. A febre da escrita passou o dia em suspensão. Ela não sabia muito bem o que seria escrito. E, como febre, assim permaneceu. Mas agora as palavras começam a delinear um cenário. E sabe que, pra que o texto nasça, é preciso um ato: despir-me. Escrevi há alguns domingos atrás que domingo é o dia do possível. E resolvi fazer de todo domingo um dia especial. Religiosamente, para começar a semana com a certeza de que a vida, ainda que não seja escolha, não é senão o que acontece quando damos atenção a nós mesmos. Como muitos de meus dias, este não foi, em parte, como eu queria. Mas quantas vezes não é. Imagino que para todos nós seja assim. Porque criamos expectativas a partir de nossos desejos, e a vida quase sempre dá rasteira, porque é o puro e simples espaço da impermanência e da fortuna, em equilíbrio com o que fazemos dela. Hoje começa o ano novo judaico. Na relação íntima que cada um de nós, ocidentais, temos com o judaísmo, arrisco afirmar: hoje começa, para mim, um novo ano.
O dia não foi o que desejei? Melhor assim. Ele foi inteiro para mim. Ele foi uma orgia minha comigo mesma. Ele foi a celebração da novidade. Eu não estive só o tempo todo. Porém, no íntimo, sim. Eu estive naquela profunda e completa solidão de quem viveu o que viveu e sabe o que viveu e vive. Aquela solidão de que só você conhece a sua própria experiência, suas próprias limitações e seus desejos mais profundos. Então, não hesito em sair só. Arrisquei ir só, como tenho arriscado sempre. E neste ir só a gente esbarra em pares. A gente reconhece a solidão, da qual todos compartilhamos, naqueles que arriscam não escondê-la. Duas obras de arte me marcaram neste dia. Neste domingo de um fim de semana tão marcado pela arte. Assisti a um filme e a uma peça. Intocáveis e A Alma Imoral. Não me parece que foi um acaso. De alguma forma eu buscava alguma coisa com a qual pudesse compactuar na minha solidão e nela me confortar ao saber ser, a solidão, uma multidão. Fui ao filme só, – ainda que tenha feito um convite -, movida pelo desejo de ver com os meus olhos e o meu coração o que todos, afinal, comentavam tanto. E lá estava eu, num cinema lotado, às três da tarde, com a sensação de que a vida era estranha, porque coisas estranhas haviam se passado no caminho, e porque ela não é o que a gente quer (como uma criança birrenta), simplesmente. Quando o filme acabou, eu não sabia como reagir. Estava nua. As pessoas levantavam e saíam, algumas comentavam como era incrível, que bela estética, que história sensível. Eu não sabia o que fazer. Tinha vontade de chorar. Mas não chorava. Talvez por medo ou vergonha, porque eu sabia que o choro não seria comedido. Eu tremia. Eu queria dançar. Eu queria cometer uma loucura. Saí. Corri até o banheiro e chorei. Chorei. E como chorei… Eu não sabia como reagir e chorei. Chorava sem explicação (isso que não quero mais, explicação). Era tudo tão lindo e tão potente, e se misturava com tristeza, estagnação, espera, dor, culpa. Tudo ao mesmo tempo. Era lindo e era doloroso. E entendi que estranha não era a melhor palavra para definir a vida, mas sim diferente. Lembrei-me de quando ouvi isso (“não está estranho, está diferente”) e como cabia tão bem àquela hora. Tudo estava diferente, e não estranho, porque nada é estranho à vida, especialmente, os acontecimentos. A vida sempre se revela diferente do que nos acostumamos… 
Mas ainda estava por vir o ápice da história, seu fim, que viria a ser, como todo fim, apenas mais um recomeço. Eu fui assistir A Alma Imoral. Encontrei dois amigos, que lá comigo estiveram o tempo todo. Um deles, um par de muitos anos. Tantos anos, que se torna impossível traduzir o que é nossa passagem pelo mundo e o que é o nosso amor. O outro deles, ela, alguém que desejei tanto que nunca chegasse perto e por quem hoje agradeço aos céus por amar, e por amar a sua coragem de amar. Conversei também com umas pessoas na fila, ávidas por essa imoralidade como eu estava. E encontrei um amigo-palhaço, corajoso de se lançar, a quem abracei profundamente por alguns segundos mesmo tendo passado tanto tempo da nossa intimidade, reconhecendo nele um par, uma alma flutuante, dessas inquietas, que querem mudar o mundo e sabem que se começa mudando a si mesma. E o que é essa mudança? Primeiro, buscar-se, sem medo do medo, sem medo do que possa encontrar. 
Amigos de muito tempo, outros de tão pouco, amores eternos, outros que não se sabe… E eis que vem o tempo. Tenho pensado muito sobre o tempo e o quanto ele é relativo de fato. O tempo longo pode ser tão potente quanto o tempo curto. Mas cada um tem a sua potência. A tradição nos faz acreditar que o tempo longo é o único que deve ser respeitado. E ignora o tempo curto, o instante, o inesperado. Tanto ignora que, quando o acontecimento rompe com todo o nosso conforto, a gente se desestabiliza e não consegue esquecê-lo. Se o acontecimento nos causa dor, passamos a odiá-lo. Se causa alegria, passamos a vangloriá-lo. De toda forma, com dor ou alegria, no momento do acontecimento o tempo se suspende. Chronos se ausenta, porque Kairós vem nos dizer que também ele reina sobre a Terra. A suspensão do tempo é aquele estado em que, ou estamos em profundo horror ou em profundo prazer que esquecemos tudo ao nosso redor e o tempo parece não existir, e é puro presente. Puro estado do renascimento, puro estado da iluminação. Porém, fracos, depois que se torna passado, desejamos voltar no tempo para evitá-lo, se em estado de horror; ou, se estamos em profundo prazer, desejamos voltar no tempo para revivê-lo. Das duas formas, é apego. 
Alguns dias atrás revi “O pequeno Buda”, e reli o Dharma. Depois de alguns anos retorno a essa história maravilhosa do príncipe Sidarta e sua transformação em Buda. A vida me colocou novamente neste caminho, que eu não solicitei. Ele veio, e só me restou aceitá-lo. Fui a um templo de budismo tibetano. Falei de medo, crise e dor. Meditei em silêncio. Ah, o momento em que Sidarta descobre o sofrimento… Não há momento mais belo na história deste que viria a ser um iluminado. Sempre choro nessa hora, compartilhando com aquela alma imoral a alegria de encontrar, finalmente, o caminho da luz. A descoberta do sofrimento é a descoberta do caminho para a libertação. E ele encontra, tendo a terra como testemunha.
Pois quando o espetáculo começa, eis que lá está o budismo. Clarice Niskier nos conta sobre, sem querer, ter se tornado uma judia-budista. E nos conduz, assim, a uma jornada pela nossa imoralidade. Nada mais belo, nada mais providencial. Era como se cada palavra me dissesse o que eu já sabia. Mas isso revelava ao mesmo tempo a impotência. Saber. De que adianta saber? O que nos “adianta” é a coragem de, sabendo, agir. Mas isso me traz com ainda mais intensidade o que, além do tempo, é minha outra grande questão. Estrutura. Não temos estrutura para lidar com a vida como ela é. Ninguém nos ensinou que a vida era caos. Aprendemos a obedecer a ordem. E quando descobrimos que não controlamos a vida, corremos sérios riscos de entrarmos em estado de choque.
Nossa cultura não nos cria para sermos grandes, potentes e acreditarmos em nós mesmos. Mas a vida ignora a cultura. O desejo ignora a cultura. Porque a transgressão também compõe a realidade. A moral não é soberana. Aliás, nós somos transgressão. É isto que faz o humano ser humano. Clarice nos conta, como no livro de Bonder, que o mar vermelho não se abre antes para que os hebreus passem. Moisés encoraja-os a marcharem, aí sim, Deus, comovido com tamanha coragem, abre caminho no mar para que eles passem, quando já estão quase se afogando. Complementando, assim, essa passagem, ela então conta que certa vez, conversando com o rabino Bonder, comenta que se, quando criança, tivesse sido ensinada a marchar antes do mar abrir, não teria esperado tanto tempo pra fazer alguma coisa. Ao que o rabino lhe diz que não é preciso ensinar isso. As crianças não precisam ser ensinadas a desobedecer. Elas já nascem sabendo. Eis o retorno ao início deste texto, à frase retirada do livro. Se o corpo passou a ser o lugar da moral, é preciso que resgatemos o imoral da nossa alma. Porque a alma humana é essencialmente imoral. É na transgressão que a vida se mantém, porque se ela fosse sempre moral, acabaria. E hoje, num mundo onde até a transgressão parece se tornar uma moral, corremos riscos seríssimos de desaparecermos como espécie. Como singularidades então, nem se fala. A cada dia vejo morrer muitos de nós, humanos. Devagar. Nas filas, nas obrigações, afogados em suas máscaras, diluídos no passado ou num futuro imaginado, tentando cumprir o que esperam de nós. Somos um conglomerado de medrosos. De fracos cheios de si. Não temos estrutura. Nenhuma. Crescemos cheios de certezas, e de repente vem a vida e diz que as nossas certezas não são absolutamente nada no tempo do universo. E o que fazemos nessa hora? Tudo aquilo que já cansamos de ver, de ouvir, de apreciar (!!!), de desejar. somos ódio, medo, ciúme, inveja, orgulho. Tudo isso. Tudo que faz parte do ser humano, mas que é fruto da moral. A alma imoral, nessa hora, coitada, se dilui. Some. Deixamos de nos ver como toda aquela potência desobediente e nos tornamos somente os cordeiros da moral. Não temos estrutura porque crescemos acreditando que a vida está sob nosso controle, talvez porque quiséssemos ser Deus. Mas também aí a gente se engana, porque Deus é tão impermanente, tão contraditório, tão brincalhão. O universo é caos. A ordem é o que inventamos pra lidar com isso de uma forma mais tranquila. O problema da nossa cultura ocidental é que resolvemos, sei lá por quê, dar mais peso pra um dos lados. E aí começou a confusão. Por isso, perder a noção, lançar-se ao novo, passou a ser sinônimo de ser filho da puta. É por isso que fico tentada a celebrar os filhos da puta! Porque são filhos do desconhecido, da transgressão, da desobediência. Mas não confundam. Não façam isso. Não falo dos que querem parecer rebeldes. O rebelde simplesmente é rebelde porque não pode negá-lo. Ele é nômade. Ele é errante. Ele não é rebelde. Rebelde foi o nome dado pela moral. Ele é aquele que não pode negar a si mesmo, e nada mais. Nenhuma outra descrição lhe cabe.
Então, se hoje começa um novo ano, esse ano envolve um esforço de transgressão. O medo precisa dar lugar à loucura. Compartilho com Osho de que enlouquecer de vez em quando faz parte de uma vida equilibrada. Se não o faço, é por medo. O medo que todos temos, e que tantas vezes são máscaras, são muros que erguemos pra nos esconder. Medo: nesse momento, você não é bem-vindo. Deixe a dor se instaurar. A dor de nascer. De sair de um lugar estreito para um lugar amplo. Bonder também nos diz: “quanto esforço fazemos em direção ao nada”. E nos conta parábolas de homens santos que olhavam com pesar aqueles que estudavam por obrigação e sorriam para os que, ao invés de estudar, dormiam, entregues ao sono sincero. Preciso ser sincera com o meu desejo. Desejo como potência, como abertura, como errância. Porque a gente confunde esse desejo, essa errância, com a cultura. A gente confunde. E fica lá, confortável, em nosso lugar de confusão, culpando o mundo por nossa fraqueza. Sair do lugar estreito para o lugar amplo é extremamente doloroso, mas é mágico. Se alguém lhe disse alguma vez que não seria desse jeito, lhe enganou. E é aí que percebemos a falta de estrutura. Buscamos o mundo ideal do lado de fora, no outro, no futuro que nunca chega, nos paraísos artificiais, no que já passou. O mundo “ideal” está dentro da gente. E essa dor, é a dor que temos que enfrentar para sermos tudo o que podemos ser. Nada marcou mais a mim neste espetáculo que ouvir: “aquele que não faz uso de todo o potencial de sua vida, de alguma maneira diminui o potencial de todos os demais”. Fiquei sem ar esta hora…
No livro, a frase continua da seguinte forma: “se fôssemos todos mais corajosos e temêssemos menos a possibilidade de sermos perversos, este seria um mundo de menos interdições desnecessárias e de melhor qualidade”.
Então, não quero mais a tolice do medo, e nem o medo de ser perversa. Ao menos isso é um passo e tanto. E hoje já rio de quem me diz que não tem medos. Afinal, quem de nós é iluminado o suficiente pra não ter medos? Onde estão os nossos budas? O medo é a gaiola que aprisiona a nossa condição de livres. Livres de verdade, e não livres como o rebelde do filme americano. Livres como aqueles todos que não cabem em classificações. Somos oceano. Somos algo de tal profundidade e densidade que assusta. Mas só assusta porque criamos uma série de certos e de errados. Mas às vezes o errado é o certo. Como, às vezes, o certo é o certo, o errado, o errado, e o certo é o errado. Sem hierarquia, sem prioridade. A vida é um constante ajuste, artisticamente um equilíbrio entre o bom e o correto, porque quase sempre eles não se encontram. E não podemos, em nome da justiça, essa que só agora entendo, deixar que a moral seja soberana. Precisamos sempre cultivar o jardim da desobediência, especialmente a de nossas gaiolas. Precisamos abrir as gaiolas. E nos deixar voar. Nesse momento, eu percebo que tenho dado muita atenção à moral. Mas, nossa! Como fui desobediente… Como, sem saber muito bem, deixei que a minha alma imoral fosse tão ela. Eu fui o que eu tive de ser. Eu fui os desejos todos que tive de ser. Mas depois de tanto acontecimento, agora me vejo ouvindo demais a moral. Me vejo aquela que tem medo de mais rupturas, especialmente a maior de todas elas: com a imagem que eu construí de mim mesma e que criou uma personagem. Dói. Dói despir-me desse jeito. Mas é preciso enfrentar que talvez, e muito provavelmente, eu seja tão diferente do que fui que nem sei mais como sou. Eu sou um bebê nascendo. E a memória do corpo não nega. Quando a gente sai de um lugar estreito para um lugar amplo, a gente sofre. Mas, não esqueçamos. O sofrimento é a chance que a vida nos oferece de sermos cada vez mais potentes. E quanto mais a gente amplia, mas sentimos necessidade de ampliar. Por isso, medo é palavra que deve estar presente sem ser soberana. Porque a vida sempre triunfa, e o caos, já nos dizem físicos e místicos faz tempo, é o padrão. E se a vida tiver que extinguir toda a espécie humana para triunfar, ela vai fazer. Mas duvido muito que isso aconteça. Somos grandes, eu sei. Quanto mais a gente amplia, mais queremos ampliar. Basta a coragem de dar passos para a frente e esquecer que os nossos medos tem nomes. Às vezes os damos nomes de coisas que nos parecem eternas e nunca superáveis. Culpa, por exemplo. Às vezes o nome é o do pai, da mãe, do chefe, do marido, da namorada. Às vezes o nome é ódio, às vezes é um palavrão. Mas mesmo que tenha nome, ele é só nosso. Não tem o nome de nada e de ninguém. E, por ser nosso, é que podemos com ele conversar para negociar seu lugar de soberania. Mas pra isso, meu bem, o esforço às vezes é muito grande.
Então hoje, eu, uma mulher, ser este que nunca deveria ter esquecido que é a semente da transgressão, que inclusive é quem planta no homem a desobediência, resolvi parar de ouvir as muitas asneiras que me dizem e guardar só aquelas falas potentes. Resolvi que preciso de mais ferramentas pra ampliar o que preciso ampliar. E que preciso me expressar do jeito que mais sei. Que meu corpo e minha alma são templos. Templos de um amor tão grande, que é capaz de se plasmar no todo e de superar o medo pra se mostrar. Busco as ferramentas, busco as estruturas. Ao menos, não tenho medo de buscá-las. Eu sou uma mulher apaixonada! Pela vida, pelo humano, por si mesma!
Tudo isto me traz uma lembrança. Há sete anos atrás ganhei um DVD de presente, e nele veio escrito como dedicatória: “com o desejo de que sejas o profeta de sua própria história”. Fui profundamente tocada pelo filme e pelo livro Lavoura Arcaica, que hoje vejo como nada mais que uma história que fala sobre a tradição e a traição. Clarice, no início da peça, nos convida a um mergulho, desta forma absurda: “não há tradição sem traição, assim como não há traição sem tradição”. Encerro, então, com uma reflexão sobre o tempo, de Lavoura Arcaica, porque me volta à memória sua trindade: o pai, o tempo longo, André, o tempo curto que se assusta, e Ana, nômade que desafia qualquer noção de temporalidade. O pai, ao dizer as palavras que seguem, dá a elas um peso que encurva nossos ombros. Como carregamos pesos sobre os ombros… André, se lesse o texto, o leria com a euforia do descobridor de novos mundos, mas que, no entanto, teme ao se deparar com esse novo, e escuta, temeroso, o pai. O pai pondera a fala, André fala demais. Ana simplesmente dança e não fala sequer uma palavra, ignorando qualquer reflexão sobre o tempo. Porque ela não o conhece, ela é a pura espontaneidade, a pura existência da natureza. “Porque a natureza mexe em time que está ganhando”. É isso que precisamos aprender, é isso que preciso aprender. A dançar. Sempre. E cada vez mais. Dancemos, como Shiva, como Dionísio, convidando as soberanias de Vishnu e Apolo a se curvarem diante do equilíbrio. Para uma vida equilibrada, é preciso criar o espaço da loucura.
“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor. Embora, inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento. Sem medida que eu conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza. Não tem começo, não tem fim. Rico não é o homem que coleciona e se pesa num amontoado de moedas, nem aquele devasso que estende as mãos e braços em terras largas. Rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde a conviver, com o tempo, aproximando-se dele com ternura. Não se rebelando contra o seu curso. Brindando antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira. O equilíbrio da vida está essencialmente neste bem supremo. E quem souber com acerto a quantidade de vagar com a de espera que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco de buscar por elas e defrontar-se com o que não é. Pois só a justa medida do tempo, dá a justa natureza das coisas”.

um novo poema egocêntrico

não sei mais o que sou
e gosto
dói
mas gosto
e tem gosto
eu medito
e tenho plantas pra cuidar
eu escrevo
falo
tudo é exagerado
até o meu silêncio, quando vem
é exagero
eu sou ansiedade de querer pra ontem
e acalmo o anseio com chá de capim limão
a cada dia sou imperfeição
não cumpro promessas
e não posso dizer que não
porque pode ser que sim
tive uma banda chamada móbile
tenho um projeto chamado móbile
tenho uma música chamada móbile
destino imperfeito
de ser levada pelo vento
eu sou espiral no tempo

O amor com cheiro de asfalto

apesar do sangue que escorre de suas veias
a poesia vence em suas vielas
de onde vemos ascender arranha-céus
harmoniosos com o passado
belo na sua tela-realidade
cidade
favela que constrói arquitetura
prazer que não se cansa de ser
cela aberta do corpo de verão
e na linha do olhar
sempre ele, o mar
impondo-se a bater na pedra
de onde surgem as imprecisas montanhas
por onde o sol se põe alucinado
e nos faz chorar pela beleza

alegria mesmo nos cantos sujos do seu belo centro
encanto
arcos que nos protegem da sombria flor do desespero
e nos une em carnaval
vencida estou por esse amor bandido
que até quando tudo parece perdido
Rio de Janeiro
você me diz que é possível

nosso amor

o nosso amor foi um lampejo de luz
no meio dos tempos longos,
cinzas e pesados
em que vive o mundo
ele foi correnteza ensandecida de desejo
que começou sem o tempo da espera
nós fomos pressa
e enlouquecemos o delírio dos amantes
o nosso amor delirou
foi errante
subiu alto e explodiu
e hoje quem sabe o que nos aguarda
nas horas incertas das madrugadas…
o nosso amor foi brisa de verão
e ventania invernal
até que, tornado,
levou a casa, o cachorro e a calmaria
ele cumpriu aquele desígnio do universo
de ser eterno no presente
e eternamente no presente fomos
e agora somos
cada um, as nossas próprias madrugadas solitárias
com o mundo a nossa volta
nosso amor, como todo amor um dia,
sofreu a doce e dolorosa desventura do fim
que sempre abre os olhos inquietos dos deuses
para dias hesitantes por vir
e esperamos a calma
cada qual na sua estrada
sabendo que tudo que começa, termina
e que, para terminar, antes precisa começar
alegria essa do começo!
pra cama voltar a ser fruta mordida
e curar as feridas abertas
em veias saltadas
limpando engrenagens enferrujadas
para cada um de nós,
em nossas ordens de grandeza,
se tornar uma nova vela ao vento
direcionada ao infinito
nosso amor foi amor e nada mais
belo como todo ele
impreciso
e no fim do amor,
renascimento
cada qual, um corpo
a trilhar sozinho seu destino irreversível
nosso amor foi luz
e iluminou o indizível