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o último poema
é chegada a hora do silêncio
uma hora de faxina
muitas caixas
serão necessárias
alguns buracos
algumas estradas
para novas esquinas
é chegada a hora do espia
pra que um dia
o peixe certo venha à rede
é chegada a hora
de pôr em questão
toda melancolia
de esquecer o passado
tanto quanto o futuro
porque é hora
de concentração
pouca noite
muito dia
é chegada a hora
de deixar cair os pesos
de quebrar os totens
já que é tudo pedra mesmo
é tempo de clausura dos desejos
um tempo de meditação
e calma, espinha ereta
para saber o que fica
e o que parte
nessa vida
uma nova casa me espera
uma nova vida já começa
um novo sentido pra existência
precisa ganhar corpo
ainda mais
porque ainda é cartilagem
o que expor
na hora certa
e a hora de calar-se
sabê-los é liberdade
revelação
2 por 4
Poesia de outubro
o mar é minha calma
nos dias frios
tão mais meu
no maremoto interno
silábico, de mim
e me ensina
a ser
silêncio
queria saber
como não precisar das palavras
eu que me lambuzo nelas
até engasgar
pois depois de um tempo resistindo a ele,
o silêncio,
ao reencontro com o que desejo
de mais intenso,
a estar só
depois de algum tempo resistindo
a um choro que nunca veio…
eu chorei esse choro
chorei
porque não era possível não chorar
chorei como se chorasse pontos de exclamação
porque sou também aquele humano
demasiado humano
para além das ficções que criei
e minhas personagens me pareceram frágeis
quais ainda me servem? devo perguntar
um mito é em parte verdade
em parte uma grande miragem
e tudo o que eu mais queria agora
eu não diria à ninguém nessa hora
simplesmente porque um dia
ficará escancarado
nas estradas quentes da vida,
que só existe porque pulsa
(e até no gelo, é energia pura)
se assim ficar em mim
e se os pré-conceitos todos
alheios
não vierem impedir
que o muro, esse esteio,
seja derrubado
mas hoje eu quero apenas o silêncio
tão somente porque
amanhã
ele dará lugar ao maior ruído
que já fui capaz de produzir
então, me calo
e me acalmo com massagem
no olho da intuição
me espetam agulhas
e respiro mais lentamente
em busca do equilíbrio ausente
e na consulta do oráculo,
I Ching que me abre a mente,
descubro que, para mim,
está reservada a maior das alegrias
me calo
porque o som haverá de vir
e depois do ruído intermitente
se transformará
saindo da casca monofônica
em bela música polissêmica
para ser flor exuberante
que cresce
justamente
onde não pediram pra crescer
—
tanto nessa vida nos separa
tanto que nem sabemos de onde vem
meios de transporte inexistentes
redes descompensadas
conexões com interferências
línguas com lógicas diferentes
histórias
medos, dogmas
rigidez
tanto nessa vida nos separa
que ao haver o encontro
ela, a vida, deve ser celebrada
e quando ele vem
o cosmos se reorganiza
e faz música para ser dançada
pois não há nada que justifique mais a vida
que o momento em que se reúne os amigos
e todas aquelas pessoas queridas
em que um beijo desejado acontece
em que um abraço conforta
e uma voz amiga é ouvida
em que o mar se anuncia belo
para mergulharmos fundo
e o sol é visto da janela
naquele dia de sair
da casa para o mundo
em que uma chuva fina
embala o sono das crianças
e a penumbra no quarto dos apaixonados
à procura de uma rima
toda casa deveria ter uma mesa redonda
e uma cozinha cheia de gente
de onde sai aquele cheiro de bolo
e onde bebemos uma cerveja gelada
todos deveriam ter também aquele momento
em que se põe uma mochila nas costas
e se vagueia por aí
momento de se deslocar
a encontrar encontros novos
o desencontro lhe parece um padrão
num mundo de desventuras sofridas?
mas já dizia o poeta
a vida é a arte do encontro!
embora haja muitos desencontros pela vida…
pois o encontro
quando se dá
desloca a linha confortável
do que até então
era a nossa verdade iludida
e põe no chão a verdade
para dar lugar à intensidade
da qual não escapamos
queiramos ou não
a vida é a arte do encontro
embora tanto nos separe
nessa vida
—
bebo, em plena segunda-feira,
a música está alta
como eu
sou espaço
imensidão
e nada vai tirar de mim
essa amplidão
eu sou o próprio movimento da vida
a poesia escarrada
na cara do medo
pode vir
eu só tenho cores pra você
pode chegar perto
é isso mesmo que eu quero
eu estou aqui
feliz
curtindo tudo que é tão novo
que me faz
imperatriz
uma carta de tarô
da liberdade
eu escorro pelo céu
eu sou papel que se desfaz
quando encosta na pele
pois derrete
eu sou imã
atraio o improvável
eu sou tesão
de ser
eu mesma
fogo
e todo elemento que se queira
arde tudo ao meu redor
no rádio a canção é só minha
pra que eu multiplique
minha paixão
louca
e alucinada
pelo mundo todo
eu sou o próprio sol que brilha
—
talvez tenha eu, perdido,
os últimos delírios que escrevi pra ti
num pen drive quebrado
ficaram lá guardados
aqueles poemas que nunca serão lidos
muito menos reescritos
porque não existe, nessa vida,
a possibilidade da reescrita
tudo é sempre novidade
até mesmo quando a gente
reescreve
achando, em nossa ignorância
diante do universo,
que as coisas se repetem
o retorno existe
mas não sou Nietzsche
e acredito:
o retorno existe
pra mudar todo ponto de vista
e, assim, insiste
Um fim de semana de um mês já passado
estou trocando a pele nesta noite de domingo.
aguardo, com as unhas cor de vinho,
que meu coração suspenda a ansiedade.
aceito o triunfo da fortuna.
é preciso deixar o universo agir.
foi-se a sexta e sua euforia.
foi-se a sexta de um embate.
interminável reunião.
foi-se a sexta da obrigação.
a sexta que da calmaria passou longe
e me deixou ansiosa de vontade…
foi-se o sábado.
de mais um ano do homem que me deu à luz.
este que me ensinou a lutar,
ainda que sobre isso as palavras nunca venham entre nós.
foi-se o sábado da prosa boa com a avó.
e eu que tanto busquei por uma história pra um romance,
tenho-a agora em minhas mãos.
uma família e cem anos de solidão.
histórias e pessoas que só então eu soube que existiram.
homens e mulheres que viveram noutra época.
alguns que morreram de amor.
foi-se o sábado de reencontros daquela família.
o sábado longo, de sol e de lua.
o sábado da volta tua.
e de uma noite em que era preciso distrair-se.
foi-se o sábado do baile
e do bonito menino de óculos grandes, aniversariante.
foi-se um sábado charmoso em que nossos pés,
embora cansados, agradeceram a alegria.
e, também, o abrigo da amiga.
e já está indo o domingo.
eu, de unhas cor de vinho e escrevendo com fome, quase desisto.
mas a desistência é só um charme.
porque sei que desistir não é meu forte.
e vai o domingo de um telefonema.
o domingo de uma angústia que quer descansar
e um corpo que busca por novos dias de glória.
vai-se o domingo de quem chegou naquela praça
e percebeu que ali existe uma memória, doce.
e dali foi um mundo até o destino,
e a vontade era fazer uma loucura.
músicas no aleatório.
e que aleatório viciado!
arte pra esquecer o cansaço.
Elis no coração.
choro reprimido vindo como rio.
cansaço. desejo de brisa. calmaria.
eu seria qual dos corpos pendurados?
foi-se o domingo onde, na embarcação,
aleatoriamente sentei do outro lado.
e foi o esplendor do sol a tardinha,
quatro cores no céu, mar brilhando de paixão.
um veleiro foi passar justamente àquela hora…
como se o mundo soubesse o que me alivia.
sem horizonte, o que me faria acordar?
é o horizonte que permeia minha arte.
é ele que atiça minha vontade.
permaneço com os olhos voltados para ele.
sem ele, eu talvez desistiria.
porque meu corpo quer tudo,
absolutamente tudo que ele pode ser.
e agora percebo.
que podemos, todos, ser uma só canção de amor.
e como virá o sono depois de tudo isso?
esse que tanto se prejudica com a fome de viver?
de um corpo que tanto quer e não há meditação possível
que o tire a vontade de ser uma explosão…
ele virá. terá que vir. terá que ser.
ele virá.
Vanessa
venha vida!
venha com tudo!
mantenha-se no ritmo que está
e continue me trazendo
essas coisas todas
que havia reservado
para que só chegassem agora
passaram-se os anos
foram intensos
foram necessários
foram dolorosos
e então,
eis que é festa o meu coração
ainda tateando…
mas pulsa mais leve
anda de saia
que balança com o vento
se ele sofre?
mas é claro!
porém, hoje, ele ri
hoje, ele respira
então pode vir
que a porta está escancarada
e o que eu era já não mais reconheço
sou agora mais o que eu quero
cheguei em vários pontos
de outros estou perto
sou um desejo incontrolável de viver
porque hoje sei
que tenho a força necessária
para só ser
a borboleta
saiu do casulo
agora voa
e mais nada
sua missão
já estava cravada no nome
desde antes de nascer
essa, cujo nome
foi criado num poema de amor
e, vejam só,
por um escritor
mensagem na garrafa
o que pode,
um encontro de oceanos,
ser capaz de produzir?
nado num mar desconhecido
eu, atlântica
você, pacífico
como escrevi um dia
tomada por uma febre,
também ela, oceânica
pergunto
se será tsunami
sudoeste
ou calmaria
estarão os barcos
à deriva?
cada um de nós
imensidão
tanto ainda desconhecido
lá nas profundezas escuras
cada um de nós
amplidão
mas para alívio do corpo marítimo
o tempo do oceano é longo
e nos recorda que as marés
se renovam no dançar da lua
num piscar de olhos do planeta
de repente, tudo muda
o garoto do 415
reparei em você
calado
em pé num 415 lotado
era bonito
tinha rosto de menino
embora cansado
parecia não ser mais
tão menino assim
eu te olhava
você me viu
acho que gostava
da música que eu ouvia
quando sorriu
lendo meus lábios
ao me ver cantarolar
minhas tatuagens
chamavam seu olhar
e eu cantava despretensiosa
espiava da janela, a noite
eu poderia ter falado com você
e até agora
passado algumas horas
não sei porque não o fiz
nem você, me pergunto
eu não precisaria saber seu nome
você era lindo
você tinha barba
cabelo claro despenteado
e usava óculos
quanta imaginação
se passou dentro de mim, garoto
naquele trajeto longo
quem sabe não era você
quem viria me aliviar
a angústia de uma paixão doida
que me toma o dia
como se eu quisesse deixá-la…
essa paixão que tanto tem a minha estima
porque é pura vontade de viver
mas às vezes
a saudade é física
mesmo que tenham se passado
tão poucos dias
e como manter viva a alegria
sem deixar que tome o gozo
uma melancolia cinza
de querer o outro
na forma concreta do corpo?
quem sabe o seu mundo
não seria capaz de me arrancar do céu
você nem precisaria
dizer seu nome
nome é o que menos importa
nem quereria saber a sua idade
eu queria apenas o seu mundo
suas vaidades
mas não falei com você
desci antes
você seguiu em frente
quem sabe um dia a gente se esbarra
no ônibus ou na rua
eu não sabia de onde você vinha
nem pra onde ia
quem sabe não serei sua vizinha
quem sabe não era você
uma alegria furtiva
de um fim de dia
onde, por alguns instantes,
eu esqueceria
o que nem sei se é preciso esquecer
mas quem vai saber…
into the wild
such is the way of the world
such is the passage of time
too fast to fold
é por isso que minha poesia
fala somente ao que me toca
porque aquilo que me toca
faz a vida cumprir seu desígnio
de ser grande
simplesmente porque é
o que não se pode negar
aquilo para o qual
não é possível fechar os olhos
selvagem
assim, quando falo de mim
falo do mundo
não do ego
sou uma mulher que corre com os lobos
que vê a vida como um grande livro
e não se contenta em ler apenas
as primeiras páginas
que tem medo
mas deu a mão à coragem
que vai
porque ficar é morrer devagar
que se lança ao mar,
à montanha, ao amor,
ao novo e sua violência
porque amor é liberdade
e perto da natureza selvagem
é onde me sinto melhor
onde tem suor
corpo, terra,
água, vento,
música
silêncio
com tudo isso
faço da minha poesia
o maravilhoso do dia a dia
porque faço do dia a dia
o maravilhoso
quis ser cineasta
porque penso em imagens
descobri que faço imagens
melhor com as palavras
é com elas que conto do meu mundo
é por elas que passa o meu desejo
e minha palavra nada tem de estéril
ela é fértil
nada hermética
ela é festa com meu corpo
e meu corpo é festa
se escrevo
e publico
hoje posso ter uma certeza
a de que o medo
não merece minha atenção
o que sinto sou eu
e o que sinto não é mais que vida
agora, por exemplo,
chove
torrencialmente
quase não tenho luz
quase não escuto minha voz
meus dias foram intensos
e a chuva chega em boa hora
vem brindar a novidade que hoje sou
have no fear
for when I’m alone
I’ll be better off than I was before
