Silêncio

dei-me o desafio do silêncio!

a partir de agora, tenho comigo
uma nova forma de respirar as horas.

mas não para negar a palavra.
sou justa!
ou negaria meu corpo.

mas para deixar que,
a partir de hoje,
e por tempo indeterminado,
fale mais o sentimento.

para que ele não se dilua
na voracidade do verbo
e a política se faça nos meus gestos.

dei-me o desafio do silêncio
para construir uma obra.
e para que a palavra possa
calmamente lapidada,
e, com o tempo, condizente,
encontrar, enfim,
a sua forma mais reluzente!

Prosa de um querer

sempre depois que te vejo é como se ficasse um cheio. fica cheio de vida o meu coração e tento transformar também em cheio o vazio que fica quando vou ou quando vais. e o vazio desaparece e fica um cheio tanto que transborda de vida semeando dentro de mim. extasiante. como podes ser tão bonito assim? tua beleza vem de longe, de um mundo subterrâneo que é ao mesmo tempo céu, lá onde nasceu a vida, daquele tempo sem tempo onde as estrelas espalharam poeira e era mesmo a música que mantinha em permanência e caos o universo. uma música das esferas a dar origem ao verbo. às vezes, depois de te ver e te sentir, quando só, eu choro, minutos seguidos, até que paro, sorrio e vou dormir. mas não choro um choro de tristeza. é o choro da falta das palavras. é o choro da primeira mulher que existiu sobre o planeta. às vezes rio. pois só o choro ou só o riso, destes momentos de ficar só após teus gestos e com teu cheiro impregnado em mim pelos abraços e o toque dessas mãos que criam versos, são capazes de dizer. fica algo no estômago, no fígado, no sexo. e pareço não produzir mais que amor ao invés de bile ou toda secreção. choro porque não sei o que fazer com tanta vida que em mim revira, querendo sair por minha vagina enlouquecida de paixão. ou rio, selvagem. e te sorvo, com os meus ossos e o meu sangue acompanhando a tua arte. depois disso, fica é o coração perdido de tão encontrado. e não posso nada mais fazer a não ser correr em sua direção, como criança ensolarada. e fico tateando a procura dos apoios para o tanto que deslocas. e decido por, tão somente, escancarar a verdade. rememorando que conheço teu íntimo e sei que ele sabe como me querer. eu morreria no fundo do teu olhar profundo, para viver ainda mais depois. e faria para ti as oferendas que pedem teu sorriso e teu cheiro ancestral. de um jeito de quem te ama em tuas entranhas. e nos tempos breves que temos para sermos e estarmos. tempos certos. mesmo aquele que bate a porta do espanto: como te olhar nas horas calculadas do trabalho? saberemos. sem temor. e talvez se tornem, minhas palavras, mais cimento que reticências desejando o que ainda não é. e por tudo isto eu retribuo as tuas provocações. das palavras ditas sem pensar, no calor do sentimento. do carinho e do suor que, mesmo em terrenos gélidos e frios, revelam esse íntimo pedregoso e enluarado onde eu me perco para encontrar o cerne da divindade da existência. minhas palavras são meu corpo escorrendo pelo teu e se despedaçando em múltiplos sóis no mundo que existe no entre-nós. nem meu, nem seu, mas nosso. feito de barro, medo, coragem, solidão, das mais belas e dolorosas poesias e da sonoridade nova que contrapõe a profundidade da música dos antigos com a leveza do deslumbramento de uma nova estrela. tu vais e eu fico. renovada. tu vens e é como se eu olhasse no olho de deus, com a certeza de que deus é aquilo que não conseguimos explicar e o que faz a vida se regozijar. tu vens e eu me alegro de dar de cara com o mistério, que faz do meu querer um acelerador de partículas e uma abelha rainha. dá origem a vida e se lança no ar como uma virgem linha .

O amor do lobo e do cordeiro

um lobo sempre reconhece outro lobo

pelo faro, pelo olho no olho

um lobo sabe que encontrou um outro lobo
quando sente no outro – como um calafrio –
a carne e os ossos de um grande desafio

o da própria existência

quando vê nele a mesma solidão – necessária –
e a liberdade rara de saber que a vida transcorre
em ciclos de início e de morte
que nutrem o amor infinito
que carregam em sua sorte

mas um lobo enfraquecido,
levado para longe de seu alimento,
pode enganar-se por inteiro
e ver um lobo quando encontra um cordeiro

um cordeiro também
sempre reconhece outro cordeiro
nasceram para o rebanho
e do rebanho jamais sairão
regozijam-se nele
e, felizes, mantêm fechados e nada atentos
seus pequenos olhos remelentos

todo cordeiro tem vocação para ditador
não suporta como os lobos se fortalecem de sua própria dor
nem sua calma solidão na estepe
nem como correm juntos como se corressem livres

e abafam com sorrisos falsos
toda a inveja dos olhos abertos das matilhas

mas crianças podem ser facilmente presas de cordeiros
quando enfraquecidas

um cordeiro parece saber muito bem
como enganar um lobo esfomeado de primeira
– parecendo também um lobo –
pois cordeiros são excelentes mentirosos
tanto mentem a si mesmos

e, por isso, é que podemos ver por aí
tantos lobos em peles de cordeiros

esfomeados, alimentam-se da comida alheia
e acabam por acreditar que também
nasceram cordeiros e estão presos em teias

ensinou-nos, a história,
que todo lobo é mau
e, de tanto ser ferido por cordeiros invejosos,
podem vir, os lobos, a acreditar
em tais degredos jocosos

mas lá no seu íntimo,
bem lá onde cordeiro nenhum chega,
sempre há o uivo derradeiro

um dia, mesmo alimentado por cordeiro,
o lobo sente o chamado da lua
e para ela uiva em reencontro a sua morada

um lobo sempre reconhece outro lobo
mesmo quando em pele de cordeiro

é assim que, movido por amor,
pacientemente,
desenreda cada fio da falsa pele
no outro e, em si mesmo, sobreposta
e, de olhos bem abertos,
sem medo das mandíbulas que se lhe apresentarão
desnuda o corpo de quatro patas
e põe-se a correr na estepe
a celebrar a madrugada
da qual o cordeiro, cheio de medo,
e por não ver a beleza do grande segredo,
prefere se manter distante,
dançando no estábulo, quadrado,
a dança regrada que lhe foi ensinada

é por isso que lobos e cordeiros
jamais podem ser amantes verdadeiros
mesmo quando o cordeiro assim insiste
e faz de tudo para que o lobo acredite

quando o lobo consegue alimentar-se
e, novamente, faz-se forte,
sua natureza torna insuportável
viver a vida sem encarar de frente a morte

só a morte dá origem ao amor
e só pode haver amor quando se encara o horror

é preciso a cada lobo,
matar em si, o cordeiro que camufla o necessário tremor

outono

um poema que nasce na madrugada
de vento forte e chuva desejada,
trazendo o outono
é calor – ou frio – que sobe pela espinha
da noite de tempo longo, inteiramente…
minha?
tempo sem fim,
do que insiste em ser verdade

do filme, do vinho e de mais nada
talvez, da vaidade

desejos, palavras,
silêncio após Beethoven,
calma após a estrada
o outono…

sempre revelando a minha fala

mas um outono de abandono e amor
por uma rima que não pode ser falada

Saga da autoreferência

broto como flor de cacto
hoje nasço de um mandacaru
planta forte
carregada de espinhos
eu floresço sonhos
concretude
plena sorte
de ser quem sou

mas foi preciso muito
foi preciso que esse espinho
cravasse no meu peito
a tua seiva
e derramasse nela
um ideal fugaz de vida
para que eu pudesse
construir minha fortaleza

devaneio…

mas meu muro
não é muralha
e tem tantas portas
quanto luzes acesas

passei por muitas estradas

naquela juventude já perdida
vi tantos se perderem
para nunca mais voltarem
eu definhei meu corpo novo
em copos e garrafas
vi o êxtase tomar os seres
aquela alegria que se tornaria mágoa
e vi uma dessas alegrias
se tornando pó
até desaparecer
morta
deixando frutos
mas levando sua juventude embora
magra, sofrida
e quão cheio de doçura ele era…
mas teve que partir
carregado pelas pedras

e então, eu ouvi um não
que jamais esqueci
nunca um não me fez tão feliz
e me libertou para que eu me descobrisse
liberta

já faz tanto tempo

eu fui atriz
e me apaixonei

sempre me apaixono

sou flor
que pega fácil
não precisa de muita luz
mas é necessária uma boa rega

e me lembro dos lugares onde fui
eu que andei nômade desde sempre

até hoje, só sei me definir
pelo movimento
nunca soube o que é ter raiz
embora uma terra me pertença
porque muito por lá passei

terra do império
de cheiro do musgo
o frio, a neblina
aquilo me define
também, ainda
poesia que vem de dentro
do meu silêncio
de quem nasceu na serra
e aguardava, criança,
as luzes de natal

e me defino também
carnaval

tio boêmio
mãe baladeira
avó carnavalesca
que fazia festa no quintal
atores, artistas de circo
histórias a dar com o pau

primos
música
irmãs
muita gente, muita fala
mulheres
mulher e família
sinônimos em meu universo
tantas
elas construíram, dia a dia
minha história

e, assim, fui seguindo
eu com eles
eu sem eles
sempre perto
sempre distante

“vanessa?
a gente até esquece dela”…
“não, não sei cadê vanessa”

estava eu, submersa
na água
no livro
no desenho
havia um mundo que era só meu
e nele havia sempre música

cá está ele,
ainda comigo,
e carrega as histórias todas daquela gente
que carrega parte do meu coração

e tenho uma avó com muito para contar agora
e mãe e pai que se preocupam
porque nunca sabem onde estarei na próxima hora
tive um avô
que me ensinou a desenhar

eu gosto mesmo é de fluir
sem rumo
com rumo
ir

tenho irmãs com quem compartilho
uma experiência de amor profundo
e não há nada mais profundo
que amar o que é tão diferente de você

e primos
muitos
histórias diversas
cantávamos juntos
brincávamos
torci a perna

e lembro do cheiro de mato

sempre que uma leve chuva cai
no rio de janeiro
eu me lembro aquela bruma poética
da chuva da serra
o cheiro de terra
eu roubando laranjinhas na fábrica caseira
correndo pela rua quando o tempo
era o tempo longo da brincadeira

há tanto que carrego comigo
e vem, vez em quando,
um certo desespero
de, de repente,
ver que o tempo passa
e já se passou
tanta vida em mim

mas, alguém que gosto tanto,
eu mesma, hoje sou
depois de tanto

sofri,
chorei
perdi
ganhei
o clássico
da vida de todo mundo

tive poucos grandes amores
e quis tanto todos eles

hoje, sei que amar
é essa delícia que vem
e vai
e pode ser, quem sabe,
um dia fique

é o que deseja hoje
minha estirpe

eu
que talvez tenha filhos
ou não

eu que navegarei

tive grandes amores
e os amei
tive grandes paixões
e quase morri

tive amigos
vários ao andar por aí
tenho grandes amigos
e grandes amigos
também são grandes amores

com eles eu posso ser
delírio

alguns antigos
outros chegaram agora
e já são festa no meu ser
fazem cada medida da vida
valer acordar todos os dias
transformando medidas
em desmedidas

como cada tudo que amo
eu que amo tudo nessa vida

e o mar, este amor que é eterno
com quem jamais me desentendi
fui lançada em correntezas
levada
mas sabia eu que o mar
era imprevisível
por isso o amor veio
eu e o mar somos um
inteiros
amo o que me arrasta
amo tudo que lhe diz respeito

porque não posso conceber
a vida como qualquer coisa óbvia
como se concebe por aí

a vida é tão cheia de possíveis
que posso fazer dela poesia
a toda hora

eu crio a vida
ficções
arrisco
eu mostro tudo que escrevo
eu digo o que sinto
eu concebo
eu falo em palestras
poesia
dou aula como se fizesse festa
não existe seriedade que
me faça
esquecer o que sou

não existe medo
que bloqueie o meu desejo

o que existe hoje é força
a me lançar em busca do que ensejo

O amor em tempos de metamorfose

que solidão maior pode haver
que a do sentimento imponderável

cujas palavras tentam dizer
e se atrapalham
cujo olhar talvez diga
mas não tenha tanto tempo
cujo sorriso e suor revelam
mas cujo silêncio é necessário

que solidão maior a de um sentimento
que é, ao mesmo tempo,
desejo de pele e um respeito que o preze

admiração, cuidado, distância
tesão, desmedida do afeto, errância

capaz do mais profundo entendimento
e até do esquecimento – para renovar-se

à luz do qual eu seria capaz
de loucuras desvairadas
como me deixar solta ao vento
para ser carregada por tais mãos
que me arrepiam
e os olhos que me saltam com brio

solidão do corpo na madrugada, assustado
acordado por sonhos sucessivos
em noites alternadas
por mãos, janelas, quartos
no escuro que revela
as vozes que escuto não sei de onde
as visões que chegam sem bater na porta
saltando em minha aorta a respiração pesada
da certeza de algo que me revela mais
do que a estrada passada

um sentimento que não basta ser doado

que, cheio de si e de sutis e longas doses,
me torna incapaz de compreensão
nestes tempos de metamorfose

é tão meu este império de sentidos inexatos
que de fato, guardo em mim, o seu cenário mais delirante

amar é mesmo um deserto

mas há que se resguardar do sol escaldante

A sedução da letra

a palavra
me seduz a todo instante
e insiste no torpor
da madrugada errante

corpo inflamado de amor
sigo obedecendo seu chamado

a palavra me alivia
os gritos dos sonhos sucessivos
e meus gestos de entrega, alados
o aperto do peito de lascívia
o desejo de um dia, a calmaria…

a palavra comunica meu afeto
e minha angústia
e com ferro e simpatia
vai tecendo, como linha,
o bordado do meu dia a dia

quisera tão somente a música…
mas é a palavra que dita minha física

minha palavra é beira e caminho
linha e linho

e, ríspida, tece a correnteza
da mais incerta das certezas

quisera tão somente
o silêncio da grande beleza…

mas a palavra é minha vida
e é nela que faço a minha lida

o inevitável

passou, o passado
e radicaliza sua falta de sentido
nesta hora

passou o passado

anunciou sua demora
e partiu

uma hora passa
uma hora se transforma em filme
que deixa marca
mas que não é mais que marca
porque se não gera esforço para lembrar as cenas
elas sequer são lembradas

o acontecido ficou lá
no tempo em que foi presente
e o presente é tão somente o presente

um dia fica tão distante
que deixa de existir no tempo
e se torna uma curiosidade afetiva

somos espectadores da nossa própria vida
o que importa é o que está sendo

passou o passado
e o que vem a partir de agora
é a excitante novidade

o novo que nem sei
e aquele que já brota
fruto de semente plantada sem querer
no rastro de uma gaivota