Escorre meu coração
Através de um adagio
A chuva rememora
O frio da infância
Era um naufrágio de névoa
Cobrindo as montanhas
E cheiro de avó na cozinha
Preparando a refeição
Escorre e aperta
Respira e se eleva
Ao solo terroso
Ao que espera
De um desejo novo
Atravessa a partitura
E cria, o coração,
Literatura
A chuva insiste
Mas acalenta quentura
Da companhia
Dos poetas na estante
Estou repleta
Completa de mim mesma
O frio traz saudade
O calor que tenho dentro,
Liberdade
Escorre meu coração
Ora grave
Ora vivace
Blog
País tropical
Moro num país tropical
Abençoado e maltratado
Há no parlamento
Asquerosos mal dotados
De intelecto e amor
Ladrões por toda parte
E boa parte da gente
Dá jeitinho em tudo
Pura arte?
Corrompem-se por bem pouco
E suas fraquezas esfaqueiam
As potências do outro
Dizem que todo mundo
Tem seu preço
Já me ofereçam tudo:
Cargo, dinheiro
No dia a dia
Tentam me comprar
Com vaidade, desejo
Mas eu prefiro as árvores
Moro num país tropical
E há nele um homem prepotente
Que se intitula presidente
E se eu quisesse continuar a rima
Diria que impotente
E por aí vai
Mas minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
E ela é um deleite para poetas
Pena que não se compreende mais nela
A força dos estetas, dos livros e das festas
Mancham de sangue os coretos
Rotulam jovens estudantes de baderneiros
Estrangulam as liberdades
Como estupram moças a cada esquina
E depois as culpam pela saia pequenina
Mas dizem que a história é cíclica
– Deveríamos respirar? –
E se isto nos desespera
Também nos alerta
Para lembrarmos que um dia tudo irá mudar
Mas é claro que não do seu sofá
Há que se levantar e criar!
Este é o lema
Busquemos palavras de ordem
Que sejam mais que emblemas
A forma cada um que busque a sua
Há inúmeras
E nenhuma é pequena
Pequena é a alma dos que nos acham supérfluos
A minha poesia, a sua arte, o nosso mistério
Patológicos do poder
E do rebanho
Grito alto a vossas mediocridades:
A vida bate! Mesmo que tentem matar a nossa arte.
“Subterraneamente, a vida bate”
Rio de Janeiro
Novembro/2016
Phoenix, um poema
Derradeiro
Ante o imponderável
Paro e sinto
Que mistérios ligam
Os meus sentidos
Ao infinito
Pensar alturas não é só para poetas
A vida tem asas e abismos
Pairando no tempo o espaço aberto
Rasga um coração
Derramamentos
Fosse meu corpo um cetro
Eu o traria agora para mim
Dono de si-realeza-interna
Cavalheiro de cor marfim
Ante o impossível
Paro e observo
O antes improvável
Torna-se certo
Que de noite seja dia
Porque não
Que o dia seja raro
O beijo desejado
Acontecido
O fosso das almas perdidas
Encontrado
Fosse minha mente uma jangada
Eu faria deste planeta um só mar
Inteiro sem fronteiras e sem leis
Cozido no amor com sabor de manacá
Ante o inconsciente
Paro e respiro
Que palavras se parecem
Com o que digo
Que as estrelas sejam olhos
Que os olhos sejam fome
Talhado na pedra o charque
Fervido na brasa o molho
Arado o solo-chão para o sexo
Fosse o meu mundo terroir
Eu distribuiria música com Dionísio
Beberíamos todos em sol maior
Aniquilados pela sorte do vinho
Ante o imponderável
Arde sempre o impossível
Inconsciente sensitivo
E ante tudo isso
Existe nada mais
Que os nossos frios e sismos
Abalos humanos desmedidos
Estejam preparados os nossos pêlos
Tudo tem origem
Num ínfimo instante
Derradeiro
Um cisne em voo solo – carta para Stefania
Imoral e física
Sou fagulha de sol
Na direção do improvável
Tudo o que imagino
Realizo
E minha aura radiante paiol
Veste túnicas de cetim sanguíneo
Há que se considerar que,
Afoita,
Jamais manseio
E que, carregada de arpejos,
Não me entrego a qualquer fato
Hoje, avalio ontem
Repenso
Estratégia me faz
O tempo me ensinou a ser selvagem
E a catarse dos momentos
A manter foco em arte
Sou arma de forte na entrada no mar
E pirata que toma os navios da realeza
Não concebo
Moral
Que a alma não aprove
E me debruço à falta dela
Porque me sirvo
Desejo
Há quem se alimente de restos
E se contente com palavras belas
Ou sou diversidade
Aquarela
Ou me recuso a ser esteta
Prefiro a imoralidade da traição
À sensação castrati de viver obrigada
De que adianta alcançar as notas
Sem que o corpo conheça
A dança apaixonada
Há quem pense em agudos
E, só depois, em graves
Eu deslizo por toda a grade
Sou fagulha de nada
Que sabe ser tudo
Não me culpo a arrogância
De me sentir um Deus
Existem ditados
Que dão lições de sentido
Ouço apenas os que traem
Nosso cotidiano cinismo
Há quem se aprofunde nos rasos
Eu, encaro os abismos
Carta a quem interessar
Não me importam as tuas narrativas
Mas o que dizem as entrelinhas
As fotos que publicas
Os poemas que recordas
As músicas que gostas
Não me dizem nada
Não sou fã das aparências
Procuro o que escapa no teu gesto
A significância do que mostras
E o desejo por trás de tuas apostas
Não me interessam
A voz bandida ou de anjo
Se tu te achas do bem
Ou se te achas do mal
Eu me divirto com adjetivos
São apenas possibilidades da linguagem
Julgamentos morais não me atraem
Pois o que realmente te faz
Fica guardado no teu plano mais secreto
Se tu gostas de mim ou não
De nada me interessa
Tua opinião é só mais uma entre sete bilhões
Quero saber o que isso me diz sobre ti
E o que te faria largar o teu ego
O que expressas numa mesa de bar
Interessa à sociologia e ao teu analista
(Como o que expresso, ao meu)
A mim interessa o que existe
Quando estás só e em silêncio
Quando toda a luz já se apagou
E toda a cultura dorme
Quando mostrar-se já não é necessário
E os medos e as dores
Já não podem ser deixados de lado
Quando sofres, me interessa!
O que te alegras a alma sem alarde, me interessa!
O que desejas quando ninguém está por perto,
O que te moves e te feres no peito,
E te fazes todo dia manter-te no caminho…
Isso é o que me interessa de ti!
Oração
Que a poesia me livre
Das suas prisões
E das minhas e das de todos nós
E me permita, ela,
Sempre a liberdade
Ainda que subjugada
Sob a bandeira da necessidade
Ou a sentimentos presos
Em gargantas ilhadas
E que minhas verdadeiras intenções
Não sejam reveladas
A quem não merece conhecê-las
E meus desejos mais secretos
Sejam apenas meus e daqueles que escolho
Que o tesão se faça todo dia
Nas brechas dos momentos burocráticos
E através deles
E a ironia sorria para os que mentem a si mesmos
E fingem ser o que não é
De tal forma que se tornam caricaturas ao espelho
E que venham sonhos e nos libertem, todos
E sejam eles os meus guias
Nessa estrada de vidas que se querem poucas
Que minha face mais verdadeira
Seja dada aos momentos de fato sinceros
E as máscaras certas sejam usadas
Nas horas em que só cabe sobrevivermos
Que eu não tenha medo
E ele também não
E ela também não
E nem eles, nem nós,
Nem irmãos ou inimigos
E sejamos todos capazes
De ver que nada somos
Para além do nosso umbigo
Para que a poesia de ser nada
Se instaure nas raízes do coração selvagem
E faça brotar uma vida mais leve
Filha da mais profunda viagem
O primeiro dia
Todo dia é sempre
O primeiro dia
Do resto de nossas vidas
Dia de dizer palavras duras
Que já não podiam não ser ditas
E ouvi-las, algumas
De descobrir que o amor se fortalece
Mesmo quando a gente esquece
– Quando se deve esquecer –
E nos dias cinzentos dos afastamentos
Que carregam a esperança
Dos novos e futuros felizes momentos
Todo dia é dia de saber
Que existe amor no sim
Mas também no não
E que não e sim
São como luz e escuridão
Todo dia é dia de jogar coisas fora
Aquelas cartas de anos atrás
Que estavam empilhadas em pastas
Por sua vez empilhadas em armários
Por sua vez empilhados – pesados –
Num excesso de memória
Dia de descobrir que elas
Não servem mais a nada
Que não à história
E é só no coração o seu lugar
Para que guardar tanto objeto
Em um mundo já repleto?
E porque represar energia
Quando deve o novo chegar?
Se o se que passou só existe
Como lembrança e aprendizado
– às vezes como o inventado –
E nem existe ainda o que virá
Sejamos poetas do agora!
Porque todo dia amanhece
Anoitece e retorna a aurora
Sempre na promessa do novo
Sempre na função de um espia
Olhando em direção ao horizonte do mar
Com olhos de quem busca a infinita alegria
Porque todo dia é de basta
Todo dia é de festa
Todo dia é de não dá mais
Todo dia é de promessa
Todo dia é do fim delas
Todo dia é de um santo
Todo dia é de engano
Todo dia é dia de dizer eu te amo!
E de aceitar
O que não se controla
O que não se isola
E deixar voar os pássaros
Que precisam sair das gaiolas
Todo dia é dia de enfrentar
O medo do suspiro derradeiro
E seja ele banhado de paz ou de dor
É sempre o primeiro
Astrolábio
Partiu mais um barco
De amar qualquer coisa
Foi dar ao barco
O meu próprio nome
Sem renegar
Que já existiu!
Que me torno meu próprio
Se paralelas se cruzam no infinito




