The Boys e a violência da vida real

The Boys, série do Amazon Prime, me trouxe tantas reflexões que se tornou uma série muito especial para mim. Não a acompanhei no seu lançamento, acabei de assisti-la, então ela está bem fresca na minha mente e no meu coração. Achei uma das melhores séries que assisti e uma produção impecável da Amazon. Não apenas pela arte e a técnica, mas também pela crítica social, que bate pesado nas principais feridas da sociedade estadunidense, mas que são as feridas de todos nós que vivemos no chamado “mundo civilizado”: a misoginia, o machismo, o racismo, a imoralidade do capitalismo, a sujeira da alta política, os preconceitos e abusos de toda ordem.

Infelizmente, essa crítica é incompreendida por uma parte dos seus fãs, que apresentam o mesmo comportamento tóxico que vemos em vários personagens da série. O bullying desses fãs com a atriz Erin Moriarty, que representa Starlight, é um exemplo. A atriz sofreu constantes ataques nas redes sociais de homens que não aceitam o protagonismo de uma mulher em uma série repleta de personagens masculinos “heróis”. Esse é um ponto que merece a nossa atenção, pois ele nos revela que, por mais que a arte seja um importante e necessário espelho também das nossas sombras, o nível de inconsciência na sociedade ainda é grande demais para perceber isso. O que muitos veem nas telas não são a sua sombra, mas de fato os seus heróis. Enxergar a própria sombra, afinal, não é fácil. A sombra é aquela parte de nós que escondemos, seja do outro ou até de nós mesmos. O psiquismo humano tem os seus mistérios e subterfúgios. A sombra desafia a imagem que temos de nós e que queremos transmitir ao outro: a nossa idealização. Mas todos nós somos muito mais do que nossa imagem e nossos aspectos conscientes. Há muito mais mistérios sobre nós mesmos entre a consciência e o inconsciente do que supõe a nossa vã filosofia.

Encarar a própria sombra exige força. Por isso, comportamentos machistas, racistas, nazistas, fascistas, entre outros “istas” do mal, são uma fraqueza. Não se trata de força nem de longe. Quem não consegue olhar para a própria escuridão e culpa e violenta o mundo por não admirar suas pretensas qualidades acredita que é soberano de suas escolhas e opiniões quando, na verdade, é dominado e controlado por suas emoções, traumas e frustrações. É essa a história de Homelander, o super-herói fisicamente mais forte de todos, quase invencível, mas emocionalmente e mentalmente mais fraco. Um sociopata, narcisista, dependente da admiração alheia. No entanto, Homelander é também uma vítima. Isso, obviamente, não justifica seu vitimismo e o seu comportamento violento, mas precisamos compreender que os desequilíbrios mentais e emocionais de uma pessoa são também desequilíbrios sociais. São responsabilidade de todos nós quando validamos certos comportamentos na sociedade ou simplesmente os negamos e os ignoramos.

The Boys, série inspirada nos quadrinhos de mesmo nome, nada na contracorrente das histórias de super heróis para falar de nós: da vida real. Já no primeiro episódio, vivenciamos o mesmo choque de Starlight e de Hughie ao conhecer de perto os seus heróis. A realidade é que de heróis mesmo eles não têm absolutamente nada. Ela é violentada sexualmente pelo “herói” que a recebe: o intragável Deep, o Profundo, que tem esse nome porque tem guelras e consegue descer em mares muito profundos. Mas de profundo mesmo na vida ele só atinge a profundeza da sua mediocridade. Já Hughie se depara com a morte inesperada e absurda de sua namorada pelo viciado A-Train, um homem negro que encontra, de forma torta, o poder pessoal que lhe foi negado pelo racismo estrutural no poder como o super herói mais veloz do mundo.

Há na história a repetição de um tema: o masculino tóxico. O mais poderoso dos super heróis, Homelander, que tem o físico clássico do homem ariano, é a representação perfeita desse masculino em um nível muito violento. Por conta de suas ações, mas também por tudo o que cerca a sua criação. Quando criança, foi usado como cobaia de um experimento maquiavélico. Cresceu sem família e sem infância, violentado por aqueles que foram responsáveis por criá-lo. Criado para ser uma máquina de guerra sob o discurso do cidadão de bem. O mesmo pano de fundo – uma infância violenta – cerca a história de William Butcher, um simples ser humano, sem nenhum poder especial além da manipulação, sedento por vingança, que cresceu sendo ridicularizado e violentado pelo pai e que se sente culpado pelo fato do irmão mais novo ter tirado a própria vida.

É preciso estômago para assistir The Boys. A série pode funcionar como gatilho de emoções difíceis para algumas pessoas. Portanto, aprecie com moderação ou não aprecie se você tem algum trauma violento muito presente em sua vida. As histórias são duras. Violências, abusos, vícios de toda ordem. Nazismo, fascismo, capitalismo selvagem, burnout, ansiedade. Tudo é exposto com uma crueza terrível. Inclusive, as cenas de morte e violência. O tempo todo o sangue jorra na câmera. Mas, para mim, as cenas de sangue não são as piores. Elas beiram o absurdo e o caricato, tendo lugar numa linha narrativa e artística já antiga no audiovisual, que une desde filmes de terror às obras de Quentin Tarantino. Claro, também expressam a arte da HQ. Mas o que é uma cabeça explodindo de forma quase caricata diante do trauma de ser violentado durante toda a infância e adolescência pelo próprio pai? Essa é também a história de French, o Francês, um personagem apaixonante que, diferente de Butcher, que expressa a sua dor da infância repetindo o pai, ou de Homelander, que expressa a falta de pai e mãe e de infância na sede de poder, recorre ao vício. É triste, mas Francês é responsável por parte das cenas mais doces da série junto com a poderosa e igualmente doce Kimiko. Soma-se a eles Leitinho, que apesar do nome ridículo é um homem nobre, para mim, o mais nobre de todos na série (que tem uma história um pouco diferente da HQ). Na série, ele é um pai zeloso, perturbado pelo assassinato de sua família por um super-herói nos anos 80 e responsável por cenas bem engraçadas; temos também Hughie, com quem dá vontade de cantar Billy Joel junto e que dá vontade de abraçar o tempo todo nas suas trapalhadas e em sua insistência em fazer o certo, obviamente errando algumas vezes; e Starlight, que depois de abusada e explorada como sex symbol em seu papel de heroína, revela-se uma heroína de verdade, antes de tudo, da própria vida! A série também traz outros respiros nesse universo doloroso: Queen Maeve, cuja dor de quem só gostaria de ser feliz com Elena, o amor de sua vida, e ter um pouco de paz, nós sentimos dentro da gente; e o menino Ryan, para quem a gente torce que possa sair desse ciclo violento de uma cultura misógina, armada e que transforma pessoas em objetos.

O grande acerto de The Boys é mostrar que herói mesmo é quem consegue sobreviver com sanidade e, mais que isso, viver, apesar da crueldade da existência. Em seu Livro Vermelho, o psiquiatra e psicólogo suíço Carl Jung escreveu: “o herói precisa morrer por causa de nossa redenção, pois ele é exemplo e exige imitação”. Não podemos repetir o herói o tempo todo. O arquétipo do herói é ativado em nós sempre que estamos diante de desafios que nos pedem coragem. Nós precisamos dele. Mas uma vez que esses desafios passam, temos que deixar morrer o herói em nós, ou jamais seremos capazes de fazer nascer o mestre e a mestra interior que nos habita. O herói nos ensina que só podemos ser heróis para nós mesmos, antes de tudo. É isso que também inspira as outras pessoas. Quem insiste em fazer o papel de herói de um grupo ou de uma nação, corre sérios riscos de se apaixonar pelo poder. Homelander que o diga!

Autor: Vanessa Rocha

Escritora ensaísta, de ficção e de poesia. Doutoranda em Ciências da Religião, especialista em Psicologia Analítica, Mestra em Comunicação e Cultura, Produtora Cultural e Artística. Três livros publicados e contando...

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