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escrevo

escrevo
como quem de repente acha graça e ri
como a onda que cresce com a mudança do vento
e a excitação do momento primeiro
mas, sobretudo, escrevo com a paixão pelas imensidões
o que é pequeno me adoece

como ostra, fixo no fundo
até que a correnteza me dê pistas para onde ir

e sempre vou, em direção àquilo que não posso medir

sou peixe, ave, veleiro
nado longas distâncias
vôo e deslizo

se há janelas, mantenho-as abertas
se há um pôr do sol, morro de amor
se há altura, deliro
se há o mar,
é lá que estou

Feriado

Eu me desperto com a chuva
Tão simples e grande como o meu desejo
Um ré menor num violão reverberado pode ser tão mais que um dia inteiro…
Eu não vivo nas calçadas cheias, vivo nas montanhas
Pelo menos é assim que me vejo
Porque basta um vento pra me deslocar inteira
E algumas palavras de poeta pra me descansar angústias
E um som vindo de longe que de repente está dentro de mim
Porque quero viver nas entrelinhas, nos ritornelos todos do meu mundo
Se não sei como dizer, que posso fazer?
Que posso fazer, eu que não sei como dizer que amo?
Eu que às vezes não sei como abraçar, e quase sempre é só o que quero
Eu que fujo das comemorações
Eu que não sei ouvir as músicas que não quero ouvir
E desejo sempre o silêncio ou um som que conecta
Eu que não sei me conectar sem que seja do meu jeito um tanto calado
Posso eu querer do mundo o mundo, se nem sei como vivê-lo?
Se transbordam de mim estranhas nebulosas circulares
E orquídeas crescem pelos meus pés
Me enovelando toda de paixão pelo que não sei
E corro em direção ao sol como se fosse um bicho saindo da toca
E aquelas flores que se movem toda manhã e todo fim de tarde
Posso assim querer?
Posso assim ter o direito de sofrer por tudo isso e ainda assim querer sempre que tudo isso possa retornar a todo instante?
Desejo que o que não seja isso retorne também?
Quem sabe, porque me fazem ser o que sou
Um corpo que cai no vazio a toda hora e busca sempre o barulho do mar

Poesia circular

1
…Porque pairava sobre os meus olhos como estrela reluzente.
Nua estava a vida quando a encarei
E me sorria bem de perto
Tombando aos montes como quem fere e quer vingança.
Porque calava, e isso nada tem de trivial,
Causava e descontornava o sonho
E sempre retornava
Ela, que viajava pelo tempo…
2
Eu disse que sim
Bem sem pensar o por quê
Sem saber do ar
Eu disse que era meu
Mas não era, e eu sabia
Porque nada pode sê-lo
Sempre soube que não se pode ter
Porque tudo é só do mundo, do infinito
E do próprio tudo, si mesmo
Mas, ainda assim…

novas pílulas pra dormir

O tempo mais longo…
é aquele em que precisamos suportar que passe


Início da primavera
Comprei um girassol para comemorar
Ele morreu três dias depois…
Eu já deveria saber
Que não se pode prender num vaso a exuberância


Pra onde vão todos com tanta pressa?
Será que há algum grande evento e eu não estou sabendo?





Vivo uma nuvem!

Uma faca me dilacera por dentro, onde sou
É que, de repente, cansei de ser gente

Medusa


Eu estou fluindo
Sou líquida e fumaça
E a lua me assiste
Aplaudindo minha dança
Mole e lânguida de tartaruga magra
Existe um mundo rosa no céu
Quando giro meu pescoço e vejo a luz
E uma espuma tão branca
A que furam os pássaros
Que passam por elas, entre elas
Pássaros que nadam no céu
Abaixo nuvens quebrando na praia
E eu dançando
Retorcendo de saudade
Fluida intensidade
Com a necessidade de sólido
Mordo a montanha doce
E caio de boca na areia
Saio me esgueirando pelas pedras
E sinto rachar os pés
Sangrar o casco
Sinto mais ainda
Que sou aquilo que não entendo
Porque quero ser marisco
Mas sou medusa que flutua

insônia

Não durmo, nem espero dormir. 

Nem na morte espero dormir. 
Espera-me uma insônia da largura dos astros, 
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, 
Não posso escrever quando acordo de noite, 
Não posso pensar quando acordo de noite — 
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo, 
E o meu sentimento é um pensamento vazio. 
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam 
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam 
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, 
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Não tenho força para ter energia para acender um cigarro. 
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo. 
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda. 
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer, 
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
Estou escrevendo versos realmente simpáticos — 
Versos a dizer que não tenho nada que dizer, 
Versos a teimar em dizer isso, 
Versos, versos, versos, versos, versos… 
Tantos versos… 
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!
Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir. 
Sou uma sensação sem pessoa correspondente, 
Uma abstração de autoconsciência sem de quê, 
Salvo o necessário para sentir consciência, 
Salvo — sei lá salvo o quê… Não durmo. Não durmo. Não durmo. 
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma! 
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!
Ó madrugada, tardas tanto… Vem… 
Vem, inutilmente, 
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta… 
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste, 
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança, 
Segundo a velha literatura das sensações.
Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança. 
O meu cansaço entra pelo colchão dentro. 
Doem-me as costas de não estar deitado de lado. 
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega! Que horas são? Não sei. 
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio, 
Não tenho energia para nada, para mais nada… 
Só para estes versos, escritos no dia seguinte. 
Sim, escritos no dia seguinte. 
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora. 
Paz em toda a Natureza. 
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras. 
Exatamente. 
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras. 
Costuma dizer-se isto. 
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece, 
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece. 
Exatamente. Mas não durmo.

considerações dominicais

prefiro acreditar que não sou nada nem ninguém
só assim posso ser tudo!

—-

tenho muitos a priori
eles precisam morrer

é preciso amar o tempo para dele
não sermos marionetes
é preciso amar o tempo!
o que foi, o que é, o que será

me disse Pessoa: para viver a dois, antes é necessário ser um!

me disse Moska: navegar só se for por paixão!