este texto foi deletado
Autor: Vanessa Rocha
o olho do universo
estou em prece
largada ao chão a contemplar o que não descrevo
apenas sinto
o chão é gelado
e meu amor é chama consistente
o olho do universo
ilumina minha varanda
observando meus movimentos
como se soubesse o que penso
e como se compartilhasse dos meus anseios
e, cúmplice, atestasse o meu desejo
sobre a minha bicicleta, a lua cheia,
que sabe que dela nunca me canso
o som de um solo de les paul me arrasta pra longe
e eu poderia chegar agora onde jamais estive antes
assim, tão carregada de futuro…
escrevo e o céu é de um negro profundo
que arrepia os sonhos mais bonitos
chega a doer no peito tamanha beleza
e meu silêncio é uma reza em agradecimento
pois a lua cheia no alto do céu
anuncia novos dias
anuncia um despertar
e as nuvens de cores camufladas
que circulam em torno dela
e logo atrás, a montanha, vista da janela
dizem do meu corpo a querer ser pássaro
queria eu, agora, estar lá perto
a olhar bem dentro do olho do universo
é fácil ser feliz
não é preciso nada além de saber pelo que se vive
e viver por isso que se sabe
a lua atesta
o negro profundo do céu celebra
tudo está aqui
nesta noite que amplia o meu coração
e me traz, em tempos tão exaustos,
uma leve e calma respiração…
poesia de família
os poemas dedicados à família!
—
Karine aos 25
para Karine Rocha em 15 de novembro de 2012
você chegou sem pressa
e de surpresa
tinha a calma de quem
parecia saber
que viria para trazer
doçura
e fazer nascer uma canção
de encantamento
e conciliação
você cresceu iluminada
de cabelos cacheados
dourada
dona de um afeto absurdo
saiu por aí distribuindo beijos
carinhos, afagos que
nunca
poderiam
ser negados
mas é hoje, ainda,
uma criança
porque na sua beleza
de se tornar gente grande
guardou aquele olhar
curioso, de quem sabe
que o mundo
ainda tem muito
pra dar
sensibilidade da água
encarnada num escorpião
pura carne do coração
você só cresce
e é grande de alma
é força tamanha
de ser amor-mundo
como se quisesse abraçar
todo esse mundo
é essa energia
em ser
amor
e mais nada
porque amor
é tudo
Karine aos 25
é mística
misticismo concreto
de ser pura magia
amor-mago
que conquista
e arrasta
para o universo sem fim
das coisas encantadas dessa vida
—
Poema do amor sonoro
presente de casamento para Andressa Rocha e Fábio Lessa
tanto já se falou sobre o amor…
tanto já se compôs na inspiração do amor…
e parece que nunca é o suficiente!
e lhes digo: não mesmo…
porque o mundo todo é amor!
reconheço…
e o mundo é grande!
e se é para falar e compor,
que seja sobre o amor!
assim insistem os amantes!
…e como haveria de ser diferente!?
insistem os músicos!
…e poderiam insistir em outra coisa!?
e os fonoaudiólogos!
pois amor se sente al dente,
e se sabe já no prólogo!
amor não é aquela coisa certa
que busca o casal, com uma lista,
na prateleira de um supermercado
uma lata de leite condensado
ou uma caixa de suco adoçado…
amor é incerto…
vive alternando dissonâncias
em uma sucessão de ritornelos.
às vezes provoca surdez, nos deixa mudos…
quando chega, acelera o coração
e deixa a perna bamba,
como se fosse um contrabaixo
a marcar o pulso.
amor é a doce alegria de viver no não saber!
de se fundir, de se esquecer,
de ser mais que um
e de ser um do tamanho do universo.
puro verbo, puro verso!
amor nem deveria ser dito assim,
com palavras…
pois é tatuagem rara
amor merece mais é música!
merece mais é voz, escuta!
merece uma dança desvairada,
uma cerveja bem gelada,
uma loucura a dois numa praia enluarada!
amor não comporta entendimento algum,
mas sim, uma viagem pra Cancun!
amor pode até rimar com dor,
como dizem por aí.
mas essa é rima pobre…
porque amor rima mesmo
é com alegria!
é por isso que então,
levemos corpo ao amor,
forma de gente!
hoje o amor tem a forma de um homem
cujo grave tom chegou fundo
num agudo coração profundo
e a forma de uma mulher
cujo canto de sereia e ouvido de quem sabe
chegou ao cume do coração
daquele que lhe cabe
hoje amor tem nome!
e assim como amor rima com alegria
rimam Andressa Rocha e Fábio Lessa
e a graça do amor é essa:
rimar as singularidades!
e assim também,
como hoje amor tem nome,
hoje amor é som,
no corpo sonoro de Fábio e Andressa,
para que a gente não esqueça
que a concretude do amor
é o ritmo que reverbera em todos os corpos
e a melodia da existência
que faz vibrar os corações
como cordas de aço e voz
a nos levar para os mais belos portos!
jogo de palavras
errante solidão
do corpo sólido
causa anseio calmo
possível fosse
gloriosa saudação
do etéreo gélido
busco antigo salmo
num caminho doce
o pêndulo e o poço
quando inflama um corpo
e a mente reclama, insolente,
divergente
pra um lado o corpo,
pro outro lado a mente,
o mundo pede calma
mas o que se faz com o que não se alma
e com aquilo que se alma até demais?
quando inflama um corpo, inflama!
e nada mais
a mente tenta anuviar
nubla a memória
dispersa a história
libera palavras que tentam racionalizar
mas quando inflama um corpo, inflama!
e não há como disfarçar
a mente briga com o corpo
e relativiza o tempo
esse que corre,
oferece, tira e devolve…
sem chance pra lamento
tola mente!
porque a memória tem cheiro…
voz, carne, osso
sonhos, desejos
e desespero
e vira e mexe
a memória vira carne de novo
e a memória tem beijo
assim, inflama o corpo
e ri na cara da mente
mas, insolente, lhe olha a mente
e ri do corpo que se alma
mas se mente é a ideia do corpo
mente a mente para o próprio corpo?
apenas sei que inflama, o corpo…
em abraços longos que liberam fagulhas
revelando o que não foi dito
e todo o dito que foi tanto
e que teceu inúmeros fios de futuro
tecem, então, mais um fio, esses abraços…
com os quais se quereria fundir os corpos novamente
a mente…
que pode ela fazer diante do que se sente?
esses fios, só o tempo vai dizendo
como devem ser tecidos…
fios que são como aquela vontade louca
de água no deserto
que une a água e o corpo
como se fossem um só porto
espontânea imanência da vontade
à procura do seu poço
e você sabe que precisa caminhar
para encontrar um oásis
e espera ainda que a chuva caia em tempo,
antes que a sede se transforme
em pesado sofrimento
por isso
cabe ao corpo,
diante do tempo,
colocar-se sempre em frente
na doce alegria do movimento
leve, ainda que sedento
pois, além de equilibrar,
faz, o movimento, um dia,
aquilo que se buscava,
encontrar
ainda que se encontre
uma água totalmente diferente
o que é mais provável
quando perseveramos a procura de um poço
assim, cai o pêndulo,
e fica a água a, finalmente,
alimentar mente e corpo
Pitta
O tempo
I Ching – um poema para tempos ruidosos
recolher-se em si
aquietar-se
é tempo de lapidar os diamantes
na sala escura dos homens, distante
para uma luz brilhar
sem ferir os olhos
é necessário um trabalho árduo
sensível, cauteloso
por vezes, solitário
nada sabemos do que somos
enquanto tudo proclamamos como sábios
no poço fundo, caem nossas verdades
para o florescimento
é preciso devoção!
para o renascimento,
a observação
retirar-se
momentaneamente
para reorganizar-se
é tempo de balanço!
para que seja triunfal
a descida da montanha
move-se o universo em favor
quando uma estrela se enche de luz
internamente
virá, no exato momento,
do fundo do poço,
do abismo da alma-corpo,
aquela que mata a sede
por isso, o agora
é o tempo da reforma,
da obra de revestir-se
para a transformação íntima
e não se pode utilizar um poço
enquanto ele está sendo revestido
este trabalho, no entanto, não é em vão
graças a ele, a água permanece límpida
tantra
será, a minha poesia, a chama para queimar
o incenso do mundo
na realidade que construo com a palavra
transformar a pedra em ouro,
o vazio no som primordial
nuvem que atravesso num jato
deixando o meu rastro
como lençol de seda que estendo
para dormir o sono exato do planeta
e acordar inteira carregando, da vida,
no meu ventre, a tua saga
meu corpo é um templo!
encontre nele a tua tessitura, universo
pratique aqui, a tua união, onde pulsa o sexo e mora a divindade
sou folha branca de papel para que escrevas o teu verso
