Apenas de poesia

Se eu pudesse
Viveria só de poesia
Encarnada na beleza
E na crueldade do sutil
Largaria os delírios errados
As planilhas sem vida
Os contratos que amarram
A burocracia construída

Pois amanheci desejando mergulhar
No que revelam aqueles olhos
Foi por pouco que não te disse,
Não sei bem de que maneira,
Que devias ser meu, por que não

Amanheci querendo o brilho dos girassóis
Dos quadros de Van Gogh na minha janela
E quando eu olhasse a vida lá fora
Não veria apenas os carros que passam

Amanheci querendo mais a prosa de ontem
O riso amigo talhado em reencontros criativos
O prosecco providencial de uma noite sem fim
Poética dos tempos sem tempo da paixão

Amanheci querendo diluir minha alma
No andantino da quarta de Tchaikovsky
Ainda que o russo não rime com o português

Mas amanheci e já tocava o telefone
E me lembrei da moral
E já era tarde para o capital
Pois que lugar pode ter a poesia no tempo do trabalho
Pois que lugar pode ter a poesia no tempo das convenções
Pois que lugar pode ter a poesia no suco verde da manhã

Se eu pudesse
(e poderei!)
Viveria – e morreria a cada dia –
Apenas de poesia

As quatro estações cariocas

A Primavera

Chegada é a Primavera
Se uirapuru ou sabiá que a saúda, que importa
Correntezas aninham-se aos ventos que celebram pássaros
E as águas correm aliviando o doce calor carioca

Uma tempestade se anuncia no horizonte marítimo
Trovões levantam as ondas e alegram meninos
Ao seu fim, retornam as andorinhas ao Arpoador
E distribuem hipnóticos cantos sob o céu azul

Neste cenário de luz entre o mar e o bairro alto
Ao balançar das árvores e às buzinas de carro
Dorme o mendigo com um buquê de flores e o seu cão ao lado

Do pastoral subúrbio ao centro festejante
Dançaria Vivaldi um samba ao seu próprio furor e abrigo amado
Da primavera, cuja aparência de quase verão é brilhante e austera


O verão

Sob a dura estação pelo sol incendiada
Lânguidos homem e cachorro, arde o meio dia
Libertam as maritacas seu canto estridente
Cantores correm para os teatros à refrescar a poesia

Um doce vento norte se vai, e uma disputa
É improvisada pelo sudoeste das viradas na praia
E lamenta o marujo, porque sabe
Teme a feroz tempestade e é seu destino enfrentá-la

Toma dos pobres , após a lida, o repouso
O temor de alagamentos e trovões
E, de repente, inicia-se o tumulto furioso

Temor este, verdadeiro, que fulmina um céu vermelho
E um vendaval, a controverso modo, expulsa o suor dos dourados corpos
Que ora chove e assusta, que ora é o sol a pino que expulsa


O outono

Celebram os cariocas, com danças e cantos,
O grande prazer de um clima mais ameno
Entorpecidos ainda pela cerveja
Encerram as noites em bares sob a lua cheia

E ao fim dos carnavais e do sol estendido
O clima de outono é aprazível
E a estação convida a todos
A gozar um sono auspicioso

Mas o trabalhador, na nova manhã, sai à lida
Com ferramentas, gravatas, corre ao metrô, que irrompe
E foge do calor, da navalha, fogem dele as suas madrugadas

Exausto e em busca de um grande amor
Por dias e noites de cansaço e ameaças
Seu corpo pede calma, seu coração, oprimido, pede alma


O Inverno

Agitado tremor traz o dia cinza
Ao alegre sussurrar de tempos mais gélidos
Sacamos nossos casacos e echarpes
Batemos os dentes para lembrar que é inverno

Subir a serra e acender lareira
Enquanto lá fora a chuva fina traz neblina
Caminhar sobre o asfalto molhado a passos lentos
Gozando cada momento de frio parco, com medo de deixá-lo

Imaginamos gelo, abrimos vinho, namoramos no edredom
Há melancolia também em nossos corações
Que buscam a poesia no cintilar do orvalho da manhã

Sentimos, ao abrir a porta, arrepiar os pêlos
Ventos invadem os desejos por todos os lados
Cariocas também gostam de dias nublados

Uma releitura carioca dos sonetos de Antonio Vivaldi
Escritos no verão de 2016, no Rio de Janeiro, para interpretação com a orquestra Johann Sebastian Rio

O universo das coisas não publicadas

Sento-me diante dela
A quem costumamos nomear vida
E à rosa subsiste seu nome

Deixo de lado cetro e vaidade
Acomodo-me em seu sítio forte
Onde trono é tronco de árvore

Ela me solicita despir-me
Abandonar os livros e a razão
Para ouvir o que grita

Recolho os meus sentidos e os vazios
Meus demônios dizem
Que talvez não valha a pena

Uma nudez com pena da morte?
E a morte ri na minha cara
E diz que é vida ainda

Retiro, então, a pele
Marcada mesmo
É por traços invisíveis

E encaro os profundos olhos dela
Vida ou morte, tanto faz
São fêmeas

Ambas dão a luz
E são a mesma face cálida
Mirando as nossas fragilidades

Para extrair delas
O óleo essencial de nossas almas
Verdades

Busco em seus espelhos
Os porquês
Em vão, tolice

Disparo sangue pelos meus
Com o coração chovendo espinhos
Despedaçado

Ao lembrar a infância feliz
Com cheiro de mato
Totem de um tempo já perdido

O que importa é fluído
A vida é círculo
E de tudo resiste sempre uma flor

De cada vida na nossa, pólen
Flor até mesmo quando feia
Como o poeta confrontou à náusea

Espiral de muitas camadas
Tudo o que está fora dos compêndios
Incerta e exata

Universo paradoxal
Das coisas não publicadas
De tão singulares

A vida
Tão frágil
E ainda assim uma estrela iluminada

Pote de ouro
Círculo mágico
Lótus em comunhão com o infinito
Composta de notas raras

E bela, até mesmo no fim
E todo fim é também início
Óbvia conclusão
Pra um interstício

Tema clássico

Escorre meu coração
Através de um adagio
A chuva rememora
O frio da infância
Era um naufrágio de névoa
Cobrindo as montanhas
E cheiro de avó na cozinha
Preparando a refeição
Escorre e aperta
Respira e se eleva
Ao solo terroso
Ao que espera
De um desejo novo
Atravessa a partitura
E cria, o coração,
Literatura
A chuva insiste
Mas acalenta quentura
Da companhia
Dos poetas na estante
Estou repleta
Completa de mim mesma
O frio traz saudade
O calor que tenho dentro,
Liberdade
Escorre meu coração
Ora grave
Ora vivace

País tropical

Moro num país tropical
Abençoado e maltratado
Há no parlamento
Asquerosos mal dotados
De intelecto e amor
Ladrões por toda parte
E boa parte da gente
Dá jeitinho em tudo
Pura arte?
Corrompem-se por bem pouco
E suas fraquezas esfaqueiam
As potências do outro

Dizem que todo mundo
Tem seu preço
Já me ofereçam tudo:
Cargo, dinheiro
No dia a dia
Tentam me comprar
Com vaidade, desejo
Mas eu prefiro as árvores

Moro num país tropical
E há nele um homem prepotente
Que se intitula presidente
E se eu quisesse continuar a rima
Diria que impotente
E por aí vai

Mas minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
E ela é um deleite para poetas
Pena que não se compreende mais nela
A força dos estetas, dos livros e das festas
Mancham de sangue os coretos
Rotulam jovens estudantes de baderneiros
Estrangulam as liberdades
Como estupram moças a cada esquina
E depois as culpam pela saia pequenina

Mas dizem que a história é cíclica
– Deveríamos respirar? –
E se isto nos desespera
Também nos alerta
Para lembrarmos que um dia tudo irá mudar
Mas é claro que não do seu sofá
Há que se levantar e criar!
Este é o lema
Busquemos palavras de ordem
Que sejam mais que emblemas
A forma cada um que busque a sua
Há inúmeras
E nenhuma é pequena
Pequena é a alma dos que nos acham supérfluos
A minha poesia, a sua arte, o nosso mistério

Patológicos do poder
E do rebanho
Grito alto a vossas mediocridades:
A vida bate! Mesmo que tentem matar a nossa arte.
“Subterraneamente, a vida bate”

Rio de Janeiro
Novembro/2016

Phoenix, um poema

Para Sergio Roberto de Oliveira
De tudo renascemos – Anunciou-se!
Do pó viemos ao pó retornaremos
Para dele, reerguermos sonhos – não muros,
No ciclo eterno de vida renovada
Teu corpo é de cada humano – Alvorada!
Tua dor quem sente é o mundo
Pelos fios da linguagem universal
Emoção-sal
De corpo água-forte
Respirar não é mais
Que impermanência e sorte
E, de repente, a morte
E o primeiro reviver
Simultâneos intervalos
Quando nasce a morte
Morre o passado
Ambos um só, sem hiato
E eis que ela, a vida,
Brilha no choro agudo
Da criança recém-nascida
Morre o jovem, nasce o pai!
Eis o que se consuma!
E celebra-se a bruma!
Segue-se a jornada
Em seu curso, amarrada,
A criança crescendo, o pulso, a estrada,
Dias e noites cumprindo o seu destino insano
E, então, de novo ela, dilacerando,
A morte na forma do fim do amor
Para renascer, em exato instante,
O novo amor que se torna errante
Qual relógio que passa de pai para filho
Mas em novo pulso, resignifica
Morre o marido, nasce o eterno amigo!
Eis o que se consuma!
E, então, inteiro homem!
Até que num pedido de socorro do corpo
Toda lógica perde o sentido
Tonalidade, rima, ritmo
Tudo é abismo
O que se consuma é paraíso?
O que pode um câncer?
Corpo mesmo que se dobra
E se retorce
Cada célula alimentando à si mesma
A morte
Tentando ela entender, a contraforte,
A nota distorcida,
A vibração de desejos que não mais
Compõem-se com os beijos
E definha, renega,
E, como se não bastasse tal sorte,
É renegado
Vela rasgada
De barco abandonado
Que chora
Chora rios
Hipérboles, sim, fazem sentido!
E de tal coisa abissal que é o abandono
Brota a morte de tudo ao redor
Estepe estranha da alma
Lama arremessada na calma
Cheiro de enxofre
Maremoto na noite
Intransponíveis montanhas
Era melhor que fosse mesmo lama
Infinito sem rumo do corpo nu
Era melhor que não fosses tu, mulher…
Poderia dizer
Poderia nunca mais querer viver
Mas amor…
Amor é para os fortes
É atravessar desertos sem garrafas d’água
E sobreviver!
A alma de quem ama
É suspiro em meio ao drama
Jamais adormece ou se apequena
Ou faz contas por obrigação
Silêncio em meio ao não
E festa quando tudo é trama
E a tristeza,
Ainda que o poeta diga não ter fim,
Consome-se em riste para renascer.
Verso triste este meu
Que chega a ti para dizer
Imperativo: sorria!
Que o que não tem mesmo fim
É a vida
Ainda que as células
Digam que sim
Mas tu crias!
Grades férreas
E doces de sonora poesia
Para nós a vida é eterna
Do tempo, terna senhora!
Eis o que se consuma!
E revem a aurora!
Pois, anima-te, amigo!
Veja que o horizonte faz abrigo
Uma luz de lua nasce sem sentido
Embriagada a fome nossa
Dos que criam livros
De palavras, notas
E receitas claroneadas
A natureza é sábia
E tudo ensina
Alumiando pós dias cinzas
Renasce alegria
Arrumação!
Eis o que se consuma!
Morre uma vida, nasce uma!
De tudo renascemos
Do pó viemos, ao pó retornaremos.
Anunciou-se – E fez-se som!

Vanessa Rocha
Rio de Janeiro, junho de 2016
Inspirado na história de Sergio e em sua música autobiográfica
Phoenix, para clarineta e orquestra sinfônica

Derradeiro

Ante o imponderável
Paro e sinto
Que mistérios ligam
Os meus sentidos
Ao infinito
Pensar alturas não é só para poetas
A vida tem asas e abismos
Pairando no tempo o espaço aberto
Rasga um coração
Derramamentos
Fosse meu corpo um cetro
Eu o traria agora para mim
Dono de si-realeza-interna
Cavalheiro de cor marfim

Ante o impossível
Paro e observo
O antes improvável
Torna-se certo
Que de noite seja dia
Porque não
Que o dia seja raro
O beijo desejado
Acontecido
O fosso das almas perdidas
Encontrado
Fosse minha mente uma jangada
Eu faria deste planeta um só mar
Inteiro sem fronteiras e sem leis
Cozido no amor com sabor de manacá

Ante o inconsciente
Paro e respiro
Que palavras se parecem
Com o que digo
Que as estrelas sejam olhos
Que os olhos sejam fome
Talhado na pedra o charque
Fervido na brasa o molho
Arado o solo-chão para o sexo
Fosse o meu mundo terroir
Eu distribuiria música com Dionísio
Beberíamos todos em sol maior
Aniquilados pela sorte do vinho

Ante o imponderável
Arde sempre o impossível
Inconsciente sensitivo

E ante tudo isso
Existe nada mais
Que os nossos frios e sismos

Abalos humanos desmedidos
Estejam preparados os nossos pêlos

Tudo tem origem
Num ínfimo instante

Derradeiro

Um cisne em voo solo – carta para Stefania

Querida Stefania,
espero que esteja tudo bem por aí. Por aqui teremos que aprender a conviver com a sua partida. Porque a vida segue em todos nós. Em você também, porque acredito que tudo é uma coisa só, vivemos em espirais do tempo e do espaço. Neste momento, estamos apenas em dimensões diferentes da existência. Logo, teremos que aprender a conviver com a sua partida desta dimensão aqui. 
Queria te dizer muitas coisas bonitas, mas as palavras são limitadas. Podem ser muito belas, é verdade, e eu vivo buscando beleza através delas. E, junto a elas, explicações e narrativas para o que vivo. Como faço agora nesta carta para ti. Mas acredito que é para além das palavras que a beleza se manifesta mais plenamente. Por exemplo, na natureza, que você tanto amava. E na música, que você dançava. Na noite em que eu soube da sua partida, quando eu já estava sozinha, passei um tempo mergulhada nas palavras. Escrevi para mim, escrevi para o outro, racionalizei para tentar achar sentido. Então, já cansada, recorri a uma meditação para me conectar com a natureza dentro de nós. E, depois, fui à música, como sempre. Ouvi, em sua homenagem, o Réquiem de Mozart.
Ontem foi o dia mais triste. Muito embora você fosse sinônimo de alegria. Mas foi difícil evitar a tristeza. E sei que você vai entender. Quando recebi a notícia, fiquei em choque. Eu tenho uma casca bem dura, mas no fundo sou muito sensível. E fico em choque até o tempo me ajudar a processar as coisas. Talvez por isso você me achava uma referência, porque as nossas almas conversavam. E eu te digo: que honra! Você também foi para mim! Que honra ter trocado tanto contigo nesta vida. Após a notícia, eu desliguei o celular e sentei num banco sem saber por que sentava, mas a minha vontade era sair correndo daquele lugar meio escuro e meio frio em que eu estava e ir para um lugar iluminado como você. E foi o que eu fiz. Eu saí correndo. Desci seis andares de escadas, transtornada. E cheguei a um lugar claro, segurei o braço de uma pessoa querida e pedi um chá. E a vida colocou também, neste mesmo lugar claro, uma outra pessoa para me ajudar, tão sensível quanto você, tão artista quanto você, e que segurou a minha mão e me contou histórias que eu achava nem estar processando, tamanho o estado de choque em que eu estava, que nem um choro descente me vinha aos olhos. Mas que foram as palavras que eu deveria ter ouvido naquele momento para, quem sabe, reforçar a minha fé inabalável (espero que sempre inabalável) na beleza (e nos mistérios) da vida. Era alguém que estava ouvindo falar sobre você pela primeira vez, mas que eu soube que te entenderia. Talvez não estivesse mesmo ali por acaso. Tive sorte! Depois falei com os amigos que estavam por perto, todos artistas também como você, e liguei para a minha mãe e para o meu pai e, então, liguei para uma amiga que passou por dor semelhante há pouco tempo e que tem uma sensibilidade como a nossa, desse jeito de se sentir inadequado no mundo, em busca sempre de criar o mundo à sua maneira. Ela também te entenderia. E fui compreendendo o aparentemente incompreensível. Mas ontem… ontem eu chorei muito. Imagine o que foi falar com o seu irmão sobre isso!? Com a sua mãe… Sua mãe, hoje, quando nos despedimos do seu corpo, me disse para sempre me lembrar de você com amor. E eu disse a ela que não havia outra forma de pensar em você. Afinal, eu te conheci tão menina por conta do amor. E só o que vi em ti nesse tempo todo foi amor transbordando. Seu pai me falou que serei sempre da família e, com aquele jeito brincalhão, disse que para ele, eu e Pedro seremos sempre uma coisa só. E nós conseguimos rir alguns segundos com essa frase no meio da tristeza. Imagino a gente sentada com ele, Pedro e a sua mãe na mureta da Urca, bebendo um suco, e você rindo horrores disso. Eu e Pedro uma coisa só é uma imagem engraçada. Sua tia, seu tio, sua avó, seu avô, a Maria, estavam todos lá para me dizer que eu serei sempre da família e que você me amava muito. Eu também te amava muito. Ainda que estivéssemos nos vendo tão pouco ultimamente. A Analu, que foi comigo, nos conectava também. Assim como o seu irmão. Lembra como você ficou triste quando a gente se separou? Mas, muito inteligente que era, entendeu muito bem que amor não acaba, só mudam as formas. E como você entendia de amor. Era amor em estado bruto, com uma potência tão grande que só seria capaz de implodir. E tenho profundo amor por essa família que também me constitui. Serei sempre da família sim! E sou grata por tê-los no meu coração. É bom ter várias famílias. É bom ter você como irmã, mais uma! Quanto tempo se passou, não é? Já são quase 18 anos. Você cresceu, “virou mulher”, como dizem por aí, atriz, bailarina, cisne! E cá estamos, agora, vendo esse cisne voar. E ainda dizem que cisnes não voam…
Ontem, nesse dia mais triste, eu também recorri à música. E à dança. Minha mente resistiu um pouco. Eu estava no Theatro Municipal e acontecia o ensaio geral do Lago dos Cisnes. Claro, como não pensar em você, bailarina! Resisti, mas resolvi dedicar a você aquela libertação do cisne. Chorei em silêncio e essa foi a minha oração num templo das artes para a artista iluminada que você foi, e que encheu a vida de todos que te conheceram de uma doçura, uma profundidade e uma delicadeza fora do comum. Tchaikovsky também seria capaz de te entender profundamente… Muitos seriam. O mundo está cheio de pessoas com essa sensibilidade rara como a sua. Mas infelizmente a gente, como corpo social, ainda é muito frágil. Ainda cria para o medo, oprime, sufoca as manifestações de afeto e a espontaneidade em prol do simulacro, da imagem, do ego, das personagens falsas das redes sociais e de uma falsa ideia de segurança. Temos muito medo. Coisa que você não tinha. Pessoas comprometidas com a potência da vida, que sentem a vida como um calafrio na pele o tempo todo, têm que cavar seus espaços com muito esforço no meio dessa cegueira social toda. E nós somos muitos. Alguns resistem e criam, outros decidem não continuar. Não é fácil, não é? Mas é muito bom quando a se gente se encontra e se reconhece.
Sei, Stefania, que a vida é cheia de mistérios. Hoje, depois da despedida derradeira, te vejo como um anjo. O cisne que foi dançar em outra dimensão e que, como anjo que é, vai continuar operando milagres na vida de todos nós. Quem vai saber. Quem é que sabe dos mistérios. Se vivemos em espirais, perdas e ganhos fazem parte do mesmo processo, do mesmo movimento. Tudo é uma coisa só. Movimentos do mesmo universo. Quem sabe o que se está por ganhar diante das perdas, mesmo as mais dolorosas? A vida é uma fita de impermanência, de incertezas, de fins e começos. É assim mesmo. Temos que desenvolver serenidade para aceitar o que não somos capazes de entender. E aceitar inclusive quando algo já acabou, já “deu o que tinha que dar”. Não deixa de ser também uma generosidade. Aceitar o fim é aceitar também a potência da vida. Ela só é potente porque existe esse movimento do ir e vir. Não existe vida sem finais. Ela é tão somente movimento e dele depende! Só existe uma coisa que é permanente e que conecta esse movimento do ir e vir. É o que acredito, pelo menos. Essa força é o amor. E ela está tanto nos começos quanto nos finais, diferente do que nosso medo quer nos fazer acreditar. Você sabia disso. E partiu nos deixando um legado: é preciso apostar no amor. O resto é consequência! Descanse em paz. Voe hoje como voava ainda tão nova (olha você aí embaixo, ainda pequenina). Voe, grande e belo cisne! Cisnes sabem sim voar! E daqui há um tempo, veremos o que o seu voo terá nos trazido!
Com amor,
Vanessa
10/06/2016

Imoral e física

Sou fagulha de sol
Na direção do improvável
Tudo o que imagino
Realizo
E minha aura radiante paiol
Veste túnicas de cetim sanguíneo

Há que se considerar que,
Afoita,
Jamais manseio
E que, carregada de arpejos,
Não me entrego a qualquer fato
Hoje, avalio ontem
Repenso
Estratégia me faz
O tempo me ensinou a ser selvagem
E a catarse dos momentos
A manter foco em arte

Sou arma de forte na entrada no mar
E pirata que toma os navios da realeza
Não concebo
Moral
Que a alma não aprove
E me debruço à falta dela
Porque me sirvo
Desejo

Há quem se alimente de restos
E se contente com palavras belas
Ou sou diversidade
Aquarela
Ou me recuso a ser esteta

Prefiro a imoralidade da traição
À sensação castrati de viver obrigada
De que adianta alcançar as notas
Sem que o corpo conheça
A dança apaixonada

Há quem pense em agudos
E, só depois, em graves
Eu deslizo por toda a grade

Sou fagulha de nada
Que sabe ser tudo
Não me culpo a arrogância
De me sentir um Deus

Existem ditados
Que dão lições de sentido
Ouço apenas os que traem
Nosso cotidiano cinismo

Há quem se aprofunde nos rasos
Eu, encaro os abismos

Carta a quem interessar

Não me importam as tuas narrativas
Mas o que dizem as entrelinhas
As fotos que publicas
Os poemas que recordas
As músicas que gostas
Não me dizem nada
Não sou fã das aparências
Procuro o que escapa no teu gesto
A significância do que mostras
E o desejo por trás de tuas apostas
Não me interessam
A voz bandida ou de anjo
Se tu te achas do bem
Ou se te achas do mal
Eu me divirto com adjetivos
São apenas possibilidades da linguagem
Julgamentos morais não me atraem
Pois o que realmente te faz
Fica guardado no teu plano mais secreto
Se tu gostas de mim ou não
De nada me interessa
Tua opinião é só mais uma entre sete bilhões
Quero saber o que isso me diz sobre ti
E o que te faria largar o teu ego
O que expressas numa mesa de bar
Interessa à sociologia e ao teu analista
(Como o que expresso, ao meu)
A mim interessa o que existe
Quando estás só e em silêncio
Quando toda a luz já se apagou
E toda a cultura dorme
Quando mostrar-se já não é necessário
E os medos e as dores
Já não podem ser deixados de lado
Quando sofres, me interessa!
O que te alegras a alma sem alarde, me interessa!
O que desejas quando ninguém está por perto,
O que te moves e te feres no peito,
E te fazes todo dia manter-te no caminho…
Isso é o que me interessa de ti!

Oração

Que a poesia me livre 
Das suas prisões
E das minhas e das de todos nós
E me permita, ela,
Sempre a liberdade
Ainda que subjugada
Sob a bandeira da necessidade
Ou a sentimentos presos
Em gargantas ilhadas
E que minhas verdadeiras intenções
Não sejam reveladas 
A quem não merece conhecê-las
E meus desejos mais secretos
Sejam apenas meus e daqueles que escolho
Que o tesão se faça todo dia
Nas brechas dos momentos burocráticos
E através deles
E a ironia sorria para os que mentem a si mesmos
E fingem ser o que não é
De tal forma que se tornam caricaturas ao espelho
E que venham sonhos e nos libertem, todos
E sejam eles os meus guias
Nessa estrada de vidas que se querem poucas
Que minha face mais verdadeira
Seja dada aos momentos de fato sinceros
E as máscaras certas sejam usadas
Nas horas em que só cabe sobrevivermos
Que eu não tenha medo
E ele também não 
E ela também não
E nem eles, nem nós, 
Nem irmãos ou inimigos
E sejamos todos capazes
De ver que nada somos
Para além do nosso umbigo
Para que a poesia de ser nada
Se instaure nas raízes do coração selvagem
E faça brotar uma vida mais leve
Filha da mais profunda viagem

O primeiro dia

Todo dia é sempre
O primeiro dia
Do resto de nossas vidas

Dia de dizer palavras duras
Que já não podiam não ser ditas
E ouvi-las, algumas

De descobrir que o amor se fortalece
Mesmo quando a gente esquece
– Quando se deve esquecer –
E nos dias cinzentos dos afastamentos
Que carregam a esperança
Dos novos e futuros felizes momentos

Todo dia é dia de saber
Que existe amor no sim
Mas também no não
E que não e sim
São como luz e escuridão

Todo dia é dia de jogar coisas fora
Aquelas cartas de anos atrás
Que estavam empilhadas em pastas
Por sua vez empilhadas em armários
Por sua vez empilhados – pesados –
Num excesso de memória

Dia de descobrir que elas
Não servem mais a nada
Que não à história
E é só no coração o seu lugar

Para que guardar tanto objeto
Em um mundo já repleto?
E porque represar energia
Quando deve o novo chegar?
Se o se que passou só existe
Como lembrança e aprendizado
– às vezes como o inventado –
E nem existe ainda o que virá

Sejamos poetas do agora!
Porque todo dia amanhece
Anoitece e retorna a aurora
Sempre na promessa do novo
Sempre na função de um espia
Olhando em direção ao horizonte do mar
Com olhos de quem busca a infinita alegria

Porque todo dia é de basta
Todo dia é de festa
Todo dia é de não dá mais
Todo dia é de promessa
Todo dia é do fim delas
Todo dia é de um santo
Todo dia é de engano
Todo dia é dia de dizer eu te amo!

E de aceitar
O que não se controla
O que não se isola
E deixar voar os pássaros
Que precisam sair das gaiolas

Todo dia é dia de enfrentar
O medo do suspiro derradeiro

E seja ele banhado de paz ou de dor
É sempre o primeiro