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o corpo nada sabe das palavras
ele apenas vive… como cheiro, gesto, carne
mas escrevo versos para criar realidade
vive, no corpo, a palavra poética
ganha a palavra, no corpo, métrica

novos poemas encontrados num caderno

o estranhamento no espelho nessa hora da madrugada não houve sono posso dizer que não houve nada estranhamento de si… do meu rosto, que tanto reconheço no silêncio e houve tanto barulho essa madrugada… mas que importa o sono que importa o sonho… queria eu apenas o gosto da calmaria no meu coração sem dono mas sou sempre caos e no caos me reconheço? não… eu sou silêncio e na solidão me reconheço no amanhecer do sono pouco, na garrafa de vinho, o gosto… no espelho o questionamento enquanto uns dormem outros festejam sou silêncio e me deparo com o meu tempo e interrogo o meu desejo no fundo, só temos a nós mesmos e por mais alegria que seja toda gente que por minha vida passa e mesmo com o mar onde a conversa nunca é rasa… é por isso que é preciso ir a ele pois é nele que me reconheço é por isso que é preciso degustar o vinho sempre pois no vinho me reconheço presente e no silêncio novamente apenas com a música interior e não aquela dessa noite de sono tão pouco de acordes tão exaustos e gastos não nos rostos cansados daquela gente toda que não sabia o que ali fazia me calo e ninguém me ouve me calo e me perguntam o que houve digo que é nada apenas sono me deixem… entenderiam? nem eu… tenho poesia no corpo e o corpo clama por algo que não sabe e o corpo lembra a cama e os dias que acordou fora de casa e o corpo lembra tudo e esse é o seu mal porque a memória é doce mas também desgosto e o que vale é só o agora nem sequer futuro cala-se, então, meu corpo esse corpo que só canta cala e quer teatro cala e quer a dança cala e quer a novidade cala porque não sabe ainda a nova música cala e quer esperança sabendo que não deveria desejá-la cala e quer a dança dos corpos emaranhados sem cobrança mas atentos e cheios de amor cala e depois canta e derrama a insensata terapia do álcool e descansa da inconstante alegria do ato e chora porque não sabe e cala… em profunda meditação, reage…
faço ressoar no cosmos
minha íntima imensidão!
como uma insurreição poética,
um levante contra a inércia,
                           a implosão!
faço assim cantar os pássaros,
voas as flores, nadar os gatos…
canto para o universo claro,
como uma revolução!
para que toda a falsa segurança me deixe
não acredito em hora certa
nem na justa medida, não se queixe
nada se constrói sem boas doses
de insensatez e prazer
produzir o caos
e fazer, uma estrela, nascer!

filosofia corpórea

eis um mistério:

o que fazer com o corpo
e aquilo que nele nasce
após um acontecimento

o que fazer com o que fica dentro

parte nova a integrar o corpo,
que, pelo que se deu, torna-se novo

o que fazer com o corpo…
tomado ele de torpor e encantamento?
e de tudo que vem com o tempo

o que fazer com o corpo
depois do acontecido,
e com o volume que lhe toma,
e até então, lhe era desconhecido

o que fazer com a densidade
de uma nova informação?
e tudo o que não se sabe
e o que se deseja de um encontro
e toda a densidade do outro
que lhe soprou o outono…

mas muda o corpo a todo instante
posto que é errante

é preciso acostumar-se ao novo
e ao estômago do mundo
onde nos lança
cada acontecimento profundo.

blackbird

que nome eu poderia ter agora?
pergunto a mim mesma
diante do espelho das horas

eu…
uma gama de histórias ainda não contadas
poemas guardados que precisam de tempo
para serem revelados

a multiplicidade do desejo
e um desejo que confunde o que eu vejo
a ansiedade de querer, com os braços,
envolver o mundo inteiro

mas é que agora,
caiu a moldura
chegou a hora das batalhas mais duras:
as de enfrentar os grandes medos

porém, calma estou
porque já os conheço
e é preciso coragem
para se olhar no espelho

calma estou para iniciar
o que deve ser feito

é preciso foco, ar,
é preciso jeito

disciplina é liberdade
eu ouvi há muitos anos
e guardei como mantra
na caixa daquilo
que não explicamos

apenas voando
é que sabemos que ela existe,
a liberdade,
e que insiste

sou então, nesta hora,
um pássaro que deixou a gaiola
no eterno retorno de romper
e me reconstruir na aurora

novamente identificando minha delicadeza
que recupero depois de tanta fina dureza
que a vida fez passar por este corpo

e é nesse movimento
que preparo o café como quem massageia o ser amado
e escrevo minha vida
para trocar laços com o que há de mais humano
laços que amo e que são sagrados

sou pássaro negro reaprendendo a voar

a vida inteira,
eu estive esperando
esse momento chegar

canto

fez-se calma
minha ansiedade
que à luz palpitava

fez-se silêncio, então,
o que sedento pulsava

fez-se o tempo…
aquietou-se o campo
esplendorou-se o vento

atravessei flores

a tomar chá de jasmim, pensava

e busquei, dentro de mim,
a harmonia do mundo que dançava

atravessei pilotis

senti aquecer, o sol, meu rosto

e cruzei imensas estradas
encarando o meu desgosto

havia fome, frio, poço
havia…

arco para cruzar debaixo
sem saber o que haveria,
oposto

se fundo
ou raso

mas revelou, caminho novo,
o fim da estrada

cheiro de incenso raro

e novos livros foram postos
abrindo segredos nas minhas mãos

novas folhas de papel em branco
novas tintas, novos tons

e veio,
ela,
a voz
luzente
a espalhar semente
que emociona

multiplicando
em cada célula
do meu corpo

o canto

alegria inefável
que cala todo o meu pranto

aceito

aceito
dica de bolo
filosofia pra queimar o miolo
uma taça de vinho
um caliente carinho
banho de chuva
mesmo no frio
loucura na rua
poesia sem rima
aceito um doce
um sonho
um sentido
uma música nova
um novo vestido
flores, festas, cervejas
gente que ama
comida na mesa

projeto de vida
projeto de um dia
criança na praça
domingo preguiça

aceito tristeza
pra lembrar da alegria
mas aceito alegria
pra ganhar o dia

aceito
nesse frio, um cafuné
aquele pé pra esquentar meu pé
um filme qualquer
só pra ficar de bobeira
aceito quem me diga
como se faz uma cadeira

só porque não sei fazer

sou dessas
aceito viver

as veias da cidade

minha poesia tem fome
como fome tem um beijo

e percorre as veias da cidade

tem aura minha poesia
e preenche os espaços vazios
do porto

e do meu silêncio
diante da paisagem

como sangue tem meu corpo
como lua tem hoje
o céu do Rio de Janeiro
eu me beiro

nessa noite clara, de estrelas
nessa noite densa, de sonho
como o sonho de uma noite de verão

mas é outonal o céu carioca,
de lua abissal,
que vejo da janela do carro
como se carro fosse o meu desejo
e pudesse me levar
onde agora festejo…
onde também a lua é vista
e a vista é a pura poesia
do que vejo

tem música essa metrópole,
do alto, do asfalto,
da ladeira que o percurso toma,
dos arcos visíveis do bar
que imprimiu um cheiro

como a minha poesia,
percorre o táxi, as veias da cidade
e um torpor circula pelo meu sangue
e invade as veias porque não pode
senão, invadi-las, e torná-las arte

atravesso a cidade

me atravesso
e atravessa meu corpo
um ar frio carregado de futuro

do cristo à floresta
quereria meu coração
estar sempre em festa

planar pela lagoa
como pássaro altaneiro
a sentir o sol da tarde

do cristo à floresta
o caminho é curto
o parque era alto
o som era a lógica
o asfalto é o trilho

o mar permanece

invade o táxi as veias da cidade
e me deixa em casa
onde encontro o silêncio exato
pra o momento certo

o de construir o presente
no elo entre o que sinto
e aquilo que é urgente

e incerto…

poema distraído

hoje eu acordei desperta!
não havia sol…

…mas havia a clave
no meu corpo ainda

hoje eu acordei um tanto leve
um tanto perdida
numa música
numa ilha

com nome e sobrenome

hoje acordei sem pressa,
sem trabalho, sem espera,
sem ferida, sem expectativa…

mas com o sangue
reverberando um perfume,
um tato de mãos sonoras
provocadoras de lume

hoje acordei um tanto distraída,
quase sem perceber…

que acordei pensando em você

só mais uma poesia contemporânea

que horas são?
uma da manhã?
que importa…
há luzes tantas
meus olhos mal sabem das estrelas
se esbaldam, eles, no excesso
cegam
te quero, penso
tenho fome,
e é tenso
quero água
já são mais de uma da madrugada
e a madrugada tem refinamento
de luz, afinada
de som, exato e diverso
do ruído do meio dia
descanso
que faria eu, se pudesse sair agora
do universo das palavras?
diria: me chama pra sair!
ou eu chamaria,
sairia da rede social,
abriria a porta, escancararia o coração
substituiria o teclado pela pele
e meus dedos seriam mais justos com o universo
solidão, pré-condição?
te digo: cuidado!
fica a dica!
#meucoraçãoémaisqueumteclado
o chão brilha
a cidade dorme, em boa parte
restam os homens de boa vontade
que circulam pela noite enluarada.
meus pés cansados procuram abrigo
numa água quente, num pé quente,
no estio, um estilo;
e ouço quem diga: beijo, me liga…
do outro lado da rua uma alma semi nua
comporia bem na casa que decoro
ela diria: adooooro!
e eu encararia com olhar semi nu a perguntar
o quanto adorar com tanto “o” pode significar
mas é curiosa essa contemporaneidade
essa pós-modernidade adocicada
essa gente perdida no meio de si
um encantamento pelo concreto…
enganam-se elas: é metafísico
muitas janelas, todas fechadas,
para os muros, voltadas
espaços da verdade
eu-objeto
meu minimalismo os exalta
exceto os buracos que separam as alegrias
nas paredes dos prédios
eu-dejeto
de que serve um ser humano que não sabe ser máquina?
pergunta o bancário, o banqueiro, o porteiro, o batista
pergunta o político, o cara que não soube ser artista
a moça hipnotizada que espera o príncipe encantado
pergunto eu
mas é por isso que o teclado é instrumento
é por isso que a rede é social por dentro
meu corpo é bandido
o que mais o carrega, é pela tela apenas disparado
nunca sentido
pode ser por ela provocado,
estudado, pela arte estimulado
mas meu corpo é bandido
se deixa levar mesmo é por um sorriso
e nesse mundo de cheiros e prantos
pergunta ele: como é possível um encontro?
que força faz com que
entre tantos
encontram-se determinados corpos,
certas vertigens,
colidam-se os corações … !?
sabemos tanto…
sabemos tudo.
temos o Google!
mas esse mundo contemporâneo
com a graça do divino espírito santo
(da diversidade)
não conseguiu resolver o mistério de sempre:
que a vida, esteja ela no tempo passado,
futuro ou presente,
é força estranha, loucura boa,
o inexplicável fascinante do existente