Os Anéis de Poder: quando a arte não cumpre a sua função e o poder sobe à cabeça

Em sua teoria das obras literárias e de arte, o pensador Umberto Eco explorou o conceito da verossimilhança. Uma obra de ficção cumpre seu papel de obra de arte e de cultura, que é espelhar a psique humana e a nossa realidade, quando se baseia na verossimilhança. Não importa se fala do “mundo real”, de uma galáxia distante ou de um mundo de alta fantasia, como é o mundo criado por J. R. R. Tolkien entre os anos 1930 e 1950 com O Senhor dos Anéis, O Hobbit e todos os apêndices que contam a história da fictícia Terra Média. Não havendo a verossimilhança, a obra perde sua importância psíquica e cultural, porque não cria conexão. Uma obra precisa nos convencer de que nada nela é gratuito, ou seja, de que estamos diante de algo que faz sentido naquela realidade e que, ainda, gere correspondência com a nossa, por mais fantasiosa que ela seja. Tolkien foi um mestre no domínio do princípio da verossimilhança. Também por isso, sua obra se tornou um fenômeno. Logo, adaptar obras literárias que cumprem esse princípio de forma magistral, o que dá a elas justamente a sua profundidade, é sempre um desafio. E nem sempre esse desafio se torna bem sucedido. Por esse prisma é que considero a temporada inaugural da série Os Anéis de Poder um fracasso na história da arte.

A série do Amazon Prime, inspirada na clássica obra de Tolkien, foi anunciada em 2020 e, desde então, a Amazon, que investiu 1 bilhão de dólares na produção da primeira temporada, fazendo desta a série mais cara da história, conseguiu criar grandes expectativas. Não era para menos! Depois de tantas séries incríveis de fantasia, ver o universo de Tolkien ganhar mais vida nas telas era realmente algo esperado pelos fãs do gênero e também de sua obra. Mas o “perigo” de gerar muito desejo é ter que encarar depois a frustração do outro caso não se cumpra o que foi prometido. Para além do marketing da própria série, ela viria ainda sob o peso de superar ou, ao menos, igualar a impecável trilogia O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson, sucesso no cinema no início dos 2000. Então, eis que veio o lançamento neste ano de 2022, mostrando que todo marketing do mundo não é capaz de sustentar um produto que não funciona.

A história contada na série se passa na era anterior à saga de Frodo em O Senhor dos Anéis e narra a história da ascensão do Mal na lendária Terra Média, com a criação de Mordor e o estabelecimento de Sauron por lá, e a criação dos anéis de poder, incluindo o famoso Um Anel. Só esse argumento já seria suficiente para fazer os fãs de Tolkien e da literatura de alta fantasia desejarem parar a vida toda sexta-feira para assistir à série. Mas não foi o que aconteceu para muitos de nós. Eu sou fã confessa do gênero. Mas depois do quarto episódio, vinham as sextas-feiras e eu simplesmente esquecia que tinha episódio novo. Além de assistir depois, quando dava, lá pelo meio dos episódios eu me pegava conversando, olhando o celular, levantando para alongar o corpo, e quando via já tinha perdido uns bons minutos sem me dar conta do que tinha acontecido. Como sou neurótica e não gosto de perder até mesmo o que não estou gostando (se estou assistindo algo, tenho que realmente assistir, até para poder criticar) eu voltava o que havia perdido e descobria porque me distraía. Era uma soma de tudo: roteiro, direção, atuação, cenários. A floresta da terra dos elfos parecia de plástico. Não tinha vida de verdade. Lembrou-me alguns cenários toscos de filmes dos anos 1980, quando os orçamentos eram bem menores e as condições de produção muito mais difíceis. O olho humano e o nosso psiquismo sabem reconhecer algo vivo e diferenciá-lo de uma cópia. Vi depois que algumas paisagens foram criadas em estúdio. Com tanta locação incrível pelo mundo e um orçamento bilionário, criar uma floresta em estúdio é aquele tipo de coisa que eu, como produtora, não consigo entender, a não ser como amadorismo ou preguiça. Alguns figurinos também passavam essa sensação, como armaduras que pareciam ter acabado de sair da loja, e não de voltar de uma guerra. Já as atuações não passaram de medianas e nenhum personagem conseguiu se destacar. Mesmo com grandes atores em cena. Até agora estou tentando entender o que fizeram com a Galadriel, que em tese seria a protagonista da série, mas que não passa por nenhuma jornada de transformação. Uma das personagens mais lendárias de Tolkien, a elfa milenar foi transformada numa menina mimada e ressentida sem nenhum tempero. Como alguém que tem mais de 10 mil anos e já passou por tanta coisa pode ter esse tipo de personalidade? Incompreensível. Li que a atriz Morfydd Clark sequer se deu o trabalho de ler os livros. Embora eu, pessoalmente, ache isso um absurdo para qualquer pessoa que entra numa produção adaptada, e um desrespeito à obra, isso até pode passar quando se tem uma boa direção de atores e, principalmente, um bom roteiro. E é justamente nesses dois quesitos fundamentais e basilares que Os Anéis de Poder peca e desperdiça o seu orçamento. Como encontrar elementos para desenvolver um personagem com um roteiro meia boca em mãos? Como atuar se não há uma direção real de atores? Não estamos por trás das câmeras para saber disso, claro. Mas não é preciso, pois o que é visível em uma obra audiovisual revela o invisível por trás dela. Mas mesmo o visível não convencia, como no caso dos cenários, dos figurinos e até dos figurantes. Além disso, havia cenas tão pobres em desenvolvimento e ação que é difícil acreditar que estamos vendo uma produção de porte, comprometendo totalmente o princípio da verossimilhança. Em algumas, faltavam personagens, em outras sobravam. Ou pior: havia cenas em que simplesmente se ignorava as emoções dos personagens, como se pessoas (ou orcs) fossem meros bonecos ocupando espaço no meio de uma explosão pirotécnica ou de um cenário grandioso. No geral, parece haver tanta preocupação com a paisagem (além da floresta de plástico) e com os efeitos especiais que a gente até esquece que aquele lugar é habitado. Impossível criar conexão dessa forma. Como fazer, então, a série cumprir sua função de obra cultural e artística com um roteiro e uma produção tão aquém da profundidade da obra de Tolkien? Sequer o tema central de sua obra, e que é o tema central dessa era da Terra Média, foi bem explorado: a ascensão do Mal.

A ascensão de um grande Mal deveria causar espanto, medo, raiva, revolta e, por fim, a aceitação de que é preciso encarar o seu olho para não sucumbir às ilusões. Afinal, a realidade não é um mar de rosas. É luz e sombra. O mal tem a sua função psicológica, como a arte tem a dela de mexer profundamente com as nossas emoções e nos fazer (re)considerar as nossas próprias ações no mundo. Mas a série, ao não cumprir suas funções básicas, nos faz indiferentes à ascensão desse Mal. Parece que tanto faz como tanto fez que tantas pessoas tenham morrido e um mal terrível tenha dominado a Terra Média. O tema central da obra de Tolkien é simplesmente um dos temas mais fundamentais da história humana: como enfrentar o mal que nos habita e deixar reluzir nossa luz sem que ela nos ofusque e se torne alimento do próprio Mal. Tolkien era um profundo conhecedor de mitologia, filologia, linguística, história e, claro, da alma humana. Criou uma obra que conversa com as raízes mais ancestrais do inconsciente coletivo e que, por isso, arrebata corações em todo o mundo há quase 70 anos. Daí vem o homo superioris do século XXI e destrói a sua profundidade, transformando-a em uma novela das seis, com cenários bonitos, mas limpinhos demais, falas forçadas que parecem declamações de poemas baratos, cenas sem nenhuma conexão entre elas, coisas mal explicadas e outras explicadas demais, e personagens zanzando de um lado para o outro sem saber o que fazer, munidos de um roteiro péssimo. Mesmo os diálogos mais toscos de George Lucas na saga Star Wars não superam essa falta de cuidado da bilionária Os Anéis de Poder. Mas Lucas foi mestre em captar o inconsciente e criar personagens com os quais a gente se conecta na alma. A comparação pode não ser a melhor. Porém, se eu for comparar com outras séries de fantasia mais atuais ou com os filmes do Peter Jackson, a situação de Os Anéis de Poder fica bem pior. Melhor deixar quieto e partir para o que a série tem de bom. Para mim, no entanto, tudo isso foi ótimo. Como escritora e produtora, aprendi como não criar personagens e desenvolver uma história, e como não fazer uma série, se um dia eu quiser me aventurar a ser showrunner de uma. Aliás, descobri assistindo a um vídeo no YouTube que os showrunners de Os Anéis de Poder não têm nenhuma experiência prévia com produções desse porte, o que parece aquele tipo de história que a gente vê muito no mundo da arte com financiamento privado: a do cara que tem o dinheiro, quer fazer algo grande e contrata o sobrinho que “quer ser artista” para dar uma chance para ele, ao invés de contratar profissionais gabaritados. Que coloque o sobrinho! Todo mundo merece uma oportunidade para começar. Mas como estagiário ou assistente, não como chefe. Qual a relação dos showrunners com o Jeff Bezos eu não faço ideia, mas que parece isso… Ah, parece!

Mas vamos falar de coisa boa, vamos falar da nova TekPix! O principal acerto da série é a representatividade, o que não compromete em nada o princípio da verossimilhança como alguns puristas argumentam. Já sabemos que os problemas da série são outros. É bonito ver, cada vez mais, pessoas negras, asiáticas, latinas, entre outros grupos que foram minorizados, ocupando lugares de destaque nas grandes produções hollywoodianas. Representatividade faz toda a diferença! Não tem nada que gere mais conexão em uma obra audiovisual do que uma pessoa se ver representada na tela. Outro acerto da série são as paisagens, as mesmas belas paisagens da Nova Zelândia usadas por Peter Jackson (ignorado na série, apesar de referenciado em vários momentos) em sua trilogia. Mas quem dera paisagens fizessem uma obra! A cena que mostra o reino de Númenor a primeira vez também é bem interessante e dá a dimensão da beleza e da grandiosidade dos sítios criados por Tolkien. Os orcs são legais, quando não precisam atuar sob uma má direção. No mais, alguns personagens quase chegam lá no quesito conexão. Os anões são maravilhosos. Amei! Elrond também. Comecei a série não gostando muito dele, ligada ainda ao Elrond do Hugo Weaving nos filmes, e terminei achando que ele foi um dos personagens mais interessantes, muito embora tenham deixado ele se perder no caminho. Os demais, só mesmo a esperança nas cenas dos próximos capítulos. Que consigam desenvolver bem o Isildur, que tem um papel fundamental na história, mas agora é só um garoto de expressão zero; o elfo Arondir, a humana Bronwy e o seu filho; a pé-peludo Nori; o Estranho, que todo mundo já imagina ser o mago Gandalf, embora não faça nenhum sentido Gandalf estar na Terra Média naquela época, segundos os livros; e, claro, o temível Sauron. Quanto de expectativa paira sobre ele, que é a própria encarnação do Mal! Haja trabalho para darem vida a esse que é o grande antagonista da história. Boa sorte para o ator Charlie Vickers! Quanto a Galadriel, para que ela convença algum ser humano lá dentro de sua alma haverá que ser feito um grande trabalho. Da atriz, dos roteiristas, dos diretores, dos showrunners e dos deuses da arte e da fantasia. Galadriel é a liga da história, mas parece que os donos dessa bola chamada Os Anéis de Poder se esqueceram disso. E de todos os seus personagens. Transformaram-se, eles, nos personagens principais. Deslumbraram-se, como se tivessem sido tomados pelo Um Anel de Sauron: quiseram fazer algo tão grandioso, caro e espetacular para chamarem de “my precious” que, ofuscados pelo poder, podem ter sucumbido à maldição que tomou Gollum e comprometido uma grande obra e a própria função de sua arte. Arte e poder não combinam. Mas parece que as cabeças de Os Anéis de Poder não entenderam isso. Ou seja, não entenderam a própria obra de Tolkien, que ainda bem que não está vendo esse apropriação capitalista selvagem de sua obra-prima.

Por que encerrei um canal no YouTube após uma semana do lançamento

Começo esse texto às gargalhadas, imaginando a expressão das pessoas que me conhecem mais intimamente dizendo: “Tinha que ser a Vanessa mesmo! É muito geminiana!” Nessa hora a gente culpa a astrologia para não se sentir muito destrambelhada. Pois eis que após planejar e lançar um canal meu no YouTube, voltado à arte e ao entretenimento com pensamento crítico, desisti dele uma semana depois. Em alguns casos, desistir é, definitivamente, uma opção! Mas por que eu quero desistir? Será que é isso mesmo? Pensei durante toda a semana, tomada pela exaustão e uma pressão terrível de ter que fazer roteiros, gravar e editar vídeos com temas variados, muitos deles passando longe do meu tema de pesquisa atual, sendo que meu tempo já está tão ocupado. Inclusive, ocupado pelo dolce far niente, a doce alegria de fazer nada, algo que demorei muito para conseguir inserir na minha vida e que merece a minha dedicação. Venho descobrindo que fazer nada é tão necessário quanto fazer a coisa certa.

Desde que lancei a Medicina das Palavras, há quase dois anos, também com um canal no YouTube, tenho descoberto muitas coisas a respeito da relação entre personalidade, propósito e vida online. Embora eu tivesse certeza de que a Medicina das Palavras não seria um canal – o canal é apenas mais um espaço de interação – eu tinha para mim que ela seria uma empresa digital. Com isso, em agosto do ano passado nós lançamos um curso online. De lá pra cá, foi insana a corrida para entender o que significa construir autoridade na Internet. Fiz vários cursos de marketing digital, desde tráfego pago a curso de copywriting, e nunca ficou tão claro para mim o que significa o conhecimento: absolutamente nada quando ele não tem uso. Entender de marketing não me habilitou a saber utilizar a linguagem do marketing, que nunca foi a minha linguagem. Esse é um lugar no qual eu preciso me esforçar para conseguir algum resultado. Não é natural para mim quanto é escrever um ensaio, uma poesia ou dar uma aula. Para pensar o marketing, eu preciso de parceiros. Mas esse é um assunto que não cabe nesse texto. Há algo mais importante por trás de tudo isso, uma pergunta que me acompanhava já há um tempo: eu quero construir autoridade na Internet? Eu quero realmente ter uma empresa digital? Qual é a prioridade disso na minha vida?

Essas perguntas vinham a mim especialmente porque eu sofria muito em ter que construir esse lugar e acompanhar o insano bonde dos algoritmos das redes sociais. Analista que sou, claro que dediquei um bom tempo a analisar isso, e percebi que boa parte do meu sofrimento tinha a ver, antes de tudo, com a minha personalidade. Não era porque eu não gostava do marketing ou achava que eu não devia estar na internet. Marketing é fundamental para que o nosso trabalho e mensagem cheguem até as pessoas certas. E hoje em dia, estar na Internet é necessário. É um espaço importante de troca, debate e expressão da nossa verdade. Não só, mas também. Porém, temos tomado este “estar na Internet” como uma verdade absoluta que vale para todos, como se fosse impossível hoje em dia fazer dinheiro, construir carreira e se expressar de outras formas, sem postar todos os dias e ficar expondo a vida nos stories. Isso é insano! Percebi que eu havia introjetado isso e estava seguindo a manada, movida por uma ânsia de me expressar. Que sim, eu tenho! Mas a questão é: como eu quero comunicar a minha verdade? Mais ainda: qual é a minha forma mais potente e verdadeira de me comunicar e me expressar? Eu precisava descobrir de uma vez por todas! E sabia que a resposta que eu encontraria serviria também a outras pessoas.

Algumas personalidade se adequam muito bem ao mundo dos algoritmos. A minha não. Sou mais introvertida do que extrovertida e preciso de tempo para elaborar o pensamento. Há semanas em que quero aparecer, falar, postar. Tem outras que só quero ficar no silêncio, longe das redes sociais, curtindo a natureza. Quando não respeito isso, crio sérios problemas para mim e para as pessoas ao meu redor. Às vezes, um texto acontece de um dia para o outro. Outras vezes, preciso de semanas para construir um. Elaboração e tempo são necessidades minhas. Logo, decidi que não iria me violentar para me dobrar ao tempo das redes sociais. Até mesmo o YouTube, um espaço para reflexões mais profundas, é um lugar complicado de se manter, especialmente quando a vida nos chama a outras prioridades. Como postar vídeos toda semana em um canal, com temas diversos, e ainda conseguir aprofundar os temas? Pois se não é assim, o YouTube simplesmente não entrega o seu conteúdo. Eu não consigo lidar com isso. Ao menos, não agora nem sozinha. Meu tempo interno, mais do que o externo, não colabora. Já o tempo externo, nesse momento, está ocupado com prioridades que só consegui perceber dessa forma depois de lançar o canal e me perguntar: mas o que estou fazendo!? Minha mensagem se torna mais potente para o outro quando ela vem da elaboração. Para isso, é preciso pesquisa, criação, escrita e, claro, tempo, pois nada disso se faz bem na correria. Ao compreender e aceitar isso, coloquei de volta o meu doutorado como prioridade, seguido dos meus livros e do trabalho que já venho construindo na Medicina das Palavras. No tempo em que é possível! Precisamos aceitar o nosso tempo e encontrar o equilíbrio entre ele e o tempo social.

Ainda fiz uma análise geracional do caso que não sei se faz muito sentido sociologicamente ou se fará sentido para você. A mim fez. Sobre as dores e as delícias da Geração Y, a Millennial, que diz respeito aos nascidos entre 1981 e 1996 (alguns analistas indicam o início da Y em 1980, quando eu nasci). Sou do início dessa Geração, ou do finalzinho da X, na passagem para a Y. Faço parte daquela turma que nasceu sob uma grande expectativa: foi esperado que mudaríamos o mundo! Mas o que aconteceu com a gente foi um baita de um anticlímax. A Geração Millennial é a que viu uma transformação radical da sociedade com o surgimento da Internet e o advento de grandes crises sociais e econômicas mundiais. Parece que isso nos levou a um questionamento profundo sobre quem nós somos e o que queremos da vida. Logo, não me parece coincidência o fato da discussão sobre autoconhecimento ter se expandido conosco. Fomos nós que abrimos esse caminho. Os estudiosos das gerações classificam os Millennials como possuidores, de uma lado, de uma vontade enorme de realizar e, de outro, de um grande sentimento de frustração. Somos a geração cuja angústia é essa dualidade entre o desejo e a incapacidade. Por isso também, somos a geração que disparou o êxodo urbano contemporâneo, iniciado na geração anterior. Nós vimos a decadência do capitalismo e a crise das grandes cidades, e nos tornamos a verdadeira geração do lema “eu quero uma casa no campo”, sedenta por uma vida com mais sentido, silêncio, tempo e relações mais profundas. Eu mesma sou uma dessas pessoas. Venho alimentando o desejo dessa mudança. Como, então, ocupar o tempo com mais uma atividade que demanda tanta presença nas redes sociais?

Já fui uma workaholic, tive duas crises de Burnout e uma bem séria de ansiedade generalizada. Ocupar o tempo era a minha especialidade. Só depois de adoecer é que percebi que era preciso mudar. Mas como esse foi um padrão que durou pelo menos 20 anos na minha vida, às vezes ele retorna. Minha mente e meu corpo ficaram viciados nele. É em momentos assim que percebo o poder revolucionário do autoconhecimento. Em outros tempos mais inconscientes, eu teria levado uma eternidade para perceber que eu não iria dar conta de mais um projeto. E mais do que isso: quais eram as segundas intenções desse projeto. Infelizmente, segundas intenções nos movem em algumas ações. Quantas coisas já não criamos e fizemos para fugir do que realmente precisa ser encarado ou feito? Contamos para nós uma história incrível sobre as motivações daquele projeto, convencemos até o outro, mas no fundo ele é só uma distração ou um alimento para as feridas do ego. Felizmente, percebo com cada vez mais rapidez as ciladas nas quais me coloco.

É impressionante como a gente se sabota inventando situações que nos tiram do caminho que temos que trilhar, e que ainda nos violentam. Mas isso não é necessariamente ruim. Se não fizéssemos isso, como saberíamos qual o caminho? Apenas quando erramos, podemos acertar. Ao perceber o erro, nos cabe corrigir o rumo. O importante é corrigir, não se deixando levar pelo medo, a culpa ou a vergonha de dizer “errei, não era por aqui, vou mudar”. Entendendo também que isso não é um fracasso, é só um resultado de uma inconsciência. A consciência não teria vindo se não tivesse havido o movimento. Assim, percebo como foi importante ter lançado o canal. Se eu não o tivesse lançado, talvez eu demorasse muito mais para perceber o que eu já vinha intuindo com dois anos de vida online com a Medicina das Palavras: que eu não quero viver de internet. É claro que não tenho como fugir da internet. Nem quero. Como escritora, encontro a maior parte do meu público na internet. Como palestrante, professora, consultora também. Mas há muito para viver “do lado de fora”. Há relações para alimentar, outras para construir, casa para cuidar, projetos para realizar que não estão no mundo online. Não foi à toa que mudei os rumos da Medicina das Palavras de um projeto totalmente digital para um projeto que possa ser mais independente das redes. Isso já me dizia algo importante sobre o meu desejo. Não é à toa que, já faz tempo, tenho mudado muita coisa na minha vida.

Pessoas mais extrovertidas que introvertidas são ótimas em lidar com as necessidades do “deus algoritmo”. Embora, mesmo assim, precisem ter muito cuidado com a saúde mental e com as armadilhas da vaidade. O ser humano se aprisiona com muita facilidade, especialmente a números e reconhecimento. Ainda assim, extrovertidos se saem melhor do que introvertidos nesse mundo online, já que esse é o aspecto da personalidade mais valorizado pela sociedade capitalista hiperconectada. Por isso também é preciso que os introvertidos afirmem seu modo de ser. Introvertidos de todo o mundo, uni-vos! Ainda no quesito conformação ao tempo dos algoritmos, a Geração Z, então, tira de letra. É a geração que já nasceu em um mundo hiperconectado. Cada um de nós precisa saber o seu lugar nesse trem da personalidade e das gerações. Mas, mais do que isso, no trem da sua verdade. Precisamos saber o que damos conta e o que não damos, quais são os nossos limites e também onde e como somos mais potentes. Não dá para ser tudo e dar conta de tudo! Essa é uma ilusão contemporânea perigosa. A coragem de encarar essa ilusão e fazer a autoanálise nos chama. A de aceitar quem se é, também. Precisamos disso não apenas por nós, mas pelo coletivo. Quando descobrimos onde e como somos melhores e mais felizes, descobrimos nossa melhor maneira de servir ao mundo. É simples! Mas é complexo… No entanto, não me afastarei das redes sociais. Ainda há trabalho nesse sentido a ser feito. E talvez haja para sempre. Mas não pretendo me violentar em nome da lógica insana do “no pain no gain” ou do “desistir não é opção”. Inaugurar mais um canal foi mesmo um equívoco. Um erro pelo qual agradeço imensamente! Pois sigo em acordo com Jung, quando ele diz em seu Livro Vermelho: “O que sabes de seu erro? Talvez seja sagrado.”

Será que um dia conseguiremos reduzir a violência?

Texto publicado no Medium em 15/03/2021

Essa tem sido a pergunta que não quer calar na minha mente já há algum tempo. Ela me levou ao meu atual objeto de pesquisa, por ser ele as origens da violência: o ódio. O título é provocador: eu insiro todos nós no dilema. Portanto, se você chegou a esse texto se perguntando “por que o mundo está tão violento”, “por que o grupo tal é tão agressivo”, eu te convido a ir além. Não é sobre o mundo que falamos, como se o mundo fosse uma abstração fora do nosso olhar e ação sobre ele. É sobre você, sobre mim, sobre todos nós. Trata-se de responsabilidade compartilhada.


A violência é uma resposta ao ódio. Esse, por sua vez, é um sentimento extremo que envolve desprezo, nojo, aversão por pessoas, grupos e até objetos, desejando o afastamento desse outro e, às vezes, a sua aniquilação. Nem sempre a violência é física, mas o tempo todo ela está presente. A começar pela linguagem. Quando estamos tomados pela raiva, uma emoção primária que pode provocar ódio, o que mais tendemos a fazer é xingar ou acusar o outro, até mesmo um objeto. Um exemplo: se o seu celular trava justo quando você ia mandar uma mensagem importante, você pode ter um ataque de ira, a depender do seu humor naquele dia, e jogar o celular longe chamando-o de imprestável, xingando o criador do Android, odiando todos que têm um Iphone, podendo estender o seu ódio até a alma de Steve Jobs por ter criado um sistema pouco competitivo e altamente elitizado. Tenha como certo que se houver alguém perto de você, pode sobrar para essa pessoa também. Isso pode acontecer com qualquer um de nós, a qualquer momento. Segundo Marshall Rosenberg, psicólogo e criador da Comunicação Não-Violenta, que é uma proposta de transformação interna e externa, a violência é resultado de uma necessidade não atendida. O ódio se produz a partir dessa necessidade que não foi suprida e se expressa na resposta violenta.


Desde Freud, sabemos que nosso aparelho psíquico, ou seja, nossa estrutura mental e emocional, busca se satisfazer através do outro. Há ainda um prazer que se volta ao próprio sujeito, o narcisismo. O ódio seria, assim, uma profunda quebra inconsciente da expectativa colocada no outro ou em si mesmo. Expectativa que também é inconsciente. Passado mais de um século do advento da psicanálise, hoje sabemos, apoiados também na psicologia, que o ódio começa com o ódio a si mesmo. E por que isso acontece? Sigamos com Freud. Para ele, as bases do nosso “mal-estar”, das nossas dificuldades de convivência, estão nas repressões a que a nossa psique, e o nosso corpo, precisaram se sujeitar para que a civilização fosse possível. A primeira delas, obviamente, a repressão sexual, que começa com a proibição do incesto e ganha contornos castradores na repressão da liberdade sexual na sociedade. A segunda, a repressão da agressividade, um instinto tão formador do ser humano quanto o erótico. Com tanta repressão que carregamos em nossa memória genética e da psique coletiva, associada às repressões pessoais que todos vivemos, fica difícil imaginar um mundo sem violência e sem autoviolência. Por um mecanismo do nosso aparelho psíquico, tendemos a nos punir inconsciente pelas repressões que também sequer conhecemos. Reprimir, em si, já é uma violência, e sempre gerou mais violência. Escreveu Carl G. Jung, criador da Psicologia Analítica, algo como “o que você resiste, persiste”. Mas não apenas persiste, como cresce e se torna um monstro. Ao mesmo tempo, se não houvesse a repressão inicial, não teria havido história humana. Será que chegamos a um impasse?


Essa construção da cultura se deu com os assentamentos, o que se revelou mais vantajoso para a sobrevivência da espécie ao permitir um domínio maior do ser humano sobre a natureza. Passamos de caçadores-coletores a sedentários. Com o tempo, assentamentos que eram pequenas vilas foram crescendo, se tornaram cidades, alguns viraram grandes reinos. Assim, cresceu e se tornou ainda mais complexo um comportamento determinante para a nossa história e para entendermos também o presente: o tribalismo. O comportamento tribal se expressa na lealdade ao grupo a que se pertence ou se sente pertencido. Surgiu nas primeiras aglomerações humanas e foi fundamental para a sobrevivência da espécie. Mas é justamente o tribalismo um dos principais motores do ódio. Atualmente, podemos observar esse comportamento nas torcidas de futebol, na política, na religião e até quando torcemos por participantes de reality shows. Tudo isso, amplificado pelas redes sociais. Esse é um comportamento que está marcado na nossa memória genética. Por mais que queiramos fugir dele, arrisco dizer que é quase impossível. Tenderemos sempre a nos associar a grupos por ideais ou qualquer outra coisa, e esses grupos, sem nenhuma romantização, excluem outros. É natural. A questão que fica é: diante disso, é possível reduzir a violência? Mas estamos tão inconscientes de nós mesmos que a tarefa parece árdua…


Um exemplo dessa inconsciência é, em pleno século XXI, haver quem acredite que a Terra é plana e ainda defenda isso com o peito estufado. Para essa pessoa, argumentos científicos não dizem nada. Não adianta provar para ela que a própria lei da gravidade faz cair por terra a sua crença. O que a move é o tribalismo, o sentimento de pertencimento a um grupo com o qual ela se identifica por algumas necessidades não satisfeitas. Arrisco dizer que, nesse caso, são necessidades de aprovação, pertencimento, acolhimento. O mesmo se dá com um torcedor fanático de algum time. Tente provar a ele que esse fanatismo pode levá-lo a enfartar. Não é possível. Enquanto ele mesmo não tomar consciência da violência que está cometendo consigo, isso será gasto inútil de energia. No caso da crente da Terra plana, ela pode não saber, mas sua crença é motivada por alguma repressão na infância, fruto da forma como as grandes repressões da cultura se desenvolveram dentro da família dela, na escola ou em outros lugares importantes que ela frequentou e que moldaram suas crenças, como igrejas e afins. Dependendo do nível de inconsciência dos sentimentos e dores das pessoas que a criaram, essa crente pode ser alguém com uma casca muito grossa que a torna incapaz de acessar os seus sentimentos de dor e rejeição, ao ponto de precisar provar para todo mundo que ela é “do contra”, uma sensação que alivia o seu sofrimento oculto e a faz se sentir vencedora, superior, assim como os seus colegas que compartilham da mesma crença. E todos “se ajudam” nessa necessidade de pertencimento. Tal sentimento de superioridade em relação ao outro, de negação cega das verdades científicas, é, no fundo, uma carência gigantesca que a pessoa não consegue enxergar. É sendo essa pessoa “do contra” que ela consegue atenção e satisfação ilusória da sua necessidade. Mas tais satisfações ilusórias, o próprio nome diz, não satisfazem verdadeiramente, e uma bola de neve se forma dessas muitas ilusões, levando ao ódio, que leva à violência. A começar pela autoviolência inconsciente, já que ela está tomada por uma crença que a controla, e não o contrário, como uma forma de se punir pelas repressões aceitas, como já dito no parágrafo anterior. Essa violência atua sempre pela linguagem (julgamentos e autojulgamentos) e por gestos e atitudes (como ignorar alguém ou ignorar o que se sente). Muitas vezes, o sofrimento é tão profundo que a violência escoa pela via física. É por isso que precisamos ter muito cuidado em quem votamos e para quem damos muito ibope, porque o nível de carência e insatisfação do ser humano, assim como de não conhecimento de si, é tão grande que torna o comportamento de manada o mais provável de acontecer. É assim que se explicam desde as aglomerações na pandemia aos extermínios em massa e o terrorismo. Portanto, eu acredito que se tem algo que pode mudar tudo, essa coisa se chama autoconhecimento. Mas para que se promova autoconhecimento, é preciso uma mudança também estrutural. E isso nos traz o famoso dilema do ovo e da galinha. Quem vem primeiro, afinal?


Vamos levar o olhar para as condições do meio. No primeiro capítulo da série Por que odiamos, de Steven Spielberg, realizada pela Discovery, conhecemos um antropólogo evolucionista que estudou os chimpanzés e os bonobo, dois grupos de primatas praticamente idênticos, sendo eles o grupo geneticamente mais próximo de nós. Nossa genética é 99,9% igual a desses dois primatas e, por isso, eles são bastante estudados. Separados somente pelo rio Congo, a sociedade dos chimpanzés se desenvolveu de forma bastante diferente da sociedade dos bonobo. O primeiro grupo, uma sociedade patriarcal, é mais violento, o segundo, uma sociedade matriarcal, é mais pacífico. A conclusão do antropólogo? O meio foi determinante. Os chimpanzés se desenvolveram num meio de escassez de recursos, enquanto os bonobo, num meio de abundância, jamais precisando competir. Tudo isso, apesar de muito interessante e de fornecer pistas preciosas sobre como podemos nos organizar de forma menos violenta, ainda deixa um vazio em nossa busca por respostas, já que seres humanos vivem sob leis culturais que, como já vimos, só existem em função das repressões dos instintos, diferente dos nossos amigos primatas. No caso dos humanos, será que a abundância de recursos faria desaparecer os traumas das repressões sexuais e da agressividade? Ou mesmo uma sociedade matriarcal? Se é possível reduzir a desigualdade social e ampliar o poder das mulheres, como é possível reduzir o estresse da rejeição pessoal, que começa sempre no núcleo familiar e se expressa de alguma forma, ou da competitividade por um parceiro ou parceira?


Quando me deparo com a questão sobre como diminuir a violência, percebo que o buraco é muito embaixo. Ele chega até a educação, por exemplo. Porém, como implementar uma educação libertadora, que promova autonomia e, o que é mais importante, que nos ofereça ferramentas para o autoconhecimento, se as nossas instituições estão enraizadas na própria violência? Quem educa o educador é sempre a grande pergunta. Observe seu ambiente de trabalho ou de estudo como um exemplo desse enraizamento e veja como ele é violento. A violência se expressa em relações desiguais, e por vezes tóxicas, o tempo inteiro. Em sistemas de opressão e de obrigação de lealdade que não são apenas materiais, mas psíquicos. Muitas vezes estão ocultos em atitudes até consideradas “boas”. E como aprendi com o rabino Nilton Bonder, o bom nem sempre é o correto e vice-versa.


Pensemos: como uma pessoa que acredita na Terra plana e briga com todo mundo por isso, gerando mais violência, pode se tornar mais consciente de si? Começaria com o governo? Mas como, se um presidente e os congressistas são seres humanos crescidos no mesmo sistema violento que nós, eleitores, e se nós, humanos, somos tão múltiplos? Se os governos são reféns dos grandes conglomerados financeiros? Seria, então, o caso de uma revolução? Entendo que a questão é muito maior do que simplesmente mudar o sistema econômico e social. É de filosofia e de psicologia, é de representação e de símbolo. A história já nos mostrou que nenhuma revolução com boa intenção se sustentou no sentido de promover a prosperidade para o maior número de pessoas. Elas geraram violência física e psíquica e não resolveram as desigualdades de forma a satisfazer tanto o material quanto o psíquico, promovendo bem estar e minimizando o ódio. E por quê? Porque o ódio está enraizado em nós e poucos conseguem ver e integrar em sua personalidade essa informação. Essa discussão começou ontem na história humana. É um olhar bem recente. O buraco parece sem fundo. Há quem diga que a possível solução começa na mudança do sistema político, outros, do sistema econômico, outros, do sistema educacional, e outros, dentro de cada um de nós. Para mim, é tudo ao mesmo tempo. Mas ainda me inquieto com a questão: haveria o melhor ponto de partida?


Eu desconfio que precisamos não deixar de olhar para a cara “do mal”, como se fosse possível criarmos uma ecologia para negociarmos com o diabo para que não sejamos tomados por ele como Fausto, o que passa por uma nova representação do mal em nossa sociedade. O mal sempre foi o outro. O diabo sempre foi a tentação de fora, nunca de dentro. Mas isso foi apenas uma interpretação. E interpretação muda tudo. Já disse o personagem Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa: “o diabo não há, existe é homem humano”. Com uma conclusão dessa, ainda há quem discuta, até academicamente, se houve ou não pacto com o diabo no livro, o que só demonstra como preferimos ver que o mal não vem de nós, mas de um outro. Aqui eu retomo a psicanálise e a provocação do poeta Rimbaud: “o eu é um outro”. Logo, o outro é também eu. Basta nos sentirmos minimamente ameaçados que nosso monstro aparece. Não à toa, a literatura e o cinema sempre exploraram esse duplo “médico e monstro” que todos somos. Talvez a gente precise olhar com mais carinho para as nossas sombras, para o nosso Darth Vader interior, sabendo que podemos ser tomados por elas a qualquer momento se deixarmos de olhar para elas. Assim, me parece necessário mantê-las muito evidentes, trabalhando para não cair em tentação. Afinal, se não vemos o monstro, parece que ele não existe ou existe apenas no outro, longe de nós. Voltando a Riobaldo, ainda em fala sobre o diabo, “a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo”. Tenho pistas sobre onde possa estar uma resposta satisfatória à questão que expressei no título, mas isso é assunto do meu futuro doutorado e precisarei de pelo menos quatro anos para compreender se a minha hipótese faz algum sentido. Por ora, deixo essa reflexão.