Eu sou o universo

Não serei o que quer que você queira que eu seja

Não posso
Acredite que o que se passa aqui dentro
Não é o que você vê
Você que não me conhece bem
E acha cabível conceber um mundo para mim
Eu concebo o meu mundo
E cada vez mais
Nele só cabe o que manda o meu desejo
E você vai achar bonitinho o que eu escrevo
Profundo…
E nem vai perceber que é pra você que eu falo
Para todos vocês que constroem
Sobre mim teorias e verdades
Eu busco sensibilidade
Estou à cata das evidências do amor-mundo
É isso que me move
E se eu esboço uma única palavra que seja
Sobre isto, o que escuto é uma risada
Ok! Tudo bem…
Eu vou continuar fazendo o que quero
E você vai continuar acreditando
Que me conquistou para sua seita
Eu não universalizo
Eu sou o universo

em clima contracultural

sabemos que quando o que parece, não parece nada
é porque é tudo e deseja o tudo
mas é preciso cautela para o nada vir a ser tudo
do parecer ao barro
o ruído pode ser insuportável
ah, mas isso sim é que seria primavera
a floração do tudo a partir do nada
a agressão da beleza
a chocar os escarros dos burocratas
vida sempre como potência
não à cultura pequena das convenções
que importa ela, essa de quem só faz muros
lembremos da arte
arte é luz e sempre pode nos recordar
que o possível pode ser o que quisermos que ele seja
que é preciso dizer o que deve ser dito
e fazer o que é necessário que seja feito
ignorar? esqueça. ideia errada, sinto lhe dizer…
o que você ignora se torna um fantasma
o que você deseja se torna seu barco
e é preciso que deixemos de lado a poesia óbvia
e o estabelecido dia a dia copiado.
porque também é preciso que sejamos mais
e tudo aquilo que a vida pode ser em nós
potência é uma questão de coragem.

pop poesia

o pop nunca poupou ninguém
cansamos de decorar a máxima
a filosofia pop não poupou os ícones
a pop poesia é padrão do artista contemporâneo
a arte que vive na fronteira é a arte que queremos
o artista-acadêmico-errante, nem lá nem cá
desterritorialização da especialidade
performance do caos urbano
estar nas fronteiras
provocar a própria criação
não se pode ser artista sendo um
só o múltiplo pode configurar a arte
o pop é possibilidade
da recriação da criação
do abalo de todos os cânones
que sejam belos, que sejam sublimes, que sejam amados
mas que deixem de ser cânones
abalo sísmico do símio produzindo fogo
2001 chances de acontecer diferente
ruir ruir ruir ruídos de todo e qualquer juiz
voar pra onde se deve voar
para onde está apontado o devir
quem cisca é galinha
quem voa é águia
visão de latitude e longitude não-óbvia
produzir com o suor
deixar a poesia vir do fígado
fazer música com o mesmo torpor
de quando se vê o próprio sangue
ser vísceras e pensamento
ser um quando se é qualquer um
ser tempo, espaço, intuição
multiplicar a experiência
meditar, limpar a casa, escrever e fazer nada
da mesma maneira
são todas formas de ser e compreender o mundo
explicar o mundo sem medo de ter que desexplicá-lo
intoxicar-se de amor
de liberdade não, ela não existe
o que existe é a agonia, agonística, agnósticos em danças circulares
pop poesia
sem pretensão e cheia de intenção
colagem, recorte, deslize pelas linhas
martelo, flor, transporte
comunicação
a que falta
a que os cursos não dão conta
olho no olho, direção ao ouvir
ainda que se tenha problemas de escuta
enquanto formos medíocres
o pop será medíocre
e só

vontade

desejo é sempre a mesma coisa

um dia vai, um dia volta…
volta e volta
ouvia vovó dizer que vontade é uma coisa que dá e passa
não sabia o que vovó queria dizer
e então entendi que sim, passa
depois que a gente curte aquilo que desejou
se passa sozinha?
não, só dorme
vontade é coisa que dá
simples, como laranja o ano inteiro

espera

é sempre muito bom pegar os cadernos depois de um tempo. passo a gostar do que escrevi.

de toda forma
o que desejo
é que ao abrir os olhos pela manhã
tenha somente passado um dia mesmo
e que eu possa ter a certeza de que há tanto o que viver ainda
e que lento, passa o tempo
de toda forma
é só isso
—-
basta que se apague a luz
e perdemos um pouco daquela
confortável conexão com o fora
ficamos dentro
grande oceano de nós mesmos
difícil é respirar quando somos rarefeitos
—-
saudade de tudo aquilo que não sei
e quero…
—-
um, dois, seis
hoje eu quereria tantos outros quanto fossem possíveis
quereria ter a certeza de que se pode ir até a lua
e não envelhecer tão rápido
só flutuar e olhar para o planeta azul de longe
e tanto quanto fosse possível
eu quereria errar para ter segundas chances
elas são sempre um gozo sem fim
e subir bem lá no alto daquela montanha
na terça de carnaval
ver a cidade de longe
sentir como é grande o mundo
como é inevitável e inebriante o amor pelo mundo
eu quereria até morrer
pudesse renascer

ressonâncias

Existe um deserto em cada um de nós
Cada vez mais eu o desejo
Na busca de entender o que não entendo?
Para ouvir o que nunca escuto?
Sei pouco ou nada do que faz com que eu me mova assim
Tão avidamente em direção a esse espaço cheio de vazio
Ainda não sei
Perco tempos preciosos com tal capricho
E sou aquela voz que cala após ouvir a própria voz ressoar
De alguma forma reverencio esse deserto
Que se amplia nas águas, pedras, areia,
Nos espinhos e seres que rastejam ou tem guelras
Mas o deserto do corpo, esse é o mais intenso
Porque só se tem o próprio corpo
E ele é o nosso grande deserto
Quero me iluminar e deslizar por ele
Talvez por isso, por querer
Devo parar de desejar?
Mas, para quê?
Para encontrar a tão esperada calma diante do mundo?
Os dias continuam passando
O mundo ansiosamente me aguarda e pede reação
E não há calma possível diante do mundo
Só uma grande ansiedade e uma vontade de voar
————-
Triste a tristeza dos homens
Pensamento sem corpo
Corpo sem pensamento
Atletas classe média correndo na praia
Mas que praia? Eles não olham para o mar…
Trabalhadores atravessando as ruas
Há uma enorme lua cheia no céu
Alguém viu?
Comem com pressa seus defuntos
Lutam sem ternura
Empurram-se nos ônibus
Buzinam como bonecos
Correm nas ruas com seus tanques como competidores
E não são? Estes homens e mulheres tão donos de si quando dirigem máquinas
Não importa se com falo ou sem, se promíscuos ou castos
Todos são tão patriarcais
Rostos que se reiteram e reiteram no vazio
Buscando sentido
Quando sentido é só conforto para nossas fracas concepções de mundo
A esses, que reduzem o prazer à piadinha zorra total
Há tanto mais, há tanto a se viver
Medo? O que temos a perder é só a vida…
Não entendo o medo de perder a vida
desses
que não vivem
Os que vivem, só se preocupam em viver
Basta estar vivo para morrer
Não é o que dizem?
Antes perder um braço
A perder a possibilidade de conhecer todas as montanhas do mundo
E ir para o alto, buscar o infinito da sensação de liberdade
Lançar-se no deserto
Sair do conforto
Negar assim a paixão pelo poder
Permitir ferir o general que todos cultivamos
Que morram todos os generais!
E vivam os destemidos, os artistas e amantes
Utopia de minha parte?
Que assim seja! Amém… 

perdidos achados

poemas encontrados perdidos em um caderno. chegam aqui da forma como foram achados, sem lapidação, sem cuidado, frescos como quando vieram ao mundo.

A vida, que sempre me pareceu curta
De repente hoje me pareceu tanto…
Imaginar que chegarei aos 50, 60, 79 anos
São mais 20 ou 30
Mais 40 ou 50 anos?
Posso fazer o que eu quiser!
Quanto mais tenho que esperar?
Trabalhar? Para quê?
Queria estar sempre no topo do mundo,
no alto das montanhas
Os Andes, o Himalaia
E descer todos os mares
Experimentar todas as especiarias
Os sabores das frutas e das folhas
Os molhos, as ervas, os cremes
Beber todos os vinhos
Sentir o cheiro do incenso na Índia e no Nepal
Curtir o mar do meio do oceano
Ouvir a maravilha da gravidade dos sons dos sinos budistas
Correr por castelos, e me integrar nas primaveras doces dos rios todos
Para que tanta política e ciência
Se o que quero é sentir o mundo?
Se assim sou feliz,
Apenas sentindo…
Para que precisamos de política?
Mais precisaremos dela enquanto negarmos nossa liberdade e potência
——–
Cai uma tarde de outono qualquer
A brisa esfria e é possível ouvir o que não se ouvia antes
Junto daquele cheiro de mato quase queimado do pasto
E a sinfonia de grilos grilando para o céu que se aproxima, estrelado
Cai uma tarde de outono qualquer
E como se não bastasse ser uma tarde de outono
Ela ainda é tão bela que jamais haverá outra igual
A estrelar para mim um futuro que já é presente
Um contexto que já é pretexto
E refazer sentido a todo instante
No mundo que já não quer mais ser
Que só espera a hora de só ser o que se quer
Vida que não mais suporta, só ama, só deseja, só viaja
——–
sou uma espécie de Cristóvão Colombo contemporâneo
desbravadora e cega diante de todos os nãos
dê-me um barco e navego longe
como fizeram os homens de outrora
sem medo da morte
e assim faço jus a todas as mulheres
que nestes distantes tempos
não puderam se fazer capitães de saias
cientistas com um afeto profundo
desconsideradas pela história vermelha e barbuda
que delas têm medo
porque podemos ser mães de qualquer coisa
de grandes mundos, da anarquia
do amor e do cuidado
espero até fazer jus àquelas que hoje
desconsideram a si mesmas
reproduzindo os papéis que lhe foram dados
tristes que só elas
—–
um Almodóvar faz falta na vida
quando olhar para o lado cansa de tão cinza
nos olhos, nas roupas, no concreto e na falta de paixões
faz falta o vermelho, uma mistura de rosas com listras no tecido
um cabelo menos certo, uma roupa menos cáqui
e sexo de verdade
porque até mesmo o sexo pode se cinza, enlatado
como a falta de brilho de quem passa do meu lado,
desce do ônibus, reclama da vida e senta no sofá

poema-oceano

o mar sob meu teto
todo dia sinto o cheiro
janela aberta é condição
a onda sempre vai e volta
mas meu barco
faz porto de qualquer lugar
que se apaixone
fica, e deixa que vá e volte só a onda
mas se volta, depende
fato é que ele vai
o mar sob meu sonho…
meu barco já está no mundo
apenas eu que ainda não cheguei

poema-jardinagem

queria hoje uma chuva de flores
a cair sobre meu corpo
retirar-lhe o peso
e transformar-lhe em flor
eu o queria inteiro,
esse corpo cansado, sem chão
para oferecer-lhe cheiro de alfazema no pé,
cor de rosa, violeta, orquídea preta
senti-lo pétala a pétala
como se fosse gérbera vermelha
queria hoje ser um lírio aposentado,
um girassol abandonado,
a compartilhar com ervas daninhas
o gozo de brotar de qualquer jeito
ser um corpo leve e sair por aí como dama da noite
que não pede desculpas ao entrar sem bater
um frangipani enlouquecido!
corpo sem culpa,
eu brotaria dente de leão, flor que voa,
e voaria para sempre até que me esvaísse
quando então eu já seria uma lótus universal
conectando o espaço sem fim de todos os corpos
morando sob suas cabeças
os ajudando a brotar e voar
queria hoje só brotar e voar
e dormir como guirlanda floreada
posta na árvore do jardim

poesia para a vida

o brilho dos olhos…
vai embora como cachorro desprezado
se a gente não cuida de manter as paixões
——–
de repente um dia
você acorda e o mundo começa a existir
mas aí já é tarde
e só te resta aposentar o corpo
morre antes guri, pra não ver que perdeu a vida
ou trate de viver agora que o sonho já está logo ali
quando você virar a esquina, ele acenará
——–
a alegria se inscreve por si mesma
portanto, procurá-la, é passatempo das fraquezas
é ela quem vem de encontro
não se acha na gaveta, nem na mala, nem num canto
quem espalhou que a dúvida é benefício
é porque cedeu a mão ao medo
e esqueceu que a alegria não duvida
medo de ir exatamente onde se deve ir – e exato não é preciso
mesmo que esse onde deixe de ser depois
aquele onde de agora – que é somente um onde do instante,
para se tornar o que já foi e não é mais
há coisas que não podem prolongar-se
pois não há prolongamento possível
àquilo para o qual já é necessário empenhar esforço,
isso que não conhece a alegria
quando esticadas à força perdem a cor
murcham como flor esquecida no canteiro
e deixam o coração no mesmo ritmo confortável
daqueles que respiram e não sabem o que fazem
——–
a vida é feita pra durar
mas só dura se o que por ela passa, aceita passar
porque é preciso cuidado, ou o tempo empalha
a vida é o que existe no movimento
e nada mais que isso, penso agora…
——-
no teu corpo pleno, terra
eu dançaria a noite inteira
para sentir com mais afinco
o cheiro de orvalho e do mar
e depois da dança eu promoveria um banquete
para que todos os meus convidados,
feitos de elementos os mais distintos,
pudessem se deliciar com tudo que nasce de ti
e com aquilo que de nós emana
e se permite existir antes da cultura
porque é isso que é preciso
dançar a dança esquecida do corpo pleno
para imanencizarmos inteiros os cantões de nossa coisa-alma
essa coisa-corpo, coisa-mente, coisa lugar algum
coisa-amor, amor-semente, semente-força
para brotar o inominável que desliza pela pele
no teu corpo pleno, terra
eu seria capaz de ser eterna e sem memória
feliz como sabem ser as pedras