um abraço
desejo
recorrente na memória do corpo
seu corpo
misturado a dor
despedaçado
meu corpo
Autor: Vanessa Rocha
Artista multimídia, escritora e PhD em psicologia junguiana.
o porvir
Saudade do que ainda vou viver
De todos os lugares que vou conhecer
Ânsia do mundo
Da Índia, do Ártico
Da montanha que virá para contar segredos ancestrais
O além-mar de Portugal
O sorriso por compartilhar
O alto do infinito para gritar seu nome
Saudade sem fim do mar azul
Das estradas pelas quais passarão meus pés
Dos matos por pisar e causar afetos
De todos aqueles cheiros a sentir pelos mercados populares
E aquela gente toda estranha a sussurrar uma língua que não é sua
O suor do calor de deserto
O frio regado a vinho italiano
Outro a desafiar nossas barracas carregadas de sonhos
O mundo é todo meu mesmo não sendo
E deverá ser mais e mais
E cada vez mais
Nosso, do sonho de viver com asas
Até que a saudade não exista mais
Tal será o movimento como padrão da existência
para uma maldita visita
E você, o que quer de mim?
Do que acha que vai me privar chegando desse jeito?
Eu sei, você quer expurgar tudo o que precisa ser dito
e ainda não foi feito
Entendo
Por ora aceito
Mas fique pouco tempo
Senão vai ver o que é bom pra tosse
Estou a caminho do mundo inteiro
Os dados foram lançados
É hora apenas de dar uma passadinha
E tomar seu rumo pra outro lado
Estou com os cravos em punho pra te mandar pra lá
Se ainda quiser ficar
Teremos uma longa jornada pra te expulsar
Mas sim, será expulsa
E chegará o momento de falar
felicidade
Por um segundo quase fui feliz
Meus olhos passaram como um raio X a procurar
Procura como quem procura dor?
Ou procura amor, essa criatura errante?
Flanando pelo centro sujo, passando em frente às corporações
Entrando no banco porque lá há valor concreto…
Sabe apenas que procura
E a maldita espera lança seu olhar de víbora
– Aguarde, ela diz
– Tenha santa paciência
E me dê chá de alho que é melhor
– Senta e espera…
A maldita espera vem e encara
Não há nada a fazer
Senta e espera
Por um segundo quase fui feliz
E então eu soube
Que a felicidade acontece nos instantes
Por um segundo eu fui feliz
E no restante?
Aguardo…
Rede
cheiro de mar
me arrasta
sou rede
pesco o infinito
o desejo me deságua
sou peixe
que não se deixa pescar
Poema sensorial – ou da sensualidade universal
um suspiro
e eu derreto como relógio de dali
lentamente vem chegando com o ar quente
cheiro de musgo a tocar minhas narinas
como se fosse a mais bela das criaturas da natureza
e com que sensualidade a água bate na rocha
à beira da praia
em dia de profundo silêncio
esse que toca dentro de mim uma melodia doce
e um ritmo cruel
mesmo lá onde homens e mulheres ainda não estiveram
lá também o calor faz os corpos se tocarem
como calor quântico e multidimensional
sem o qual nem o cosmo nem a vida seriam possíveis
e que empresta sua bossa à valsa vascular
trazida ao ar pelo violoncelista
cujos dedos tocam as cordas
como se tocassem uma mulher de pele macia
brilhando ao sol, em dia de brisa e verão
ela, que com seus beijos não hesitaria em lançá-lo
àquele prazer profundo
que só as madrugadas permitem perceber
suave e intenso, o óbvio do mundo
como o odor do carvalho, o gosto do pão, o tanino da bebida
com seus dedos a desenhá-lo parte a parte
a deslizar sob as costas fortes e os cabelos densos
um presente sem fim e sem início
tal qual orvalho que, voluptuosamente,
escorrega pela folha ao amanhecer
e como bichos que são se amam ao sol
até que a chuva venha refrescar-lhes os corpos saciados
que poderão, então, se tornarem flor
brotar da terra molhada como fungo
e explodir em cor numa dança ao mistério do mundo
flor pólen da abelha
flor alimento do pássaro
que se deliciam e batem suas asas
para fazer valer o vento
e fazer valer a luz que a tudo penetra
essa insaciável luz que se deita à noite com o infinito
para gerar os filhos-estrelas, meteoros em colisão
choque de corpos celestes
a produzir o universo pelo tesão
lá onde a lua atiça os lobos
que uivam e copulam na floresta ardente
de pântanos quentes, cachoeiras volumosas
homens sem roupas que amam as árvores
rios que desejam ardentemente o mar
esse que reina soberano sobre a Terra
e que carregamos no DNA
casa de mamíferos libertos e seres
indecentemente coloridos
que mexe, revira, faz onda
e entra pelo nosso corpo
temperando nossa casca sensível carregada de pêlos
lambendo nossos pés na aspereza da areia
que tanto deseja nossos pés
estes que caminham
que já pequenos caminhavam
e lá dançavam com a sensualidade primeira dos humanos
e os devires sensuais todos do universo carregados em um só corpo
do verme, da lama, da folha, do bicho, da seiva, do rizoma,
da luz que cai atrás da montanha
livres
eternos
primitivos
atemporais
quando corpo era mente
e mente era desejo do corpo
e não havia o que pudesse ser negado
quando se tratava de alegria
naquele tempo sem tempo
a Terra celebrava a incrível simbiose de suas criações
e chorar não era venenoso para ela
tempo sem tempo que vive dentro de mim
onde, liberta da dor, posso estar sem necessidade de ar
sensualidade do tempo
esse, que nos seduz para o seu jogo
e torna tudo uma grande aventura dos sentidos
meditação sensória
nem apego, nem renúncia
corpo inteiro, sutil, físico, desejoso
um e diverso
Fogo que arde
eu vivo o inexplicável
e assim prefiro
entre porta copos de van gogh
e uma fantasia para o carnaval
eu concebo poesias como quem quer dar à luz
junto a isso, escrevo uma tese
e acordo sempre muito cedo
para ouvir o universo quando os homens se calam
e saudar o sol com meu corpo integrado
às vezes não durmo
e falo com as estrelas que um dia romancearei uma ideia
por vezes, é a música que me chama
e como recusar o convite?
quase sempre, é o mar
e as águas todas do mundo
que querem me levar para o fundo
pra eu poder voltar e contar como é
até que dá, Arnaldo, pra viver sem respirar um pouco
eu vivo para não ter que explicar
o que se sente é o que se sente
o que se vive é o que deveríamos ter vivido
o karma é presente constantemente tornado presente
natureza que escorre exuberante
mãe terra, mãe fértil do instante
instant karma
the love that we all need
una voz de cantautora de flamenco
informando a urgência do viver
fogo que arde, esse da vida
eu já perdi a noção…
A calma do mundo
uma praia
eu, você, o mar, todos nós
sol até se pôr
chuvinha fina no cair da noite
café, biscoito doce
rede para embalar os sonhos
sonhos para se tornarem reais
guitarras, pianos, enganos deixados de lado
cachorro dormindo, bem-te-vi no telhado
planta despertando com a água
água para diluir as dores
calma para as batalhas do mundo
lua, estrela, eternidade em um segundo
energia para as manhãs
suco de frutas, capim limão e pães
castanha para ter crocância
bicicleta para a consciência e a errância
amor em cada canto da casa
no jardim e no banheiro, flores
prancha na varanda desejando onda
menino na onda realizando a prancha
música para um fim de tarde
cigarras, incenso, vela de canela
cervejinha para brindar com amigos
yôga para brindar o corpo
sexo com suor e de verdade
chinelo pra descansar a ansiedade
hortelã, alecrim, manjericão
banana com mel, mel com limão
livros nas escadas abrindo caminhos
uma montanha vista da janela
bolo, vinho, azeite e cominho
tudo na despensa, revelações na adega
pic nic na grama com pai e mãe
irmãos de sangue e coração
vô e vó pra fazer cafuné
criança querendo saber o que é
lótus, fotos, vídeos
um tambor pra começar a dança
luz do próprio universo de dia
penumbra ao lado da cama
manta vermelha, vento lá fora
almofada, sono profundo
amor em cada canto do mundo
corações livres
filhos livres
amores livres
livres, os desejos
energias renovadas, recriadas, vividas
estradas
um barco
o céu
o infinito
e tudo é possível
—
BEM VINDO 2012!
o que houve?
saudade estranha do que não foi
da poesia que ficou suspensa
angústia das escolhas mal feitas
que permaneceram escolhas
e não foram alegrias
transbordamentos
o que se faz com eles?
o que se faz com a poesia
diante do concreto?
visão
Mora onde a santidade?
Essa que não tem rosto
De uma santa que brilha por cima
Dos templos tão outros dos antigos
Que já não sei para que existem
Santa?
Demônio?
Tanto faz
São a mesma coisa
O que nos faz tão diferentes?
O que nos faz tão iguais?
Porque o silêncio e a luz insistem em representar a divindade?
Eu poderia ser qualquer santo
Entidade, arquétipo
Que eu saiba não há graduação pra isso
Que eu saiba ainda não inventaram distintivo
Que marque a chegada do divino
Porque ele está em toda parte
Até no que chamam de pecado
Minha intuição cada vez falha menos
Nunca falhou
E quase não dei atenção
Porque de fato eu funciono como um alerta
E me surpreendo sempre porque acerto
Eu sei, sempre sei
A santa me falou
Me disse que ali era só eu mesma e nada mais
Ela foi o sinal
Mas quem no nosso mundo tão precário
Sabe ouvir o que não se escuta?
Eu?
Estou aprendendo.
Eu ouvi
