Para amar de verdade

para amar de verdade
é preciso antes, amar-se
nenhum mistério no que escrevo
já disse algum poeta em manuscrito
para amar de verdade
é preciso localizar o desejo
e observá-lo como a um bicho
que atravessa a estrada
na frente do nosso carro
e é preciso deixar de lado
o ciúme, o desespero
e dialogar com o apego
fazer planos pra si mesmo
e somente para si
entregar-se a deleites solitários

é preciso abandonar a memória
das promessas não cumpridas
das coisas ditas e não ditas
e as boas lembranças de cheiro
as de muito tempo e as de ontem também
abandonar até a quem se ama
deixá-lo só e por um tempo esquecê-lo
e fazer das memórias de dor
substância de renascimento do amor
porque sempre serão rima um com o outro
já que amar exige esforço
de enfrentamento do que é mais grandioso
para amar de verdade
é preciso estar disposto
a encarar os próprios medos
e se olhar no infinito do espelho
é preciso querer encontrar dentro de si
a liberdade de descobrir
que a vida só se dá a quem se entrega
a liberdade de então perceber
que um amor pode até morrer
e nos matar
mas o amor permanece

para amar de verdade
é preciso viver a vida em prece
e de mãos dadas com o contentamento
abandonar a fama, a fome,
o orgulho, o preconceito, o lamento
e esquecer que um dia o amor feriu
porque fere mesmo, e a vida fere sempre
mesmo sem amor
e é pior sem ele

para amar de verdade
há que se cuidar da cumplicidade
mais do que da fúria dos hormônios
e há que se atentar para a lealdade

para amar de verdade
é preciso antes entregar-se
a delícia do aconchego

daqueles do tipo
que provocam

medo

Há tantas auroras que ainda não brilharam

acordei tarde
procurando poesia
havia um cheiro ali ao lado
sei lá que lado
talvez todos
que fica a espreita
rondando minhas certezas
acordei tarde
porque é tanto o cansaço
e o amor tem sido uma cidade grande
com parque, arranha céu, cachorro, sinal de trânsito
verde, vermelho, cuidado
siga atento no amarelo

acordei e desejava poesia
para o café da manhã do quase meio dia
– há o silêncio do meio dia,
estranhamente o meu apartamento silencia –
o sol ardia
ainda arde
há calor e talvez nem seja tão tarde
e, quem sabe,
mesmo assim, parecendo tarde
seja, na verdade,
cedo

Isto não é uma poesia

não sabia quase nada

hoje sei menos ainda
não sei o que se passa
e sou mais feliz assim
de tudo o que conquistei
ficou aquilo pelo que não batalhei
mas pelo que me apaixonei
eu, a egoísta
a adúltera infiel
a workaholic
que poderia esperar da vida o pior
e ganhou o melhor
eu, a agradecida
a embevecida
o amor em forma de carne
a doação em sangue e suor
a lealdade

os deuses sabem o que fazem
e, então,
eis que sou o que sempre fui
eu, a desgarrada
no meio de uma chuvarada
fazendo poesia
e poesia não serve pra nada!

Atonal

sei lá que tipo de matéria eu quereria ser agora
sei que assim, compactada como um corpo humano,
não dou conta nesta hora

queria era estar decomposta
talvez em poeira estelar
em células mortas
infinitamente dividida
em minúsculos grãos de areia ao vento
que se espalhariam e não restaria nada
que pudesse dizer: veja, aquilo tem identidade

nenhum sólido
nenhum corpo
nenhum sentido exposto
nada que conte história

sem passado
sem futuro
só o presente sobreposto nele mesmo
sem desejo
mas com devir
sem afeto
mas com instinto
sem amor
apenas existindo

arrastada pelas tempestades
sem controle
destituída de toda saudade
desmembrada das cláusulas
que um dia o meu corpo assinou

descentrada
e só

diluída na partitura da dor

De volta pra casa

Como se revisitasse sólida
A doçura do meu afeto
Aquela estrela amanhecida
Me tomou inteira nos teus olhos
O mundo curtia ao longe
A tua senda envaidecida de saudade
Teu inexato signo da morte
Verdade que tomada ao vento
Foge ao meu caminho
Que tão íntimo ao teu, agora,
Se dobra na curva extática do infinito

Como se faltasse um nome
Uma palavra têxtil me tomou de assalto
E o campo numeroso do meu corpo mago
Fez chover sorrisos como meteoros tortos
Eis que o nome é o que menos importa
Pois se abriram as portas mais esplendorosas
Que temperadas me tomam feito o mar
E carregam meu sangue no teu paladar

Como se transbordasse a fome
Nasceu inteira uma lavoura enorme
Dentro da qual se dança o campo
Imantado de uma música-criança
E brotam lírios, uvas, azeitonas
E árvores pedindo seiva bruta
No horizonte endoidecido de desejo
Em que insetos despejam seus segredos
Na roda placentária movida de cheiro

Amanheci o ser amado no meu beijo
Anoiteci minha palavra nas estrelas
Enlouqueci minha saudade de futuro
No colo de um deus apaixonado
Que de tanto não saber como amar tanto
Criou um planeta

Com água, planta, elefante,
Cerca branca, pedras coloridas,
Cabelos ao vento
E gente a respirar com o sol no rosto
A chuva fina pra lavoura não secar
O vento nos poros pra não enferrujar
O passado passando
O futuro como casa em construção
Tijolo por tijolo para garantir sustentação

E o presente como firmamento
Por onde correr de bicicleta
Com as pernas cheias de vontade
E dançar a música que se queira
Deslizando como bicho na paisagem

Como se o mundo estivesse nascendo agora
Eis que tudo é novidade!

E a sua máquina
Luminosa que só ela
Fez da nebulosa carregada
Um doce céu na minha quimera

E como se agora fosse mesmo só ela
E a minha face cansada
Tivesse me feito nascer asas

Eis que me sinto, como nunca,
Como se tivesse, então,
Chegado em casa.

Metalinguagem

Meu paradeiro hoje
Um espelho
Narcisismo da exaustão
Não ouse querer encontrar
O meu ego na multidão
Estou só
Como só os exaustos
Sabem sê-lo
Com o corpo mais arrasado
Que a natureza concebeu
Que não suporta a luz, o caos
Fadiga de coliseu
Incapaz de tolerar o traço mal feito
E a palavra mal dita

Para seu governo torto
Faço poesia com a matéria vida
Num banco de metrô
No ensaio de uma orquestra
Quando já não dá mais
Pra suportar o próprio sentido
E nem mesmo toda festa

Meu sentido é tão somente sentir
E sei muito bem
O que faz este corpo cansado
Sorrir

Um espelho aberto um dia
Na clausura do tempo linear
Mostrou-me
Sem tempo
A cura que é amar

Mas dormir
Para um insone
É tão belo
Quanto o olhar
Daquele homem.

Faço poesia
Com qualquer coisa
Em dias assim
Quando a dor no corpo
Frita os músculos
E elimina o doce cheiro do jasmim

Pra não perder
O mistério do coração

Pra não morrer
De obrigação

Pra que serve a poesia

se não servir a poesia
para nada
prefiro não ouvi-la
não sou adepta do vazio
da palavra
que, aqui, uma vez dita,
– a física garante –
produz nota na cítara
do outro lado do planeta

que me sirva, a poesia!
como me serve um prato
de carne suculenta
ou prefiro esquecê-la

para quê poesia
se não me lembra, ela,
da vida latejante
que existe para além
do cansaço

deve servir sim!
para lembrar
o absurdo risível

que nada é tão absurdo
que não possa ser possível

Cheiro de rosa

um cheiro de rosa invade a minha sala

se é incenso vindo de fora
se é paixão que insiste no peito
que importa

fato é que um cheiro de rosa
bate à minha porta

e devaneio

abro a garrafa de vinho
escrevo mais um soneto

enlouqueço
e cedo à tentação
de deixar escorrer pelo meu corpo
um cheiro persistente

que insiste em ser presente

mas canso
e me entorpeço

desabo
em direção a fonte
do espasmo

e me deixo
exausta

à mercê da tua estrada
à guisa das tuas madrugadas
sonhando contigo
a me acordar em noites calmas
delirando o abismo
de desejar estar sempre em tua jornada

estando

vivendo contigo
a construir
realidades novas

o que estamos fazendo
senão traçando, juntos,
uma estrada sinuosa?

um cheiro de rosa invade a minha sala
e sei que daí, a partir destes dias,
pensas que não sabes mais o que sentir

e eu…

eu não sei

apenas canto
tua maravilhosa presença

ensimesmando
com tanta
persistência

O amor tranquilo

então, era isso!
de uma simplicidade estonteante!

então era assim que, o tempo todo,
ele estava programado para chegar?

silencioso e sem querer

no frio de uma madrugada de inverno
depois da calma de um dia de sol
que renovou a fé nos dias que virão

então, era só isso?
e eu não precisava ter sofrido tanto?

mas, desconfio:
o sofrimento é que nos traz
o sentido da leveza
e a sua grandeza

então, o tempo todo,
ele esteve comigo!

porque nunca não haveria de estar
eu apenas não o via
mas, desde sempre,
ele esteve respirando
em meu ouvido

então, era só isso…
simples, fácil, óbvio
e, por isso, belo

como o sol descendo no horizonte
ao som do bolero de Ravel

O substantivo vida

se perguntassem a um poeta o que é a vida
carbono seria estrela

vida é aquilo que existe quando a gente ama!
e sente dor de estômago

é o cheiro que enjoa
e a luz que dificulta abrir os olhos

é quando bate a saudade
e nasce alegria de ouvir a voz querida

é carinho desejado
e acontecido
vértebra cintilando
o investido

vida é dor
dor nas vísceras

é quando os músculos se contraem
as lágrimas caem
o peito se apavora

vida tem gosto de vinho, azeite e amora
e é a lida que começa cedo para fazer o pão

é o moinho girando
a água cantando na pedra
o som da máquina do mundo
o cabelo ao vento
um poço bem fundo

tem cheiro de delírio
gosto de ser amado
tato de mar salgado
visão de deserto longo

vida é o estilhaço
das cordas renascidas
e o sopro que anuncia o susto

da morte

às vezes,
a vida parece uma falta de sorte
e é um grande espanto

no entanto,
é a notícia dela,
da sua chegada,
a notícia da certeza
de que sentir-se vivo
é, antes de tudo,
sentir-se estrela!