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Mauá

tenho em mim uma cicatriz da Maromba
com que me presenteou o Escorrega
acima da flor de lótus residirá eterna como a tatuagem
a alegria de repente ganha forma no meu corpo
porque aquele lugar também é meu corpo
e meu corpo é a pedra e o rio Preto
meu sangue correu por ele, já deve ter chegado ao mar faz tempo
meu sangue e o mar são agora um
assim também meu corpo, toda Mauá, o rio, as pedras,
a mata, os entes, as estrelas
somos todos um único corpo
modos da substância tão bela quanto mais indiferente consigo concebê-la
e a flor residirá a expelir a cicatriz para sempre
enquanto meu corpo resistir a entrega final
e meu sangue estará lá, no rio, no mar,
na chuva que cairá após os dias quentes de sol
para voltar à terra e fazê-la mãe de uma árvore frutífera

oops

já acordo em sobressaltos
meus múltiplos fluxos não deixam barato vapor
reagir pra quê?
melhor é ir de mãos dadas
parar de forma alguma
ligar a TV jamais
usá-la como móvel para suportar flores e um gnomo
palavras, projetos
starta tudo ao mesmo tempo
a vida escorre como aventura perigosa
que dá fome e faz neblina
e quando tudo se aquieta
medito e alongo o corpo desejoso
paro sem parar
paro sem estagnar o olhar
paro para não ouvir as vozes rabugentas
e os pensamentos secretos do âncora do jornal
pego a vassoura e o enxoto como bicho que não se quer
músicas, só as que desejo
aquelas músicas!
sons? do vento, das vozes amigas, do pensamento que persiste
calor? dos corpos, do sol e da arte
o das luzes artificiais que fique para os cegos
água pra todos os lados
para lavar com os meus santos os alheios
velas para criar penumbra, incensos para remeter
mato, muito mato, e chuva fina no telhado
bora correr na rua?
pintar o hidrante e fazer arte como processo
e deixar que o tempo a leve depois
e que outros desejos a transformem
saturem os que já não cabem
permitam a novidade do tempo
sejamos luz em movimento!
tomemos banho quando o banho vem…

novos fragmentos

há poetas que só falam do povo
outros que só falam de si mesmos
os que falam do povo argumentam
que a verdade do artista está em ser a voz do povo
os que falam de si mesmos argumentam
que a verdade está em ouvir a voz interior
mas desconfio que cada um de nós é o universo inteiro e todas as verdades
e que falar do povo é sempre falar de si mesmo
deixei abertas todas as janelas
que importa a poeira?
me importa o vento
poeira faz parte do vento

raro

raro,
não se decomponha em dor
escape pela criação
sua força reside no suor e na palavra
em um amor imenso que talvez nem consiga ver
amor-território
lembre-se do território
fuja, mas retorne
diferente
grande, esbelto, esguio, prazeroso
porque só há prazer em você
saliva, corpo inteiro, sentidos,
há mais do que te fizeram crer
há o que você já sabe
vá, corra
dance
respire
alongue
o mundo é seu
todo seu
e o amor é fácil nisso que esboça
naquilo que permite
até mesmo no que ainda não sabe
está no corpo
é um calor sentido
é um desejo inevitável
é vida,  vida que pulsa nas veias
no nervo, nos cabelos, nas pernas que encontro
no peito carregado de pulsações
vida que cresce e quer tomar forma
vida que grita e quer nada além do que ela mesma
em você

eu, o que é e se desfaz

a vida é uma brincadeira, definitivamente
e, de fato, é só isso que posso encontrar de definitivo
no mais, tudo o que tomamos como necessário
necessita de tanto peso e solenidade que me faz bocejar
não é possível aos presentes ouvir um professor
que exale poesia em aula de administração
muito menos ao moço de sapatos marrom
que mesmo no elevador parece correr pelas ruas da cidade
carrega uma pasta preta, sei bem o que tem lá dentro
dor, dúvida, um coração aflito e um macho ressentido
mais cedo presenciei apatias
vi aqueles que lêem fernando como bula de remédio
incapazes de rir do pão de queijo que cai aos seus pés
como se fosse a cabeça de um cogumelo rolando
repreenderam o riso desinibido que o poeta compartilharia conosco
ao ler suas próprias palavras
mas quem sou, ora pois, para sair por aí dizendo tudo isso?
eu que nasci sob o mesmo signo, mas cujos heterônimos não me tenho claros?
de qualquer forma, que interessa!
eu, aquilo que sente, pode dizer qualquer coisa
desde que sinta.
porque em breve receberei uma carta de clarice
eu, tão impessoal, toda alheia
que diz eu por falta de uma expressão mais certeira
toda afecção própria, deus num corpo-natureza
leão que quer ser bebê, filhote de leão raio da manhã
brindemos com vinho o surrealismo
e coloquemos de volta no jazz aquilo que tirou dele o mundo das roupas caras
que billie ecoe liberdade, e o camaleão venha nos salvar do tédio estético
para que possamos rir, que vocês possam rir
eu rio, muito, despropósito do corpo
eu (sic), que senti o cheiro do grão de café despedaçado nos dedos curiosos
eu que falei de desejo para quem ainda busca caminhos e inspiração
eu, dos verdadeiros amigos, amigo-amante, amigos-amigos, amigos-irmãos
com quem criar cidades e escolas livres, psicologias baratas, filhos, livros, músicas, viagens de barco, cias de teatro e cartas sobre o tudo e o nada
deixemos de lado as metáforas,
me disse uma voz encorpada que usava cachecol
e as obrigações que impedem a troca de experiências
façamos filosofia como sexo, música como filhos, empresas como delírios de um esquizofrênico que não adoeceu e é puro afeto
sejamos o sol!
o brilho na mais alta montanha, o amor que derruba a raiva
e ama sensualmente o “inimigo”
que não tem vergonha de sair na rua carregando um pacote de papel higiênico
e a luz do poste vai ser tão bela quanto o próprio sol iluminado
e a vida se mostrará como ela é: um constante cotidiano fantástico!

palavras e coisas

algumas palavras não mais compõem meu vocabulário
não sou literata, sou poeta
e poeta não precisa da linguagem-objeto
as palavras me são as coisas
voltei no tempo para me transformar em mago
se me prendem, definho
meu coraçãozinho livre sofre e se esvai a força
não antes, claro, de rir muito alto
e produzir afetos que lhe parecerão insuportáveis
se me obrigo, morro
mas me dê sal, ervas, um tambor e chocolate
e faço o universo
cate comigo conchas no fundo do mar
e me entrego
me conte desejos e projetos
e derreto toda
afinal, sou poeta porque digo que sou
assim como apenas simone e sartre poderiam dizer que eram um casal
quero cada vez mais os elementos
e o sentido da vida que vá para o inferno
já achei o meu
a astrologia me é tão séria quanto sua ciência
amo a música e as imagens com a mesma intensidade
e minha religião é feita de terra, sangue e maresia
no meu panteão, cristo é irmão de dionísio
e pouco me importa o que você pensa que sou, o espelho que faz de mim
eu te surpreenderia se me conhecesse
e por isso celebro a mim mesma
isso que se constrói e destrói a todo instante
pois há um prazer diferente em celebrar sozinho a vida
o que como na torrada é um pântano com cheiro de mar
o que bebo é história pura renovada no corpo
para criar tatuagens que com o tempo se vão no vento
e no espaço empreenderão a arquitetura do desejo

A saída para o mar

Eu sei, ainda que não a veja
Ela está sempre lá
Na direção da janela do meu quarto
A saída para o mar aberto que amplia esta baía
Onde uma fortaleza já perdeu o seu sentido
E não é nada mais agora que uma bela obra de arte
Como se tornam todas as obras de arte com o tempo
Puro vazio…
Sangue que ficou num lugar desconhecido
Mais bela quando o mar se agita
E em sua muralha as ondas quebram indiferentes
De lá de cima posso vê-la melhor
Conversam as obras artísticas
A de onde estou, utopia de arquiteto
E a que te abriga aí embaixo, no mar
O passado e o presente em conversa
Tecendo um futuro já tão próximo
Que posso sentir o seu cheiro
Ele entra sempre pela minha janela
O vento é sua carruagem
Naquelas noites calmas
Em que os ônibus dão trégua de fazer passagem
E não há adolescentes a gritar no pátio
Só a luz do museu encoberta por uma neblina clara
E a minha velha conhecida inquietação
Nem mesmo as paredes tão sufocantes
Desse apartamento podem me impedir senti-lo
Já impregnou meu corpo
Não há mais volta
É caminho certo
Tortuoso e coberto de perigos
Mas definitivamente certo

Declaração

não há nada mais belo e perigoso
que desejar ser o profeta de sua própria história
e eu, que recebi tal dedicatória no filme que me arrebatou,
se não me faltassem palavras agora,
já tão bem ditas no livro, como quem mede mas não pesa,
nem o poder da intensa criação sonora, arcaica e renovada,
aquela fome toda dos corpos da família,
e o súbito olhar de Ana, escapando à captura,
a dança de Shiva, se não faltasse agora…
seria eu a própria potência,
a estrela renascida,
barro de novos constructos,
rizoma de tudo o que respira
aquilo que te sobra, amigo
a força de afirmar a vida
dure o tempo que tiver que durar
desde que talhada no amor impessoal
ela, a vida, pois que é o contrário da morte, o amor
e o que dá a isso que chamamos vida a sua consistência
eu poderia sair por aí
simplesmente a colher as pitayas todas do universo
como criança coiote,
a ser também uma entidade,
o mago, a força, a mãe, o louco, o it
não fossem ainda forcas
não fosse ainda a algema do medo
já pequeno, mas que insiste um sorriso
não fosse a necessidade da estratégia
mas sei
não há tempo para meios termos
não há…
nem poderá haver mais
porque a gente pisca e o mundo se refaz inteiro
“só a justa medida do tempo
dá a justa natureza das coisas”
e se não há mais metafísica do que no chocolate
que faço eu a deixar escorrer o tempo
naquilo que nada vale?
o tempo, amigo
é só o que existe e o que não há
a contrariar Parmênides
a escamar Descartes
a produzir o gozo, o sonho, o delírio
sem os quais a vida é somente
um caminhar cinza, já se sabendo onde vai dar…
o tempo, amigo
é o amor ganhando forma
como se pudesse ele estar no ar
como música saída de qualquer coisa
índia, preta, luminosa
desejo que se inscreve no concreto

poesia abelhuda

desconfio que é preciso brincar
e dançar

recorto minha vida, faço mosaicos
pinto de vermelho o que era branco
e algo me tenta a descolorir os verdes, azuis,
as cores de fruta, o inexistente

para deixá-los mostrar novas cores

não gostaria de ser mais do que uma abelha
e polinizar

vago é o meu espaço
uma rima pobre com teu nome
ele deixa brechas
pois, do contrário, não escaparia

me calo e me despeço
sou o meio
o que não quer ter nome

sou o que deseja tirar as palavras de quem
ao dizer, dirias nada

é preferível que não falem
é preferível que não vivam
a viver pela metade

melodia desastrosa essa que sai de mim
sou interferência
calo