o horizonte nunca sai do lugar
para amá-lo é preciso não ser
Tag: Poesia
escrevo
escrevo
como quem de repente acha graça e ri
como a onda que cresce com a mudança do vento
e a excitação do momento primeiro
mas, sobretudo, escrevo com a paixão pelas imensidões
o que é pequeno me adoece
como ostra, fixo no fundo
até que a correnteza me dê pistas para onde ir
e sempre vou, em direção àquilo que não posso medir
sou peixe, ave, veleiro
nado longas distâncias
vôo e deslizo
se há janelas, mantenho-as abertas
se há um pôr do sol, morro de amor
se há altura, deliro
se há o mar,
é lá que estou
carne
Feriado
Poesia circular
novas pílulas pra dormir
—
Medusa
insônia
Não durmo, nem espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos…
Tantos versos…
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê… Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta…
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada…
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo.
considerações dominicais
prefiro acreditar que não sou nada nem ninguém
só assim posso ser tudo!
—-
tenho muitos a priori
eles precisam morrer
—
é preciso amar o tempo para dele
não sermos marionetes
é preciso amar o tempo!
o que foi, o que é, o que será
—
me disse Pessoa: para viver a dois, antes é necessário ser um!
—
me disse Moska: navegar só se for por paixão!
Domingo
domingo de tarde
estou sozinha
como uma macarronada
nada mais simples
bebo um malbec
no som, kevin canta a incompreensão
uma nostalgia latina me invade
penso na verdade, e tão logo ela se dilui
penso em sexo, fico na vontade
penso no amor, me inflo
penso na arte, e me alegra o devir
e o que está por vir
de qualquer forma estou feliz
gosto de domingos
sorrio sozinha
e vou colorir os meus desejos

