Disponíveis antes que a força bruta
Desmantelasse os ossos de tempos sofridos
Estávamos, eu e tu, diante do concreto
O relógio marcava 23 horas
Chovia fino, havia silêncio, fazia calor
Teus olhos quase claros e gestos singulares
Não davam margem para dúvidas
E eu permanecia sentada observando,
Como se a qualquer momento o mundo
Fosse entrar em guerra
E seríamos os dois, em duvidosa moral,
carregados a um campo de extermínio ou trabalhos forçados
Numa Gulag imprevista de um mundo
Pós-democrático
Perseguidos pela Gestapo das almas perdidas
Antes fosse história, ópera, burlesco
E, na madrugada, pudéssemos apenas
Ouvir com deleite o silêncio e os grilos
Você, a fumar seu cigarro olhando pro nada
E eu, a escrever meu livro, mais umas páginas
Antes fosse apenas filosofia
E um muro não separasse as fomes
E um oceano não se transformasse em máquina de guerra
O que virá não sabemos
Sequer sabemos o que queremos
Você anda perdido de tão encontrado
Amante de tudo nas sacadas de todos
Peito aberto até pra um holocausto
E eu devorada por palavras a todo instante
Não sei o que incita a fome de sentido metafísico
Se leitura de Proust ou Cícero
O mundo é um lugar cheio de abismos
Saibamos o som e a fúria
De nosso pranto e riso
A fortuna virá nos revelar o caminho!
Autor: Vanessa Rocha
Nós, os egoístas
Ah! Como são tantos a falar
Dos geminianos sem coração
Que se importam, mas não tanto
Esses de alma torta
Que mudam de casa
Mais que de sapato
E começam e começam
A deixar os fins para os outros
Ou nas palavras rabiscadas em cadernos
– Porque não há fim
Tanto quanto só há fim –
Nós, os obscuros
Estudantes dos astros
Para quem a vida é uma teia de mistérios
Da qual só sabemos existir
Pela consciência e nada mais
Pois nada nos obriga
A ter teorias sobre as coisas
Nós, os de sangue insular
Que sentem apertar ao peito
Os maquinismos
Os paquetes
Os marinheiros
Os que constroem estradas
No mar sem fim visto das esplanadas
E nos telhados de Lisboa
Ou de uma terra estrangeira
A minha, mais que a tua
E no sentir tudo de todas as maneiras
Ao íntimo, o gelo do nosso coração
É uma casca fina
De quem sente fingindo
E finge que sente
Gostamos mesmo é do drama
Como o meu em derramar lágrimas
À tua cômoda
Que graça tem a realidade
Da gente que segue os protocolos
E dá à luz o esperado?
Nós, os ridículos e solitários
Escrevemos tantas cartas de amor
Só pelo gosto de escrevê-las
Foi tanto assim o nosso amor?
Ou foi o nosso nervo fingidor?
Basta! Nascemos poeta
Deve ter algum sentido nisto
Que seja termos que criar algum
Caso a providência não saiba
O que fazer com isso
De toda forma, a ti ficou o gênio
Quanto a mim, só o tempo
Lisboa, 03 de fevereiro de 2018
Humanos
No insondável, habitamos
Sólidos, planetários
Trajamos corpos limítrofes
Com almas imortais
Já nos havíamos encontrado
Quando, onde, que importa
Quanto tempo tem uma vida?
Quantas vidas cabem na aorta?
Estamos no agora
E carregamos naves insanas
No meio do peito
Que polidas no viver
Invadem a massa cinzenta
De nossa arrogância
E observam, elas, a maravilhosa
Perfeição da impertinência
De sermos, tão somente, humanos
Carnes que se querem e apodrecem
Mas almas que vieram espelhar-se
Para fazer da vida uma obra de arte
Infinitos, até quando
Residimos nos abismos
Líquidos, como a água do rio
Que se funde no oceano divino
No silêncio, habitamos
Etéreos, terráqueos
E a cada morte
Renascemos extáticos
Um só campo, trágicos
Estrelas de uma constelação
Imperfeita, somos mágicos
No cosmos, amamos
E amar é desaprender
Depois das ruínas
Sobre adentrar recônditos escuros,
Espera-me, amor,
Que as ruínas são nossas
Para compartilharmos
Da sede da reconstrução.
Há um gosto amargo
Lançado ao chão?
Eu só vejo luminância
Neste castelo repleto
De teias de aranha.
Cada pedaço de madeira
Que despenca na dormência
Dos nossos corações
É o fogo-fátuo que nos desperta
De uma sombria hipnose.
Faz-se um clarão ao longe,
No subterrâneo,
E há sempre um corpo que jaz
Submerso aos pedaços de ferro.
Mas a luz observa à espreita.
As ruínas oferecem redenção.
Aprecio-as porque desbancam vaidades.
Espera-me, amor!
Vamos recriar a liberdade!
Se há cansaço
Se há cansaço
E uma vez vivo, haverá
Há também a casa
Pedaço imenso de conforto
Singular
Que descansa
O que a lida cansa
E nos convida a recuar
Nessas horas pesarosas
Pouca coisa importa
O essencial se porta
Horizonte em nobre cena
Sob as folhas que balançam
Plenas de sua fotossíntese
Ao céu estrelado
Fragmento do óbvio
Que atrai o homo sapiens
Desde o seu primeiro espasmo
E o silêncio inquebrantável
Do abraço que se ama
Confortável
Ruídos de grilo
Ecoando na montanha
Café e cama
Um vinhedo antigo
Lembra que o tempo
É o rei soberano
Se há cansaço
E uma vez vivo, haverá
Há também um oceano
De calma e certeza
De onde é preciso estar
Babel
Minha missão
É “incorrer em tautologias”
Nasci errada
Uso mantras diariamente
Por necessidade e prazer
Não sei olhar no espelho
Que não seja para ver as rugas
Que escalam os fossos do cérebro
O azul me enerva
Posto que é cor que não se soube
Por muito tempo
Se uso óculos
Não é para melhorar a visão
Toda a gente já nasce enxergando
Mas esquece
Minhas mãos não me entregam verdades
Meu rosto menos ainda
Tudo o que sei
Coloco em palavras
E elas não são
Absolutamente nada
Para ver de fato
É preciso abandonar
A seriedade
Gosto de descascar as sombras…
Catedral
Apenas de poesia
Se eu pudesse
Viveria só de poesia
Encarnada na beleza
E na crueldade do sutil
Largaria os delírios errados
As planilhas sem vida
Os contratos que amarram
A burocracia construída
Pois amanheci desejando mergulhar
No que revelam aqueles olhos
Foi por pouco que não te disse,
Não sei bem de que maneira,
Que devias ser meu, por que não
Amanheci querendo o brilho dos girassóis
Dos quadros de Van Gogh na minha janela
E quando eu olhasse a vida lá fora
Não veria apenas os carros que passam
Amanheci querendo mais a prosa de ontem
O riso amigo talhado em reencontros criativos
O prosecco providencial de uma noite sem fim
Poética dos tempos sem tempo da paixão
Amanheci querendo diluir minha alma
No andantino da quarta de Tchaikovsky
Ainda que o russo não rime com o português
Mas amanheci e já tocava o telefone
E me lembrei da moral
E já era tarde para o capital
Pois que lugar pode ter a poesia no tempo do trabalho
Pois que lugar pode ter a poesia no tempo das convenções
Pois que lugar pode ter a poesia no suco verde da manhã
Se eu pudesse
(e poderei!)
Viveria – e morreria a cada dia –
Apenas de poesia
As quatro estações cariocas
Chegada é a Primavera
Se uirapuru ou sabiá que a saúda, que importa
Correntezas aninham-se aos ventos que celebram pássaros
E as águas correm aliviando o doce calor carioca
Uma tempestade se anuncia no horizonte marítimo
Trovões levantam as ondas e alegram meninos
Ao seu fim, retornam as andorinhas ao Arpoador
E distribuem hipnóticos cantos sob o céu azul
Neste cenário de luz entre o mar e o bairro alto
Ao balançar das árvores e às buzinas de carro
Dorme o mendigo com um buquê de flores e o seu cão ao lado
Do pastoral subúrbio ao centro festejante
Dançaria Vivaldi um samba ao seu próprio furor e abrigo amado
Da primavera, cuja aparência de quase verão é brilhante e austera
O verão
Sob a dura estação pelo sol incendiada
Lânguidos homem e cachorro, arde o meio dia
Libertam as maritacas seu canto estridente
Cantores correm para os teatros à refrescar a poesia
Um doce vento norte se vai, e uma disputa
É improvisada pelo sudoeste das viradas na praia
E lamenta o marujo, porque sabe
Teme a feroz tempestade e é seu destino enfrentá-la
Toma dos pobres , após a lida, o repouso
O temor de alagamentos e trovões
E, de repente, inicia-se o tumulto furioso
Temor este, verdadeiro, que fulmina um céu vermelho
E um vendaval, a controverso modo, expulsa o suor dos dourados corpos
Que ora chove e assusta, que ora é o sol a pino que expulsa
O outono
Celebram os cariocas, com danças e cantos,
O grande prazer de um clima mais ameno
Entorpecidos ainda pela cerveja
Encerram as noites em bares sob a lua cheia
E ao fim dos carnavais e do sol estendido
O clima de outono é aprazível
E a estação convida a todos
A gozar um sono auspicioso
Mas o trabalhador, na nova manhã, sai à lida
Com ferramentas, gravatas, corre ao metrô, que irrompe
E foge do calor, da navalha, fogem dele as suas madrugadas
Exausto e em busca de um grande amor
Por dias e noites de cansaço e ameaças
Seu corpo pede calma, seu coração, oprimido, pede alma
O Inverno
Agitado tremor traz o dia cinza
Ao alegre sussurrar de tempos mais gélidos
Sacamos nossos casacos e echarpes
Batemos os dentes para lembrar que é inverno
Subir a serra e acender lareira
Enquanto lá fora a chuva fina traz neblina
Caminhar sobre o asfalto molhado a passos lentos
Gozando cada momento de frio parco, com medo de deixá-lo
Imaginamos gelo, abrimos vinho, namoramos no edredom
Há melancolia também em nossos corações
Que buscam a poesia no cintilar do orvalho da manhã
Sentimos, ao abrir a porta, arrepiar os pêlos
Ventos invadem os desejos por todos os lados
Cariocas também gostam de dias nublados
O universo das coisas não publicadas
Sento-me diante dela
A quem costumamos nomear vida
E à rosa subsiste seu nome
Deixo de lado cetro e vaidade
Acomodo-me em seu sítio forte
Onde trono é tronco de árvore
Ela me solicita despir-me
Abandonar os livros e a razão
Para ouvir o que grita
Recolho os meus sentidos e os vazios
Meus demônios dizem
Que talvez não valha a pena
Uma nudez com pena da morte?
E a morte ri na minha cara
E diz que é vida ainda
Retiro, então, a pele
Marcada mesmo
É por traços invisíveis
E encaro os profundos olhos dela
Vida ou morte, tanto faz
São fêmeas
Ambas dão a luz
E são a mesma face cálida
Mirando as nossas fragilidades
Para extrair delas
O óleo essencial de nossas almas
Verdades
Busco em seus espelhos
Os porquês
Em vão, tolice
Disparo sangue pelos meus
Com o coração chovendo espinhos
Despedaçado
Ao lembrar a infância feliz
Com cheiro de mato
Totem de um tempo já perdido
O que importa é fluído
A vida é círculo
E de tudo resiste sempre uma flor
De cada vida na nossa, pólen
Flor até mesmo quando feia
Como o poeta confrontou à náusea
Espiral de muitas camadas
Tudo o que está fora dos compêndios
Incerta e exata
Universo paradoxal
Das coisas não publicadas
De tão singulares
A vida
Tão frágil
E ainda assim uma estrela iluminada
Pote de ouro
Círculo mágico
Lótus em comunhão com o infinito
Composta de notas raras
E bela, até mesmo no fim
E todo fim é também início
Óbvia conclusão
Pra um interstício




