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Domingo

domingo de tarde
estou sozinha
como uma macarronada
nada mais simples
bebo um malbec
no som, kevin canta a incompreensão
uma nostalgia latina me invade
penso na verdade, e tão logo ela se dilui
penso em sexo, fico na vontade
penso no amor, me inflo
penso na arte, e me alegra o devir
e o que está por vir
de qualquer forma estou feliz
gosto de domingos
sorrio sozinha
e vou colorir os meus desejos

Viver é bom nas curvas da estrada…

A solidão é uma puta velha
Ela chega cheia de ressentimento
Vai contando aquelas histórias mais bizarras
A gente se sente meio constrangido porque ela não tem papas na língua
Fala das dores passadas, das vezes que não queria
Ela gostaria de se vingar
Mas percebe que não há vingança possível
A quem? Ela se pergunta
E começa a contar outras histórias
Talvez elas nunca tenham existido
Mas se não existiram, não são menos reais
Só sei que de ressentidas não têm nada
E são uma celebração da vida, daquela forma mais inusitada
Diferente do comum, daquele comum que criamos como couraças
E o ressentimento vai ficando para trás quando se esquece
Ela vai esquecendo e vai tecendo o novo
Ela vai dizendo da montanha que escalou, do país que conheceu
Do homem que amou, das loucuras que cometeu
Se é verdade não importa,
Já produziu em mim uma alegria torta de viver
Tudo aquilo que posso fazer, todo o mundo inteiro pra sentir
E depois de contar todas as histórias, a puta velha se vai
Um tanto cansada, um tanto maravilhada
E eu fico, um tanto cansada, um tanto maravilhada…

sobre o amor

eu amo o que amo e quem amo
e isso é o que tenho para lutar!
e tudo e todos que amo
amo porque existem e nada mais
não os quero para mim
quero que queiram o mundo
amo o mundo porque antes de mim
ele já aqui estava,
e depois que eu me for
ele permanecerá
amo amar porque isso é viver
e viver é estar em movimento
amo o movimento
e me consolo ao saber que os dias
se alternam com as noites
todos os dias
amo porque amo
e é isso que tenho para lutar!

eu, o que é

“sou uma sombra, venho de outras eras”
“pirata sempre rouba alguma coisa”, me disse uma amiga querida
e completou: “vc é pirata que rouba corações”
não sou humilde
mas não confunda alhos com bugalhos…
observadora na grande máquina do mundo
lançadora de projéteis, os quais pretendo que alcancem longas distâncias
frágil ser que se encanta e manda o medo se jogar da prancha do navio
gente que faz…
e desfaz!
shiva nataraja?
para mim “a melhor maneira de viajar é sentir
sentir tudo de todas as maneiras”
“gosto de uivar no vento com os mastros
e de me abrir na brisa com as velas
e há momentos que são quase esquecimento
numa doçura imensa de regresso…
a minha pátria é onde o vento passa”
definitivamente amo…
você, o mar, a música, o tempo, as cores
definitivamente odeio…
mas não quero perder tempo com isso
“uma parte de mim é todo mundo
outra parte é ninguém: fundo sem fundo”
sou o que se conserva e o que morre súbito
nascida sob o signo duplo e que ascende fogo
meu mapa é carregado de muita terra…
e é por isso que um dia, com um chapéu e uma maleta
me mando para o mundo num veleiro, guiada pelas estrelas
leio, escrevo, canto, meu critério é a paixão…
embora evite me apaixonar pelo poder
bem como suscitar em mim um general
meu corpo é símbolo e sangue
tem desenhos e sua desesperadamente
meu mundo tem cores de oceano e selva,
vento de tempestade e maresia
tem cheiro de nostalgia e presente
gosto de vinho, manjericão e baunilha
tem som de pássaro, água de nascente, batuque da áfrica
tem música flamenca, lamento de fado e grito de rock´n roll
tem labrador, tartaruga que viaja e pinguim imperador
tem frio e calor, nem só um nem só outro
e tem amor… de índio, de bicho, de planta, de planeta!
é repleto das pessoas mais lindas que eu poderia conhecer!!!
e com isso me alegro e me pergunto sempre: por quê?
também assim, é um mundo solitário
como é a solidão melancólica do faroleiro…
se acho que tudo isso parece só poesia?
não, é vida.. atenta, sentida, como deve ser

desabafo

viver pairando sobre as brisas
para depois lançar-me novamente
pudera eu ser brisa
e toda a vida pareceria mais leve
mas eu sinto até os interfones quando tocam
e as britadeiras espalhadas por todas as cidades
que hoje já são grandes até mesmo sem sê-las
e que agonizam em obras sem fim
quero ser poeta do meu tempo
mas não sei até onde isso é possível
recolho as folhas e os gravetos de outono
para que não perca de vista minha alegria de mudanças
porque elas doem
e eu sinto doer cada pedaço do mundo
as agonias, a força vencida pela arma
os peixes, as tartarugas, e tudo o que sofre no mar
tão invadido de garrafas
carregadas de uma mensagem que preferia não ler
sinto a dor de cada árvore derrubada,
cada planta impedida de crescer,
cada inseto que se esquiva no concreto
e por tudo o que é grande
porque é difícil desejar a grandeza em terra de ovelhas
e é por isso que eu amo as putas que querem ser putas
os vagabundos por opção
as chuvas e as trovoadas
navios, aviões, grandes máquinas
eu não concebo presente sem passado e sem futuro
o tempo não é linear, nem o passado e o futuro
são menos reais que o presente
e por isso vivo por aí uma solidão errante
sem curtir as baladas sociais
ou as reuniões em torno de cadáveres
onde não se diz nada e só se esquece que se vive
quero sempre sair por aí
mas não sei o quanto o meu querer
é suficiente para eu me jogar

Pílulas

1. Em tempos de sociedade de controle morar num prédio sem câmeras nos elevadores, corredores e garagem é um luxo contemporâneo pra quem não sorri ao ser vigiado… Já há câmeras demais no mundo, inclusive nas bolsas e bolsos de todo mundo que, não contente em utilizar seus celulares em nome da proteção e do bem querer daqueles que amam, ainda podem utilizá-los para o disque denúncia da vida alheia.

2. Manoel Carlos, poupe-nos de suas lições e manuais de como viver a vida!

3. Serra na capa da Veja sorrindo? Alguém já viu o Serra sorrir antes? Quanto custa esse sorriso de Monalisa?

4. Escrevo tão pouco ao papel hoje que minha letra leva um tempo pra se encontrar…

5. A questão não me parece ser produzir e criar, mas produzir e criar com consistência.

6. Nas décadas de 70 e 80 Caetano Veloso, Sidney Magal, Ney Matogroso, Rita Lee, cada um com a sua genial singularidade, frequentavam o programa dos Trapalhões. Hoje a Turma do Didi recebe os astros mais singulares e inteligentes da nossa televisão: os ex-BBB´s… Uh, uh, uh, que beleza! Eu tento não ser nostálgica, mas no caso da TV parece uma tarefa árdua.

7. As tecnologias de visibilidade são perigosíssimas para quem tem o que dizer ao mundo. Fazem uma massagem no ego booooooaaaa…

8. O comercial sobre os 50 anos de Brasília merece o prêmio de piada do ano! E um prêmio especial deveria ser concedido a todos os moradores das classes média e alta que andam por lá produzindo abaixo-assinados para que escolas públicas não sejam construídas ao lado de suas singelas casinhas, e que as existentes sejam fechadas. Viva a diversidade brasileira! O gente bonita, nada preconceituosa, nada racista, nada machista, nada moralista… Um beijo na sua boca cheia de dentes!

9. Acho que estou enfastiada e vou dormir. Descobri com Foucault que sou um pouco romana,já que os romanos exercitavam a “escritura de si”… E ela cansa.

Rotina

Existe poesia na rotina? digam aí. eu só vejo poesia!

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Toca o despertador. Acordo. Não entendo o que está acontecendo. Disparo o soneca do celular. Ontem dormi um pouco tarde. Foi inevitável. Senti o cheiro da pele e do cabelo, pé no pé, chuvinha lá fora, o calor do corpo dele do meu lado. Gozei e perdi o sono. Falamos da vida, tivemos idéias esquisitas, rimos muito disso. Ele dormiu, eu fiquei pensando em qualquer coisa, peguei um livro, Pessoa, Saramago, Tantra, Eram os Deuses Astronautas… tanto faz. Era um livro que eu gostava. Dormi. O soneca dispara a cada cinco minutos. Não consigo configurar pra dez. Levanto e vou fazer xixi. Vejo minhas olheiras no espelho. Vou ao quarto dar um beijo no rosto dele enquanto ainda dorme e fecho a porta. Nado, faço yoga. Volto. Fazemos café, vitamina com frutas, quinua, linhaça e leite de soja. A gente se beija, se abraça e come pão integral com manteiga. Vejo o que se passa na TV. Notícias de furacões, terremotos, maremotos, Mais Você, Bom Dia Brasil, agenda cultural. Fico em silêncio, acho que estou de mau humor sem motivo. Junto tudo na bolsa: o celular cheio de funções que ainda não sei usar, uma agenda cheia de papel e contas pra pagar, fones pra ouvir música no trânsito, livro pra ler na barca, bolsinha de moedas, carteira gorda de cartões de visita, cartão da Unimed, documentos, comprovantes do Visa… e vazia de dinheiro. A bolsa é de pano e fica pesada. Penso em levar a mochila. Não estou afim. Entra tudo na bolsa. Escovo os dentes, vou ao banheiro ficar mais leve e tomo banho com sabonete de mate verde pra me sentir mais perto do mato. Passo hidrante de guaraná. Ainda não uso creme anti-idade, se é que um dia vou usá-los. Escolho a roupa. Hoje é dia de trabalhar. Salto alto ou salto baixo? Vou de all star de couro e casaco meio blazer, calça apertada, brinco grande, lenço colorido no pescoço. Cabelos soltos até secar. Saio correndo, ando até as barcas porque preciso economizar. Os ônibus diretos têm demorado. A barca está saindo. Porque isso sempre acontece? Saio correndo com o fone quase caindo, livro em uma mão, guarda-chuva verde na outra. Consigo passar na roleta a tempo. Está frio mas estou suando. A barca está cheia, consigo sentar e ler um pouco mais. Chego na Praça XV. Preciso comprar um presente de aniversário para um amigo. Vou até a livraria. Escolho e pago. Saio. Corro pra pegar outro ônibus. No ponto uma criança pede dinheiro. Todo mundo desvia dela e ninguém olha no olho da criaturinha. Dou uma moeda para poder comer ou para o seu ópio diário. Sei que ela precisa mais que eu dessa moeda. Pego o ônibus, está cheio. Minha irmã manda uma mensagem e diz que pode passar lá em casa na semana que vem. Um ambulante vende canetas a um real. É bom poder comprar canetas a um real. Um pouco de trânsito, uma pessoa em cada carro. Quem anda de carro não pode comprar canetas a um real… e ainda perde as pérolas que ouvimos por aí. O ônibus dá um freiadão, todo mundo reclama. Os carros todos buzinam. Um senhor bêbado grita pela janela: passa por cima mané! Uma patricinha não dá sinal direito e xinga o motorista porque ele não pára no ponto. Enfim, eu desço do ônibus. Atravesso a rua, depois a passagem subterrânea, atravesso um shopping, mais uma rua e finalmente chego. Subo as escadarias do prédio neoclássico. Chego à sala. Ainda vazia. Encho uma garrafa de água pra beber. Aproveito para me concentrar no texto e no orçamento que tenho que fazer. Antes vejo os emails. Há mensagens da equipe do projeto que estou trabalhando pela empresa. Há trocas de emails efusivos sobre a nova proposta por aqui, há um recado da pós dizendo quando as aulas começam. Há muitos emails da banda pra gente decidir a ordem das músicas do show, o que gravar, que dia fotografar, que músicas eu canto melhor. Há recados de amigos com saudades, de alunos ainda sem nota, de outros que querem fazer projetos. E um monte de piada, powerpoints moralistas, petições, indicações de vídeo do youtube, publicidade, spam. Vejo o que é mais importante, outros guardo para a noite ou o fim de semana. Vejo ainda rapidamente as notícias. Nada de novo. Trabalho. Bate a fome mas tenho muito a fazer. Almoço tarde. Como arroz integral, feijão, legumes, bebo suco de laranja. Dá vontade de um doce. Hoje não. Volto e todos estão lá. A concentração vai para o espaço. É a hora da produção e de reivindicações. Muitas vozes, o telefone não pára de tocar. Na rua, buzinas. Dentro, começa uma reunião. Muitas vozes… Eu falo, tu falas, ele fala. É preciso fazer um cronograma. O tempo passa, preciso ir. Olho para a tela do computador e não vejo mais nada. Estou cansada. A cabeça dá um nó. Um amigo liga me chamando pra sair. Hoje é impossível, eu falo. Mas a gente marca na semana que vem uma catarse. Saio e espero o ônibus direto. Ele demora e passa lotado. Fico puta. Penso em reclamar. Mas com quem reclamar da máfia? Decido ir de barca. Pego um ônibus até lá. De novo a barca está saindo. Corro. Consigo pegar mas está lotada. Encontro um lugar. Minha mãe me liga dizendo que sumi. Digo que estou fazendo muita coisa e o tempo tá curto. Um dia trabalho, no outro também, um dia ensaio, no outro limpo a casa, faço compras. E é preciso namorar, ver os amigos, beber cerveja, curtir um som, um filme, uma trilha, uma praia. É preciso criar. Penso em tudo isso. Penso nos lugares que quero conhecer, na próxima viagem, na música que não consigo acertar, naquela que ficou linda, nos encontros, nos desencontros, no presente, no passado, no futuro, nos cogumelos que quero fazer no fim de semana, e no vinho para acompanhar. Penso nos livros que preciso ler, na frase do Nietzsche, no lixo da Baía de Guanabara. A barriga dá sinal de vida. Tenho fome. Esqueci de trazer meus biscoitos integrais. Ouço uma música. A barca chega, eu pego um ônibus porque estou cansada e não quero andar. Mas também é um pouco tarde. Em casa, enfim. Me dá vontade de comer pão com azeite e sal e beber suco. Faço isso. Como ainda um iogurte natural. Vou organizar a agenda e trabalho no mapa de palco da banda. Entro no orkut e vejo fotos engraçadas. Alguém que não conheço quer ser meu amigo. Excluo. Leio. Ouço música. Ligo para matar as saudades dele. Ligo a TV. Desligo a TV. Escrevo. Bebo chá de hortelã. Ligo para uma amiga para combinar o café e a conversa de trabalho regada a fofoca. Tomo passiflora porque tenho tido insônia. Procuro algo no Natureza Divina para expandir a consciência e minha paciência se esgota na Internet. Penso. Penso. Penso. E canso. Vou dormir. Penso que amanhã é sexta. E que sábado tem ensaio e depois tem festa. Penso que tenho que visitar meus pais pra matar as saudades. Lembro que tenho roupa pra lavar e a perna pra depilar. Penso que podia ficar frio mas fazer sol. Penso em como arrumar dinheiro pra fazer meu curso de mergulho e para ir para Portugal. Quase esqueço do despertador. Aciono. Penso em como sou feliz, penso em como sou confusa. Penso que daqui a pouco vai estrear um filme que estou louca pra ver. Penso que quero silêncio. Há carros passando na rua. Ligo o ventilador. Medito. E durmo. Amanhã o dia é outro. Completamente igual e completamente diferente.