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uma crônica no dia da cultura

escrevo, nesse dia da cultura, uma crônica do meu dia que, desconfio, pode até falar da cultura, mas não tenho tanta certeza. só sei que eu pensei nela o dia inteiro. então pode ser que sim, que eu fale da cultura. meu dia hoje foi marcado, basicamente, por discussões, leituras e escritas. um dia cultural? eu ia comemorar o dia da cultura no samba da pedra do sal. mas desisti. não consegui quem fosse comigo. e, mesmo assim, talvez eu não tivesse ido, porque fui tomada, como às vezes acontece, pela febre da escrita. eu já havia sambado no fim de semana. e dançado bastante. venho dançando há semanas. dancei charme, até meus pés cansarem. estou cogitando virar frequentadora assídua de bailes charme. essa música se conecta comigo de uma forma estranha, fisicamente interessante. inexplicável. mas tudo está tão inexplicável que pouco importa. um garoto que me viu entregue ao charme veio falar comigo que estava encantado com a minha entrega à dança, que percebia que eu não era da galera do charme, mas que a minha entrega era um encanto. bonito isso. exceto o fato de que essa percepção diz que eu errava mais do que acertava rs. e isso é cultura!
então sim, eu vou falar de cultura. pois bem, tenho insistido com os meus alunos desse semestre para irem ao samba da pedra do sal, esse reduto da cultura. mas do que estou falando mesmo? reduto da cultura! o que será que quero dizer com isso? de toda forma, é de grande importância cultural, e eu queria muito ter ido ao samba da pedra do sal. mas vou na próxima segunda. de qualquer jeito. sozinha, com alguém legal ou alguém chato que eu possa esquecer na cadeira enquanto sambo. talvez lá eu tivesse encontrado amigos ou até alguns alunos, mas eu tive que vir pra casa. até pensei em chegar e praticar yoga antes de escrever, já que hoje não fiz pela manhã, mas fui tomada por essas palavras. yoga é cultura? pensei ainda em desistir de tudo isso e ir à meditação budista das segundas-feiras. mas não era mais possível. e toda segunda é esse dilema. escolher entre o samba e Buda… cultura!
tomada então, pelas palavras, cheguei em casa e não fiz o que quase sempre faço primeiro, que é tirar os sapatos, uma ato cultural de conexão imediata com a natureza. eu liguei o computador. mas precisava comer. a natureza gritava. porque, me conhecendo, sei que esse texto seria longo e eu poderia fraquejar olhando a tela e teclando. caminhei tensa pra casa, lembrando que na geladeira parecia não haver nada sólido. foram muitos dias entre minha casa e casas alheias nesse último mês, que fazer compras já nem sei como é. estive nômade. só lembrava de líquidos. um suco do bem de tangerina já aberto, mate caseiro que eu fiz um dia e esqueci de beber e duas garrafinhas de Heineken pra me sentir James Bond, além da água, claro. não poderia ser esse o meu jantar. alguma coisa eu haveria de achar. e agradeci mamãe que me cedeu belas panquecas de espinafre quando até então eu só comia vegetais. isso foi na sexta-feira. santas panquecas que eu trouxe pra casa e me salvaram o jantar da segunda-feira! ponto pra mãe!
pela manhã, discuti com os alunos qual era a contribuição da ideia de economia criativa para a cultura. talvez, no mundo da superespecialização, falar em economia criativa seja criar ainda mais abismos, já que setoriza a criatividade. mas ainda estou pensando sobre isso. de toda forma, a criatividade (para além da economia) é algo a ser discutido em tempos de disputas necessárias. disputa. desde que conheci Marcus Faustini tenho usado esse termo. ele caiu como uma luva ao meu momento de revisão de conceitos. hoje, em pé na espera da barca para Niterói, eu lia as páginas quase finais do seu Guia Afetivo da Periferia. desde que comecei a ler o livro, e desde que conversamos pela primeira vez, tenho me perguntado quais os inventários possíveis da minha vida, e fico com vontade de também escrever uma autobiografia. caótica assim, como um guia, um mapa de afetos. por alguns instantes, acho engraçado, aos 32 anos, querer escrever uma autobiografia. mas talvez a vontade exista porque eu ache que eu já tenha vivido o suficiente pra, ao menos, contar umas histórias engraçadas, e queira povoar o mundo com mais histórias inúteis. que seja então. ou só porque gosto de contar histórias, e minha vida tem algumas. escrever é minha cachaça. e estou disputando a cidade também, o imaginário, o desejo. estou criando meu espaço-tempo, ou os meus espaços-tempos nas relações todas que tive e tenho. fiquei com a impressão de que encontrar a Agência de Redes pra Juventude e o Faustini (que, em nossa conversa, descobri que havia participado do Inter, o projeto mais amoroso que já fiz na vida), nomeou algumas coisas que estavam sem nome pra mim. de toda forma, falarei com ele sobre isso. e estudarei essas produções de inventários, cartografias e abecedários. amanhã, uma terça, passarei o dia na Agência, porque sei que alguma coisa ali tem algo muito forte pra me dizer. tenho me interessado muito em conhecer as formas de viver que as pessoas têm encontrado nas cidades. especialmente, aquelas que disputam espaços com as hegemonias em favor da autonomia. isso talvez seja minha pesquisa de doutorado. é na ação cultural que as pessoas mais tem encontrado as formas de produção de autonomia? pode ser. 
(pausa: nesse momento em que escrevo uma banda começa a tocar na escola do lado da minha casa. uma bateria forte, uma voz feminina cantando “agora só falta você”. afinada a menina, bom batera, guitarra consistente. a música acaba e começa uma versão rock and roll de “preciso me encontrar”, do Cartola. isso é cultura.)
mas o grande deslocamento desse dia se chama Slavoj Zizek. nunca havia parado para ler um livro de Zizek, somente artigos. mas hoje era meu primeiro dia de férias da UFRJ. eu estava no centro do Rio tentando resolver umas coisas da trevo criativo, a empresa da qual sou sócia consultora e mais o nome bonito de “articuladora de redes”. não consegui resolver o que deveria, não por mim, mas pela desorganização alheia. resolvi entrar na livraria porque ainda tinha a esperança de ir pro samba. fui pra Travessa, pedi um café, uma água com gás e abri o computador. escrevi. uma mini autobiografia para o meu blog (estou verborragicamente egocêntrica), porque vou transformar o blog em um espaço para quase tudo que eu crio. então lá haverá um “quem sou eu”. pois bem, cansada de escrever, eu desci e fui ver o que as estantes me trariam, já segurando a mão pra não pegar na carteira e comprar mais um monte de livro que vai ficar esperando o dia de ser lido. Zizek me chamou por um título: “órgãos sem corpo”; em uma alusão clara ao corpo sem órgãos de Deleuze. eu, que desde que conheci Deleuze, andei de mãos dadas com ele, fui lançada no vazio. Deleuze como o filósofo do yuppie… Ok, nada tão estranho. Mas ao ler um dos capítulos de “em defesa das causas perdidas” era como se Zizek me olhasse e falasse: “tolinha. você fica acreditando no trabalho em rede achando que isso é uma revolução, e é só mais uma  forma de atualização do capitalismo”. tá, tudo bem. até já pensei sobre isso. bastante. mas a forma como ele faz uma crítica à ideia de multidão de Negri, que também muito tem de Deleuze e, por sua vez, de Spinoza, da inteligência geral como o auge do capitalismo, em que este mesmo se extingue, numa perspectiva marxista totalmente tradicional, mas atualizada na revolução do digital, desloca totalmente o ser humano apaixonado. porque me apaixonei por Deleuze. a tal ponto de usar o Mil Platôs (sua fantástica cooperação com Guattari) nas aulas de política cultural, em que sentava à vontade na mesa da sala, abria o livro e jogava para os alunos: e aí, o que tem as máquinas desejantes a ver com a política de cultura?
resisti o quanto pude a comprar o livro. vamos ver o quanto aguento. mas desde que terminei o mestrado eu prometi pra mim mesma que deixaria um pouco a leitura filosófica de lado para me dedicar mais ao corpo, à poesia e a práticas diversas, para diversificar o meu olhar e minha perspectiva e retornar à filosofia depois dessas novas imersões. tenho conseguido. mas Zizek não me sai da cabeça. porque falou diretamente comigo, não só por me provocar, porque essa crítica a Negri eu mesma já fiz. até mesmo ver Deleuze como alguém que fala direto ao jovem empreendedor não é de todo estranho. e de alguma forma, eu sou uma figura que passeia entre o empreendedor e o artista. uma figura-nada. mas a forma como faz Zizek é que me pegou. a forma consistente numa escrita avassaladora. porque tenho essa relação com a escrita, que passa pela estética. a plasticidade, a sonoridade, a construção, elas me encantam. antes de pegar o livro de Zizek estava folheando um livro do Pierre Levy, já conhecido, tentando reencontrar nele o que me fez ter como primeira ideia de monografia e depois de mestrado falar sobre a Internet. mas eu ainda não sabia muito bem o que falaria naquela época, não havia subsídios que me ajudassem naquele ano de 2003. e optei por falar da cultura, querendo vê-la pela ótica da teoria da ecologia profunda e das redes cibernéticas. um trabalho de filosofia. e assim a cultura me persegue desde então. no mestrado lá estava eu, na busca de entender o sentido contemporâneo de cultura, levada por uma metodologia foucaultiana, outra das minhas paixões. essa cantora careca. nunca vi um sadomasoquista escrever tanto… mas também nunca conheci um. não que eu saiba. e aí veio o Zizek com sua cara de garoto problema. preciso lê-lo. se vai ser agora não sei. mas sei que preciso.
me pergunta se isso é cultura!? não sei. e se eu tivesse ido ao samba da pedra do sal chegaria a tal verborragia? talvez essa verborragia seja cultura, e o samba seja natureza pura, porque é ritmo, sensação, batucada, paixão, crônica da rua. espontâneo. mas essa separação cultura e natureza é um dos grandes problemas do mundo. então é melhor parar por aqui, ou farei uma tese. isso é cultura.
sei que, chegando em Niterói, dois casais, por algum motivo, me chamaram a atenção. eu estava com a cabeça cheia. fechei o livro do Faustini e segui andando pensando no filho da puta do Zizek e em como tudo isso havia me dado uma vontade absurda de escrever sobre cultura, mas eu nem sabia por onde começar e a única coisa que me vinha a mente era fazer um texto sobre tudo isso, por que não. comecei a desenhar o texto na cabeça. sem forçar a barra. o texto se esboça sozinho. ao mesmo tempo um diagrama da trevo começou a aparecer na minha cabeça. desenhei na mente esse diagrama pra desenhá-lo no papel, porque agora sei o que a trevo pode ser em potência. mas isso é assunto pra outro momento. no meio de tudo isso, eu aflita na minha sede insaciável da escrita, vivo a seguinte cena. uma garota corre em direção a um garoto que a esperava na saída da barca. os dois se abraçam como se quisessem se fundir um no outro. e choram. aquilo me arrebata de uma tal maneira que paro e fico olhando a beleza daquela cena. eu que estava tão submersa em pensamentos, sou arrastada por isso. paro alguns instantes e meu coração aperta, como se se sentisse sufocado de tanta cultura e quisesse também um abraço dessa intensidade, e só um abraço assim fosse capaz de me aliviar o peso que às vezes querer tanto causa nessa vida. e eu sei, eu queria sim um abraço como aquele. por isso saí com um sorriso no rosto, feliz por eles. aquele abraço já não devia estar aguentando pra ser dado. ufa, me aliviei por eles. quando atravesso a rua um outro casal. sem que eu me desse conta, de repente estava na frente de um jovem casal brigando. o garoto rasgava um papel com fúria. uma carta, um poema? vai saber. aquilo também foi pra mim um gesto que me aliviou. porque às vezes tudo o que a gente quer é rasgar com toda a nossa vontade o que já não faz mais sentido. e eu continuei andando a pensar o que não faz mais sentido na minha vida. e percebi o quanto, nessa hora, difícil é discernir desejo, de intuição, de cultura, de autonomia. mas é preciso fazer esse exercício. e, assim, ia construindo o texto, andando rápido pra chegar logo em casa. nessa febre de andar rápido, passa ao meu lado um garoto num skate. usava blusa verde, all star vermelho e tinha cabelos negros quase até a cintura. me chamou atenção de cara. foi engraçado porque lembrei do Shiryu, meu cavaleiro do zodíaco preferido. a associação foi imediata. Cavaleiros do Zodíaco marcou minha adolescência (tenho todos os episódios no meu computador, e ainda salvos no HD externo), e lembro que imaginava que se o Shiryu fosse de verdade ele seria muito gostoso. pois aconteceu do menino dar uma tropeçada no skate e o seu skate cair na minha frente. e ele veio pegar e me olhou com profundos olhos negros que me fizeram tremer na base. como era bonito a criatura! mas ele só olhou, pegou o skate, não disse nada e foi embora. tanta coisa me distraiu num trajeto que não durou nem 10 minutos, mas elas na verdade alimentaram o meu texto e minha reflexão sobre cultura. assim, pensando nos casais, nos meus inventários, no garoto do skate, no Zizek, no Deleuze e nos desejos todos desse momento da minha vida me pergunto: mas porque um dia da cultura? o que isso quer dizer? porque eu, como produtora cultural, pensadora que faço questão de ser, poeta, professora, palestrante (pode?) não consigo simplesmente escrever nada nesse dia sobre identidade, política, economia, do in antropológico, lei Rouanet e nem mesmo sobre contracultura e aquela alegria toda hippie? nem sobre o meu trabalho?
então eu acho que estou chegando àquele estágio tal de imersão numa questão que tudo parece ser uma coisa só. tântrico isso (talvez porque eu esteja estudando o tantra na sua radicalidade imanente?). e quando começo a pensar sobre cultura não consigo esquecer a natureza. lembro que estou devendo minha dissertação pra um mundo de gente que prometi enviar, e que preciso fazer isso. lá eu falo de cultura até dizer chega, e da natureza. cultura talvez seja a palavra mais presente na minha vida. porque briguei com ela durante muito tempo. a cultura nos afasta (pense só…). mas aí eu entendi que nós, cada um de nós, é que fazemos a cultura, e que ela pode ser o que quisermos. 
a segunda palavra mais presente na minha vida deve ser paixão. dizer que a cultura pode ser o que a gente quiser é uma fala apaixonada! e pra mim, paixão é natureza. eu escrevo, e isso é cultura. mas escrevo porque estou apaixonada por uma ideia, um texto, uma vontade de expor tudo isso. isso é natureza. natureza é aquilo que é espontâneo? se for assim, eu tenho sido mais natureza que cultura. a tal ponto de me contradizer o tempo inteiro, de escrever poemas chamados de últimos mas que não são nem os primeiros. ao ponto de viver o conflito “expor ou não expor”, eis a questão. mas sei que meu combustível tem sido a paixão porque estou despudorada. perdi o medo de me expor. posso não me expor por outros motivos mais nobres mas, por medo, de forma alguma. quando fiz uma consulta ayurvédica há um tempo atrás a terapeuta descobriu meus doshas (constituições de todo o universo) dominantes: pitta-vata, com desequilíbrio de vata. isso quer dizer o seguinte, em linhas bem gerais e de forma bastante ordinária. pitta é regido pelo fogo. quem tem predomínio do dosha pitta é movido pela paixão. vata é regido pelo ar. quem tem predomínio do dosha vata gosta de diversidade, pensa muito e quer tudo muito. se está desequilibrado, o que é o meu caso, a pessoa sofre com insônia, dispersão e fica literalmente voando por aí. que combinação, pensei, quando ela me falou. e me passou uma dieta que acalma meu vata e regula meu pitta. mas acho que estou é estimulando pitta sem acalmar vata. há tempos que não me lembro de estar tão apaixonada. tanto que preciso ter o cuidado de não me sabotar em nome daquilo que me arrasta. não falo apenas de estar apaixonada por alguém. falo da paixão de estar vivo, de se descobrir potente, de mudar tudo sem o menor medo do que estar por vir. de fazer revoluções a cada minuto. faz uns quatro meses que minha vida deu uma guinada. foi como se de repente tudo, absolutamente tudo, precisasse ser revisto. e foi doloroso. mas foi necessário. ainda sinto os efeitos. foi como uma tsunami. os estragos estão por toda parte. mas as casas começam a se reerguer. nunca escrevi tanto. escrevi em quatro meses mais do que escrevi no ano passado inteiro. ou não teria conseguido lidar com tanta mudança que eu mesma provoquei, até certo ponto, o que torna tudo mais difícil. mas era preciso. era preciso para que eu não sabotasse o meu desejo. e o desejo só apontava pra um lado: mudança, porque a mudança era o desejo. minha bússola é como aquela do Jack Sparrow, aponta pro desejo. onde fica o norte e onde fica o sul não importa. eles se reconfiguram o tempo inteiro. fico procurando uma imagem que possa sintetizar esse momento de tanta migração. ainda não achei. o mais perto que cheguei, tatuei no meu corpo no mês de agosto. uma gaiola aberta com um pássaro voando. para onde ele está indo não faço ideia. só sei que ele precisa ir. cultura? natureza? só voando longe pra saber…
e foi movida por paixão que eu havia resolvido fazer uma viagem nessas breves férias. pensei nela o dia todo também. porque amanhã, se isso tivesse vingado, eu estaria embarcando pra Patagônia ou pra Bolívia. passei noites pesquisando os lugares, preços de passagem, esperando encontrar passagens mais baratas, vendo albergues, pensando na roupa de frio, e em como o gelo ou os desertos me colocariam num contato profundo comigo mesma. mas, de repente, uma surpresa. mudança de casa. e foi preciso aceitá-la. e se tornou quase insuportável a ideia de viajar sabendo que eu chegaria e voltaria pra minha casa solitária em Niterói, como uma pendência mal resolvida. era como viajar pra esquecer um problema e voltar e encontrar tudo de novo. faltava ainda essa mudança, entendi. porque a casa como existe hoje, nessa cidade, já não faz mais sentido. venho pra casa já em tom de despedida. chego em Niterói já na ânsia dos dias em que a barca será substituída pelo metrô. confesso que isso me angustia um pouco. perderei o mais belo de morar em Niterói, a travessia quase diária pelo mar, para passar por um buraco onde as pessoas desfilam suas caras de cansaço. mas tudo bem, buscarei a poesia do subterrâneo. questão de sobrevivência, questão de vida. Niterói se tornou um marasmo. mas, mais que isso, eu já não me sinto mais parte de Niterói. isso já faz um tempo, e já há algum tempo venho esboçando a mudança para o Rio. mas eu precisava de uma chacoalhada pra isso. e ela aconteceu. vamos eu e dois amigos. três pessoas sedentas por mais movimento. vamos fazer saraus. vamos viver no caos. porque é isso que agora queremos. e se tornou também necessário economizar, aprender a viver com menos. eu que deixarei um emprego no próximo mês… para ter mais tempo pro prioritário, para ser mais leve, para ter mais arte e para viajar mais. e organizar uma pequena volta ao mundo. ir à Índia, finalmente, depois de tantos anos praticando yoga, estudando aquela loucura de país que me atrai e provavelmente vai me deslocar de forma assustadora. tudo isso é cultura? sim, acho que tudo isso é cultura. esse deslocamento sem dúvida será um choque cultural. e falar de mim é falar da cultura. cada um que fala de si fala tanto da cultura quanto da natureza. sendo assim, acho que falei da cultura nesse dia da cultura. eu que tenho lido os poemas eróticos e de amor de Hilda Hilst e escrito também alguns pra mim, e fico pensando em como Foucault foi feliz ao escrever a história da sexualidade como uma história da própria construção do ser humano como sujeito. porque o sexo nos desafia, ao estar na fronteira da cultura e da natureza.
e agora chove lá fora. e isso não é cultura. muito embora meu pai tenha me dito que hoje existem tecnologias de manipulação localizada do clima. medo disso… medo é cultura e natureza. eu sinto uma melancolia gostosa das noites de chuva. bom, isso é cultura? na verdade, eu percebo, que se é cultura ou natureza não interessa, gosto mesmo é de estar nas fronteiras. prefiro a exclamação do tudo pode ser! porque, em suma, tudo pode ser o que quisermos, do jeito que quisermos. basta termos isso no horizonte e disputaremos pelo nosso espaço-tempo. isso é cultura. isso é natureza. isso é ser humano. isso é beleza. 

em Niterói, 05 de novembro de 2012, finalizado às 23h05

o último poema

é chegada a hora do silêncio

uma hora de faxina

muitas caixas
serão necessárias
alguns buracos
algumas estradas
para novas esquinas

é chegada a hora do espia
pra que um dia
o peixe certo venha à rede

é chegada a hora
de pôr em questão
toda melancolia

de esquecer o passado
tanto quanto o futuro
porque é hora
de concentração

pouca noite
muito dia

é chegada a hora

de deixar cair os pesos
de quebrar os totens
já que é tudo pedra mesmo

é tempo de clausura dos desejos
um tempo de meditação
e calma, espinha ereta
para saber o que fica
e o que parte
nessa vida

uma nova casa me espera
uma nova vida já começa
um novo sentido pra existência
precisa ganhar corpo
ainda mais

porque ainda é cartilagem

o que expor
na hora certa
e a hora de calar-se

sabê-los é liberdade

2 por 4

à doce melancolia do samba
meu coração, que é bamba, não resiste
e canta, como se amanhã
o mundo não mais existisse
canta aquele rio que passou em minha vida
e levou meu coração
que assobia
rio denso, águas turvas
o samba, nesse corpo enluarado,
me alivia

Poesia de outubro

o mar é minha calma
nos dias frios
tão mais meu
no maremoto interno
silábico, de mim

e me ensina
a ser
silêncio

queria saber
como não precisar das palavras
eu que me lambuzo nelas
até engasgar

pois depois de um tempo resistindo a ele,
o silêncio,
ao reencontro com o que desejo
de mais intenso,
a estar só

depois de algum tempo resistindo
a um choro que nunca veio…
eu chorei esse choro

chorei
porque não era possível não chorar
chorei como se chorasse pontos de exclamação

porque sou também aquele humano
demasiado humano
para além das ficções que criei

e minhas personagens me pareceram frágeis
quais ainda me servem? devo perguntar

um mito é em parte verdade
em parte uma grande miragem
e tudo o que eu mais queria agora
eu não diria à ninguém nessa hora

simplesmente porque um dia
ficará escancarado
nas estradas quentes da vida,
que só existe porque pulsa
(e até no gelo, é energia pura)
se assim ficar em mim
e se os pré-conceitos todos
alheios
não vierem impedir
que o muro, esse esteio,
seja derrubado

mas hoje eu quero apenas o silêncio
tão somente porque
amanhã
ele dará lugar ao maior ruído
que já fui capaz de produzir

então, me calo
e me acalmo com massagem
no olho da intuição

me espetam agulhas
e respiro mais lentamente
em busca do equilíbrio ausente

e na consulta do oráculo,
I Ching que me abre a mente,
descubro que, para mim,
está reservada a maior das alegrias

me calo
porque o som haverá de vir
e depois do ruído intermitente
se transformará
saindo da casca monofônica
em bela música polissêmica
para ser flor exuberante
que cresce
justamente
onde não pediram pra crescer

tanto nessa vida nos separa

tanto que nem sabemos de onde vem

meios de transporte inexistentes
redes descompensadas
conexões com interferências
línguas com lógicas diferentes

histórias
medos, dogmas
rigidez

tanto nessa vida nos separa
que ao haver o encontro
ela, a vida, deve ser celebrada
e quando ele vem
o cosmos se reorganiza
e faz música para ser dançada

pois não há nada que justifique mais a vida
que o momento em que se reúne os amigos
e todas aquelas pessoas queridas

em que um beijo desejado acontece
em que um abraço conforta
e uma voz amiga é ouvida

em que o mar se anuncia belo
para mergulharmos fundo
e o sol é visto da janela
naquele dia de sair
da casa para o mundo

em que uma chuva fina
embala o sono das crianças
e a penumbra no quarto dos apaixonados
à procura de uma rima

toda casa deveria ter uma mesa redonda
e uma cozinha cheia de gente
de onde sai aquele cheiro de bolo
e onde bebemos uma cerveja gelada

todos deveriam ter também aquele momento
em que se põe uma mochila nas costas
e se vagueia por aí
momento de se deslocar
a encontrar encontros novos

o desencontro lhe parece um padrão
num mundo de desventuras sofridas?

mas já dizia o poeta
a vida é a arte do encontro!
embora haja muitos desencontros pela vida…

pois o encontro
quando se dá
desloca a linha confortável
do que até então
era a nossa verdade iludida

e põe no chão a verdade
para dar lugar à intensidade

da qual não escapamos
queiramos ou não

a vida é a arte do encontro
embora tanto nos separe
nessa vida

bebo, em plena segunda-feira,
a música está alta
como eu
sou espaço
imensidão
e nada vai tirar de mim
essa amplidão
eu sou o próprio movimento da vida
a poesia escarrada
na cara do medo
pode vir
eu só tenho cores pra você
pode chegar perto
é isso mesmo que eu quero
eu estou aqui
feliz
curtindo tudo que é tão novo
que me faz
imperatriz
uma carta de tarô
da liberdade
eu escorro pelo céu
eu sou papel que se desfaz
quando encosta na pele
pois derrete
eu sou imã
atraio o improvável
eu sou tesão
de ser
eu mesma
fogo
e todo elemento que se queira
arde tudo ao meu redor
no rádio a canção é só minha
pra que eu multiplique
minha paixão
louca
e alucinada
pelo mundo todo

eu sou o próprio sol que brilha

talvez tenha eu, perdido,
os últimos delírios que escrevi pra ti

num pen drive quebrado
ficaram lá guardados
aqueles poemas que nunca serão lidos
muito menos reescritos
porque não existe, nessa vida,
a possibilidade da reescrita

tudo é sempre novidade
até mesmo quando a gente
reescreve
achando, em nossa ignorância
diante do universo,
que as coisas se repetem

o retorno existe
mas não sou Nietzsche
e acredito:
o retorno existe
pra mudar todo ponto de vista
e, assim, insiste

26 de outubro
saio em festa
não tenho mais dinheiro
o mês acabou
mesmo assim 
saio em festa
não vou mais viajar
vou me mudar
porque tudo já mudou
colocar no eixo algumas fitas
outras alegrias, deixar descarrilar
sou nesse fim de mês
uma mulher sem nenhum dinheiro
com o coração fisgado
por um aventureiro
o corpo enlouquecendo 
pra tudo que é lado
com negociações pra fazer
projetos para resolver
empréstimo pra pagar
coisas para encaixotar
yoga pra desenvolver
música para retomar
viagem pra organizar
alunos pra dar nota
fim de ano batendo à porta
muito acontece nesse corpo
que dança doido por aí
um samba, um rock, um xaxado
a procura de um açaí
que dê energia pra seguir
mas que importa a multitude
se é justamente nela que me encontro!
é por isso que hoje
quero gritar
que sou, como o louco,
a mais feliz das criaturas
pois a felicidade
descobri ser o clichê, verdade
ela está dentro
ela está em aceitar
o que a vida, sem escolha,
põe no seu caminho para ser seu
seja isso doce, vinho
ou o amargo de um domingo sozinho
ela é a lua em Santa Teresa
vista na descida da ladeira
e a incontrolável força do acaso 
do que tiver que ser
é fim de outubro 
e estou feliz
não sei o que será disso
mas o que for, terá sido 
infinitamente
maravilhoso
ter
vivido

Um fim de semana de um mês já passado

estou trocando a pele nesta noite de domingo.
aguardo, com as unhas cor de vinho,
que meu coração suspenda a ansiedade.
aceito o triunfo da fortuna.
é preciso deixar o universo agir.
foi-se a sexta e sua euforia.
foi-se a sexta de um embate.
interminável reunião.
foi-se a sexta da obrigação.
a sexta que da calmaria passou longe
e me deixou ansiosa de vontade…
foi-se o sábado.
de mais um ano do homem que me deu à luz.
este que me ensinou a lutar,
ainda que sobre isso as palavras nunca venham entre nós.
foi-se o sábado da prosa boa com a avó.
e eu que tanto busquei por uma história pra um romance,
tenho-a agora em minhas mãos.
uma família e cem anos de solidão.
histórias e pessoas que só então eu soube que existiram.
homens e mulheres que viveram noutra época.
alguns que morreram de amor.
foi-se o sábado de reencontros daquela família.
o sábado longo, de sol e de lua.
o sábado da volta tua.
e de uma noite em que era preciso distrair-se.
foi-se o sábado do baile
e do bonito menino de óculos grandes, aniversariante.
foi-se um sábado charmoso em que nossos pés,
embora cansados, agradeceram a alegria.
e, também, o abrigo da amiga.
e já está indo o domingo.
eu, de unhas cor de vinho e escrevendo com fome, quase desisto.
mas a desistência é só um charme.
porque sei que desistir não é meu forte.
e vai o domingo de um telefonema.
o domingo de uma angústia que quer descansar
e um corpo que busca por novos dias de glória.
vai-se o domingo de quem chegou naquela praça
e percebeu que ali existe uma memória, doce.
e dali foi um mundo até o destino,
e a vontade era fazer uma loucura.
músicas no aleatório.
e que aleatório viciado!
arte pra esquecer o cansaço.
Elis no coração.
choro reprimido vindo como rio.
cansaço. desejo de brisa. calmaria.
eu seria qual dos corpos pendurados?
foi-se o domingo onde, na embarcação,
aleatoriamente sentei do outro lado.
e foi o esplendor do sol a tardinha,
quatro cores no céu, mar brilhando de paixão.
um veleiro foi passar justamente àquela hora…
como se o mundo soubesse o que me alivia.
sem horizonte, o que me faria acordar?
é o horizonte que permeia minha arte.
é ele que atiça minha vontade.
permaneço com os olhos voltados para ele.
sem ele, eu talvez desistiria.
porque meu corpo quer tudo,
absolutamente tudo que ele pode ser.
e agora percebo.
que podemos, todos, ser uma só canção de amor.
e como virá o sono depois de tudo isso?
esse que tanto se prejudica com a fome de viver?
de um corpo que tanto quer e não há meditação possível
que o tire a vontade de ser uma explosão…
ele virá. terá que vir. terá que ser.

ele virá.

Vanessa

venha vida!
venha com tudo!
mantenha-se no ritmo que está
e continue me trazendo
essas coisas todas
que havia reservado
para que só chegassem agora

passaram-se os anos

foram intensos
foram necessários
foram dolorosos

e então,
eis que é festa o meu coração

ainda tateando…
mas pulsa mais leve
anda de saia
que balança com o vento
se ele sofre?
mas é claro!
porém, hoje, ele ri
hoje, ele respira

então pode vir
que a porta está escancarada
e o que eu era já não mais reconheço
sou agora mais o que eu quero
cheguei em vários pontos
de outros estou perto

sou um desejo incontrolável de viver
porque hoje sei
que tenho a força necessária
para só ser

a borboleta
saiu do casulo
agora voa
e mais nada
sua missão
já estava cravada no nome
desde antes de nascer

essa, cujo nome
foi criado num poema de amor
e, vejam só,
por um escritor

mensagem na garrafa

o que pode,
um encontro de oceanos,
ser capaz de produzir?

nado num mar desconhecido

eu, atlântica
você, pacífico

como escrevi um dia
tomada por uma febre,
também ela, oceânica

pergunto
se será tsunami
sudoeste
ou calmaria

estarão os barcos
à deriva?

cada um de nós
imensidão
tanto ainda desconhecido
lá nas profundezas escuras

cada um de nós
amplidão

mas para alívio do corpo marítimo
o tempo do oceano é longo
e nos recorda que as marés
se renovam no dançar da lua

num piscar de olhos do planeta
de repente, tudo muda

o garoto do 415

reparei em você
calado
em pé num 415 lotado

era bonito
tinha rosto de menino
embora cansado

parecia não ser mais
tão menino assim

eu te olhava
você me viu
acho que gostava
da música que eu ouvia
quando sorriu
lendo meus lábios
ao me ver cantarolar

minhas tatuagens
chamavam seu olhar
e eu cantava despretensiosa
espiava da janela, a noite

eu poderia ter falado com você
e até agora
passado algumas horas
não sei porque não o fiz

nem você, me pergunto

eu não precisaria saber seu nome
você era lindo
você tinha barba
cabelo claro despenteado
e usava óculos

quanta imaginação
se passou dentro de mim, garoto
naquele trajeto longo

quem sabe não era você
quem viria me aliviar
a angústia de uma paixão doida
que me toma o dia

como se eu quisesse deixá-la…
essa paixão que tanto tem a minha estima
porque é pura vontade de viver

mas às vezes
a saudade é física
mesmo que tenham se passado
tão poucos dias

e como manter viva a alegria
sem deixar que tome o gozo
uma melancolia cinza
de querer o outro
na forma concreta do corpo?

quem sabe o seu mundo
não seria capaz de me arrancar do céu

você nem precisaria
dizer seu nome
nome é o que menos importa
nem quereria saber a sua idade
eu queria apenas o seu mundo
suas vaidades

mas não falei com você

desci antes
você seguiu em frente
quem sabe um dia a gente se esbarra
no ônibus ou na rua

eu não sabia de onde você vinha
nem pra onde ia

quem sabe não serei sua vizinha

quem sabe não era você
uma alegria furtiva
de um fim de dia
onde, por alguns instantes,
eu esqueceria
o que nem sei se é preciso esquecer
mas quem vai saber…

into the wild

such is the way of the world
such is the passage of time
too fast to fold

é por isso que minha poesia
fala somente ao que me toca
porque aquilo que me toca
faz a vida cumprir seu desígnio
de ser grande
simplesmente porque é
o que não se pode negar
aquilo para o qual
não é possível fechar os olhos

selvagem

assim, quando falo de mim
falo do mundo
não do ego

sou uma mulher que corre com os lobos
que vê a vida como um grande livro
e não se contenta em ler apenas
as primeiras páginas
que tem medo
mas deu a mão à coragem
que vai
porque ficar é morrer devagar

que se lança ao mar,
à montanha, ao amor,
ao novo e sua violência

porque amor é liberdade

e perto da natureza selvagem
é onde me sinto melhor
onde tem suor
corpo, terra,
água, vento,
música
silêncio

com tudo isso
faço da minha poesia
o maravilhoso do dia a dia
porque faço do dia a dia
o maravilhoso

quis ser cineasta
porque penso em imagens
descobri que faço imagens
melhor com as palavras

é com elas que conto do meu mundo
é por elas que passa o meu desejo
e minha palavra nada tem de estéril
ela é fértil
nada hermética
ela é festa com meu corpo
e meu corpo é festa

se escrevo
e publico
hoje posso ter uma certeza
a de que o medo
não merece minha atenção

o que sinto sou eu
e o que sinto não é mais que vida

agora, por exemplo,
chove
torrencialmente
quase não tenho luz
quase não escuto minha voz
meus dias foram intensos
e a chuva chega em boa hora
vem brindar a novidade que hoje sou

have no fear
for when I’m alone
I’ll be better off than I was before