não sabia quase nada
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Atonal
sei lá que tipo de matéria eu quereria ser agora
sei que assim, compactada como um corpo humano,
não dou conta nesta hora
queria era estar decomposta
talvez em poeira estelar
em células mortas
infinitamente dividida
em minúsculos grãos de areia ao vento
que se espalhariam e não restaria nada
que pudesse dizer: veja, aquilo tem identidade
nenhum sólido
nenhum corpo
nenhum sentido exposto
nada que conte história
sem passado
sem futuro
só o presente sobreposto nele mesmo
sem desejo
mas com devir
sem afeto
mas com instinto
sem amor
apenas existindo
arrastada pelas tempestades
sem controle
destituída de toda saudade
desmembrada das cláusulas
que um dia o meu corpo assinou
descentrada
e só
diluída na partitura da dor
De volta pra casa
Como se revisitasse sólida
A doçura do meu afeto
Aquela estrela amanhecida
Me tomou inteira nos teus olhos
O mundo curtia ao longe
A tua senda envaidecida de saudade
Teu inexato signo da morte
Verdade que tomada ao vento
Foge ao meu caminho
Que tão íntimo ao teu, agora,
Se dobra na curva extática do infinito
Como se faltasse um nome
Uma palavra têxtil me tomou de assalto
E o campo numeroso do meu corpo mago
Fez chover sorrisos como meteoros tortos
Eis que o nome é o que menos importa
Pois se abriram as portas mais esplendorosas
Que temperadas me tomam feito o mar
E carregam meu sangue no teu paladar
Como se transbordasse a fome
Nasceu inteira uma lavoura enorme
Dentro da qual se dança o campo
Imantado de uma música-criança
E brotam lírios, uvas, azeitonas
E árvores pedindo seiva bruta
No horizonte endoidecido de desejo
Em que insetos despejam seus segredos
Na roda placentária movida de cheiro
Amanheci o ser amado no meu beijo
Anoiteci minha palavra nas estrelas
Enlouqueci minha saudade de futuro
No colo de um deus apaixonado
Que de tanto não saber como amar tanto
Criou um planeta
Com água, planta, elefante,
Cerca branca, pedras coloridas,
Cabelos ao vento
E gente a respirar com o sol no rosto
A chuva fina pra lavoura não secar
O vento nos poros pra não enferrujar
O passado passando
O futuro como casa em construção
Tijolo por tijolo para garantir sustentação
E o presente como firmamento
Por onde correr de bicicleta
Com as pernas cheias de vontade
E dançar a música que se queira
Deslizando como bicho na paisagem
Como se o mundo estivesse nascendo agora
Eis que tudo é novidade!
E a sua máquina
Luminosa que só ela
Fez da nebulosa carregada
Um doce céu na minha quimera
E como se agora fosse mesmo só ela
E a minha face cansada
Tivesse me feito nascer asas
Eis que me sinto, como nunca,
Como se tivesse, então,
Chegado em casa.
Metalinguagem
Meu paradeiro hoje
Um espelho
Narcisismo da exaustão
Não ouse querer encontrar
O meu ego na multidão
Estou só
Como só os exaustos
Sabem sê-lo
Com o corpo mais arrasado
Que a natureza concebeu
Que não suporta a luz, o caos
Fadiga de coliseu
Incapaz de tolerar o traço mal feito
E a palavra mal dita
Para seu governo torto
Faço poesia com a matéria vida
Num banco de metrô
No ensaio de uma orquestra
Quando já não dá mais
Pra suportar o próprio sentido
E nem mesmo toda festa
Meu sentido é tão somente sentir
E sei muito bem
O que faz este corpo cansado
Sorrir
Um espelho aberto um dia
Na clausura do tempo linear
Mostrou-me
Sem tempo
A cura que é amar
Mas dormir
Para um insone
É tão belo
Quanto o olhar
Daquele homem.
Faço poesia
Com qualquer coisa
Em dias assim
Quando a dor no corpo
Frita os músculos
E elimina o doce cheiro do jasmim
Pra não perder
O mistério do coração
Pra não morrer
De obrigação
Pra que serve a poesia
se não servir a poesia
para nada
prefiro não ouvi-la
não sou adepta do vazio
da palavra
que, aqui, uma vez dita,
– a física garante –
produz nota na cítara
do outro lado do planeta
que me sirva, a poesia!
como me serve um prato
de carne suculenta
ou prefiro esquecê-la
para quê poesia
se não me lembra, ela,
da vida latejante
que existe para além
do cansaço
deve servir sim!
para lembrar
o absurdo risível
que nada é tão absurdo
que não possa ser possível
Humano, demasiado humano…
Aos nossos contadores de história que se foram…
Cheiro de rosa
um cheiro de rosa invade a minha sala
se é incenso vindo de fora
se é paixão que insiste no peito
que importa
fato é que um cheiro de rosa
bate à minha porta
e devaneio
abro a garrafa de vinho
escrevo mais um soneto
enlouqueço
e cedo à tentação
de deixar escorrer pelo meu corpo
um cheiro persistente
que insiste em ser presente
mas canso
e me entorpeço
desabo
em direção a fonte
do espasmo
e me deixo
exausta
à mercê da tua estrada
à guisa das tuas madrugadas
sonhando contigo
a me acordar em noites calmas
delirando o abismo
de desejar estar sempre em tua jornada
estando
vivendo contigo
a construir
realidades novas
o que estamos fazendo
senão traçando, juntos,
uma estrada sinuosa?
um cheiro de rosa invade a minha sala
e sei que daí, a partir destes dias,
pensas que não sabes mais o que sentir
e eu…
eu não sei
apenas canto
tua maravilhosa presença
ensimesmando
com tanta
persistência
O amor tranquilo
então, era isso!
de uma simplicidade estonteante!
então era assim que, o tempo todo,
ele estava programado para chegar?
silencioso e sem querer
no frio de uma madrugada de inverno
depois da calma de um dia de sol
que renovou a fé nos dias que virão
então, era só isso?
e eu não precisava ter sofrido tanto?
mas, desconfio:
o sofrimento é que nos traz
o sentido da leveza
e a sua grandeza
então, o tempo todo,
ele esteve comigo!
porque nunca não haveria de estar
eu apenas não o via
mas, desde sempre,
ele esteve respirando
em meu ouvido
então, era só isso…
simples, fácil, óbvio
e, por isso, belo
como o sol descendo no horizonte
ao som do bolero de Ravel
O substantivo vida
se perguntassem a um poeta o que é a vida
carbono seria estrela
vida é aquilo que existe quando a gente ama!
e sente dor de estômago
é o cheiro que enjoa
e a luz que dificulta abrir os olhos
é quando bate a saudade
e nasce alegria de ouvir a voz querida
é carinho desejado
e acontecido
vértebra cintilando
o investido
vida é dor
dor nas vísceras
é quando os músculos se contraem
as lágrimas caem
o peito se apavora
vida tem gosto de vinho, azeite e amora
e é a lida que começa cedo para fazer o pão
é o moinho girando
a água cantando na pedra
o som da máquina do mundo
o cabelo ao vento
um poço bem fundo
tem cheiro de delírio
gosto de ser amado
tato de mar salgado
visão de deserto longo
vida é o estilhaço
das cordas renascidas
e o sopro que anuncia o susto
da morte
às vezes,
a vida parece uma falta de sorte
e é um grande espanto
no entanto,
é a notícia dela,
da sua chegada,
a notícia da certeza
de que sentir-se vivo
é, antes de tudo,
sentir-se estrela!







