poema distraído

hoje eu acordei desperta!
não havia sol…

…mas havia a clave
no meu corpo ainda

hoje eu acordei um tanto leve
um tanto perdida
numa música
numa ilha

com nome e sobrenome

hoje acordei sem pressa,
sem trabalho, sem espera,
sem ferida, sem expectativa…

mas com o sangue
reverberando um perfume,
um tato de mãos sonoras
provocadoras de lume

hoje acordei um tanto distraída,
quase sem perceber…

que acordei pensando em você

só mais uma poesia contemporânea

que horas são?
uma da manhã?
que importa…
há luzes tantas
meus olhos mal sabem das estrelas
se esbaldam, eles, no excesso
cegam
te quero, penso
tenho fome,
e é tenso
quero água
já são mais de uma da madrugada
e a madrugada tem refinamento
de luz, afinada
de som, exato e diverso
do ruído do meio dia
descanso
que faria eu, se pudesse sair agora
do universo das palavras?
diria: me chama pra sair!
ou eu chamaria,
sairia da rede social,
abriria a porta, escancararia o coração
substituiria o teclado pela pele
e meus dedos seriam mais justos com o universo
solidão, pré-condição?
te digo: cuidado!
fica a dica!
#meucoraçãoémaisqueumteclado
o chão brilha
a cidade dorme, em boa parte
restam os homens de boa vontade
que circulam pela noite enluarada.
meus pés cansados procuram abrigo
numa água quente, num pé quente,
no estio, um estilo;
e ouço quem diga: beijo, me liga…
do outro lado da rua uma alma semi nua
comporia bem na casa que decoro
ela diria: adooooro!
e eu encararia com olhar semi nu a perguntar
o quanto adorar com tanto “o” pode significar
mas é curiosa essa contemporaneidade
essa pós-modernidade adocicada
essa gente perdida no meio de si
um encantamento pelo concreto…
enganam-se elas: é metafísico
muitas janelas, todas fechadas,
para os muros, voltadas
espaços da verdade
eu-objeto
meu minimalismo os exalta
exceto os buracos que separam as alegrias
nas paredes dos prédios
eu-dejeto
de que serve um ser humano que não sabe ser máquina?
pergunta o bancário, o banqueiro, o porteiro, o batista
pergunta o político, o cara que não soube ser artista
a moça hipnotizada que espera o príncipe encantado
pergunto eu
mas é por isso que o teclado é instrumento
é por isso que a rede é social por dentro
meu corpo é bandido
o que mais o carrega, é pela tela apenas disparado
nunca sentido
pode ser por ela provocado,
estudado, pela arte estimulado
mas meu corpo é bandido
se deixa levar mesmo é por um sorriso
e nesse mundo de cheiros e prantos
pergunta ele: como é possível um encontro?
que força faz com que
entre tantos
encontram-se determinados corpos,
certas vertigens,
colidam-se os corações … !?
sabemos tanto…
sabemos tudo.
temos o Google!
mas esse mundo contemporâneo
com a graça do divino espírito santo
(da diversidade)
não conseguiu resolver o mistério de sempre:
que a vida, esteja ela no tempo passado,
futuro ou presente,
é força estranha, loucura boa,
o inexplicável fascinante do existente

o som e o silêncio

é no momento do silêncio,
entre uma nota e outra,
que meu corpo retoma,
na voz, o seu desejo

e deixa nele ecoar
o corpo do outro

…e o ensejo

é no momento do silêncio,
quando respiro e sustento,
que meu coração se revela,
e entregue, forasteiro,

ressoa nele
todo o seu intento…

…e vibra inteiro

é no momento do silêncio,
quando as passagens se dão,
que me conecto mais fundo…

ainda que por um segundo,

e este precioso instante
produz meu diamante:

tudo o que carrego
de mais intenso em mim
se lança no universo pela voz
para semear estrelas
e colher amplas ressonâncias
no mundo sem fim
das coisas sonoras

produzindo as reticências
que o meu canto
põe ao fim de cada tempo

para ampliar o espaço
de todo e qualquer lamento

para ampliar o dia
a toda e qualquer alegria

anunciação

anunciou-se um corpo
o meu próprio
relembrou seu ópio

pedi-me atenção

lançada estou
mais uma vez
no poço sem fundo da alma

essa inexistência exata
que me cala a exata existência

como há um,
dois anos talvez?
quem sabe alguns meses
quem sabe…

quem sabe o que trazemos conosco
e que nos torna nós mesmos?

mas que melhor momento para uma virada!
estes, em que não sabemos nada…

quando o que nos é revelado,
apenas pela intuição
pode ser conquistado

se sei do líquido raso que é meu sangue
tão infame e próprio à densidade alheia
é porque sei da imensa profundidade da pele

e sinto o rombo do corpo sutil
maltratado
o tombo de dentro de mim mesma
deslocada
lá onde só a poesia
é a composição certa de palavras
e irmã dessa poética palavra
a música
é também ela
capaz de reconhecer
a suada alma despedaçada
e com tanto ainda por viver

densidade em ser
por um lado, brisa
por outro, ansiedade

velho e conhecido exercício
o de equilibrá-las

pois nasci numa estação de transição
não sou daquelas pessoas
que possuem as certezas
do inverno ou do verão
sou daquela gente
em mudança permanente
alma-budista
circense

filha do outono
e amiga das almas da primavera!
porque o oposto
é o outro mais próximo de si

muda
folha que cai
ipê que floresce
quase invernal, é certo
mas aquela que fecha
as portas do outono
como se quisesse guardar
a preciosidade do incerto

porque nada é mais exato que a fortuna
que anuncia aquele descampado musical

(ó fortuna! velut luna statu variabilis)

sabe o meu corpo
dessa lógica sutil e encantada
que governa o mundo

mas agora
meu saber está
colocado à prova da existência

uma vez com as ferramentas
a diferença entre aquele que lamenta
e aquele que agradece
é linha tênue

é preciso usá-las
para se viver atento

para sermos observadores de nós mesmos

é preciso reeducar o olhar
e saber ler a si mesmo

e encarar
a mania de afirmar
que se soube tão bem ler o outro

pois como entender o outro
se mal sabemos de nosso próprio corpo?
se todo o vazio do mundo
pode a qualquer momento nos lançar
num campo morto?

nos construímos em espelhamentos sóbrios
como se a cultura desse conta
de dizer quem somos
e decodificar nosso espaço,
nosso sexo, nosso ócio

apenas sei que hoje
tenho as ferramentas
e posso ser marceneira
da minha própria casa

aquela interna

porque tenho com elas
os sonhos
os desejos
a música
as palavras

tenho a mim mesma

e antes de mais nada
é nosso corpo
o nosso primeiro território

pois que assim seja
diariamente
para que ao perder-me
esteja meu corpo presente
e consciente que perdeu-se

e caso ele se perca completamente,
tão completamente que esqueça,
que as ferramentas antes trabalhadas
venham, pelo insight da existência,
relembrá-lo da sua divindade

ensaio de orquestra

eu esperava aquela nota lá pra relaxar
mas ressoou o si bemol menor do meu cronograma
pisquei e lá se foi a semana
anunciam os sopros uma nova sexta-feira
tinha para mim uma orquestra inteira
mas falou alto a matemática do cálculo
não poderia me dar o luxo de um descanso
ao menos me sussurrou o universo
ele não está manso
muito menos piano
mas a um mês da ação, me lembro
passará a solidão da produção,
no seu tempo,
e ficará somente ela, errante,
para quem o meu corpo produz,
aquela que exata, mesmo quando dissonante
ficará meu corpo, exausto e feliz,
e o coração por um triz…
já vi esse filme antes!

o mar e a música

paixão:
bom ou mau movimento da alma,
diz o dicionário…
amor excessivo, entusiasmo, predileção.

me dê uma música para cantar
e um veleiro para navegar
que eu crio um mundo!

paixão!

e nada é capaz
de depor minha alegria

tesão!

aproxime de mim um corpo
a exalar amor sonoro
faça conversar com minha alma
toda a experiência de ser música
no próprio corpo!…

que morro de amor
em ser humana

traga para mim ventos do mar sem fim
entenda o que diz as ondas
e o profundo mundo do azul
e verás a mais feliz das criaturas do planeta

eu, Vanessa

metade da alma música
metade da alma maresia

corpo presto
barco maestro
corpo do gesto da poesia

dê-me um barco, poeta
dê-me um piano e a nota certa,
qualquer ela,
que danço a dança da criação

que danço tudo:
o sagrado
o profano
o tesouro dos Nibelungos

e me dê um sorriso sincero
que eu faço música pra você
e lhe dou toda a vida que quero

esbanje afeto e amor
que construo um barco
para navegar pra lá do Bojador

no mar sem fim do mundo
no mar sonoro que faz mágica
em rápida velocidade por segundo

porque sinto sempre o ar rarefeito da terra…
e busco, sem medo do profundo,
o mar e a música do mundo

mergulho neles, sem nome…
em busca da lealdade perdida dos homens

Casta Diva

Um poema de aniversário para André Aguiar Protásio

Norma Baiana,
banhada no mais fino óleo de jasmim,
sendo o mundo um palco
és uma diva adorada!

Lá na coxia,
autor trágico,
devora o corpo
de um baterista alado.

Estrela que cativou
espaço imenso no meu coração errante,
tu és meu baianinho, amante
do que existe de mais belo
do que há de mais alegre
do que tem de mais sincero.

Bruxo das imagens-corpo!

Corpo que resiste,
força de leão,
corpo que alonga…

tesão
        esse
               de ser
                         corpo…

Com um bailado Luiz Caldas,
humor de Mafalda,
bota pra quebrar com a moral
porque o que importa nessa vida
é carnaval!

Nesse mundo que é palco, minha diva,
és ainda o calafrio do violino…
                               
Minhas costas se arrepiam
em compartilhar desejos contigo.
Tu que tens um timbre de contralto,
e a delicadeza de um soprano
em dia de fúria…

Venha meu Buster Keaton!
Sei que tens a cura!

A cura dessa chatice
que é a vida dos soberanos…
A cura da gravidade fascista
das hierarquias academicistas!

E dá-lhe joga pedra na Geni…
Mundo de bestas-feras.
Fossem belas,
como são as bestas medievais…
Mas não prestam nem pra isso…

Carmem Carioca tu és.
Dorme em berço rococó
aguardando pelo fim dos tempos!

Pedra sobre pedra,
como dominó,
desejaria ver caindo
a mesquinharia dos homens…

Afinal, quem é rico mora na praia,
mas quem trabalha deveria ir passear!

Ai, fosse o mundo mesmo um palco…
a fortuna viria derrotar os fracos,
o amor venceria nesta terra…
seríamos todos uma grande orquestra!

No entanto,
amor volat undique…
l’amour est un oiseau rebelle…
             Oh!
                   Meu coração não aguenta
                                    tamanho tico tico no fubá…
Mas fazer o quê!?
Diria você: eu só quero amar!

Ora!
Voasse esse pássaro céu afora
e seríamos todos loucos,
para iniciar, magos,
a era pisciana das revelações.

Minha flor de maracujá,
eu te daria toda a água de coco desse mundo,
pudesse eu, neste seu reiniciar!

E iria com Dante ao inferno
para conseguir pra ti a mais bonita das flores,
o mais quente dos invernos,
o perfume certo de um tal corpo suado.
Pra você, astrólogo, que conhece história
do princípio ao fim…

Porque te voglio bene, amore mio,
tu que vens de outras eras,
alquimista que transforma pedras
em corações encantados.

Quero sempre
a tua risada mais gostosa!

Baianinho apimentado,
eu te comeria todinho recheado
pra ganhar tua força de Iansã,

E poder rodar a baiana
por um mundo inteiro
pra quem ama!

Que teu novo ciclo
seja, então, iluminado,
e que o teu filme só termine
quando todo o mundo
estiver renovado,

Pleno de sonhos
na nossa república federativa do afeto!
Casa de ervas, de comida com amor,
e, claro, sempre ele, o sexo!

Fortuna dies natalis, amante!

Casta Diva
Che inargenti
Queste sacre antiche piante

ponteio

ainda não dormi
neste domingo
mas o domingo já virou segunda
e a segunda precede
um retorno matutino

ouço Villa-Lobos
e o tempo se contorce
inflando meu coração

o prelúdio da Bachianas 7
é apenas um indício
de que algo acontece

o que se anuncia agora?
que moda de viola?

sinto um novo fervor
depois da página virada…
de livro jogado fora

tenho à minha frente
páginas em branco
para novas histórias

e pautas virgens
aguardando novas sinfonias

o corpo não se ludibria

alguma coisa acontece no meu coração
e todo ele quer amar

quem me dera agora
eu tivesse a viola
pra cantar