beleza pura

Todos os dias se trabalha
Todos os dias se bebe a cervejinha
Pra esquecer que, todos os dias, não se vive
E as golas das camisas vão assim denunciando o teatro
Muito alinhadas, combinam com as olheiras,
Muito bem delineadas
Porque fracasso é algo que não se pode assumir
É preciso muita maquiagem
As pastas, de tão cheias, quase falam dos fardos que transportam
E as bolsas nos parecem organismos envenenados
Carregando todo tipo de pílulas e aparelhos da felicidade
Enquanto isso a inflação é notícia, a crise se alastra,
As mulheres escovam os cabelos
Mas que mal há nisso? Afinal, somos seres sociáveis,
Precisamos nos preocupar com nossa imagem
E a crise é apenas contingencial
Os cintos vão bem…
Apertando os ventres cultivados com uma indiferença fascinante
Os saltos, esses sim, sabem com é viver
Sustentando essas verdades de bonecas barbies
E, assim, apodrece vida todo dia no estômago do sedentário
Aquele pra quem tanto faz como tanto fez
Conhece?
Vidas que ele não quer saber que mata
Porque, afinal, o que é o outro senão uma ficção!?
Onde vive a beleza então?
Não é na sua camisa Lacoste, arrisco afirmar
Também não é no perfume
Que encobre o cheiro que você não quer sentir
Nem no cabelo escovado,
Na perna falsamente feliz sobre uma agulha
Nos livros do especialista Cury?
No segredo das 100 pessoas mais feliz do mundo?
No desenvolvimento sustentável?
Ok, olhe para o lado:
Vê aquele menino que dorme no chão da calçada?
Vê a garrafa pet boiando na baía habitada?
Vê no espelho uma imagem desfocada, incerta?
Um rosto desconhecido?
Prazer, a beleza é uma peça rara.
Procura-se um colecionador!

rosa dos ventos

navegam sempre em cada corpo
um barco que se resigna e outro que reluz e solta as velas no vento
tenho navegado em busca desses ventos… onde estão?
mareando a cada dia, entre o nascer e o pôr do sol
é por isso que quando a vida se apequena eu corro para o mar
porque tem um mar dentro de cada um de nós
e fico estirada na pedra por instantes em que só há o agora
e tudo ganha um novo colorido e toma novos rumos
é também por isso que não me canso de reverenciar essa força nebulosa

o mar é mais que a água que desforma o planeta e encanta marinheiros
é onde tudo deságua e de onde tudo vem
porque tudo um dia chega no mar
e se não chega, é ele quem vai de encontro
o mar não é tão somente a morada de seres reluzentes
e de uma alucinante profusão de cores
e, mais abaixo, do silêncio ancestral
é também uma condição
ser mar é ser uma força que não se resigna
sabendo o momento de causar tempestades e se acalmar
é terra, e entra nela por todos os lados
a fecunda e a transforma em verde
é a mãe de todos os rios e a grande solidão do poeta
não tem início nem fim
abaixo de tudo há o seu reinado
é a condição única possível para que a vida aflore

agachada na pedra me deixo receber a maresia
e ouvir a voz dessa saudade por onde tantas vidas se perderam e se encontraram
e ainda hão de passar, e nascer, pois tudo nasceu no mar
consigo sentir aquele primeiro pulso e a reação da água
gargalhar de alegria, e chorar
e eu a dormir na pedra só para sentir por mais tempo
“essa imensidão imensa do mar imenso”

o mar não tem fim porque a vida também não
a vida que mexe, vai, vem, se cala e, de repente, estoura
sempre de repente, as surpresas das tempestades…
essa vida sem fim permanece pra sempre como gota desse mar infinito
assim como poeira do universo que também está no mar
elo da terra com o céu

eu, em toda a minha finitude, não posso mais vê-lo
pois sufoca essa indiferença toda do mar
assim, quando cesso de com ele conversar
todo o universo abre-se para mim como quando
abriu-se naquele dia em que o primeiro suspiro se fez sobre estas terras
tão iluminadas de se deitar no mar
e então me torno grande, mesmo diante de todas as montanhas

o mar me diz para atravessá-las e unir-se a elas
como onda arremessada na rocha

é assim que parto para mais um dia,
do qual o fim é sempre um recomeço e uma luta
e de longe eu canto as saudades do passado e do futuro…
todos os dias

Alice desesperada

Antes que a dor se esqueça,
quero chegar ao topo da montanha…
É preciso correr para não sair do lugar!
Antes que a vontade adormeça
a possibilidade da toca…
Beba-me!
Coma-me!
…Imagine fazer mesura
quando se está despencando no ar…
Antes que o espelho se transforme em porta
Antes que o fumo da lagarta se acabe
e mil chapeleiros me sirvam mil chás
Antes que se embaralhem as cartas
Antes do nascer dos porcos e do cantar das morsas
Antes que o ovo me reconheça…
Ah, antes ainda que o sorriso do gato desapareça
Antes que se cortem as cabeças!
Beba-me!
Coma-me!
…Imagine fazer mesura
quando se está despencando no ar…
Ah, é o amor!
É o amor que faz o mundo girar!

Poesia ingênua

Basta apenas um sorriso
E meu mundo se abre em flor
Basta um som rasgado
Uma voz apaixonada
Basta um suor de desejo
E um fôlego sem fim
Uma luminosidade cara
Uma insanidade rara
Bastam os acordes
E as harmonias de um dia de sol
As chuvas de verão
Os sonhos de calor
Os filmes que eu não vi
Os beijos que virão
E bastam os abraços
Os corpos que se encontram
Os olhares que aprofundam
As forças que juntas se consomem
E então um grito ecoa no ar
E me diz que na vida
Embora existam as saudades
Tudo tem fim na alegria
Que nos jardins de rosas
Todas as dores se transformam
Em luzes que se espalham pelo céu
Que lá fora há um sol gritando por nós
E um planeta que não se cansa de amar
E uma vida que nasce
Intensamente a todo instante
Como a cada instante nascem e morrem
Astros por todo o universo
Como a cada instante damos a luz
A tudo aquilo que fazemos
E a tudo o que o desejo
Conduz e transforma em concretude

Auto da poesia autoral

Sou poeta da autoreferênciaInterior de mim
Eu, concreta e neblina
Que carrega a casa nas costas

Não preciso de mais nada
Meu quintal é o mundo inteiro
Poeta que não escreve ou diz para ser poeta
Poeta que se gradua no cotidiano
Na hora da alvorada, do amor, da refeição
Na hora do nada
Sou poeta de mim e de tudo
Porque em mim tudo se renova
E no tudo eu me relavo
Poeta de dores profundas
Das lembranças mal quistas
Mas de grandes alegrias
Das doces memórias
E do presente em movimento
Sou poeta das águas
Aquilo que me refaz
Celeste manifestação corporal da Terra
Onde encontro o prazer da intensidade
Por fim, sou poeta da infinita curiosidade
E de um desejo sem fim de mim mesma
…Desencontrada
Planando nos céus sob abismos do mundo todo
Sempre em busca de novas madrugadas
Diverso essencial do verso de mim

Ode


Ode ao mar que me faz silêncioAo sol que me faz desejoAo mistério que me faz criançaDe todas as coisas do mundoCarrego um poucoE de todas as estrelas,virtualidade da matéria,carrego a longa permanência da luzE do caminhar à beira de breves ondassentido em meus pés desenraizadosa áspera areia brancaSei… sincero é o mais longínquo dos astrosE errôneos os que caminham ritmadosno tempo da maquinaria do mundo-gente
Observo-os de longe
da beira-mar onde estou,formigas cujas odes são ao controleE eu, nesse mesmo mar que encontro aos pés…IncontrolávelÉ o mar que lança sua força em mimDe tal modo que meu respeito a sua infinitude se diluie sou em uníssono com elePorque ouço uma voz que sempre me chamaComo vozes ouvidas antes por meus ancestraisE ouço ainda um sinalQue me guia pelo cheiro da maresiaE chego ao farolOde ao farolQue ilumina a extensão da mais profunda belezaDe lá contemplo tudo o que possa haverPela manhã o nascer do solVida pulsanteForça de naveganteDo espaço-tempo de luz e trevasBrilho da magnitudeIlumino em conjunçãoSinto o calor me tomar para siE algo me diz que também eusou estrela no infinitoQue também em mimgiram planetas em órbitaE que também por mimo mundo gira e se faz permanente movimentoE eu sinto esse calora luz a que fogem meus olhos vermelhos de luaLânguidos e suavesPorque também eu sou a aniquilaçãoE, assim, maré que vai e veme move o universoE quando tudo se calaTambém a morte pode reivindicar a vidaE vive-se na morteDa mesma forma que se vive mortoO dilema nunca é um dualismoÉ dorE a dor é forçaA dor das águas é o grito do mundo que,com força, arrasta para o profundo horizonteO mar sabe das doresEle recebe almasSente e molda o mundoA minha dor sente e molda minha vidaE faz girar moinhos quetransformam ventos em caminhosE sempre pra longe eu vouComo barco de pescadorCanoa de desejosPeixe que não se distingue da águaÁgua que remexe, expulsa e corróiE como vento e longitude, eu sigo,capitã de grandes navios piratasPorque ser pirataÉ ser marinheiro de almaNavegante por paixãoAfirmativo poder das ondasÉ ser vento que trazOra raios luminososOra cinzas tempestadesÉ ser um com o marOde aos piratasMais peixes que marinheirosOde ao marMeu segundo de eternidadeMas Terra do que a terra

Móbile

Danço
E quando não danço
me lanço
Retomo dois, três, quatro passos
Separo cinco, seis, sete cantos
E reparo

De um lado a outro me desloco
Caminho lado a lado
E engano
Me engano

Sou reflexo
Som de eco
Me debato
Me carrego

Sou de ferro
E de aço
Também refaço

Sou de vento
E de água
Me entrego
Afogo mágoa
Sou exata
Por alguns segundos
Antes de uma nova rajada

Água

Caem como estrelas no horizonte da noite
Entregam-se como loucos apaixonados
Golpeiam, tomando para si tudo o que desejam
E mesmo quando não desejam
Corróem, diluem, esbravejam
Rastejam como bichos famintos
Violentam como doentes terminais
Carregam, levando tudo o que se move
E mesmo o que não se move
Desvelam, desnivelam, retomam
E minha dor vem como um refluxo
Remexe
Flutua como bolha de sabão
No infinito espaço da solidão humana
Pois a cada dia matamos algo que não nos pertence
Porque ainda nada nos pertence
Matamos algo a cada dia