despedida em canto

vejo no espelho
meu olhar que vaga
pupilas dilatadas
de um olho inchado
de lágrimas

choro inevitável
me calo
trabalho?

somente me calo

eu que recebi notícias tantas
numa semana insana

teste do meu ferro
teste do meu corpo aço
teste do meu afeto cego
teste do meu amor traço

semana de tanto adeus
encerrando com o teu

mas é o único alento
chorar tua morte, amigo,
nesse instante de tanto
movimento

meu, teu,
do mundo

tudo anda tão estranho…
um sono agitado
percorre as veias de Oxum

tempo acelerado
em mil segundos

mas que segundo
muda mais fundo
que aquele que
sequer pudemos ver
que existiu?

mistério em tudo
e em ti, na tua partida,
índio preto de um Brasil profundo

perdeu o mundo,
uma entidade

mas te ganhou, o universo!
luz que se integra nos planetas

tua energia virou mar
virou céu
virou estrela

virou aquele beijo roubado
aquele abraço apertado
que era tua forma de ser

virou tua energia
a tua fome de lutar
a tua coragem de viver
na linha expressa
e certa da vontade

as tribos do cosmo
te recebem agora

índio
homem de luz
pai
marido

medito hoje para ti e o teu vivido

medito hoje pelas meninas
e pelo mundo mais justo
que querias

medito e rezo
em nome da alegria
para o deus que existe
em cada um de nós
e que você não apenas sabia
como cultivava
compartilhava
vivia

menino índio,
pelo espaço sem fim
tua força se espalha
para dar origem
a uma nova estrela brilhante
no céu de toda noite

contigo aprendi dessa força
de ser guerreiro e fazer nascer estrelas
de ti ganhei contas Xavante
que me foram força por anos a fio

em ti corria um rio
que me disse ser eu,
na rede intercultural,
o esteio…
eixo cheio de graça

em ti brilhava a raça

e aprendi mais…
a recusa da espera

faltava tão pouco
pra nossa (última) conversa…

(dói)……
mas a dor é fermento do amor

ficará teu abraço
tua história, tua espada

ficarão tuas meninas iluminadas!

pois agora,
já ficou no tempo passado
aquele desejo de jogar conversa fora…

partiu Rafael, nome de anjo
Papato maroto
garoto

foi brincar em outras dimensões
e espalhar abraços apertados
aos deuses criadores do universo

Do porto do adeus

(com a ajuda dos poetas)

vai marujo,
saia do fundo do meu oceano

ficarei do cais a te avistar
seguir teu rumo

pra te perder de vista no horizonte

vai marujo,
pula fora do meu barco
depois de tanto que te deixei aqui
ancorado

você, marujo,
é tão calado…

vai marujo,
dispara o seu mistério
noutro lado

naquele mar desconhecido

e encontre as suas ilhas alagadas

agora, aqui no porto do adeus,
é que o meu ano começa

transformei em cinzas
todas as mensagens
que te mandei engarrafadas

e inicio a construção de um novo barco
para esquecer aquele da noite derradeira

onde permaneci à deriva

deixarei livre o convés à bombordo
para quem quiser subir de qualquer lado
a partir deste dia de chuva
em que a longitude se torna necessária
quando a água lava toda a dor que ficou
da tua indiferença de homem do mar
tua negação corsária
que só não é mais profunda
que o vazio do universo ao luar
no meio do oceano

já estou no estaleiro, de pronto
construindo cada pedaço
do barco que me levará
para novos encontros

sabendo que me enganei tanto
ao achar que cada próxima mensagem
seria a última que te lançaria mar afora

mas agora sim,
chegou a hora!
porque o ano
finalmente virou

por necessidade
de sobrevivência
nesse espelho do céu,
o mundo recomeçou

vai marujo
que vou deixar pra lá o seu mar grego
e voltarei pro meu mar português

porque “o esforço é grande e o homem é pequeno”,
“a alma é divina e a obra é imperfeita”

sempre imperfeita

“e ao imenso e possível oceano
ensinam estas quinas, que aqui vês,
que o mar com fim será grego ou romano:
o mar sem fim é português

e a cruz ao alto diz que o que me há na alma
e faz a febre em mim de navegar
só encontrará de Deus na eterna calma
o porto sempre por achar”

meu porto agora
é o porto do adeus
mas o porto da demora
em querer ser tudo
que deixei na tua espera

a longa espera no cais
que me estranha a alma liberta

é que nunca fui de estar no cais a esperar,
viúva de marujos que se lançam no mar

retomo, então, meu quepe.
sempre fui navegante!
marinheira eu sou, exata,
desde sempre navegante pirata

viver não é preciso!
por isso navego

então vai marujo,
já virei o leme na direção contrária

“quem quer passar além do Bojador
tem que passar além da dor”

já deixei de te dar as coordenadas
que eu talvez tenha passado erradas

parto em busca das terras mais bonitas desse mundo
“esse sítio frágil, onde tudo nos quebra e emudece”

pois “sou o único ‘homem’ a bordo do meu navio”
e assim sempre será

no meu rumo!

“a minha pátria é onde o vento passa,
a ‘minha amada’ é onde os roseirais dão flor,
o meu desejo é o rastro que ficou das aves,
e nunca acordo deste sonho e nunca durmo”

vai marujo…

desfiz os nós
pra não me sufocar
na tua silenciosa beleza

melhor que seja, ela,
como um doce sonho que eu tive um dia
e, de repente, ao acordar
percebi que estava mesmo era a sonhar

mas é melhor o vivido que o sonhado!
e registro, a bordo, no diário:
hoje é um dia de alegria
porque é sempre uma festa
içar as velas
e novamente
sair ao mar

vai marujo
vai
pra não voltar
porque se voltasse
eu sei, eu voltaria ao cais
pra te esperar

aos músicos

na intenção de reduzir
a importância das palavras
quem sabe, quase nada mais
um dia, utilizá-las

ainda recorro a elas

que me prendem em celas vazias

mas de que adiantaria…

eu que fujo das regras
é por isso que faço poesia
na fé de encontrar
a brecha onde a palavra
diz mais do que diria

dizê-las,
cada vez mais,
só mesmo de forma poética
poupar a forma pouco estética
de dizer tudo desesperadamente
porque pouco dizem,
as palavras, e mentem
diz mais o silêncio que se instaura
quando o absurdo e o maravilhoso
ganham, no espaço-tempo, aura

mas e a música?
aquela que sai das
almas extasiadas que dedilham cordas,
as arranham como o abrir de olhos
do primeiro instante…

destes que submetem seus corpos
a peles afinadas, agudos indecentes,
seus dedos a teclas de infinito
e àqueles graves instantes do mundo em seu início

seus corações ao dissonante caminho de dizer
sem precisar, a elas, recorrer…

dirá?
dirá a música aquilo que a palavra
se esforça pra reconhecer?

serão, vocês,
almas aladas do universo,
os mensageiros mais perto de deus?
um deus-baco-angélico-imanente?
vocês que conseguem soprar o divino?
comunicá-lo através de um violino?

mas eu ainda recorro a elas,
as palavras,

mas certa de que é a música
que me arrebata
porque é também só ela
que redireciona as palavras

as amplia no canto
as poetiza de uma forma
que nenhuma outra poderia fazer
que dizer fica difícil sem música
quando amo

porque é ela que me lança,
através destes corpos que anunciam,
insaciáveis e amorosos,
o que há além do compreensível
visível do cotidiano

carta de desistência

pareceu existir,
neste tempo,
desde aquele dia,
              – noite!,
uma mitologia

histórias fantásticas
são sempre inventadas!
                    já ouvia…
sempre soube
que não há
palavra revelada

a alimentei,
esta mitologia,
por muitos dias

(e somente eu)

com lua, barco
e poesia

tracei as rotas!
há um mapa
de nossas passagens

isto há!
de resto,
permanecerá ela,
sempre ela, que corrói
o tempo…

a dúvida

mas quem sabe
se ele não é mesmo
toda aquela alegria?

quem sabe é real
tudo o que talvez
tenha eu inventado sobre
aquele marujo à deriva?

quem sabe
aquele beijo-labirinto
não tenha sido
um sinal de que a vida
nos leva mesmo
é para o desconhecido…

e eu, que poderia dizer a ele:
me perdi sem fio nos teus labirintos,
ainda busco a saída

talvez eu não queira sair
porque amo todos os mitos

ou talvez tenha mesmo
me perdido tanto
que sair requer
esforço e abandono

esquecimento

de toda forma,
tem um cheiro pelas vias
desse labirinto

inesquecível

e o corpo não esquece
assim tão de repente,
aquilo que o leva a perder-se

ele apenas

            desiste

Poemas de verão

verão é essa festa!

eu peço que seja,
deuses que iluminam
a terra!
que nesse verão
meu sol brilhe
com a intensidade
certa
e que venham os anjos
nus, de corpos dourados
a surfar nas minhas ondas
perfeitas
com calma
a calma que o verão merece
que venham leves
sorridentes
a me entregar presentes
flores com cheiro entorpecente
incensos a lembrar florestas
gozo de estar vivo
e poder ver
que o mundo
aí está, tão belo,
que tudo pode ser
festa!
novamente!
e que tenha água!
água em abundância
para refrescar todos
os corações ardentes
que o verão seja
nossa fonte
de descoberta
do amor
recente
ah, esses garotos dourados
de dorsos molhados
essas peles queimadas de sol
carregando seus instrumentos
de prazer marítimo nas mãos
essa juventude que exalam
até entre os de mais vida na praia
essa alegria de meninos
que se lançam sem medo às ondas
e arriscam suas peles curtidas
sob tábuas de parafinas
feitas para deslizarem plenos de si
como me encantam
esses meninos do Rio
e produzem em mim
uma veraneia emoção
esses garotos-peixes
quando se lançam ao mar
e passam ao meu lado me encarando
me despertam aquela tensão
carregam em suas pranchas
o meu coração

Da necessidade

necessito
a solidão
completa
do teu corpo

o veludo
que é tua voz
quando falas
sobre a vida

necessito
tua respiração
profunda
quando dorme

e tua pele jovem
encostada no meu
sexo

necessito teu suor
cansado de verão
tua exuberância
de menino
e tua força
de homem feito

necessito
é simples
do teu espírito
aventureiro

dessa alegria
sem fim
que é tua
existência

necessito-a

em mim

intensa

o primeiro poema

porque eu te amei
(amei?)
e te disse
que te escrevi teu último poema
não quer dizer que eu não os escreva mais

mas esses não entrarão nos compêndios

serão meus
da minha liberdade
de te falar nas entrelinhas
escancaradas, é certo
mas não estão direcionadas
pode abrir sua caixa de emails
não haverá nada

esses poemas de agora
podem ser de quem quiser pegá-los
estão por aí
para serem compartilhados

se quiser fazê-los seus
pode pegar também
é de graça
posso até levar
na porta da sua casa
(eu inseriria um emoticon piscando
…se fosse possível lê-lo)

porque eu te amei
e chorei tanto naquele dia cinza
eu hoje acordei rindo sem palavras

mal saberia eu que voltariam, elas
pode se orgulhar
estou criando obra de arte
com você

mas eu chorei por um motivo nobre
todo mundo há de concordar
faltava seu corpo

que ficou no mês passado
inteiro
que ficou num abraço sábado
meio

mas faltava
ora
às vezes falta mesmo

mas então eu acordei
e havia sol
então eu saí e vi o mar
então eu peguei minha bicicleta
e fui pro vento
daí eu soube
mais uma vez
(porque, parece, a gente esquece)
que depois do choro
sempre vem o riso
e que você, na condição de paixão,
está saindo na vantagem comigo

chorei tão pouco
ri tão mais
sou tão mais feliz
que a matemática
está fechando positiva

que ainda posso confirmar
tudo o que te disse
no teu último poema
e, acrescentar,
um cheiro de perfume de alfazema

pra tomar o ar
com aquela liberdade toda
de te amar sem pressa

minhas palavras não se esgotam
nunca, são rio correndo pro mar,
e vem sempre esse frenesi de ser texto pra ti

37 páginas, sabe o que é isso!?
agora serão mais de 40!
que fez você criatura?
algum trabalho pra santo?
às vezes acho que fez o mal
de escolher as palavras certas…
foi dizer o que não devia
levou o que…
bem, o que eu poderia dizer aqui?

você vai levar isso contigo
se um dia eu for famosa
vai até poder dizer:
olha, aquele foi pra mim
(até parece que você é desses)
até porque nem vai precisar
um dos poemas tem seu nome

longa carta de amor…
li Pessoa e ele disse que todas são ridículas
ah, se ele tivesse lido as minhas
mudaria de opinião na certa
(ridículo não! são palavras lindas)

e essas palavras gostam de brincar
soltas nas linhas
de brincar com você
elas estão aqui pra te provocar
(guarde essa frase)

pra te convidar pra festa
sei lá como
sei lá mesmo
eu poderia passar uma madrugada inteira
com você, bebendo
sem voar em cima do teu corpo
pode apostar
até porque
cairíamos alcoolizados no tapete

mas agora, é isso
minhas palavras querem ser
brincadeira
é o que você pede

a hora é de festejo
que assim seja
e como quiser que seja
em planos
projetos
ou cervejas

se no corpo
que seja também
o meu está sempre presente
nem precisa dizer

não sou de tocar a campainha
e sair correndo

e você deve estar pensando:
essa mulher é louca!
diz coisas lindas, mas ela é louca

não, você não deve estar pensando isso…
porque se a gente fosse pôr a loucura em cima da mesa
meu caro…
podemos passar uma madrugada na disputa
aquela mesma da bebedeira
tá disposto?
a gente tem muito pra conversar ainda
lembra?
pode me chamar
eu não vou te pedir em casamento

eu contaria segredos
se você quisesse ouvi-los
e adoraria saber os seus
se tivesse a coragem de contá-los
tem terapia maior que isso?

mas eu sei
as coisas tem a hora certa
eu entendi
que quando a gente não sabe o nosso lugar
melhor é ficar onde se está

mas eu também entendo
que mesmo onde estamos
existe movimento

porque eu te amei
e te entreguei páginas apaixonadas
só quer dizer que te amo

e você deve estar pensando
que sou alucinada

sabe, acho que você está certo…
se pensar assim

e nesse seu mergulho
de se ver também pelos meus olhos
me diz o que você vê…
será que um dia eu poderei saber?
será que eu poderia te cobrar royalties
por alguma descoberta?
ou estou me achando a rainha da cocada?
até mesmo quando o maior tempo nosso
é o tempo do nada…

vontade de gargalhar
você me dá uma alegria diferente
que desafia
fica quieto
e eu fico querendo te provocar
(de novo)
tentada a dedicar meu livro
pra esses teus olhos flutuantes
pra esse jeito meio lá, meio cá
meio de quem passa
rápido, querendo ir pra algum lugar
que já está em outro mar

mas isso é outro capítulo
dessa louca história

fico pensando
se você não acha
que eu gritaria ao mundo que te quero

vontade tenho
imagina se não!
mulher apaixonada pode até ser livre
mas é mulher apaixonada baby
tudo igual

mas não
eu sei falar nas entrelinhas

e agora me sinto alegre
e posso dizer
que você é que é o rei da cocada

todo bonito assim
fica tirando onda
você pode
sabe que pode
você é só amor

então te peço,
sai de perto não…
se quiser pode ficar aí parado mesmo
só pra eu te olhar
mas fica perto
“fica bem aí
que essa luz comprida
ficou tão bonita
em você daqui”

bonito isso
você quer ficar perto?
responde pra mim…
ah, me lembrei
você já disse que sim

e eu, depois dessas tantas palavras
perdi toda a credibilidade
mas eu já devia saber
me conhecendo como me conheço
que te dizer que te escrevia um último poema
era uma blasfêmia
(não uma mentira, longe de mim)
muito menos lá em cima dizer
que esse é de quem quiser

pode até ser
mas você sabe que é pra você
em cada linha

tem palavras suas
tem seu cheiro rondando por aqui
dentro de um livro
e, claro, também dentro da noite veloz
dessas noites sem dormir

mas sabe, ele está ficando mais doce
o cheiro
e eu estou te querendo agora
brincalhona
engraçada
como dizem por aí que sou

engraçada…
já me disseram isso tantas vezes
que começo a acreditar
talvez porque as pessoas, no geral,
sejam chatas demais

e eu nem sei porque acho isso
não sei de nada
faz um tempo eu não estou sabendo nada
só estou deixando ser

eu gosto de me divertir
nem sempre sou assim
tá, ok, entendi
mas eu gosto
de sair
pra cair
no samba, no rock
no botequim

me chama pra sair
a gente pode se divertir
aposta?
mais uma…

foi por isso que eu te achei
e caí em cima de você
de repente
num dia em que eu estava voando
o celular tocando, no ônibus
depois de termos decidido um chopp simples
ai, esses que tomamos por aí
pela vida
às vezes, de tão inocentes,
nos levam pro inesperado
eu atendi o celular
e foi uma intimação:
– tá onde?
– no aterro
– desce na marina
– hein!?
você, sempre de poucas palavras
e lá fui eu!

nem vi a hora
não vi nada

e agora aqui estou
sem nenhuma credibilidade
tentando entender os seus começos

ouvindo músicas
que me dizem que o mundo
é tão do tamanho do meu amor
que eu, que te amo tanto sem saber por quê
(é só charme, eu sei sim)
estou amando, na verdade,
esse delírio que é viver

quando chove uma chuva persistente

acordei cinza

a minha contradição
tem o nome tristeza
daquelas que parecem
passageiras
em dias de chuva persistente
mas presentes, o suficiente,
para desmoronar
as fortalezas

daquelas que apertam o peito
diminuem o viço
puxam pro solo abaixo
um corpo cheio de vida
numa hora cheia de alegria

eu deveria
ser mais atenta
na presença do meu corpo

a tristeza me desafia

duvido da própria força
escarro muitas palavras
e me pergunto
para que jorrá-las
se, na verdade,
é tão mais simples

tristeza ou alegria
não existe outra coisa
melancolia?

não, talvez eu tenha me enganado
caí mesmo foi numa tristeza profunda
que não quer se olhar
no espelho
e afunda o corpo
num travesseiro velho

de que adianta dizer
que o sol brilha
se quando chove
a alegria
que se queria
é justamente aquela
que não pode ser?

e desabo

que tanto prazer esse
de brincar com as palavras
de um dia acreditar no amor
e no outro não saber sequer
no que acreditou?

eu que amo tanto…

a minha contradição
tem o nome tristeza
mas sei que mais tarde
volta a ganhar nome de alegria
eu sou o que o tempo pede
um dia sol
um dia sombria

hoje acordei cinza
num dia cinza
em que eu queria
o que não posso ter agora
essa recorrência
de quem caminha
em bamba corda

nessa hora
a saudade se esquiva
o que existe mesmo é falta
aquele vazio terrível
de querer
quando a gente ainda
não atravessou
a linha que separa
o que somos
do que já esboçamos ser

acordei cinza
num dia cinza
acontece
nas almas mais errantes,
e, principalmente,
nas famintas

karine aos 25

ela chegou sem pressa
e de surpresa
tinha a calma de quem
parecia saber
que viria para trazer
doçura

e fazer nascer uma canção
de encantamento
e conciliação

ela cresceu iluminada
de cabelos cacheados
dourada

dona de um afeto absurdo
saiu por aí distribuindo beijos
carinhos, afagos que nunca
poderiam ser negados

mas ela é hoje
ainda uma criança
porque na sua beleza
de se tornar gente grande
guardou aquele olhar
curioso, de quem sabe
que o mundo
ainda tem muito
pra dar

ela só cresce
ela é grande de alma
ela é força tamanha
de ser amor-mundo
como se quisesse abraçar
todo esse mundo

ela é essa energia
em ser
só amor
mais nada

porque amor
é tudo

karine aos 25
é mística
misticismo concreto
de ser pura magia

amor-mago
que conquista
e arrasta
pro universo sem fim
das coisas
encantadas dessa vida