Poema sinfônico

uma sinfonia deve conter o mundo
e, em cada mundo, a paixão!

amanhecia a vida

anunciaram, as madeiras,
notas transversais

tomaram o meu corpo
e eu me rendi ao suor do sopro

fosso-oboé do meu desejo
clarineta fálica do meu sexo
meu nexo é levar a vida na flauta
e, em se tratando de paixão,
meu fagote sussurra coisas
impronunciáveis

metalizando a fala
minha verdade rara é tomada de torpor
trompas, trompetes, tubas, trombones
quando o mundo se refaz, são eles que anunciam

e, logo depois,
na percussão do universo,
anuncia-se o verbo!
um tímpano é capaz de produzir um mundo novo
e a infinidade de tudo o que percute
torna a existência mais certa e menos rude

e, entram elas, as teclas,
martelando a minha espinha dorsal
e arrepiando versos que,
piano, poderiam fazer nascer carnaval
para então, cravo, ressurgir, na quarta-feira,
o sagrado em uma harmonia inteira

a ecoar, também profano,
o choro de um magnífico coro

para chegarmos às cordas!
onde a realidade se estica
a multiplicar o possível
e o impossível do vivido

contrabaixos,
estes mensageiros do profundo,
ressoam graves desde o fundo do oceano
e revelam minha insanidade necessária

violoncelos,
mestres do encanto e do experimento,
vêm nos ensinar o caminho do meio
meu corpo, deles tomado,
delicia a eterna hora do recreio

violas,
as pontes…
sem as quais a passagem seria dolorosa
minha alma, cansada,
dança com elas a valsa enluarada

e, então, os violinos,
tão carregados de memória

eu viveria na melodia dos versos que produzem

e, ao me encontrar de frente para o mistério,
no quase segredo que revelam,
eu morreria, para recriar minha fala,
nas mãos de um spalla

e, então, no ouvido do maestro,
renovando o sexo dos deuses,
reconstruir-se-ia o mundo

e, por teus gestos,

como poema sinfônico

semeando luz
em todo e qualquer universo!

um maestro deve ser Deus
e cada um de nós, maestros de si mesmos
a reger as sinfonias dos nossos desterros

cada sinfonia deve conter o mundo

quantas sejam

nove, dez,
quarenta

são elas, os cantos da terra
e a vida que se reinventa

São Paulo, agosto de 2013, pós concerto.

Um último tango no Rio de Janeiro?

da noite pesarosa
de um tango insuportável
renascerá Piazzolla
descalço e sem pudores
para acertar os passos
que se alinham tortos
num tempo descompassado
virá predizendo 
o fim de uma jornada
– na noite pesarosa, carioca e amarga –
há tangos improváveis que acabam sendo dançados
mas o descompasso não pode ser perpetuado
é como dor de escarro
que dói no peito conjugado de promessas
as farpas miseráveis dos afetos absurdos
–  é preciso devolver a harmonia da cidade –
em Paris, morreriam os amantes
envoltos em lágrimas e um bandoneón,
afogados às margens do Sena
– com uma garrafa do melhor vinho à mão –
no Rio de Janeiro
a chuva se confunde às lágrimas
dos que são lançados no deserto
– escondendo o céu claro –
e um último tango deve ser dançado
cansado está
de existir
descompassado

Infinito

Tenho um amigo que diz que somos a consciência do universo, e que esta é a religião dele. Ele é fascinado por física e astronomia, e sempre temos papos deliciosos sobre filosofia e cosmos… Sempre tive dentro de mim esta certeza, mas nunca havia conseguido verbalizá-la com tamanha clareza como ele, um virginiano, fez. Adotei para mim a sua máxima! Cada ser humano é o universo pensando sobre ele mesmo. E a criação é uma das maneiras com a qual podemos ter esta certeza. fiz um poeminha sobre isto:
Infinito
dedicado à Gustavo Castro

cada um de nós
é, inteiro, o universo
pensando sobre si mesmo
a criação não é conexão
porque o que somos já é
ela é a certeza do infinito 
que começa e termina
em nosso próprio pé

Chuva, um violão e uma taça de canção

a vida?
ah, sei lá
algo absolutamente fascinante
e, às vezes, o que mais importa
é tão pequeno
que de tão pequeno é grande

uma taça de vinho
pão com azeite
a música de Santaolalla
uma conversa que basta
e mais nada

uma conexão que são mil delas
as pétalas amarelas do girassol

a chuva na montanha
o cheiro de lasanha

um beijo…
e tudo que duas bocas
repletas de paixão
desejam

menino-música

no dicionário:
como verbalizar
o não verbalizável

silêncio na soleira da porta
notas que reverberam
nos muros de pedra
os tempos todos
dos homens

criando luz sonora
nas construções antigas
do corpo cultural
e pondo abaixo
aquela cidadela que seria nada
não fosse a tua música

atravessando
fazendo a seu modo o cotidiano
um deus

irradiando
semente nascente de embriaguez
que ilumina, de cegar,
a insensatez do soberano

rindo
como prostituta de santo

acreditando
como só aqueles que tem fé

verbalizando!
como antes não era possível

porque coragem
esse menino endiabrado
de divindade

porque menino deus
de riso escancarado
porque humano louco
e mago

porque profeta
e alquimista

verbalizando
o não verbalizável

foi Mozart
meu primeiro amor

Improvável domingo

acordei um tanto extensa
e o cheiro de café
invadia meus sentidos

fazia silêncio, o céu estava azul
ventava um vento gelado
e eu podia ouvir, ao longe,
os pássaros

e me lembrei do rio,
do açude, das galinhas
da montanha que não cansava
de ser alma em forma de pedra

acordei e ouvi meu riso de criança,
de quando eu corria sem tempo
na sala grande da avó
fazendo festa

e me lembrei a primeira vez
que vi a morte

acordei e vi algo
que ainda não havia visto

era domingo
e tudo foi novidade
como a grande novidade um dia
da menina de olhos curiosos

aprendi, desde cedo,
a conviver com o improvável
e, assim, a acreditar
no inacreditável

Notas ingênuas para o cotidiano

às vezes, é tão somente
o vento de quando o metrô chega na estação

eu, já cansada (passa das dez),
tentando conter a ilusão da rua do passeio

o edifício odeon se torna um refúgio
para um coração estupefato por tantas palavras e desejos
e projetos que não cabem mais na agenda
e todas as certezas que não tenho

a música ainda chega
para inflar mais este corpo
necessitado daquilo que não precisa
a força prolixa das letras

não fosse a poesia, eu sufocaria
mas, se não fosse a música,
este maravilhoso vazio do verbo,
eu já haveria de ter partido desta para o incerto

nem sei de mais nada
é tarde e estou cansada
os olhos ardem de tantas mensagens
que não cessam de me querer

chego a cogitar que posso atender
algumas delas
afinal, o amor líquido
parece tão mais fácil

é que tudo anda cultural demais, um tanto
racional demais

mas eu só desejaria correr na direção certa
e sem resquícios de um leão covarde

só que a paixão confunde
e, diante do cansaço, delira

e sentir demais o mundo
a ponto de deixar transbordar
não somente o amor, mas as planilhas
e os problemas todos da família
é uma dor que dói
onde nenhuma palavra alcança

mas, às vezes, é tão somente
o vento de quando o metrô chega na estação

e balança os cabelos,
faz ruído nos meus pelos
e eu fecho os olhos e penso:
ser gente
é ser qualquer coisa
e mais nada

antes de embarcar,
cansada

Enigma da esfinge

rasgo em pedaços a vida rasa
que quer me sufocar no dia a dia
da tua existência em máscaras
da maquiagem bem feita
e da foto perfeita de perfil
bem vi tua perfeição a passear
e roubar tuas sandálias style
comigo, a poesia invade
meu horário de trabalho!
é deusa… e vadia que só ela
me lembra, afinal,
o que é que vale a pena
me depena
para que eu vomite palavras sinceras
e esqueça, para sempre, na mesa do bar
a triste máscara da beleza sem alma
e da cinza eterna alegria falsa
– quanta gente it que nos cerca… –
não tenho que fazer mesura em tua festa
sou poeta!
enquanto a tua trupe repete os prontos versos
tão midiaticamente perfumados,
eu crio o universo!

La vie en rose

era danada essa tal de Hilda,
que roubou meus versos numa ode
descontínua e remota para flauta e oboé
de Ariana para Dionísio:
decreto, com ela, o reino do impossível!
e, junto a Piaf, no jardim da boemia, o reino do incorreto:
somente a beleza, um bom vinho e o sexo!
decreto, diante de seus versos, o reino da sorte:
munida de um cigarro para espantar o medo da morte.
e, assim, decreto hoje também, o reino do improvável
e do trompete rasgado das love songs de Miles.
feliz, ao decretar o reino do cansaço
de todo academicismo reacionário!
e o que digo é, obviamente, óbvio
e nem um pouco novo:
é preciso decretar o reino do corpo!