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o vento do tempo

faz pouco tempo
um vento, carregando o futuro,
entrou pelo meu quarto

era um vento forte
que fez voar as fotos
e carregava a sorte

vinha de longe
muito mais longe
que do mar e da montanha

vinha do tempo e de suas entranhas

vinha do tempo,
o vento,
do que se anuncia
e já, tão meu,
me enche de alegria

faz pouco tempo,
um vento entrou pelo meu quarto
e, no meu ouvido,
sem tempo,
sussurrou o seu rastro

Felicidade e nada mais

É sexta-feira à noite, e estou em casa, cansada e feliz, alegre por que amanhã, sábado, não terei hora pra acordar, o que não significa que não terei o que fazer… Como tenho! E por isso também me sinto feliz. São coisas que eu escolhi, porque elas me escolheram. Amor! E algumas (menos) que não escolhi, mas que já entendi que é necessário vivê-las porque elas têm algo a me ensinar. E uma coisa me anima nesse instante: escrever sobre a felicidade. Venho refletindo bastante sobre essa coisa que persegue a humanidade, e que perseguimos como um tesouro e, de tanto perseguir obsessivamente, acabamos por encontrar qualquer coisa, menos a tal da felicidade.
Mas hoje estou sentindo algo que se aproxima ao que chamo de felicidade. Então é sobre isso que minha mente inquieta junto aos meus dedos frenéticos a procura das teclas do computador estão querendo escrever. Não realizei nesta vida o que já foi um dos meus sonhos, ser pianista (sonho que talvez nem exista mais, já que outros falam tão mais alto), mas posso me considerar uma pianista das palavras. Gosto de pensar assim. Isso me faz feliz.
Como foucaultiana que sempre fui, acredito que felicidade não é um conceito dado e, a cada época, se reconfigura de acordo com os interesses e relações de poder estabelecidos. Já houve tempo em que a felicidade estava muito longe, na promessa da salvação, no paraíso, num plano etéreo que definitivamente não era a Terra. Mas acho que ela nunca esteve tão longe quanto hoje. Busca-se a felicidade incessantemente, e o que vemos cada vez mais são pessoas infelizes. A felicidade passou a depender de tanta coisa que se tornou um mundo “ideal” que não existe. Colocamos essa coisinha tão longe e demos tanta importância pra isso que ela simplesmente desapareceu. Sempre achei muito curioso como a sociedade ocidental contemporânea foge da dor como o diabo da cruz. O discurso da segurança é nosso discurso mais poderoso. O medo de envelhecer, um dos nossos grandes medos. A “perfeição” do corpo, uma obsessão. A perfeição como figura social também. Não pode fumar, não pode errar, não pode comer fritura, não pode brochar, tem que ter dentes brancos, pele lisinha, cabelos com brilho e sem frizz. Há que ser excelente em tudo: como profissional, amante, amigo, filho, marido, mulher, e o tudo o mais. Conceito de excelência que vem do conceito de eficiência empresarial. Culto da performance, como o nome de um livro excelente anuncia. Que saco… Bem, deixo claro que não estou aqui defendendo a esculhambação, mas falando contra essa doideira coletiva de achar que existe perfeição. 
Perfeição absolutamente não existe. Só posso acreditar na perfeição que considera o seu contrário, o imperfeito. Acho a imperfeição tão perfeita! Assim como me alegra saber quão imperfeita é a perfeição…  Será que é tão difícil entender algo tão óbvio? É! Primeiro, porque a gente cria mundos perfeitos na nossa cabeça. Segundo, e o que torna o primeiro grave, é que os criamos deslocados da realidade. Felicidade, se existe, tem a ver com realidade. Sonho tem a ver com realidade. Sonhar o impossível não é para os fracos (risos). Sonhar o impossível só faz sentido se você põe o impossível no plano do possível, e corre atrás, mas aceita que, em suma, nada controlamos e que o impossível é imperfeito, e que isso é perfeito…
Felicidade, então, para mim, tem a ver com dor. Que mania essa de fugir da dor… Que mania também de alguns de se afundar na dor e querer se tornar mártires. Acho que felicidade tem a ver com a aceitação da dor. Mas, indo mais além, com a aceitação do convite que a dor proporciona: o do autoconhecimento e do contato fundamental com os mistérios da vida. O mistério é tão necessário a nossa saúde mental! A obsessão científica em tudo querer explicar acaba gerando uma angústia que também coloca a felicidade nesse lugar inexistente… Felicidade tem farpa, tem espinho, tem espelho, tem ponto de interrogação. E ponto de interrogação tem maravilhar-se! Felicidade tem aspereza. Felicidade tem a ver com descobrir que, melhor do que as coisas acontecerem do jeito que você imagina, é a surpresa. Aceitar o tempo das coisas, o tempo do outro, o seu tempo, e deslizar nesse universo de tempos sobrepostos e em colisão ou comunhão, é felicidade. É felicidade ainda saber que tudo passa, tanto a tristeza quanto a alegria. Felicidade é ser agradecido tanto pelos momentos em que houve desespero e nada saiu como esperado, quanto por aqueles em que houve só a alegria daquela calma que sentimos nos momentos em que dizemos: eu não queria estar em mais nenhum outro tempo e lugar do mundo, mas exatamente aqui e agora. Felicidade é isso tudo, que é nada. É só viver sabendo que tudo é transitório. Não consigo negar parte da minha formação budista…
Infelizmente, nossa cultura parece não nos ajudar muito a aceitar a vida, que é caos. É uma cultura da culpa, do medo, da diminuição da coragem, da inflação do ego, da ideia de que ter (inclusive pessoas) é que traz felicidade. Uma cultura do “perfeito”… Impossível não lembrar de Nietzsche nessa hora e dos quatro grandes erros de “Crepúsculo dos Ídolos”, que talvez tenham movido Zaratustra a subir e descer a montanha, porque a felicidade se encontra nos dois atos, e na descoberta trágica do eterno retorno. 
Hoje, nesse exato momento, eu digo “estou feliz” e isso me soa sincero. E sabe por quê? Porque eu sofri. E porque eu ri. Porque eu levei mais de dez anos praticando yôga para começar a entendê-la. Porque eu tive coragem de ir pra onde deveria ir e tive coragem de voltar pra onde deveria voltar. Porque eu rompi, mesmo com medo. Porque eu conectei, mesmo com medo. Porque eu olho no espelho. Porque eu errei e aprendi com o erro. Porque eu sei que vou errar mais, diante do novo, e isso não me assusta, porque o novo é absolutamente o que move a vida. Cada dia que passa é um novo dia. E acho que é tudo isso, essa movimentação, que me proporciona experiências e conexões incríveis. O universo se move, tudo no universo se move. Tem um amigo que diz que somos a consciência do universo. Se a gente não se move, o universo nada faz por nós, já que somos uma coisa só. Então, no fundo de tudo o que eu poderia listar como “segredo” da felicidade, talvez esteja esta simples, mas não simplista, ação: movimentar-se! É jogando a bola para o universo que ele joga de novo pra você, como diz um outro amigo. E como diz um outro ainda, quando o desejo é sincero, e não interesseiro, as coisas acontecem. Talvez isso nem seja desejo, mas simplesmente existir conforme o que te move. Ser o próprio universo, simplesmente. O infinito está dentro da gente… Logo, a felicidade também. Tem coisa mais fácil de entender e mais difícil de viver? Óbvio que agora cheguei num ponto daqueles altamente complexos: será que é mesmo só uma questão de movimento? Pois algumas pessoas parecem ter sorte enquanto outras parecem ter um azar danado… Mas sei lá. Isso é mistério, e ainda bem. Se já estivesse tudo resolvido, que graça haveria em continuar? É como aquela música do Moska: “então me diz qual é a graça, de já saber o fim da estrada, quando se parte rumo ao nada…” Nenhuma. O bom da vida é que ela é uma aventura! 

Àquela que se perdeu

basta
todo jogo pálido
toda cena estúpida

chega desse jogo barato

pareces não saber mais
como se vive…

mostra a cara limpa
e deixe tudo claro

isso é raro?

cansada de toda farsa esquálida
escarro no teu rosto inválido
a fome de viver

escarro em tua alma morta
que esqueceu o que é paixão
o meu tesão bandido em viver

que triste tu és
alma pequena
que sequer consegue
murmurar desejos

tu
que teces fios sórdidos

pensas que não vejo!?

estou de olho na forma como costuras
e tenho pena de ti

tu que sofres e sequer se olhas
tu que levaste da vida porrada ácida agora
e nem assim

tenho pena de ti

mas esqueço
porque não tens por si
mais nenhum apreço

e grande é meu desejo
de sair por esse mundo
a alimentar música, poesia
e o beijo mais doce e quente
que já conheci um dia

sabe quando um homem te arrepia?
acho que tu já esqueceste…

talvez haja tempo
que ninguém lhe beije

tenho pena de ti
e digo

a paixão dá sentido

se esqueceste de si mesma
nada mais posso fazer
que ignorar-te

e viver a plenitude da mulher selvagem

porque sou mulher apaixonada
pessoa inflamada de arte
que olha com desprezo o teu mundo burocrata

se ninguém mais te beija
nada posso fazer que prestar-lhe
o meu pesar

mas falo da verdade do beijar

quem se esqueceu
também atrai quem já morreu

nada mais posso fazer
a não ser
desejar-lhe
sem remorso
que seu coração se acalme
e adoce sua alma disforme
para que um dia
possas ter também
a sorte
de ter o beijo do homem
que te refaz da morte

pois, de tão certo,
resignifica teu sexo
e, jubiloso,
sagrado o faz

não entendes o que digo?
muito sinto

pena não te ver
fazer valer o instinto

quem se perde de si
perde tudo

empobrece o mundo com o medo
e apequena a humanidade

tanto esforço inútil
por receio
da liberdade

música nova

se eu fizesse uma música agora
teria, ela, cheiro de futuro
e uma única saudade

a que ainda está por vir

se eu fizesse uma música agora
seria calma, alta e misteriosa
e voaria sobre os Alpes

seria música nova
incabível no passado
solitária e silenciosa

e não haveria qualquer nota

como se o corpo reconhecesse
apenas pulso nesse instante

se eu fizesse uma música agora…

ela não seria minha,
do que ainda reconheço

mas de quem não sei quem sou

e criaria a própria música
como se fosse a música primeira
que criou a humanidade

se eu fizesse uma música agora
eu sequer saberia que era minha

ela teria cheiro de começo

e me revelaria
o estranhamento que hoje sou

se eu fizesse uma música agora
seria a própria música cósmica
a voz de Deus a ecoar sobre o vazio

e não apenas seria música nova
que nasceria rasgando, indisfarçável

ela seria, antes,
nesse momento doloroso e mágico,
intocável

através do espelho

maldito espelho
o outro
maldita palavra alheia
que me revela
e rasga minha veia
saturada de passado

a metamorfose não é bela

pode-se morrer nela
e se perder, para sempre,

lagarta no casulo

é doloroso fazer nascer um corpo novo
quando já se está tão conformado no existente

no entanto,
há êxtase em perceber onde se conforma
e já, deforma

maldito espelho que é o outro
maravilhoso
que me revela onde falho
tanto quanto onde encaixo

bendito espelho

cristalino

como música barroca
eleva o espírito
e me lança no abismo

maldito espelho
que revela minha fraqueza

bendito seja!

ativa espera

a palavra
me salva

me amarra
a palavra

aperta

o amor
desperta

busco a palavra certa
como busco o amor liberto

e é na sua agudeza
que me embebedo de beleza

como se casco de árvore eu fosse
e escorresse feito seiva doce

e derretesse, amálgama do objeto
e explodisse, expansão do incerto

a palavra pouca
o amor que é verbo

amor que se tem certo
mas parece não ter cumprido ainda
sua caminhada no deserto

ando tateando a procura do verso mais profundo…

e me desloco de encontro, em desejo

quem sabe esteja ele a minha frente
e ainda não vejo

pois sinto uma brisa…
mas não sei ao certo o que ela diz sobre a vida

sei que traz auroras
e me responde certas inquietudes do agora

e, assim, tateando,
talvez encontrem, minhas mãos,
em suave conflito, a textura do infinito

e a palavra certa!
tanto quanto o amor que liberta

como música exata, ou poesia,
que esperaria o tempo que fosse pra nascer
e nasceria

Poema alado

lanço flores
para ressaltar a beleza
das rotas dos encontros
e expressar a delicadeza necessária
em tempos cansados do planeta

lanço-as para dar leveza
a pesos desnecessários

a vida é foda
mas é fácil

e me pisca o olho de um deus
na cumplicidade de uma certeza:
o que vem do coração
jamais pode estar errado

o que se faz com amor
é sempre um poema alado

Poemas de aeroporto

Sexta, aeroporto Santos Dumont

então, fez-se luz!
e, logo depois, verbo!
e Deus criou o homem e a mulher.
e criou o paraíso, onde plantou sonhos, música e delírio.
e fez-se o tempo.
e homem e mulher passaram a ter razão para viver o paraíso ao máximo!
mas o homem inventou o trabalho…
Deus, refletindo o por quê daquele ato,
até achou que alguns trabalhos valiam a pena…
em tempo, não pensou duas vezes:
para ajudar homem e mulher, sendo camarada e gente fina,
eis que Deus criou, então, a cafeína!

o mundo,
esse ovo curioso e fecundo
a vida,
essa coisa doida varrida

no instante seguinte em que lanço a palavra,
dela já me desapego

não a nego

mas ela sai como escarro ou beijo
e assim, lançada no mundo,
de mim, torna-se apenas lampejo

a palavra só tem peso
se a quisermos desejo

Do desejo e do desapego

Pequenos momentos podem ser grandes momentos, quando capazes de ampliar a vida, de torná-la mais bonita e mais leve. E talvez sejam os pequenos momentos os que mais deem sentido à vida. Um abraço, um cafuné, um bom café, uma boa noite de sexo, encontros, reencontros, olhares, fazer uma comida pra quem se gosta, oferecer e receber ouvido, atenção, colo, flores, ter aquela conversa, beber um vinho, conseguir fechar um trabalho, iniciar um, pegar um avião, saltar do avião, chegar num lugar desconhecido, chegar num lugar que se ama. É no dia a dia que as coisas se consolidam, que a intuição tem espaço, que se constrói e se destrói. É no cotidiano, na necessidade de viver o que a vida nos coloca como nosso, que temos a chance de aplicar conhecimentos, teorias, juntar práticas, organizar, reorganizar, desorganizar. É no dia a dia que dimensões fundamentais da vida ganham espaço, como o cuidado, a atenção, a relação entre o que somos e o que é o outro e o mundo. Os grandes acontecimentos são importantes, como as celebrações ou os ritos de passagens, mas é no dia a dia que os processamos, criamos sentido para eles e, de fato, fazemos a vida acontecer. Infelizmente, quando há um desequilíbrio das forças, a gente perde muito como ser humano. Ao menos, acredito nisso. Observo que vivemos numa sociedade que privilegia o grande acontecimento, a imagem, e suprime um pouco a dimensão do cotidiano. Há pouco tempo, dei uma entrevista sobre indústria da música para o Jornal Valor e falei sobre isso, quando me perguntaram se a valorização da imagem do músico em detrimento da música tinha relação com a cultura. Claro que tem, desde que entendamos a cultura como a expressão de um tempo. Dei a seguinte resposta: 
“Isto é a nossa cultura hegemônica hoje, entendendo cultura como a expressão e produção de um povo, país, grupo ou de um tempo. Neste sentido, tem a ver com cultura sim. Mas quando isso acontece, de fato a arte fica em segundo lugar. Valoriza-se muito mais a casca que o conteúdo. A cantora até estuda pra não ficar mal na fita, mas ela está mais preocupada com a escova no cabelo do que com a voz… A imagem tem um peso enorme hoje em dia, de uma maneira descolada da ética. A estética é uma dimensão fundamental do humano, mas descolada da ética é somente aparência. Acho triste isso como cultura de um tempo. E está presente em tudo. Quantos casamentos infelizes existem por aí, mas que a festa foi incrível, o papel foi assinado, e todos saíram satisfeitos por cumprirem seu dever social? E vamos vivendo histórias de mentira… Assim como amor é uma coisa que se vive no dia a dia, muito mais do que na mise en scene, cultura e arte também. É uma ralação diária pra se fazer uma coisa consistente, para não descolar a estética da ética…”
Nessa imbricação da estética com a ética, para mim, reside uma das questões fundamentais da vida. Mas isso traz uma fatalidade. Não no sentido daquilo que é ruim, mas no sentido do que é inevitável. Ou nos confrontamos com isso ou viveremos pela metade. Em algum momento, a vida vai se encarregar de nos mostrar que ela não é o que a gente desejaria que fosse. E leva-se tempo para aceitar isso. No entanto, quando se aceita, a vida parece se tornar muito mais interessante, porque infinitamente surpreendente. Pois nos deparamos também com a limitação do nosso desejo, e com a limitação do nosso entendimento da vida, sempre pautado pelo que queremos, e isso exclui uma série de possibilidades. A questão é que lidar com isso não é fácil, e parece bem mais fácil fechar os olhos e fingir que está tudo resolvido. Nada está resolvido. A vida é processo. Claro que algumas coisas precisam começar e terminar, ciclos se abrem e devem ser fechados no tempo de fechar. Mas em termos de sentido, da pergunta “quem sou eu, o que faço aqui e o que quero, e o que é a vida”, o processo é permanente. Aqui, entra outro componente fundamental: a relação com o desejo e o apego. 
Primeiro, começa pela confusão com o conceito de desejo, por isso esse é também um componente fundamental. É preciso que entendamos o peso que certas práticas têm na cultura para relativizarmos as coisas e ganharmos leveza. A psicanálise consolidou muito bem um determinado conceito de desejo na cultura ocidental, de tal forma que ele se tornou a verdade sobre esse conceito. Desejo passou a ser aquilo que queremos e do qual nos tornamos escravos, conceito que, depois de algumas décadas de psicanálise, Deleuze e Guattari vieram combater, afirmando que desejo é uma força que, em linhas bem gerais, move o ser humano e qualquer coisa viva. Não vou aqui filosofar sobre o desejo, porque eu precisaria retomar estudos e discussões que estão enferrujadas na minha vida, para relembrar algumas coisas e ganhar mais consistência, mas quero chamar atenção para uma coisa: o desapego como forma de tornar o desejo algo mais leve. Sendo desejo algo que se quer, tendo esse peso que a psicanálise colocou nele, deduzo que uma questão importantíssima para se viver bem é como desejar, se movimentar, em suma, viver, sem depender daquilo que se deseja ou, até mesmo, do desejo que te move. Não sei muito bem a que caminho eu vou chegar com essa especulação, porque isso é mesmo uma especulação. Mas entendi o que para mim significa o desapego, depois de tantos anos intrigada com isso, fazendo meditação, pesquisando o budismo, entre outras práticas. 
Fala-se aos quatro ventos e nas redes sociais da vida que o desapego é fundamental. Sempre que vejo isso me pergunto se as pessoas pensam sobre aquilo que elas falam, e se dispõe algum tempo de suas vidas a tentar entender o que está circulando de fala por aí. Porque o que mais tenho visto são falas apressadas. Não que as coisas não possam acontecer rápido. Acontecem, e eu que o diga. Mas vejo uma necessidade de fala desesperada hoje, uma pressa em querer opinar. Lança-se, assim, a “opinião” de qualquer maneira, e muitas vezes ela é tão somente um desabafo ou a expressão de alguma vontade, ou uma carência, carregada da história da pessoa, suas conquistas e frustrações, lançada sem o menor cuidado nas redes e nos espaços coletivos. A galera está mesmo com pressa hoje em dia. Talvez porque tanta coisa esteja entalada na garganta, claro. Só acho que se precisa ter cuidado, pelo outro e por si. Fica-se vulnerável diante da fala apressada jogada sem parcimônia nestes espaços coletivos, e fazemos, a partir dela, muitos julgamentos pré-conceituosos. Muitas vezes, a fala apressada é também uma defesa e, em alguns casos, uma vontade de aparecer, de mostrar que se tem opinião, de provar alguma coisa qualquer pra sei lá quem. Um medo de ser só mais um, uma fragilidade… Mas cuidado também não é ficar quieto. Um grande amigo vem colocando, nestes espaços coletivos, uma questão importante e que tem me feito pensar muito: menos medo e mais cuidado. Tomei isso pra mim como um mantra, pelo menos por um tempo. Temos muito medo de viver; medo do outro, medo de sair do nosso lugar de conforto, medo de não ter o que dizer, medo de não saber. E o medo, embora um recurso de sobrevivência, quando alimentado, mesmo que de forma subconsciente, paralisa a inteligência plena. E nos jogamos diante do mundo de forma reativa, buscando sempre “culpar” algo ou alguém pelas nossas incapacidades, ou de maneira individualista diante de questões que merecem foco no coletivo, ou de maneira rasa quando precisamos mergulhar em nós mesmos, com medo, talvez, do que vamos encontrar. Mas, enfim, tudo isso pra dizer que o desapego me parece não aquele desapego utópico da supressão do desejo, mas a não dependência daquilo que se deseja. Um cuidado com si mesmo e um cuidado com o outro. Desejar, no sentido de querer, causa uma grande ansiedade, e a ansiedade, quando exagerada, torna os processos confusos e altamente individualistas, e daí surge essa exacerbação do ego que vemos hoje em dia, expressa, inclusive, nas falas apressadas. Fato é que a ansiedade também move, mas como nada na vida é, me deve ser, simplificado, embora simples (e o simples é complexo…), ela também tira a nossa capacidade de relaxar e de observar o outro, para que a troca se torne efetivamente uma troca. 
Sou uma pessoa muito ansiosa, desejo demais. E esse desejar demais me move, o que é ótimo, porque sempre realizo coisas incríveis. Mas quando a ansiedade chega ao ponto de me exaurir, e hoje eu já consigo identificar minimamente esse ponto, eu sei que me entregar a ela é uma cilada das mais terríveis. Por isso, respiro, medito e lanço para o universo. Desapego. Não que eu deixe de me movimentar, mas eu deixo de depender dos resultados do movimento para me sentir em paz. Você poderá se perguntar se eu realmente consigo isso. Bem, muito mais que ontem, e muito menos que amanhã. É um constante aprendizado, puro fluxo e movimento. Nesse sentido, o desapego tem relação direta com o cuidado. É um cuidado de si e um cuidado com o mundo e o outro, na busca de encontrar o ponto onde você não se anula e não sufoca o outro, onde você age com o coração na hora que tem que agir, e onde você recua na hora que tem que recuar. Estar atento é um cuidado. Atento a si, atento ao outro, atento ao que se passa ao seu redor. Isso é cuidar. E o cuidado é fundamental para ampliarmos nossa visão de mundo, da vida e para acalmarmos o coração. Nunca fui uma pessoa muito cuidadosa, mas é impressionante como a gente muda nessa vida. Hoje, o cuidado se tornou uma questão fundamental pra mim, talvez porque, cada vez mais, o desapego também seja.
Acredito que é preciso deixar-se levar pelo desejo e se movimentar, tanto quanto é preciso saber a hora em que somos movimentados. É preciso confiar. Isso é desapego. Isso é cuidado. A gente confia muito pouco na vida e até na nossa própria capacidade quando somos tomados pela ansiedade de querermos que a vida seja de tal ou tal jeito. E confundimos muito essa entrega com ficar parado, simplesmente aceitando as coisas como elas são. Falo justamente do contrário. Assim como Deleuze e Guattari, acredito que o desejo move o mundo, e é o que me move, e é o que deve mover. Mas também, é o apego ao desejo que produz as coisas mais bizarras, como a paixão pelo poder, por exemplo. O poder é um desejo de poder sobre o outro. Apaixonar-se pelo poder é uma cilada e tanto do ego. Eu posso estar fazendo uma confusão com esse conceito de desejo aqui, mas como eu falei, são especulações ainda. E escrevendo eu vou arrumando as pecinhas na cabeça. Assim como, às vezes, o que mais preciso é abandonar as palavras para entender algumas coisas. Tenho tentado equilibrar essas duas formas de conhecimento e construção da realidade…
Mas sei que nesse momento a questão do desapego se tornou uma grande questão. E pensando nessa sociedade apegada, e tão apegada a imagem, que dá tanto mais peso ao espetáculo que ao que se vive e se sente de verdade, não tenho como não pensar em mim, sendo que vivo neste tempo. E vice-versa. Pensando em mim, também penso no mundo.
Ontem, voltei da minha aula de canto muito pensativa. Já era tarde da noite, fazia muito frio, e caía uma garoa. Eu caminhava me sentindo leve, e pensava na vida e nos últimos acontecimentos. Joguei para o universo os meus anseios. Venho num processo de fazer isso já há algum tempo; o processo de me movimentar no cenário entre o meu desejo e o que preciso fazer, e quando confiar e entregar para o mundo. Não sei precisar há quanto tempo, pois sei que é uma questão de anos. Mas de forma mais enfática, como uma questão que realmente faz sentido, faz pouco mais de um ano. Então, eu andava por aquelas ruas arborizadas da Tijuca, cheias de casinhas legais, perto da montanha, sentindo a chuva fina sobre mim, e me veio a memória, totalmente afetiva, de Petrópolis, cidade onde nasci, vivi minha infância e passei boa parte da vida visitando por conta dos meus avós e tios. Acho que aprendi a gostar da Tijuca, especialmente da área onde moro, perto da montanha, por conta dessa sensação que me traz aquele cantinho do bairro. Quando começa a esfriar no Rio, parece que lá é o primeiro lugar a sentir o efeito do frio (no caso do calor vale o mesmo). Vai baixando uma neblina montanha abaixo, e o vento logo fica gelado. Gosto disso. Ou foi o que escolhi para aprender a gostar da Tijuca e fazer do bairro um lar, depois de 12 anos morando colada ao mar, coisa da qual sinto muita falta. Mas nada que um deslocamento rápido não resolva! Pois bem, eu ia passando por aquelas ruas bonitas, cheias de casas, prédios baixos e árvores, ouvindo músicas que ampliam a vida, repleta de uma boa nostalgia, e me sentia certa; muito certa, de que lancei para o universo tudo o que vinha me amarrando em insônia, angústia, e outras coisas que me destroem. Se eu consigo? Como falei, mais que ontem, menos que amanhã. Mas a sensação é de conquista.
O fim de semana foi emocionalmente intenso, me exigiu, e comecei a segunda-feira já com sensação de sexta. Precisei me desligar na segunda, como às vezes eu preciso para recarregar as baterias, e deixar o mundo desabar sem a minha intervenção. Sei que isso, quando se tem compromissos, é algo complicado. Mas como muito do meu tempo está hoje nas minhas mãos, outra conquista fundamental, eu me dei esse luxo, pois eu sabia que poderia resolver tudo a partir de terça. Sumi do trabalho, pois o cansaço, físico e emocional – uma mistura de ressaca, falta de sono e excesso de gente e suas inúmeras questões –, me impedia qualquer discernimento, e ainda havia uma raiva de ter que fazer uma coisa que eu não estou nem um pouco a fim de fazer: uma produção que não fala ao meu desejo e que chegou de forma atropelada, enquanto tantas outras falam e para as quais também preciso dar atenção. Dormi a tarde inteira, com a pressão baixa e, quando acordei, alguma coisa me disse que eu devia me mandar pra São Paulo no fim de semana. Não sei por que razões lógicas, mas eu atendi a esse chamado interno, até porque faz mais de um ano que não vou lá. Eu sequer pensei se eu poderia ir ou se teria dinheiro. Simplesmente acordei, me veio a ideia e eu comprei uma passagem. Vai entender… E nem consegui resolver tudo pra ficar tranquila por lá. Não sei até agora onde vou dormir no sábado, por exemplo, nem o que vou fazer no fim de semana. As únicas coisas que sei são o dia que chego, o dia que volto, e que tenho onde ficar e o que fazer na sexta. De resto, eu ainda vou descobrir. Mas é isso, estou confiando que tudo vai dar certo. Porque sempre dá. Uma amiga disse que sou louca, brincando, claro, porque ela me conhece há 13 anos. Mas pra mim, louco (no sentido, aqui, daquele sem noção do que faz) é quem vai vivendo a vida na mesmice, sem risco e sem movimentação. A vida é curta demais pra se ficar com a bunda no sofá, pra se fazer o que não se quer, para se estar com quem nada tem a ver com você, pra não dormir o tempo que se quer dormir (créditos desse último pra um amigo com quem conversei hoje no almoço). É preciso jogar para o universo e confiar. E jogar para o universo é se movimentar, porque nada cai do céu. Acredito que mesmo que a gente não saiba pra onde ir, devemos escolher um ponto e ir. A vida sempre se encarrega de nos fazer chegar a algum lugar interessante quando a gente se põe em movimento. E nesse caminhar, a gente vai ajustando, avaliando se é isso mesmo e, às vezes, podemos nos desviar completamente do caminho, o que pode ser ótimo, pois é sinal de que alguma coisa falou alto ao nosso desejo, ou pode ser ruim, mas isso vem pra nos fazer crescer. É como aquele verso: não há caminho, o caminho se faz ao caminhar. Portanto, é preciso ir. Aquela metáfora que compara a vida a andar de bicicleta é linda e, para mim, super verdadeira: para se ter equilíbrio é preciso estar em movimento. Então, uma coisa se tornou certa na minha cabeça: movimente-se, mas confie. O apego é um bichinho sedutor, mas completamente traiçoeiro. Por isso, joga pro mundo e vai tranquilo, desapegado! E coisas maravilhosas serão possíveis. Observemos no nosso dia a dia essas questões. É nele que a vida dá pistas de que é incrível!