Será que um dia conseguiremos reduzir a violência?

Texto publicado no Medium em 15/03/2021

Essa tem sido a pergunta que não quer calar na minha mente já há algum tempo. Ela me levou ao meu atual objeto de pesquisa, por ser ele as origens da violência: o ódio. O título é provocador: eu insiro todos nós no dilema. Portanto, se você chegou a esse texto se perguntando “por que o mundo está tão violento”, “por que o grupo tal é tão agressivo”, eu te convido a ir além. Não é sobre o mundo que falamos, como se o mundo fosse uma abstração fora do nosso olhar e ação sobre ele. É sobre você, sobre mim, sobre todos nós. Trata-se de responsabilidade compartilhada.


A violência é uma resposta ao ódio. Esse, por sua vez, é um sentimento extremo que envolve desprezo, nojo, aversão por pessoas, grupos e até objetos, desejando o afastamento desse outro e, às vezes, a sua aniquilação. Nem sempre a violência é física, mas o tempo todo ela está presente. A começar pela linguagem. Quando estamos tomados pela raiva, uma emoção primária que pode provocar ódio, o que mais tendemos a fazer é xingar ou acusar o outro, até mesmo um objeto. Um exemplo: se o seu celular trava justo quando você ia mandar uma mensagem importante, você pode ter um ataque de ira, a depender do seu humor naquele dia, e jogar o celular longe chamando-o de imprestável, xingando o criador do Android, odiando todos que têm um Iphone, podendo estender o seu ódio até a alma de Steve Jobs por ter criado um sistema pouco competitivo e altamente elitizado. Tenha como certo que se houver alguém perto de você, pode sobrar para essa pessoa também. Isso pode acontecer com qualquer um de nós, a qualquer momento. Segundo Marshall Rosenberg, psicólogo e criador da Comunicação Não-Violenta, que é uma proposta de transformação interna e externa, a violência é resultado de uma necessidade não atendida. O ódio se produz a partir dessa necessidade que não foi suprida e se expressa na resposta violenta.


Desde Freud, sabemos que nosso aparelho psíquico, ou seja, nossa estrutura mental e emocional, busca se satisfazer através do outro. Há ainda um prazer que se volta ao próprio sujeito, o narcisismo. O ódio seria, assim, uma profunda quebra inconsciente da expectativa colocada no outro ou em si mesmo. Expectativa que também é inconsciente. Passado mais de um século do advento da psicanálise, hoje sabemos, apoiados também na psicologia, que o ódio começa com o ódio a si mesmo. E por que isso acontece? Sigamos com Freud. Para ele, as bases do nosso “mal-estar”, das nossas dificuldades de convivência, estão nas repressões a que a nossa psique, e o nosso corpo, precisaram se sujeitar para que a civilização fosse possível. A primeira delas, obviamente, a repressão sexual, que começa com a proibição do incesto e ganha contornos castradores na repressão da liberdade sexual na sociedade. A segunda, a repressão da agressividade, um instinto tão formador do ser humano quanto o erótico. Com tanta repressão que carregamos em nossa memória genética e da psique coletiva, associada às repressões pessoais que todos vivemos, fica difícil imaginar um mundo sem violência e sem autoviolência. Por um mecanismo do nosso aparelho psíquico, tendemos a nos punir inconsciente pelas repressões que também sequer conhecemos. Reprimir, em si, já é uma violência, e sempre gerou mais violência. Escreveu Carl G. Jung, criador da Psicologia Analítica, algo como “o que você resiste, persiste”. Mas não apenas persiste, como cresce e se torna um monstro. Ao mesmo tempo, se não houvesse a repressão inicial, não teria havido história humana. Será que chegamos a um impasse?


Essa construção da cultura se deu com os assentamentos, o que se revelou mais vantajoso para a sobrevivência da espécie ao permitir um domínio maior do ser humano sobre a natureza. Passamos de caçadores-coletores a sedentários. Com o tempo, assentamentos que eram pequenas vilas foram crescendo, se tornaram cidades, alguns viraram grandes reinos. Assim, cresceu e se tornou ainda mais complexo um comportamento determinante para a nossa história e para entendermos também o presente: o tribalismo. O comportamento tribal se expressa na lealdade ao grupo a que se pertence ou se sente pertencido. Surgiu nas primeiras aglomerações humanas e foi fundamental para a sobrevivência da espécie. Mas é justamente o tribalismo um dos principais motores do ódio. Atualmente, podemos observar esse comportamento nas torcidas de futebol, na política, na religião e até quando torcemos por participantes de reality shows. Tudo isso, amplificado pelas redes sociais. Esse é um comportamento que está marcado na nossa memória genética. Por mais que queiramos fugir dele, arrisco dizer que é quase impossível. Tenderemos sempre a nos associar a grupos por ideais ou qualquer outra coisa, e esses grupos, sem nenhuma romantização, excluem outros. É natural. A questão que fica é: diante disso, é possível reduzir a violência? Mas estamos tão inconscientes de nós mesmos que a tarefa parece árdua…


Um exemplo dessa inconsciência é, em pleno século XXI, haver quem acredite que a Terra é plana e ainda defenda isso com o peito estufado. Para essa pessoa, argumentos científicos não dizem nada. Não adianta provar para ela que a própria lei da gravidade faz cair por terra a sua crença. O que a move é o tribalismo, o sentimento de pertencimento a um grupo com o qual ela se identifica por algumas necessidades não satisfeitas. Arrisco dizer que, nesse caso, são necessidades de aprovação, pertencimento, acolhimento. O mesmo se dá com um torcedor fanático de algum time. Tente provar a ele que esse fanatismo pode levá-lo a enfartar. Não é possível. Enquanto ele mesmo não tomar consciência da violência que está cometendo consigo, isso será gasto inútil de energia. No caso da crente da Terra plana, ela pode não saber, mas sua crença é motivada por alguma repressão na infância, fruto da forma como as grandes repressões da cultura se desenvolveram dentro da família dela, na escola ou em outros lugares importantes que ela frequentou e que moldaram suas crenças, como igrejas e afins. Dependendo do nível de inconsciência dos sentimentos e dores das pessoas que a criaram, essa crente pode ser alguém com uma casca muito grossa que a torna incapaz de acessar os seus sentimentos de dor e rejeição, ao ponto de precisar provar para todo mundo que ela é “do contra”, uma sensação que alivia o seu sofrimento oculto e a faz se sentir vencedora, superior, assim como os seus colegas que compartilham da mesma crença. E todos “se ajudam” nessa necessidade de pertencimento. Tal sentimento de superioridade em relação ao outro, de negação cega das verdades científicas, é, no fundo, uma carência gigantesca que a pessoa não consegue enxergar. É sendo essa pessoa “do contra” que ela consegue atenção e satisfação ilusória da sua necessidade. Mas tais satisfações ilusórias, o próprio nome diz, não satisfazem verdadeiramente, e uma bola de neve se forma dessas muitas ilusões, levando ao ódio, que leva à violência. A começar pela autoviolência inconsciente, já que ela está tomada por uma crença que a controla, e não o contrário, como uma forma de se punir pelas repressões aceitas, como já dito no parágrafo anterior. Essa violência atua sempre pela linguagem (julgamentos e autojulgamentos) e por gestos e atitudes (como ignorar alguém ou ignorar o que se sente). Muitas vezes, o sofrimento é tão profundo que a violência escoa pela via física. É por isso que precisamos ter muito cuidado em quem votamos e para quem damos muito ibope, porque o nível de carência e insatisfação do ser humano, assim como de não conhecimento de si, é tão grande que torna o comportamento de manada o mais provável de acontecer. É assim que se explicam desde as aglomerações na pandemia aos extermínios em massa e o terrorismo. Portanto, eu acredito que se tem algo que pode mudar tudo, essa coisa se chama autoconhecimento. Mas para que se promova autoconhecimento, é preciso uma mudança também estrutural. E isso nos traz o famoso dilema do ovo e da galinha. Quem vem primeiro, afinal?


Vamos levar o olhar para as condições do meio. No primeiro capítulo da série Por que odiamos, de Steven Spielberg, realizada pela Discovery, conhecemos um antropólogo evolucionista que estudou os chimpanzés e os bonobo, dois grupos de primatas praticamente idênticos, sendo eles o grupo geneticamente mais próximo de nós. Nossa genética é 99,9% igual a desses dois primatas e, por isso, eles são bastante estudados. Separados somente pelo rio Congo, a sociedade dos chimpanzés se desenvolveu de forma bastante diferente da sociedade dos bonobo. O primeiro grupo, uma sociedade patriarcal, é mais violento, o segundo, uma sociedade matriarcal, é mais pacífico. A conclusão do antropólogo? O meio foi determinante. Os chimpanzés se desenvolveram num meio de escassez de recursos, enquanto os bonobo, num meio de abundância, jamais precisando competir. Tudo isso, apesar de muito interessante e de fornecer pistas preciosas sobre como podemos nos organizar de forma menos violenta, ainda deixa um vazio em nossa busca por respostas, já que seres humanos vivem sob leis culturais que, como já vimos, só existem em função das repressões dos instintos, diferente dos nossos amigos primatas. No caso dos humanos, será que a abundância de recursos faria desaparecer os traumas das repressões sexuais e da agressividade? Ou mesmo uma sociedade matriarcal? Se é possível reduzir a desigualdade social e ampliar o poder das mulheres, como é possível reduzir o estresse da rejeição pessoal, que começa sempre no núcleo familiar e se expressa de alguma forma, ou da competitividade por um parceiro ou parceira?


Quando me deparo com a questão sobre como diminuir a violência, percebo que o buraco é muito embaixo. Ele chega até a educação, por exemplo. Porém, como implementar uma educação libertadora, que promova autonomia e, o que é mais importante, que nos ofereça ferramentas para o autoconhecimento, se as nossas instituições estão enraizadas na própria violência? Quem educa o educador é sempre a grande pergunta. Observe seu ambiente de trabalho ou de estudo como um exemplo desse enraizamento e veja como ele é violento. A violência se expressa em relações desiguais, e por vezes tóxicas, o tempo inteiro. Em sistemas de opressão e de obrigação de lealdade que não são apenas materiais, mas psíquicos. Muitas vezes estão ocultos em atitudes até consideradas “boas”. E como aprendi com o rabino Nilton Bonder, o bom nem sempre é o correto e vice-versa.


Pensemos: como uma pessoa que acredita na Terra plana e briga com todo mundo por isso, gerando mais violência, pode se tornar mais consciente de si? Começaria com o governo? Mas como, se um presidente e os congressistas são seres humanos crescidos no mesmo sistema violento que nós, eleitores, e se nós, humanos, somos tão múltiplos? Se os governos são reféns dos grandes conglomerados financeiros? Seria, então, o caso de uma revolução? Entendo que a questão é muito maior do que simplesmente mudar o sistema econômico e social. É de filosofia e de psicologia, é de representação e de símbolo. A história já nos mostrou que nenhuma revolução com boa intenção se sustentou no sentido de promover a prosperidade para o maior número de pessoas. Elas geraram violência física e psíquica e não resolveram as desigualdades de forma a satisfazer tanto o material quanto o psíquico, promovendo bem estar e minimizando o ódio. E por quê? Porque o ódio está enraizado em nós e poucos conseguem ver e integrar em sua personalidade essa informação. Essa discussão começou ontem na história humana. É um olhar bem recente. O buraco parece sem fundo. Há quem diga que a possível solução começa na mudança do sistema político, outros, do sistema econômico, outros, do sistema educacional, e outros, dentro de cada um de nós. Para mim, é tudo ao mesmo tempo. Mas ainda me inquieto com a questão: haveria o melhor ponto de partida?


Eu desconfio que precisamos não deixar de olhar para a cara “do mal”, como se fosse possível criarmos uma ecologia para negociarmos com o diabo para que não sejamos tomados por ele como Fausto, o que passa por uma nova representação do mal em nossa sociedade. O mal sempre foi o outro. O diabo sempre foi a tentação de fora, nunca de dentro. Mas isso foi apenas uma interpretação. E interpretação muda tudo. Já disse o personagem Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa: “o diabo não há, existe é homem humano”. Com uma conclusão dessa, ainda há quem discuta, até academicamente, se houve ou não pacto com o diabo no livro, o que só demonstra como preferimos ver que o mal não vem de nós, mas de um outro. Aqui eu retomo a psicanálise e a provocação do poeta Rimbaud: “o eu é um outro”. Logo, o outro é também eu. Basta nos sentirmos minimamente ameaçados que nosso monstro aparece. Não à toa, a literatura e o cinema sempre exploraram esse duplo “médico e monstro” que todos somos. Talvez a gente precise olhar com mais carinho para as nossas sombras, para o nosso Darth Vader interior, sabendo que podemos ser tomados por elas a qualquer momento se deixarmos de olhar para elas. Assim, me parece necessário mantê-las muito evidentes, trabalhando para não cair em tentação. Afinal, se não vemos o monstro, parece que ele não existe ou existe apenas no outro, longe de nós. Voltando a Riobaldo, ainda em fala sobre o diabo, “a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo”. Tenho pistas sobre onde possa estar uma resposta satisfatória à questão que expressei no título, mas isso é assunto do meu futuro doutorado e precisarei de pelo menos quatro anos para compreender se a minha hipótese faz algum sentido. Por ora, deixo essa reflexão.

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