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o olho do universo

estou em prece
largada ao chão a contemplar o que não descrevo

apenas sinto

o chão é gelado
e meu amor é chama consistente

o olho do universo
ilumina minha varanda
observando meus movimentos
como se soubesse o que penso
e como se compartilhasse dos meus anseios
e, cúmplice, atestasse o meu desejo

sobre a minha bicicleta, a lua cheia,
que sabe que dela nunca me canso

o som de um solo de les paul me arrasta pra longe
e eu poderia chegar agora onde jamais estive antes

assim, tão carregada de futuro…

escrevo e o céu é de um negro profundo
que arrepia os sonhos mais bonitos

chega a doer no peito tamanha beleza
e meu silêncio é uma reza em agradecimento

pois a lua cheia no alto do céu
anuncia novos dias

anuncia um despertar

e as nuvens de cores camufladas
que circulam em torno dela
e logo atrás, a montanha, vista da janela
dizem do meu corpo a querer ser pássaro

queria eu, agora, estar lá perto
a olhar bem dentro do olho do universo

é fácil ser feliz
não é preciso nada além de saber pelo que se vive
e viver por isso que se sabe

a lua atesta

o negro profundo do céu celebra

tudo está aqui
nesta noite que amplia o meu coração

e me traz, em tempos tão exaustos,
uma leve e calma respiração…

poesia de família

os poemas dedicados à família!

do corpo uno
aos meus pais
vocês,
que me conceberam…
são também o meu corpo!
está no meu sangue o código 
que vem de gerações antigas
do homo sapiens
aos nossos patrícios
seu pereira e sr. vieira cristo
outros de nome desconhecido…
mas são vocês que estão na minha pele!
de que importa o sangue?
importa a relação viscosa 
do amor de pai e mãe
a torcida calorosa na arquibancada da vida
aquele beijo dado no saguão do aeroporto
enchendo de lágrima a despedida
tão “desnecessária” 
porque logo viria o retorno
aquele semblante de cansaço…
e eu chegava com o cheiro de álcool
aquela voz levantada com o medo
aquele frio na espinha quando chegou em mim
o desejo
e então, aquele olhar
aquele que revela uma galáxia 
de quem carrega o coração fora de si
ninguém será capaz de me dizer
que tal sensação valiosa é essa
que nos torna do outro, um só 
com nosso corpo
saberei um dia
quando o meu próprio carregar a vida
por ora, sou filha
por ora, recebo o abraço caloroso
e meu corpo sabe onde pode encontrar repouso
mãe-vó
para minha avó Ceny, atriz, dançarina e encantadora
era cedo na minha vida
eu descia as escadas te chamando, mãe-vó
queria tua comida,
teu sorriso, teu cafuné, 
queria tua queijadinha
e os biscoitos amanteigados de Petrópolis
era a tua festa a minha alegria
dos carnavais no quintal
e da hora de acender as luzes da árvore de Natal
o samba, a música que sempre emanou de ti
o quarteto de cordas que carregas dentro do corpo
e o teatro inteiro para lhe receber
ah, quando te vi naquele cartaz…
o vô tão jovem e galã pra te conquistar…
grande atriz, eu quis ser como ti!
e nunca me esqueci
todo o encanto de tantos anos lá na serra
sua voz ecoando pela casa imensa
aquela água gelada que me fazia chorar
e tu, rias, e dizias que ia passar…
depois fazias um chá
senhora que és dos mistérios das plantas
carregas neste corpo a própria divindade
de quem vai floresta adentro porque sabe
que por ela é protegida
carregas em ti, mãe-vó
essa certeza da vida, uma alegria, uma energia 
que me ensinou a tanto lutar pelo desejo
tu podes nem saber, mas me deixou este legado
o da luta
o da arte
o doce sabor da música
e a poesia…
como aquelas que escrevias nos teus cadernos de receita!

Karine aos 25
para Karine Rocha em 15 de novembro de 2012

você chegou sem pressa
e de surpresa
tinha a calma de quem
parecia saber
que viria para trazer
doçura

e fazer nascer uma canção
de encantamento
e conciliação

você cresceu iluminada
de cabelos cacheados
dourada

dona de um afeto absurdo
saiu por aí distribuindo beijos
carinhos, afagos que
nunca
poderiam
ser negados

mas é hoje, ainda,
uma criança
porque na sua beleza
de se tornar gente grande
guardou aquele olhar
curioso, de quem sabe
que o mundo
ainda tem muito
pra dar

sensibilidade da água
encarnada num escorpião
pura carne do coração

você só cresce
e é grande de alma
é força tamanha
de ser amor-mundo
como se quisesse abraçar
todo esse mundo

é essa energia
em ser
amor
e mais nada

porque amor
é tudo

Karine aos 25
é mística
misticismo concreto
de ser pura magia

amor-mago
que conquista
e arrasta
para o universo sem fim
das coisas encantadas dessa vida

Poema do amor sonoro
presente de casamento para Andressa Rocha e Fábio Lessa

tanto já se falou sobre o amor…
tanto já se compôs na inspiração do amor…
e parece que nunca é o suficiente!

e lhes digo: não mesmo…
porque o mundo todo é amor!
reconheço…
e o mundo é grande!

e se é para falar e compor,
que seja sobre o amor!

assim insistem os amantes!
…e como haveria de ser diferente!?

insistem os músicos!
…e poderiam insistir em outra coisa!?
e os fonoaudiólogos!

pois amor se sente al dente,
e se sabe já no prólogo!

amor não é aquela coisa certa
que busca o casal, com uma lista,
na prateleira de um supermercado

uma lata de leite condensado
ou uma caixa de suco adoçado…

amor é incerto…
vive alternando dissonâncias
em uma sucessão de ritornelos.
às vezes provoca surdez, nos deixa mudos…

quando chega, acelera o coração
e deixa a perna bamba,
como se fosse um contrabaixo
a marcar o pulso.

amor é a doce alegria de viver no não saber!
de se fundir, de se esquecer,
de ser mais que um
e de ser um do tamanho do universo.
puro verbo, puro verso!

amor nem deveria ser dito assim,
com palavras…
pois é tatuagem rara

amor merece mais é música!
merece mais é voz, escuta!

merece uma dança desvairada,
uma cerveja bem gelada,
uma loucura a dois numa praia enluarada!

amor não comporta entendimento algum,
mas sim, uma viagem pra Cancun!

amor pode até rimar com dor,
como dizem por aí.
mas essa é rima pobre…
porque amor rima mesmo
é com alegria!

é por isso que então,
levemos corpo ao amor,
forma de gente!

hoje o amor tem a forma de um homem
cujo grave tom chegou fundo
num agudo coração profundo

e a forma de uma mulher
cujo canto de sereia e ouvido de quem sabe
chegou ao cume do coração
daquele que lhe cabe

hoje amor tem nome!
e assim como amor rima com alegria
rimam Andressa Rocha e Fábio Lessa

e a graça do amor é essa:
rimar as singularidades!

e assim também,
como hoje amor tem nome,
hoje amor é som,
no corpo sonoro de Fábio e Andressa,
para que a gente não esqueça
que a concretude do amor
é o ritmo que reverbera em todos os corpos
e a melodia da existência
que faz vibrar os corações
como cordas de aço e voz
a nos levar para os mais belos portos!

o pêndulo e o poço

quando inflama um corpo
e a mente reclama, insolente,
divergente

pra um lado o corpo,
pro outro lado a mente,

o mundo pede calma

mas o que se faz com o que não se alma
e com aquilo que se alma até demais?

quando inflama um corpo, inflama!
e nada mais

a mente tenta anuviar
nubla a memória
dispersa a história

libera palavras que tentam racionalizar

mas quando inflama um corpo, inflama!
e não há como disfarçar

a mente briga com o corpo
e relativiza o tempo
esse que corre,
oferece, tira e devolve…
sem chance pra lamento

tola mente!
porque a memória tem cheiro…

voz, carne, osso
sonhos, desejos

e desespero

e vira e mexe
a memória vira carne de novo
e a memória tem beijo

assim, inflama o corpo
e ri na cara da mente
mas, insolente, lhe olha a mente
e ri do corpo que se alma

mas se mente é a ideia do corpo
mente a mente para o próprio corpo?

apenas sei que inflama, o corpo…
em abraços longos que liberam fagulhas
revelando o que não foi dito
e todo o dito que foi tanto
e que teceu inúmeros fios de futuro

tecem, então, mais um fio, esses abraços…
com os quais se quereria fundir os corpos novamente

a mente…
que pode ela fazer diante do que se sente?

esses fios, só o tempo vai dizendo
como devem ser tecidos…

fios que são como aquela vontade louca
de água no deserto
que une a água e o corpo
como se fossem um só porto

espontânea imanência da vontade
à procura do seu poço

e você sabe que precisa caminhar
para encontrar um oásis

e espera ainda que a chuva caia em tempo,
antes que a sede se transforme
em pesado sofrimento

por isso
cabe ao corpo,
diante do tempo,
colocar-se sempre em frente

na doce alegria do movimento

leve, ainda que sedento

pois, além de equilibrar,
faz, o movimento, um dia,
aquilo que se buscava,
encontrar

ainda que se encontre
uma água totalmente diferente

o que é mais provável
quando perseveramos a procura de um poço

assim, cai o pêndulo,
e fica a água a, finalmente,
alimentar mente e corpo

O tempo

O tempo é uma das questões que mais me me tomam tempo nessa vida, como questão prática e simultaneamente filosófica. E a relação com o tempo, é sempre uma relação conflituosa para mim (mas que relação não é conflito, me pergunto… conflito é bom!). Tudo o que faço, ou melhor, tudo o que escolhi para me dedicar (ou que me escolheu) faço com intensidade, e fico sempre com aquela sensação de que me falta tempo, porque, teoricamente, eu precisaria de mais tempo para fazer mais e melhor (neurose minha). Mas essa é uma sensação de quase todo mundo hoje, pois vivemos bombardeados por informações, ofertas e convites. Achar que vamos dar conta de tudo é um erro para o sistema nervoso, e para a consolidação do que deve ser feito. Pois o que não nos falta é tempo. Talvez falte é concentração, foco naquilo que escolhemos como prioritário na vida. No entanto, embora tempo não seja desculpa quando queremos alguma coisa de verdade, não há tempo a perder. Porque a vida passa rapidinho… O ruim é quando sequer sabemos o que queremos, o que desejamos. Aí é assunto pra outro texto. Nesse aqui, vamos supor que já sabemos, ao menos um pouquinho…
Saber que o tempo está passando é uma sensação que às vezes me angustia. É por isso que acredito que manter-se em movimento é extremamente importante e, mais que isso, no movimento do desejo. O quanto deixamos de nos dedicar àquilo que realmente importa pra gente na vida? Essa pergunta deveria ser básica no nosso dia a dia. Acredito que uma sociedade neurótica e violenta é fruto das inúmeras repressões do nosso desejo. Nada novo na psicologia, ok. Mas só para enfatizar que falo de um desejo de ser o que se é, que é o que se quer. De assumir o que é sincero dentro da gente. É assim que nascem os grandes artistas, cientistas e outros istas. Quando a gente faz o que ama, ou algo que passamos a amar porque nos conduz ao que acreditamos, e porque o que a gente ama nos organiza, nos constitui e dá sentido a nossa vida, a gente vive melhor e a vida em sociedade parece fluir melhor. Ao menos, é nisso que acredito. Claro que há uma série de questões sociais aí, mas é por isso que acredito nas políticas (coletivas e individuais) da multiplicidade – papo para outro texto também. E para isso não há tempo a perder, e há tempo para nos dedicarmos. Certo!? Hoje entrei no site da Armazém Cia de Teatro, e ao clicar para ler sobre o espetáculo A Marca da Água, eis que me deparo com a seguinte frase no início do texto de Paulo de Moraes, nesse meu momento em que tanto tenho pensado sobre o tempo: “não há tempo a perder”; e que termina lindamente com a frase “não podemos ter medo de morrer afogados”. Como isso soa familiar pra mim, uma pessoa de mergulhos…
Este mês, me peguei ainda mais interessada pelas questões do tempo, pois tenho tido vários insights sobre a minha vida, como se estivesse vivendo um daqueles momentos em que a gente começa a pensar em se dar alta da terapia. Eu realmente tenho resolvido muita coisa internamente, e atribuo isso a toda a série de movimentos de rupturas que comecei no ano passado, mas, especialmente, aos movimentos de reconstrução que iniciei neste ano. É como na história. Depois da queda, o recomeço. Depois das trevas, a luz. Trevas são necessárias, não nos enganemos achando que a luz deva ser eterna. Mesmo porque sequer sabemos se alguma coisa pode ser eterna, a não ser enquanto dure. Eterno é tanto tempo, que não faz sentido nos preocuparmos em descobrirmos se ele existe. É perda de tempo…
Trevas são necessárias… Tristeza, dor. Tudo isso, além de inevitável, é necessário pra gente dar valor ao que temos e, para mim, principalmente, ao que podemos realizar ainda. Porque na vida tudo está sempre por vir, e tudo o que quisermos pode ser possível. É questão de probabilidade. Se é provável, é possível. Por isso, depois de ter vivido mais uma das minhas trevas na vida, eu comecei a ver a luz de novo (no fim do túnel ela sempre existe, é só sair andando pra frente). E nesse movimento, percebi como eu havia deixado de lado uma série de coisas que me constituíam, me organizavam, me faziam olhar no espelho e dizer: sim, é você Vanessa! Certo, era preciso passar por isso. Sempre é. Mesmo que não seja. E se a gente aceita o tempo do crescimento de cada planta, a colheita é incrível! 
Eu agora estou num momento de replantar minhas plantas favoritas, coisa que o tempo fez por mim. E, de uma vez por todas (expressão dramática para enfatizar), colher aquilo que nasci pra fazer, entendendo que a pessoa é para o que nasce… Mesmo que nada esteja escrito nas estrelas, eu sei que nasci para algumas coisas (eu defini assim por desejo e por paixão). As principais delas consigo descrever da seguinte forma nesse momento: 1. investigar os mistérios do corpo, e suas possibilidades e potencialidades; 2. ajudar pessoas a concretizarem ideias/projetos/sonhos dos quais compartilho, e construir belas ações conjuntas; 3. investigar os mistérios da vida e, em suma, compartilhar a vida. 
Dentre as muitas formas de realizar tudo isso, eu fui escolhida por algumas. Uma delas, a que está mais evidente para os outros e que me ocupa bastante tempo, é a produção cultural. Acho que ela dá conta dos pontos 2 e 3 lindamente, e até hoje continuo nessa porque posso realizar, com pessoas incríveis, coisas incríveis, e estar em contato profundo com o ser humano. Isso me faz feliz, e também me situa nas relações de trabalho. Penso que quando não está bom produzir, é porque estou produzindo a coisa errada e devo mudar o rumo das coisas. Felizmente, tenho sido uma produtora de sorte, ou, que sabe procurar o que produzir… Definitivamente, sou uma produtora que precisa estar envolvida em todo o processo da produção. Desde a criação, entenda-se. Se assim também não for, eu vou buscando a forma de ser, ainda que isso implique em mudar de local de trabalho, abrir uma nova empresa, ir pra fora do país, essas coisas… Ainda bem que no campo da produção podemos sempre estar em movimento. Eu morreria se tivesse que bater ponto em um escritório todo dia fazendo um trabalho mecânico. Sorte? Acaso? Destino? Inteligência? Política? Tudo junto? Sei lá…
Já no campo um, foi com o yoga e o canto (como pilar de uma performance artística) que mais me realizei. Mas, por um bom tempo, eu os deixei de lado. E essa foi uma das principais questões que me lançaram na reflexão sobre o tempo neste ano. Por que os deixei de lado… Medo da potência? Já tentei de tudo (risos): teatro, piano, bodyboard, natação, corrida, mergulho de apneia. Tudo isso está em mim ainda, e algumas dessas atividades ainda são interesses, mas, de alguma forma, hoje elas se sintetizam no yoga, pela linhagem do tantra, e no canto (as atividades que escolhi para me aprofundar e que são sagradas na minha vida), e vão fazendo parte da construção das minhas performances artísticas, para as quais retornarei em breve. Pensar o retorno ao que me alegra e ao que faço com prazer é uma questão e tanta sobre o tempo na vida… E a elas vão se somando novas, e outras repaginadas. No momento estudo dança também (apenas como um plus na condição de performer, e não para ser bailarina) e, mesmo tendo passado um bom tempo numa relação complicada com a corrida (que já tentei várias vezes emplacar), eis que, por força das circunstâncias, eu a redescobri, embora ainda prefira a bicicleta… Mas preciso liberar adrenalina intensamente (vício de quem faz isso há anos), e correr é algo que posso fazer perto de casa. Andar de bicicleta na Tijuca não é nada divertido. Mas foi preciso resignificar essa atividade. Então, redescobri a corrida como meditação, ou seja, como yoga também. Coisas que só o tempo faz.
Especificamente no campo três, acho que viajar e escrever é o que mais me faz, embora cantar, quando é para o outro, também seja uma forma de compartilhar a vida. Mas escrever é, sem sombra de dúvida, uma das minhas formas primeiras de investigação da vida (no ato da escrita, para mim, fica claro como razão e emoção se confundem e se misturam) e de compartilhamento (porque eu gosto de ser lida). Não tenho esse papo de que escrevo só pra mim. Escritor que escreve só para si não publica. Já viajar é uma das mais deliciosas formas de se estar em movimento. Gosto, e muito! Além disso, compartilhar é também o motivo de eu gostar tanto de estar com as pessoas em relações profundas, mesmo sendo uma geminiana com Vênus em Gêmeos, o que me faz ser mal interpretada sempre (mais risos). Mas eu tenho um mapa denso em seu conjunto, e gosto mesmo é das relações que se aprofundam. Sou daquelas pessoas que prefere dar festa em casa a sair pra uma festa qualquer. Entende?
Mas porque eu falei tudo isso? Bem, porque também escrevo pra mim (risos de novo). E em um momento da minha vida em que autoconhecimento é prioridade, falar de mim tem sido inevitável nos meus textos. Mas também pra me ajudar a contextualizar a questão do tempo, e relacionar o ser com o fazer. É pensando em tudo isso, que sei que não há tempo a perder para realizar o que preciso realizar. E o que preciso realizar deve ser trabalhado com precisão, como navegar, já que a vida, não é nada precisa. Assim a gente equilibra e faz bonito!
E você, sabe o que te constitui, o que te organiza, o que te faz você? Dizem que não é o que a gente faz que nos torna nós mesmos, mas o que sentimos, ou somos. Eu não tenho esse talento de separar as coisas. Para mim, o que somos é o resultado do que praticamos. E o nosso caminho prático é também o nosso caminho espiritual. Por isso, é bom observarmos o que falamos, e se o que falamos é o que fazemos (na relação com o que temos de mais verdadeiro). Seja o que for, que seja o que tiver que ser. Mas que seja mesmo! Que tenhamos sempre a coragem de viver o que acreditamos. Para isso, deve haver tempo, e não há tempo a perder. Chronos e Kairós…

I Ching – um poema para tempos ruidosos

recolher-se em si
aquietar-se

é tempo de lapidar os diamantes
na sala escura dos homens, distante

para uma luz brilhar
sem ferir os olhos
é necessário um trabalho árduo

sensível, cauteloso
por vezes, solitário

nada sabemos do que somos
enquanto tudo proclamamos como sábios

no poço fundo, caem nossas verdades

para o florescimento
é preciso devoção!

para o renascimento,
a observação

retirar-se
momentaneamente
para reorganizar-se

é tempo de balanço!
para que seja triunfal
a descida da montanha

move-se o universo em favor
quando uma estrela se enche de luz
internamente

virá, no exato momento,
do fundo do poço,
do abismo da alma-corpo,
aquela que mata a sede

por isso, o agora
é o tempo da reforma,
da obra de revestir-se
para a transformação íntima

e não se pode utilizar um poço
enquanto ele está sendo revestido

este trabalho, no entanto, não é em vão
graças a ele, a água permanece límpida

tantra

será, a minha poesia, a chama para queimar
o incenso do mundo

na realidade que construo com a palavra
transformar a pedra em ouro,
o vazio no som primordial
nuvem que atravesso num jato
deixando o meu rastro
como lençol de seda que estendo
para dormir o sono exato do planeta
e acordar inteira carregando, da vida,
no meu ventre, a tua saga

meu corpo é um templo!

encontre nele a tua tessitura, universo
pratique aqui, a tua união, onde pulsa o sexo e mora a divindade
sou folha branca de papel para que escrevas o teu verso

um ano depois…

Escrever é um vicio terrível, daqueles quase incontroláveis, químicos. Dá trabalho, cansa, me faz dormir tarde demais (porque quando começo só consigo parar quando sinto que o texto, como uma gestalt, se fechou…). Mas eu não sei viver sem… Porque é também a minha forma de digerir e processar as coisas. Sempre que o cotidiano fica denso demais, é escrevendo que consigo ficar mais leve. Pois bem, o momento agora é um desses momentos densos. E eu, como de praxe, também uso os textos como confissões e pedidos de ajuda, uma forma de afirmar para o meu ego de ascendente leonino que sou humana demasiado humana e pedir uma ajuda ao universo.
Fico impressionada em perceber como as coisas acontecem rápido na minha vida. Tudo muda o tempo todo. Claro que há os momentos de calmaria, ou eu não aguentaria. E quando falo de mudanças, não se trata de mudanças radicais o tempo inteiro, mas daquele permanente movimento que te faz mudar de perspectiva sobre os fatos por conta de pequenos (e nada triviais) acontecimentos, às vezes em um único dia. É assim que tem sido a minha vida há um ano, mais precisamente. 
2012 foi um ano de rupturas, muitas, e por iniciativa minha, que começaram logo depois do meu aniversário, e se faz sentido a tal da revolução solar, agora estou entrando em um momento completamente novo, de estruturar a vida. As mudanças não cessaram, mas nesse momento são absolutamente diferentes. Essa semana, por exemplo, foi tão cheia de pequenas novidades, de um turbilhão de sentimentos e possibilidades que eu cheguei em casa hoje atônita. Não sabia o que fazer, precisava ficar sozinha. Abri mão de todos os bons programas que eu tinha pra essa sexta-feira a noite, de bar a concerto, pra ficar em casa com minha escrita, minhas músicas e minha seleção de Paulaner de diversos sabores. Aliás, ficar só é uma coisa que tenho feito muito de um tempo pra cá, pois está brabo de dar conta de todo o furacão dentro e fora de mim. E gosto disso, da solidão desejada… me reconheço muito nessa condição, além de me renovar nela. Sempre fiz questão dos momentos de solidão, mas no último ano eles foram meio escassos, e acho que isso me fez um mal danado pra autonomia. 
Parece que, para mim, o ano de 2012 acabou só depois do carnaval, e como de praxe no Brasil, o meu ano de fato começou depois do carnaval. Mas estamos em julho e tanta coisa nova aconteceu de março pra cá que parece que em 3 meses já se passou um ano… Assim como parece que tudo o que se deu de julho do ano passado até fevereiro desse ano foi há, sei lá, cinco anos atrás… 
Há um ano eu vivia uma outra vida. Há exato um ano atrás… e logo depois das rupturas todas que empreendi, eu me perdi num turbilhão. A sensação foi de sair de um ninho, onde eu estava aconchegada e, nos últimos momentos, acomodada, e de repente cair num buraco negro. Foram muitas rupturas ao mesmo tempo, e eu entrei num fluxo de dispersão. Vivi o caos durante esse tempo. Foi apenas em janeiro, quando tirei férias e viajei sozinha pro sul da Bahia, que consegui aquele distanciamento mínimo pra observar o que estava acontecendo e poder me reconectar com os meus desejos mais sinceros. Então, adoeci. Durante uma semana da viagem eu participei de um workshop de astanga yoga e com tudo o que aquela prática mexeu em mim eu caí de febre e dor de garganta, e tinha dores horríveis a noite no corpo todo, e chorava sem parar. Acho que chorei em uma semana o que não chorei em um ano… Porque fui me deixando sentir todas as dores que não me permiti quando estava com o corpo tomando porrada das muitas mudanças. Era preciso resistir. Mas foi só parar que de repente o corpo reagiu… quando voltei da viagem eu estava profundamente grata ao yoga, mas voltei desconectada da astanga, e ainda insisti, forcei uma barra que não deu certo… eu sabia que era preciso mudar isso também, mas ficava numa batalha interna tola, apegada. Enfim, cheguei no Rio e caí direto no carnaval. Foi o meu carnaval mais carnaval em anos. No sentido de me jogar na multidão, coisa não muito fácil pra mim, porque eu preciso me preparar psicologicamente antes pra não entrar em pânico. Mas avalio que eu precisava daquela catarse, como encerramento de um ciclo, de uma Vanessa que se foi pra dar lugar a uma nova Vanessa… Retomo, hoje, coisas que ficaram lá atrás, e que me constituem, onde eu me reconheço, como por exemplo, esses momentos de solidão e silêncio, e a espontaneidade, para afirmar o que for que eu estiver sentindo de verdade. Um eterno retorno, sim… mas, mais deleuziano que nietzschiano. O retorno, porém, diferente. Uma espiral, e não um círculo. Retomo a espontaneidade com muito mais leveza, e com mais clareza do que ela significa…
Mesmo tendo sido uma criança calada, daquelas que a mãe esquecia que estava em casa porque ficava desenhando num cantinho ou lendo ou inventando narrativas, e uma adolescente obscura, cheia de questões difíceis, sempre fui muito espontânea. E foi com a espontaneidade que conquistei muitas coisas incríveis na vida. Mas com o tempo essa espontaneidade foi minando. Mas é claro, bastava beber um pouquinho que ela voltava rapidinho rs. Nunca aceitei que determinassem os rumos do meu desejo. Sempre briguei pela liberdade (até onde ela é possível) de conduzir minha vida do jeito que eu bem entendo. Se existe uma verdade pra mim, é essa. Por isso muitas brigas na adolescência com a família, coisa felizmente superada desde que saí da casa dos meus pais há 10 anos… Nossa, como passou rápido… Bom, as pessoas costumam dizer que eu sou bem espontânea, e devem achar essa minha fala estranha… mas enfim, se soubessem o que se passa aqui dentro… E embora eu escreva muito, há coisas que nunca serão reveladas nos meus textos. E eu sou boba de fazer isso!? (risos) Mas hoje eu entendo muito melhor a espontaneidade que antes, porque eu achava que ela era uma coisa arbitrária, tola, que poderia ferir as pessoas, uma total falta de senso coletivo… Isso há muitos anos atrás… Mas quando voltei a pensar nela, entendi que ser espontâneo é tão simplesmente agir de acordo com o que se acredita, e que isso não exclui a atenção que se deve ter com o outro, seus desejos, suas alegrias e tristezas. É o jogo da convivência! O difícil é fazer isso sempre, quando se vive processos coletivos, porque há aqueles que insistem em te puxar pra baixo, grupos que não conseguem atuar como coletivos valorizando ao mesmo tempo as singularidades, o brilho de cada um. E nem é preciso ir para o âmbito do grupo para perceber isso. Quantas relações a dois diminuem as singularidades, ao invés de ampliá-las, potencializar o que há de melhor em cada uma… Mas a atenção a isso é o desafio também. O que não dá é deixar que a energia medíocre que muitas vezes se instaura num grupo mine nossa capacidade de criação. Pois, eis que veio a palavra! Criação é a palavra da vez pra mim. 
Como pessoa que só sabe viver apaixonada, tenho entendido muito da minha infelicidade com alguns processos e lugares. Minha paixão primeira? Criar! Ou estou num processo criativo ou estou morta. Radical assim. Quando escrevo estou criando, quando canto, produzo realidade, e no trabalho de planejamento e produção o que me alimenta é o processo de reunir informações, pesquisar, trocar ideias e dar vida a um projeto. Coloque-me apenas pra realizar burocracias e verá uma pessoa totalmente amarga… Pois isso é revelador e, desde março, quando voltei do buraco negro onde eu estive perdida por uns bons 6 meses, isso tem determinado a minha vida. E a vida tem me revelado caminhos grandes a partir disso, com perspectivas absolutamente novas, o que implica também em uma responsabilidade muito maior. Eis que agora, aos 33 anos, eu me vejo de frente pra possibilidade de realizar tudo o que eu sempre quis. E estou com um baita frio na barriga… Essas possibilidades? De forma bem geral, trata-se de dar vida a projetos que ficaram por tempos engavetados, porque talvez estivessem esperando a hora certa de aparecer, e de, cada vez mais, ter mais autonomia sobre o meu tempo de trabalho. Qualquer pessoa que verdadeiramente não tem medo de se conhecer, parece ter esse mesmo desejo. Controlar o próprio tempo… Controlar mesmo, sendo bem enfática. Perdi o medo de algumas palavras. Tudo o que está aí, todas as instituições, família, trabalho, escola etc, tem como premissa controlar o tempo de suas ovelhas. Para não entrar nessa só mesmo retomando para si o controle. Quem faz meu tempo, antes de qualquer coisa, sou eu. É primordial essa forma de agir, para que o jogo com a instituição se torne mais justo. Eu sempre me coloquei na frente, levando em consideração esse horizonte, mas só hoje é que começo a colher os frutos mais bonitos dessa plantação. Embora eu respire ainda um pouco tensa, respiro aliviada. O que está colocado pra mim é lindo. Como eu disse, tudo o que eu sempre quis. Resta-me agora ampliar minha força pra lidar com tudo o que vem junto com mais visibilidade e responsabilidade, inclusive a responsabilidade maior sobre o meu próprio tempo. Os desafio mudaram…
Hoje, conversando com uma pessoa muito querida, falamos sobre como a fase dos trinta anos é realmente a fase de meter as caras e brigar pelo que se quer. Você já não é mais jovem como era, também não é velho, já viveu coisas suficientes pra saber o que quer, o que ama, como ama, o que deseja. E começa a querer definir um monte de coisas. Onde de fato vai ficar (tempo e espaço), com o que trabalhar, ter filhos ou não ter… E depois dos trinta e poucos você já passou pelo retorno de Saturno, ou seja, relaxa e goza. Pois eu me sinto no momento do possível, e com aquela sensação de que o que eu decidir agora vai definir minha vida pelos próximos anos. Não sei se necessariamente onde vou ficar espacialmente, porque gosto de uma mudança, mas onde vou ficar em termos de desejo, por um bom tempo… Não por toda a vida. Não que isso não seja possível, mas é melhor não pensar assim, vai por mim…
Conversando com um amigo no dia do meu aniversário, ele me contou sobre uma experiência incrível que teve com umas mulheres xamãs em Mauá, e que havia ficado muito ligado em numerologia. Calculamos o meu ano. Somando a data do meu aniversário este ano encontramos o número 4. Quatro, ele me disse, é um ano de estruturar, diferente do ano 3, um ano de rupturas, agitação, novidades (fiquei pasma) e de um ano 5, que será meu próximo aniversário, um ano de transformações (ai, tudo de novo…). Pela numerologia, esse ano que começou no dia 19 de junho será um ano de muito trabalho e de consolidação. Bom, acho que já percebi… Minha revolução solar não diz algo muito diferente também, embora seja mais consistente e complexa. Estou em um ano de leão, ou seja, um ano de dar a cara a tapa, de mostrar a que vim nesse mundo. Já dá pra perceber pelo tom do meu texto, um tanto egocêntrico… Mas há que se fazer justiça a leão, e eu como uma boa geminiana, que tudo analisa, reflete (e mil fatores ao mesmo tempo), digo: leão é o signo do brilho. Quando ele consegue fazer o seu brilho ultrapassar seu ego, ilumina tudo ao ser redor. Vamos ver como vou me sair… Coisas lindas estão na minha mão para que eu aproveite. Novos trabalhos, novos desejos, um controle maior do meu tempo, uma nova yoga, novas atividades, uma nova música, tudo novo de novo! O mundo é meu! E pode ser seu…
É bem como diz a música do Abba (apenas com uma pequena mudança no pronome e na idade)… I can dance, i can jive, having the time of my life… I am the dancing queen… only thirty three!