Tag: Poesia
I Ching – um poema para tempos ruidosos
recolher-se em si
aquietar-se
é tempo de lapidar os diamantes
na sala escura dos homens, distante
para uma luz brilhar
sem ferir os olhos
é necessário um trabalho árduo
sensível, cauteloso
por vezes, solitário
nada sabemos do que somos
enquanto tudo proclamamos como sábios
no poço fundo, caem nossas verdades
para o florescimento
é preciso devoção!
para o renascimento,
a observação
retirar-se
momentaneamente
para reorganizar-se
é tempo de balanço!
para que seja triunfal
a descida da montanha
move-se o universo em favor
quando uma estrela se enche de luz
internamente
virá, no exato momento,
do fundo do poço,
do abismo da alma-corpo,
aquela que mata a sede
por isso, o agora
é o tempo da reforma,
da obra de revestir-se
para a transformação íntima
e não se pode utilizar um poço
enquanto ele está sendo revestido
este trabalho, no entanto, não é em vão
graças a ele, a água permanece límpida
tantra
será, a minha poesia, a chama para queimar
o incenso do mundo
na realidade que construo com a palavra
transformar a pedra em ouro,
o vazio no som primordial
nuvem que atravesso num jato
deixando o meu rastro
como lençol de seda que estendo
para dormir o sono exato do planeta
e acordar inteira carregando, da vida,
no meu ventre, a tua saga
meu corpo é um templo!
encontre nele a tua tessitura, universo
pratique aqui, a tua união, onde pulsa o sexo e mora a divindade
sou folha branca de papel para que escrevas o teu verso
o corpo nada sabe das palavras
ele apenas vive… como cheiro, gesto, carne
mas escrevo versos para criar realidade
vive, no corpo, a palavra poética
ganha a palavra, no corpo, métrica
novos poemas encontrados num caderno
filosofia corpórea
eis um mistério:
o que fazer com o corpo
e aquilo que nele nasce
após um acontecimento
o que fazer com o que fica dentro
parte nova a integrar o corpo,
que, pelo que se deu, torna-se novo
o que fazer com o corpo…
tomado ele de torpor e encantamento?
e de tudo que vem com o tempo
o que fazer com o corpo
depois do acontecido,
e com o volume que lhe toma,
e até então, lhe era desconhecido
o que fazer com a densidade
de uma nova informação?
e tudo o que não se sabe
e o que se deseja de um encontro
e toda a densidade do outro
que lhe soprou o outono…
mas muda o corpo a todo instante
posto que é errante
é preciso acostumar-se ao novo
e ao estômago do mundo
onde nos lança
cada acontecimento profundo.
blackbird
que nome eu poderia ter agora?
pergunto a mim mesma
diante do espelho das horas
eu…
uma gama de histórias ainda não contadas
poemas guardados que precisam de tempo
para serem revelados
a multiplicidade do desejo
e um desejo que confunde o que eu vejo
a ansiedade de querer, com os braços,
envolver o mundo inteiro
mas é que agora,
caiu a moldura
chegou a hora das batalhas mais duras:
as de enfrentar os grandes medos
porém, calma estou
porque já os conheço
e é preciso coragem
para se olhar no espelho
calma estou para iniciar
o que deve ser feito
é preciso foco, ar,
é preciso jeito
disciplina é liberdade
eu ouvi há muitos anos
e guardei como mantra
na caixa daquilo
que não explicamos
apenas voando
é que sabemos que ela existe,
a liberdade,
e que insiste
sou então, nesta hora,
um pássaro que deixou a gaiola
no eterno retorno de romper
e me reconstruir na aurora
novamente identificando minha delicadeza
que recupero depois de tanta fina dureza
que a vida fez passar por este corpo
e é nesse movimento
que preparo o café como quem massageia o ser amado
e escrevo minha vida
para trocar laços com o que há de mais humano
laços que amo e que são sagrados
sou pássaro negro reaprendendo a voar
a vida inteira,
eu estive esperando
esse momento chegar
canto
fez-se calma
minha ansiedade
que à luz palpitava
fez-se silêncio, então,
o que sedento pulsava
fez-se o tempo…
aquietou-se o campo
esplendorou-se o vento
atravessei flores
a tomar chá de jasmim, pensava
e busquei, dentro de mim,
a harmonia do mundo que dançava
atravessei pilotis
senti aquecer, o sol, meu rosto
e cruzei imensas estradas
encarando o meu desgosto
havia fome, frio, poço
havia…
arco para cruzar debaixo
sem saber o que haveria,
oposto
se fundo
ou raso
mas revelou, caminho novo,
o fim da estrada
cheiro de incenso raro
e novos livros foram postos
abrindo segredos nas minhas mãos
novas folhas de papel em branco
novas tintas, novos tons
e veio,
ela,
a voz
luzente
a espalhar semente
que emociona
multiplicando
em cada célula
do meu corpo
o canto
alegria inefável
que cala todo o meu pranto
aceito
aceito
dica de bolo
filosofia pra queimar o miolo
uma taça de vinho
um caliente carinho
banho de chuva
mesmo no frio
loucura na rua
poesia sem rima
aceito um doce
um sonho
um sentido
uma música nova
um novo vestido
flores, festas, cervejas
gente que ama
comida na mesa
projeto de vida
projeto de um dia
criança na praça
domingo preguiça
aceito tristeza
pra lembrar da alegria
mas aceito alegria
pra ganhar o dia
aceito
nesse frio, um cafuné
aquele pé pra esquentar meu pé
um filme qualquer
só pra ficar de bobeira
aceito quem me diga
como se faz uma cadeira
só porque não sei fazer
sou dessas
aceito viver
as veias da cidade
minha poesia tem fome
como fome tem um beijo
e percorre as veias da cidade
tem aura minha poesia
e preenche os espaços vazios
do porto
e do meu silêncio
diante da paisagem
como sangue tem meu corpo
como lua tem hoje
o céu do Rio de Janeiro
eu me beiro
nessa noite clara, de estrelas
nessa noite densa, de sonho
como o sonho de uma noite de verão
mas é outonal o céu carioca,
de lua abissal,
que vejo da janela do carro
como se carro fosse o meu desejo
e pudesse me levar
onde agora festejo…
onde também a lua é vista
e a vista é a pura poesia
do que vejo
tem música essa metrópole,
do alto, do asfalto,
da ladeira que o percurso toma,
dos arcos visíveis do bar
que imprimiu um cheiro
como a minha poesia,
percorre o táxi, as veias da cidade
e um torpor circula pelo meu sangue
e invade as veias porque não pode
senão, invadi-las, e torná-las arte
atravesso a cidade
me atravesso
e atravessa meu corpo
um ar frio carregado de futuro
do cristo à floresta
quereria meu coração
estar sempre em festa
planar pela lagoa
como pássaro altaneiro
a sentir o sol da tarde
do cristo à floresta
o caminho é curto
o parque era alto
o som era a lógica
o asfalto é o trilho
o mar permanece
invade o táxi as veias da cidade
e me deixa em casa
onde encontro o silêncio exato
pra o momento certo
o de construir o presente
no elo entre o que sinto
e aquilo que é urgente
e incerto…
