O mal não tem uma resposta fácil! A série Dahmer: um canibal americano traz mais perguntas do que respostas.

Hoje eu vou falar sobre uma série que entrou para a lista das 10 séries mais assistidas da história da Netflix – Dahmer: um canibal americano – que conta a história, ficcionalizada, do serial killer Jeffrey Dahmer. E não contente em produzir esta série, a Netflix ainda lançou hoje, dia 7 de outubro, um documentário sobre o caso.

Para mim essa foi uma série bem difícil de assistir, pois ela fala de uma história real e intragável que nenhuma história de terror de ficção chega perto. Até hoje, o mais perto que eu cheguei de sentir um asco profundo com uma ficção de terror foi lendo o livro “A narrativa de Arthur Gordon Pym”, que é o único romance de Edgar Allan Poe e até tem uma questão semelhante a de Dahmer, num ponto bem específico do livro. Ainda assim, a história não se aproxima de Jeffrey Dahmer e por uma razão muito simples: a de Dahmer é real e nos leva a questionar os limites da nossa humanidade.

De fato, como o nome da série em inglês nos diz, Dahmer foi um monstro. O primeiro episódio é bem incômodo. Depois dele eu achei que eu não ia conseguir assistir, mas eu queria muito chegar ao final porque o tema do Mal, das sombras e da violência é o meu tema atual de pesquisa – e eu gosto de ver também como a indústria cultural lida com o tema, porque isso revela muito da nossa sociedade e do inconsciente coletivo. Como a mente tem lá as suas formas de criar filtros e lidar com as coisas, depois de uma noite de pesadelo eu consegui aos poucos engrenar e os últimos episódios eu já assisti de uma vez só.

Mas a série não tem muitas cenas explícitas de violência. Muita coisa é sugerida. Só que isso torna tudo ainda mais tenso, porque a capacidade da mente de imaginar é infinita e poderosa. E isso pode ser uma armadilha. Então, se você não tem um estômago muito forte, sinceramente, melhor não assistir. Mas fica aqui comigo, porque mesmo falando sobre a série, na verdade, a série é um pretexto para uma reflexão sobre esse mal avassalador e sobre a violência da nossa cultura.

A série é uma produção de Ryan Murphy, muito conhecido e celebrado na indústria cinematográfica, e que tem o horror e as mentes perturbadas como um de seus temas de trabalho preferidos. Os outros temas são a homossexualidade, os excluídos de todo tipo, as histórias de superação. Entre seus sucessos estão Glee, Ratched, Hollywood e Comer, rezar, amar. Murphy é conhecido ainda pela lendária série de horror American Horror Story, e é de lá também que saiu Evan Peters, ator que interpreta Jeffrey Dahmer, e que disse que esse foi o papel mais difícil da sua vida. Dá para entender o porquê assistindo à série… E olha que ele já interpretou outros serial killers na carreira dele. Eu espero sinceramente que Evan nunca largue a sua terapia, porque eu não sei como alguém consegue mergulhar tanto assim na escuridão da alma de uma forma tão visceral sem pirar. O trabalho de Evan Peters na série é fenomenal! Eu confesso que eu precisei assistir algumas entrevistas com ele depois, com a cara dele mesmo, pra tirar da minha mente a imagem dele como o Dahmer, porque eu fiquei muito impressionada e até esqueci o rosto do próprio Dahmer real. Se tem um motivo para assistir à série, é esse, a atuação de Evan Peters. O outro motivo são as questões sociais abordadas, muito embora não seja realmente necessário contar a história de Jeffrey Dahmer para falar desses assuntos. Um outro ponto é a explanação do mal que nós, seres humanos, somos capazes de dar vida e o qual não podemos ignorar. Mas quanto a isso, a gente pode até questionar a existência da série. Embora séries de true crime sejam interessantes, e eu acho que elas devem ser produzidas porque mostram aspectos importantes da nossa sociedade e da nossa psique que a gente não pode fingir que não existe, tudo depende: por exemplo, de como a história é contada, em que momento e contexto. O contexto do caso Jeffrey Dahmer é o da exploração excessiva da sua história e é delicado revisitá-la o tempo todo. Há uma infinidade de livros e documentários sobre ele, e cada um com o seu ponto de vista, revivendo de tempos em tempos essa história sem dar grandes explicações. Há outros contextos em que uma história de crime é revisitada de maneira mais cirúrgica, na tentativa de explicar o nascimento de um serial killer, o que é uma proposta bem interessante.

Vou dar um exemplo do próprio Ryan Murphy que eu acho muito feliz: a série American Crime Story. Ele é um dos produtores da série e esteve bastante envolvido com a segunda temporada, “O assassinato de Gianni Versace”, que conta a história de outro assassino em série, o Andrew Cunanan, que ficou famoso por sua última vítima, o estilista Versace. Na série, Ryan une todos os seus interesses e conta uma história muito coesa, numa produção incrível, sobre como a obsessão e outros desequilíbrios psíquicos são agravados e, em alguns casos, gerados por uma cultura preconceituosa e violenta contra os mais diversos modos de viver. A série costura muito bem essa relação entre a sociedade e o nascimento de um serial killer.

Embora o caso de Jeffrey Dahmer guarde uma semelhança ou outra com o de Andrew Cunanan, por exemplo, no fato de ambos serem homossexuais e matarem apenas homens, ele é diferente. O nível de monstruosidade, que envolvia mutilação, esquartejamento e canibalismo, é o que assusta e nos deixa sem respostas sobre qual a origem desse mal, embora se possa especular muita coisa. Talvez seja por isso, por essa falta de uma resposta conclusiva, que não nos cansemos de revisitar essa história. Eu sinto que a série tenta uma explicação, ainda que a única explicação possível seja complexa, mas fica passeando e tateando, como se fosse encontrar uma resposta que nunca chega. Vai na infância de Jeffrey, nos dramas familiares, no alcoolismo, na pressão que homossexuais sofrem em uma sociedade heteronormativa e na permissividade de uma sociedade branca e racista. Mas nada disso explica a monstruosidade de Dahmer, pois se assim fosse produziríamos serial killers como ele em massa, ainda que serial killers sejam um fenômeno que não podemos ignorar.

No caso de Dahmer, não é possível saber qual foi o gatilho que despertou nele um desejo mórbido e sombrio de matar, e ainda mais, do jeito que ele matava. No entanto, se não é o drama familiar e a sociedade que criam monstros como Dahmer, não dá para desconsiderarmos que os desequilíbrios familiares e coletivos estimulam que uma monstruosidade latente possa se expressar externamente. Uma das cenas mais interessantes para mim, nesse sentido, é a que ele tenta conversar com o pai, Lionel Dahmer, alguém em quem ele confiava e a única pessoa com quem ele teve uma relação próxima de amor, ainda que de formas um pouco tortas: ele se dobrava sempre aos comandos do pai, mesmo que não sustentasse suas decisões depois. Quem sabe fazia isso numa tentativa de nunca perder esse que era o único amor que ele tinha… Ele sempre se disse muito solitário, tinha uma ferida de abandono, que muitas pessoas têm, mas isso não faz de ninguém um monstro. Na conversa com o pai, numa tentativa de pedir ajuda, Jeffrey tenta falar sobre suas fantasias, porque ele tinha medo do que poderia vir a fazer e do que já havia feito, segundo ele, sem querer. A primeira morte não parece ter sido premeditada. O pai, assustado com o início da conversa, não sabe o que fazer e muda de assunto, espelhando a nossa incapacidade de lidar com os tabus e os assuntos mais sombrios da natureza humana. Simplesmente porque, ao invés de falarmos sobre eles, nós os tememos e fingimos que eles não existem. Fingimos ainda que sabemos quem é o outro. Queremos que nossos filhos, pais, irmãos e irmãs, parceiros e parceiras sejam a nossa projeção sobre eles. Mas a verdade é que não os conhecemos. Nem sequer conhecemos muito de nós mesmos. E essa é a nossa culpa coletiva: o medo da nossa própria natureza atrasa o nosso desenvolvimento como pessoas e como sociedade. Talvez se o pai tivesse tido coragem e estrutura para ouvir o seu filho, a história poderia ter sido bem diferente, embora, ainda assim, pudesse esbarrar em contextos perigosos, como na biologia do crime, que traz dilemas éticos profundos. O que fazer com alguém que diz ter vontade de mutilar pessoas e matar, especialmente se esse alguém for o seu filho? Estamos preparados para dar uma resposta pela perspectiva da saúde mental e coletiva, ou nosso impulso será sempre o de punir e matar? Mas como esse pai poderia ter tido força interna para ouvir o filho e fazer essa pergunta, se somos ensinados não a lidar com a complexidade da vida, mas a fechar os olhos para ela, a nos sentir culpados por ser quem somos e a cumprir os papeis esperados de nós!? Como!?

Dito isso, um outro aspecto que merece a nossa maior atenção na série é como ela expõe o racismo. A trajetória de Jeffrey Dahmer deixa claro que se ele fosse um homem negro, muito provavelmente teria ido parar na prisão antes mesmo até que matasse alguém. Mas o fato de ser branco livrou a cara dele várias vezes, inclusive em momentos em que a polícia esteve muito perto de pegá-lo. Os muitos avisos à polícia de que havia algo de muito errado no apartamento de Jeffrey, pela vizinha Glenda, interpretada maravilhosamente pela atriz Niecy Nashe, são angustiantes e reveladores dessa realidade do racismo. Em um dos episódios, ouvimos ao final a gravação real de um telefonema da Glenda real para a polícia, polícia essa que se mostra racista e homofóbica, logo, conivente com Jeffrey Dahmer. E depois esses policiais ainda ganham um prêmio. Acreditem!

Entre 1978 e 1991, Dahmer violentou, matou e esquartejou 17 homens e garotos. Apenas os 2 primeiros, que ele dizia ter matado acidentalmente, eram brancos. Os demais eram negros, em sua maioria, mas também indígenas e asiáticos, todos homens gays. Além de ter exercido a torto e a direito o seu privilégio branco, Dahmer teria ódio de homens? Não se aceitaria como homossexual? Em uma de suas entrevistas ele disse que tinha vergonha de ser gay. O que revela não necessariamente uma característica pessoal, mas a nossa incapacidade como sociedade de acolher e aceitar as diferenças. Essa hipótese do ódio aos homens, e de si mesmo, é apenas uma das hipóteses possíveis, mas que também não explica ele ter se tornado o que se tornou.

A série traz como objetivo expor essa realidade do racismo, do privilégio branco e da homofobia, e sinto que ela faz um esforço sincero para focar uma parte da história nas vítimas. Acho que consegue até certo ponto. O episódio do julgamento e o episódio 6 são exemplos disso. O episódio 6 conta a história de Tony. Para mim, foi um dos episódios mais bonitos e mais tristes também, porque a gente vê não apenas um vislumbre de luz no Jeffrey Dahmer, quando ele tenta lutar contra o que ele dizia ser a compulsão dele, mas principalmente porque conhecemos a história de um garoto muito luminoso, talentoso e cheio de sonhos, que teve a sua vida interrompida pelo seu encontro com o serial killer.

Há na série também uma outra denúncia, se é que podemos chamar assim, bem interessante e necessária, que é sobre o tratamento violento dado às mulheres em nossa sociedade. A medicalização excessiva da mãe de Dahmer durante a gravidez lembra os primeiros estudos sobre a histeria, que naturalizava a loucura na mulher. A mãe de Dahmer tinha depressão, tentou se matar algumas vezes e não teve apoio familiar e social necessário para lidar com isso. A forma ainda como o pai de Jeffrey tratava a sua esposa era agressiva, misógina e acusativa. Foi nesse ambiente que cresceu Jeffrey Dahmer. Por mais que isso não tenha gerado a sua monstruosidade, pois o seu irmão cresceu no mesmo ambiente e não é um serial killer, pode ter disparado dentro dele, ainda criança ou na adolescência, algo já latente nele, um mal para o qual toda explicação parece ser insuficiente.

Pois há um mal que não possui explicação psicológica, sociológica ou qualquer outra que dê conta. É tudo e mais um pouco que desconhecemos. Talvez tenhamos que simplesmente lidar com essa angústia, essa ausência de uma resposta satisfatória. Essa é a própria hipótese de Jeffrey Dahmer em uma conversa muito interessante que ele tem com um padre, dentro da prisão, que a gente vê no penúltimo episódio. Ele pergunta para o padre se ele acredita que há algo como simplesmente ser mal, sem explicação. O padre diz que sim e eles têm uma conversa bem curiosa sobre os vilões do cinema. Mas há outra pergunta que Dahmer faz ao padre que parece ser uma pergunta que devemos nos fazer: porque há tantos serial killers atualmente? Ele pergunta isso ao ver na TV a história de John Gacy, outro serial killer famoso dos EUA, conhecido como O Palhaço Assassino. Dahmer questiona ao padre: porque há tantos outros como eu hoje? Não temos a resposta facilmente, mas a pergunta precisa ser feita, e a resposta talvez esteja nessa combinação explosiva de medo de nós mesmos com uma cultura opressora, segregadora e segregativa, somados à nossa dificuldade em lidar com essas manifestações sombrias da nossa psique. Quem espera uma resposta fácil, parece ser um pouco ingênuo.

É curioso perceber uma clareza em Dahmer quando ele faz essa pergunta. Ele também queria se entender. Parece que sempre esteve muito consciente de que o que fazia era errado, o que ele mostra nas suas entrevistas. Quando foi preso, pediu para ser morto. Só não foi porque o estado de Milwaukee não tem pena de morte. Ele não era um psicopata, diferente de algumas análises que estão sendo feitas por aí. Psicopatas seduzem aos poucos, não estabelecem vínculos mas fazem o outro acreditar que esse vínculo existe, e não se arrependem ou sentem culpa alguma. Jeffrey Dahmer parecia sentir culpa, tinha dificuldades de se relacionar e se apegava ao extremo aos outros. Queria literalmente devorá-los para que fizessem parte dele. Drogava as suas vítimas antes de mutilá-las e matá-las, segundo ele, para que não sentissem dor. Mas afirmava também não conseguir parar de fazer o que fazia, como uma compulsão. Pesquisei pelo diagnóstico psiquiátrico dele e encontrei que ele foi diagnosticado com borderline em um alto grau, que é um transtorno que deixa a pessoa extremamente instável, além de transtorno psicótico e esquizoide. Mas mesmo que esse diagnóstico traga alguma explicação, ainda fica a questão: como lidar com isso e como esses fatores podem levar a uma expressão radical daquilo que chamamos de Mal?

A questão do mal é uma das mais antigas da humanidade. Nos intriga como nós, seres humanos, podemos carregar um nós um potencial de destruição avassalador, que produz verdadeiros monstros. O mal aniquila. Destrói não apenas a vida, mas a própria morte como expressão natural da vida, ao desejar controlar e subjugar tanto a vida quanto a morte. Não há uma resposta fácil para o Mal. E é a curiosidade por essa parte da natureza humana que faz com que séries como essa tenham sucesso. Somos tentados não apenas a querer saber, mas a ver imagens, como uma forma de dar vazão a algo muito primitivo da psique humana. Somos todos, afinal, crias de uma história civilizatória sangrenta e feitos de uma carne que sangra e se deteriora. Por mais que não lidemos com isso diariamente, a nossa memória genética sim. Acredito ainda que o nosso interesse por essas histórias passa também pela própria necessidade da nossa psique de se conhecer – isso é natural em nós. Ao olhar para o outro, nos perguntamos, ainda que de forma inconsciente, se nós seríamos capazes ou não de fazer o que o outro faz, avaliamos nossos desejos mais íntimos, nos aliviamos por descobrir que temos asco de certos comportamentos.

Mas sempre que se aborda histórias reais como essa na indústria do audiovisual, há que se lidar com a fragilidade do limite entre a luz e a sombra. Uma coisa é dar vazão à essa necessidade humana na ficção. Outra coisa é ficar remexendo nas histórias reais. No caso da série Dahmer, mesmo que Ryan Murphy e sua equipe tentem chamar a atenção para necessários temas sociais e para a dor das vítimas, eles acabam fazendo também o que toda série que conta histórias de serial killers fazem: espetacularizam o assassino. Na época em que estava vivo, Dahmer se tornou uma verdadeira celebridade. Recebia carta dos fãs na prisão e virou até personagem de quadrinhos. É o que vemos nos últimos episódios da série, onde quase vemos também uma redenção de Dahmer. Eu achei essa sequência final bem complicada em termos de edição, porque ela pode despertar dubiedades. Ele é morto espancado por um outro homem dentro da penitenciária, um homem negro. Até aí, tudo bem. Essa é a história real. Mas a cena acontece depois dessa tentativa de redenção, quando Dahmer pede para ser batizado e diz que está se esforçando para mudar. Entendo que a cena tem um caráter de vingança, mas é delicada porque coloca um homem negro matando um homem branco depois que ele estava tentando se redimir. Uma distração do espectador já pode fazê-lo reiterar o racismo e esquecer tudo o que Dahmer causou aos 17 homens que matou e às suas famílias. Enfim, esses episódios finais são complicados.

Atualmente, Jeffrey Dahmer é também um dos assuntos mais procurados nos mecanismos de busca online e é claro que a Netflix sabia que seria assim, e que seria sucesso a primeira versão romanceada da sua história. Transformar o mal em espetáculo é uma especialidade da indústria cultural. E o fato de ficarmos falando sobre isso, eu inclusive e todo mundo que vem falando sobre a série, já nos mostra que estamos todos enredados na sombra. Juntos. Não parece importar que tipo de consequência negativa – psíquica e social -, revisitar muitas vezes essa história pode trazer. O que isso revela senão o fato de que, no fundo, por mais que a gente ame filmes e séries, o que move a indústria cultural é a imoralidade? Uma cilada do capitalismo dos anéis da serpente, como diria o filósofo francês Deleuze, um capitalismo descentralizado, onde o “centro” está por toda parte, que tudo controla porque tudo absorve como válido. Ao mesmo tempo, há que se considerar que talvez essa imoralidade pode nos trazer respostas para os dilemas sociais, diante do peso que a indústria do audiovisual tem hoje em nossa vida e em nosso imaginário. Quando as histórias polêmicas vêm à tona, podemos lidar com os seus temas. Do contrário, sem mexer nelas, a gente fica sem saber o que pode emergir debaixo do tapete.

A série foi duramente criticada pela família de uma das vítimas, que está cansada de ter que se esquivar dos inúmeros programas, filmes, livros e séries sobre o caso. Não basta terem que lidar com o trauma na própria vida e memória, precisam lidar com toda uma indústria explorando a história que causou o seu trauma. É fácil compreender a perspectiva das famílias. Mas eu também compreendo o lado dos pesquisadores e de todas as pessoas que se interessam pela história de Jeffrey Dahmer, porque ela é tão radicalmente monstruosa que produz em nós um questionamento profundo sobre quem somos nós. E eu acredito que a gente precisa conhecer essa história, saber o tamanho do mal de que um ser humano é capaz. Repito: é por fingir que essa escuridão não existe, que ela pode se tornar cada vez maior.

Ao mesmo tempo, explorar em demasia uma mesma história para a qual todo mundo tem um ponto de vista, mas nenhum deles é conclusivo, pode ser apenas mais uma das armadilhas desse capitalismo hiperconectado e imoral que nos dá a ilusão de que estamos no controle e sabemos exatamente o que estamos fazendo. Só que não. Lembremos uma máxima de Freud: não somos senhores em nossa própria casa! Mas como escapar? Como ignorar as ondas coletivas? Como não se deixar seduzir? Como falar dos temas difíceis, abordá-los, sem cair na espetacularização vazia que apenas se alimenta do gosto mórbido pela violência? As perguntas seguem em aberto e Dahmer: um canibal americano, pode ser uma das séries mais intrigantes e interessantes de true crime e vir a alavancar ainda mais a carreira de Evan Peters, merecidamente. A questão é: a que custo? Fica essa pergunta também no ar, pra gente pensar. Respostas fáceis são tão perigosas quanto evitar o assunto.

Será que um dia conseguiremos reduzir a violência?

Texto publicado no Medium em 15/03/2021

Essa tem sido a pergunta que não quer calar na minha mente já há algum tempo. Ela me levou ao meu atual objeto de pesquisa, por ser ele as origens da violência: o ódio. O título é provocador: eu insiro todos nós no dilema. Portanto, se você chegou a esse texto se perguntando “por que o mundo está tão violento”, “por que o grupo tal é tão agressivo”, eu te convido a ir além. Não é sobre o mundo que falamos, como se o mundo fosse uma abstração fora do nosso olhar e ação sobre ele. É sobre você, sobre mim, sobre todos nós. Trata-se de responsabilidade compartilhada.


A violência é uma resposta ao ódio. Esse, por sua vez, é um sentimento extremo que envolve desprezo, nojo, aversão por pessoas, grupos e até objetos, desejando o afastamento desse outro e, às vezes, a sua aniquilação. Nem sempre a violência é física, mas o tempo todo ela está presente. A começar pela linguagem. Quando estamos tomados pela raiva, uma emoção primária que pode provocar ódio, o que mais tendemos a fazer é xingar ou acusar o outro, até mesmo um objeto. Um exemplo: se o seu celular trava justo quando você ia mandar uma mensagem importante, você pode ter um ataque de ira, a depender do seu humor naquele dia, e jogar o celular longe chamando-o de imprestável, xingando o criador do Android, odiando todos que têm um Iphone, podendo estender o seu ódio até a alma de Steve Jobs por ter criado um sistema pouco competitivo e altamente elitizado. Tenha como certo que se houver alguém perto de você, pode sobrar para essa pessoa também. Isso pode acontecer com qualquer um de nós, a qualquer momento. Segundo Marshall Rosenberg, psicólogo e criador da Comunicação Não-Violenta, que é uma proposta de transformação interna e externa, a violência é resultado de uma necessidade não atendida. O ódio se produz a partir dessa necessidade que não foi suprida e se expressa na resposta violenta.


Desde Freud, sabemos que nosso aparelho psíquico, ou seja, nossa estrutura mental e emocional, busca se satisfazer através do outro. Há ainda um prazer que se volta ao próprio sujeito, o narcisismo. O ódio seria, assim, uma profunda quebra inconsciente da expectativa colocada no outro ou em si mesmo. Expectativa que também é inconsciente. Passado mais de um século do advento da psicanálise, hoje sabemos, apoiados também na psicologia, que o ódio começa com o ódio a si mesmo. E por que isso acontece? Sigamos com Freud. Para ele, as bases do nosso “mal-estar”, das nossas dificuldades de convivência, estão nas repressões a que a nossa psique, e o nosso corpo, precisaram se sujeitar para que a civilização fosse possível. A primeira delas, obviamente, a repressão sexual, que começa com a proibição do incesto e ganha contornos castradores na repressão da liberdade sexual na sociedade. A segunda, a repressão da agressividade, um instinto tão formador do ser humano quanto o erótico. Com tanta repressão que carregamos em nossa memória genética e da psique coletiva, associada às repressões pessoais que todos vivemos, fica difícil imaginar um mundo sem violência e sem autoviolência. Por um mecanismo do nosso aparelho psíquico, tendemos a nos punir inconsciente pelas repressões que também sequer conhecemos. Reprimir, em si, já é uma violência, e sempre gerou mais violência. Escreveu Carl G. Jung, criador da Psicologia Analítica, algo como “o que você resiste, persiste”. Mas não apenas persiste, como cresce e se torna um monstro. Ao mesmo tempo, se não houvesse a repressão inicial, não teria havido história humana. Será que chegamos a um impasse?


Essa construção da cultura se deu com os assentamentos, o que se revelou mais vantajoso para a sobrevivência da espécie ao permitir um domínio maior do ser humano sobre a natureza. Passamos de caçadores-coletores a sedentários. Com o tempo, assentamentos que eram pequenas vilas foram crescendo, se tornaram cidades, alguns viraram grandes reinos. Assim, cresceu e se tornou ainda mais complexo um comportamento determinante para a nossa história e para entendermos também o presente: o tribalismo. O comportamento tribal se expressa na lealdade ao grupo a que se pertence ou se sente pertencido. Surgiu nas primeiras aglomerações humanas e foi fundamental para a sobrevivência da espécie. Mas é justamente o tribalismo um dos principais motores do ódio. Atualmente, podemos observar esse comportamento nas torcidas de futebol, na política, na religião e até quando torcemos por participantes de reality shows. Tudo isso, amplificado pelas redes sociais. Esse é um comportamento que está marcado na nossa memória genética. Por mais que queiramos fugir dele, arrisco dizer que é quase impossível. Tenderemos sempre a nos associar a grupos por ideais ou qualquer outra coisa, e esses grupos, sem nenhuma romantização, excluem outros. É natural. A questão que fica é: diante disso, é possível reduzir a violência? Mas estamos tão inconscientes de nós mesmos que a tarefa parece árdua…


Um exemplo dessa inconsciência é, em pleno século XXI, haver quem acredite que a Terra é plana e ainda defenda isso com o peito estufado. Para essa pessoa, argumentos científicos não dizem nada. Não adianta provar para ela que a própria lei da gravidade faz cair por terra a sua crença. O que a move é o tribalismo, o sentimento de pertencimento a um grupo com o qual ela se identifica por algumas necessidades não satisfeitas. Arrisco dizer que, nesse caso, são necessidades de aprovação, pertencimento, acolhimento. O mesmo se dá com um torcedor fanático de algum time. Tente provar a ele que esse fanatismo pode levá-lo a enfartar. Não é possível. Enquanto ele mesmo não tomar consciência da violência que está cometendo consigo, isso será gasto inútil de energia. No caso da crente da Terra plana, ela pode não saber, mas sua crença é motivada por alguma repressão na infância, fruto da forma como as grandes repressões da cultura se desenvolveram dentro da família dela, na escola ou em outros lugares importantes que ela frequentou e que moldaram suas crenças, como igrejas e afins. Dependendo do nível de inconsciência dos sentimentos e dores das pessoas que a criaram, essa crente pode ser alguém com uma casca muito grossa que a torna incapaz de acessar os seus sentimentos de dor e rejeição, ao ponto de precisar provar para todo mundo que ela é “do contra”, uma sensação que alivia o seu sofrimento oculto e a faz se sentir vencedora, superior, assim como os seus colegas que compartilham da mesma crença. E todos “se ajudam” nessa necessidade de pertencimento. Tal sentimento de superioridade em relação ao outro, de negação cega das verdades científicas, é, no fundo, uma carência gigantesca que a pessoa não consegue enxergar. É sendo essa pessoa “do contra” que ela consegue atenção e satisfação ilusória da sua necessidade. Mas tais satisfações ilusórias, o próprio nome diz, não satisfazem verdadeiramente, e uma bola de neve se forma dessas muitas ilusões, levando ao ódio, que leva à violência. A começar pela autoviolência inconsciente, já que ela está tomada por uma crença que a controla, e não o contrário, como uma forma de se punir pelas repressões aceitas, como já dito no parágrafo anterior. Essa violência atua sempre pela linguagem (julgamentos e autojulgamentos) e por gestos e atitudes (como ignorar alguém ou ignorar o que se sente). Muitas vezes, o sofrimento é tão profundo que a violência escoa pela via física. É por isso que precisamos ter muito cuidado em quem votamos e para quem damos muito ibope, porque o nível de carência e insatisfação do ser humano, assim como de não conhecimento de si, é tão grande que torna o comportamento de manada o mais provável de acontecer. É assim que se explicam desde as aglomerações na pandemia aos extermínios em massa e o terrorismo. Portanto, eu acredito que se tem algo que pode mudar tudo, essa coisa se chama autoconhecimento. Mas para que se promova autoconhecimento, é preciso uma mudança também estrutural. E isso nos traz o famoso dilema do ovo e da galinha. Quem vem primeiro, afinal?


Vamos levar o olhar para as condições do meio. No primeiro capítulo da série Por que odiamos, de Steven Spielberg, realizada pela Discovery, conhecemos um antropólogo evolucionista que estudou os chimpanzés e os bonobo, dois grupos de primatas praticamente idênticos, sendo eles o grupo geneticamente mais próximo de nós. Nossa genética é 99,9% igual a desses dois primatas e, por isso, eles são bastante estudados. Separados somente pelo rio Congo, a sociedade dos chimpanzés se desenvolveu de forma bastante diferente da sociedade dos bonobo. O primeiro grupo, uma sociedade patriarcal, é mais violento, o segundo, uma sociedade matriarcal, é mais pacífico. A conclusão do antropólogo? O meio foi determinante. Os chimpanzés se desenvolveram num meio de escassez de recursos, enquanto os bonobo, num meio de abundância, jamais precisando competir. Tudo isso, apesar de muito interessante e de fornecer pistas preciosas sobre como podemos nos organizar de forma menos violenta, ainda deixa um vazio em nossa busca por respostas, já que seres humanos vivem sob leis culturais que, como já vimos, só existem em função das repressões dos instintos, diferente dos nossos amigos primatas. No caso dos humanos, será que a abundância de recursos faria desaparecer os traumas das repressões sexuais e da agressividade? Ou mesmo uma sociedade matriarcal? Se é possível reduzir a desigualdade social e ampliar o poder das mulheres, como é possível reduzir o estresse da rejeição pessoal, que começa sempre no núcleo familiar e se expressa de alguma forma, ou da competitividade por um parceiro ou parceira?


Quando me deparo com a questão sobre como diminuir a violência, percebo que o buraco é muito embaixo. Ele chega até a educação, por exemplo. Porém, como implementar uma educação libertadora, que promova autonomia e, o que é mais importante, que nos ofereça ferramentas para o autoconhecimento, se as nossas instituições estão enraizadas na própria violência? Quem educa o educador é sempre a grande pergunta. Observe seu ambiente de trabalho ou de estudo como um exemplo desse enraizamento e veja como ele é violento. A violência se expressa em relações desiguais, e por vezes tóxicas, o tempo inteiro. Em sistemas de opressão e de obrigação de lealdade que não são apenas materiais, mas psíquicos. Muitas vezes estão ocultos em atitudes até consideradas “boas”. E como aprendi com o rabino Nilton Bonder, o bom nem sempre é o correto e vice-versa.


Pensemos: como uma pessoa que acredita na Terra plana e briga com todo mundo por isso, gerando mais violência, pode se tornar mais consciente de si? Começaria com o governo? Mas como, se um presidente e os congressistas são seres humanos crescidos no mesmo sistema violento que nós, eleitores, e se nós, humanos, somos tão múltiplos? Se os governos são reféns dos grandes conglomerados financeiros? Seria, então, o caso de uma revolução? Entendo que a questão é muito maior do que simplesmente mudar o sistema econômico e social. É de filosofia e de psicologia, é de representação e de símbolo. A história já nos mostrou que nenhuma revolução com boa intenção se sustentou no sentido de promover a prosperidade para o maior número de pessoas. Elas geraram violência física e psíquica e não resolveram as desigualdades de forma a satisfazer tanto o material quanto o psíquico, promovendo bem estar e minimizando o ódio. E por quê? Porque o ódio está enraizado em nós e poucos conseguem ver e integrar em sua personalidade essa informação. Essa discussão começou ontem na história humana. É um olhar bem recente. O buraco parece sem fundo. Há quem diga que a possível solução começa na mudança do sistema político, outros, do sistema econômico, outros, do sistema educacional, e outros, dentro de cada um de nós. Para mim, é tudo ao mesmo tempo. Mas ainda me inquieto com a questão: haveria o melhor ponto de partida?


Eu desconfio que precisamos não deixar de olhar para a cara “do mal”, como se fosse possível criarmos uma ecologia para negociarmos com o diabo para que não sejamos tomados por ele como Fausto, o que passa por uma nova representação do mal em nossa sociedade. O mal sempre foi o outro. O diabo sempre foi a tentação de fora, nunca de dentro. Mas isso foi apenas uma interpretação. E interpretação muda tudo. Já disse o personagem Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa: “o diabo não há, existe é homem humano”. Com uma conclusão dessa, ainda há quem discuta, até academicamente, se houve ou não pacto com o diabo no livro, o que só demonstra como preferimos ver que o mal não vem de nós, mas de um outro. Aqui eu retomo a psicanálise e a provocação do poeta Rimbaud: “o eu é um outro”. Logo, o outro é também eu. Basta nos sentirmos minimamente ameaçados que nosso monstro aparece. Não à toa, a literatura e o cinema sempre exploraram esse duplo “médico e monstro” que todos somos. Talvez a gente precise olhar com mais carinho para as nossas sombras, para o nosso Darth Vader interior, sabendo que podemos ser tomados por elas a qualquer momento se deixarmos de olhar para elas. Assim, me parece necessário mantê-las muito evidentes, trabalhando para não cair em tentação. Afinal, se não vemos o monstro, parece que ele não existe ou existe apenas no outro, longe de nós. Voltando a Riobaldo, ainda em fala sobre o diabo, “a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo”. Tenho pistas sobre onde possa estar uma resposta satisfatória à questão que expressei no título, mas isso é assunto do meu futuro doutorado e precisarei de pelo menos quatro anos para compreender se a minha hipótese faz algum sentido. Por ora, deixo essa reflexão.