Oração

Que a poesia me livre 
Das suas prisões
E das minhas e das de todos nós
E me permita, ela,
Sempre a liberdade
Ainda que subjugada
Sob a bandeira da necessidade
Ou a sentimentos presos
Em gargantas ilhadas
E que minhas verdadeiras intenções
Não sejam reveladas 
A quem não merece conhecê-las
E meus desejos mais secretos
Sejam apenas meus e daqueles que escolho
Que o tesão se faça todo dia
Nas brechas dos momentos burocráticos
E através deles
E a ironia sorria para os que mentem a si mesmos
E fingem ser o que não é
De tal forma que se tornam caricaturas ao espelho
E que venham sonhos e nos libertem, todos
E sejam eles os meus guias
Nessa estrada de vidas que se querem poucas
Que minha face mais verdadeira
Seja dada aos momentos de fato sinceros
E as máscaras certas sejam usadas
Nas horas em que só cabe sobrevivermos
Que eu não tenha medo
E ele também não 
E ela também não
E nem eles, nem nós, 
Nem irmãos ou inimigos
E sejamos todos capazes
De ver que nada somos
Para além do nosso umbigo
Para que a poesia de ser nada
Se instaure nas raízes do coração selvagem
E faça brotar uma vida mais leve
Filha da mais profunda viagem

O primeiro dia

Todo dia é sempre
O primeiro dia
Do resto de nossas vidas

Dia de dizer palavras duras
Que já não podiam não ser ditas
E ouvi-las, algumas

De descobrir que o amor se fortalece
Mesmo quando a gente esquece
– Quando se deve esquecer –
E nos dias cinzentos dos afastamentos
Que carregam a esperança
Dos novos e futuros felizes momentos

Todo dia é dia de saber
Que existe amor no sim
Mas também no não
E que não e sim
São como luz e escuridão

Todo dia é dia de jogar coisas fora
Aquelas cartas de anos atrás
Que estavam empilhadas em pastas
Por sua vez empilhadas em armários
Por sua vez empilhados – pesados –
Num excesso de memória

Dia de descobrir que elas
Não servem mais a nada
Que não à história
E é só no coração o seu lugar

Para que guardar tanto objeto
Em um mundo já repleto?
E porque represar energia
Quando deve o novo chegar?
Se o se que passou só existe
Como lembrança e aprendizado
– às vezes como o inventado –
E nem existe ainda o que virá

Sejamos poetas do agora!
Porque todo dia amanhece
Anoitece e retorna a aurora
Sempre na promessa do novo
Sempre na função de um espia
Olhando em direção ao horizonte do mar
Com olhos de quem busca a infinita alegria

Porque todo dia é de basta
Todo dia é de festa
Todo dia é de não dá mais
Todo dia é de promessa
Todo dia é do fim delas
Todo dia é de um santo
Todo dia é de engano
Todo dia é dia de dizer eu te amo!

E de aceitar
O que não se controla
O que não se isola
E deixar voar os pássaros
Que precisam sair das gaiolas

Todo dia é dia de enfrentar
O medo do suspiro derradeiro

E seja ele banhado de paz ou de dor
É sempre o primeiro

Astrolábio

Partiu mais um barco

Levou pro sem rumo da vida
Os barris de rum vazios
Quinquilharias que já não
Faziam sentido

Roupas velhas,
Papagaios mortos
E todas as cartas de um baú
Já carcomido
Onde a craca dos mariscos
Longe d’água
Começou a dar mau cheiro

Partiu mais um barco
E, em mim,
Partiu-se ao meio

Mas eu, pirata que sou,
Roubei outro para mim!

Meu sonho
Nunca é um barco abandonado
Pois é fiel ao destino
De não ficar ancorado
No mínimo,
Somos uma família de exilados
Meus sonhos, o sol, os peixes
E os pássaros
Conversando todas as manhãs
Sob um convés alado

E o que dizer do espelho?
Quando olho pro mar
E me reconheço
Sei que antes

De amar qualquer coisa

Devo sempre
Amar meu próprio zelo

No mais,
Entre uma solidão e outra
Encho os barris
E convoco a artilharia

Agora, ando apenas
Com artilharia pesada
E não há mais desejo em mim
Que passe fome
Pois a arma
Mais forte que encontrei

Foi dar ao barco
O meu próprio nome

Então, carregado o barco
De rum e pólvora de qualidade
Faço festas
E convido outros piratas

Nessas horas,
Abandonado é o coração
De quem não se permite navegar
Meu barco não!

Esse é forte, seguro,
Aguenta as tempestades

Sem renegar

Porque sem elas,
Ele não pode provar
Que é o melhor barco

Que já existiu!

Capaz até mesmo
De suportar a farra
Dos marinheiros que invadem,
Sem convite, o festejo,
Enchem o barco de música e beijo
E, depois,
O acham demasiado

É nesta hora

Que me torno meu próprio

Astrolábio
E me mantenho
Rumo às estrelas
Do mundo desejado

Partiu mais um barco
Roubei outro para mim
E o mar é um círculo

Mas tudo depende

Se paralelas se cruzam no infinito

Liberdade

Perder o que nunca foi seu
Não é perder
Nascemos sem nada
Morreremos igual

E sozinhos

E isto é liberdade

Uma vida humana
Só sabe ela mesma
O resto é sensação
E memória do outro

Então, para que preocupar-se
Com frivolidades?
E porque ter medo?

Estamos aqui para ser!
E o que restará de nós
Ainda será do mundo
(Mas nunca nosso)

E o mundo fará reverências
A quem o deixar regalos

Só construímos verdadeiramente algo
Quando não nos apegamos
Ao que estamos construindo
Mas o deixamos pertencer à vida
Sujeito, assim, às intempéries do tempo

Para ser inteiro
É preciso entregar

Pois deixar um rastro,
Filhos, livros,
Música, a ciência,
Tudo isso é legado apenas
Quando não se trata de vaidade

Não temos nada
Entendendo isso
Podemos tudo

Ao fim de cada rumo
Chega um novo
Súbito vem a primavera
E o que mais importa
Que a liberdade de ter tudo sem ter nada?
De florescer sabendo que mais tarde
O inverno levará as cores…
De pisar como bicho no ciúme, na raiva,
E nos destroços das paixões malditas
Para deixar florescer as bem quistas

As que nos dão potência
As que não aprisionam
As que fazem verão
As que permitem o outono

Não há lei maior
Que a lei da própria vontade
Porque todo ser que é humano
Só segue regras sociais
Por medo, prisão ou necessidade

A vontade é a vida!
Sempre dupla, em si mesma,
E infinita

Única regra que, por fim, dita

A alma humana é livre por natureza!

Todo o resto é somente convenção
E toda convenção
Só pode ser seguida, de fato,
Por tolos
Ou por eles formulada

Os livres escapam

Negociam, mas escapam
Estão nela, mas escapam
Podem até beijá-la…
Podem até ser por ela escravizados…
Mas escapam!
E se reconhecem uns aos outros

Sabendo que regra nenhuma vale
Além daquela da coragem
De olhar a si mesmo para ser
Mundo

Pois títulos não valem nada,
Mas as honras das batalhas!
E conselhos nada legislam
Que não suas próprias pequenezas
Construídas, letra a letra,
Por medo da incerteza

Mas quem disse que a vida é certa?
Quem disse que é a moral que nos regula?
Pergunte aos hormônios
Pergunte a lua
Pergunte ao coração que pulsa
À razão que analisa
À meditação, que silencia
Para abrir a verdadeira escuta

Nascemos sem nada
E morreremos igual
O que fazer neste tempo
Se não realizar em nós
E em nossas obras
O objetivo antitético da vida
Qual seja:
Permanecer se transformando

Por isso, obedecer
Apenas aos desígnios
Da missão que viemos ter
E missão se sabe
E exige coragem
Pois não se brinca
Com a liberdade

Esta pede disciplina
Controle do próprio tempo
Para que não o controle
Mais nada
Instituição
Moral
Legislação
Tudo isso é tão contra a vida
Que nos cabe rir e dançar

Se às coisas que criamos
Não déssemos caráter de eterno
Ou a gravidade do sério –
como alguém que franze as sobrancelhas
para dar bom dia –
Não precisaríamos nos esforçar tanto
Para sermos livres

É preciso sempre lembrar:
A voz que importa é a do silêncio
E não a do legislador
E mestra é a solidão
Para que tenhamos relações livres e potentes
Porque só assim são reais
Sem medo da morte delas mesmas
Concretas na sua incompreensão
E sábias em sua insegurança

E se houver servidão ou apego
Que sejam conscientes
E sejam voluntários
E não se cobre reciprocidade
Como juros de um cartão
E que seja por amor!
Porque não há motivo maior que este –
A resposta para todas as perguntas

Amor antes de tudo à vida e a si
Pois é preciso ser egoísta
Para ser coletivo, do outro e generoso

O verdadeiro egocêntrico
Não é o egoísta
– o que busca olhar-se ao espelho –
Não é o que luta por si
Mas o que luta em nome do outro
Seja egoísta
Não seja herói
Lute pela vida
E não por “algo maior”

Não existe algo maior
A não ser na construção diária
Do desejo compartilhado
Esta é a força real dos encontros
E não a condução por códigos
Juridicamente – ou moralmente – assinados

E se existe um rei a quem servir
Ele está dentro!
Se existe um Deus
Ele vive como eu vivo!
Porque se não nos reconhecemos
Deuses e reis diante do espelho
Jamais seremos capazes de sermos
Servos da vontade – a única justa servidão –
De realizarmos a vida em potência e comunhão
Lembrando ainda que se não soubermos
A verdadeira função de um deus e de um rei
Cometeremos atrocidades
E, o que é pior,
Em nome da liberdade

Deuses e reis
Não deveriam existir que não para servir
O rei que não serve ao seu povo
Assim como o deus que não serve ao seu
Não podem assim ser chamados

Lembremos novamente
Que o egocêntrico
É o que fala pelo outro
E não por si
Quando falamos apenas por nós mesmos
Somos a voz do universo
Porque ele, inteiro,
Reside dentro de nós
– e fala através da gente –
Falar pelo outro
É escravizá-lo
E não reconhecê-lo como igual

Pois a única servidão que vale:
A que é liberdade!
E liberdade, uma vez conquistada,
Não se vende nem se dá a escambos

Compartilha-se e torna-se o caminho!

Boa parte da dor e do sofrimento
Provém da especulação
E não do concreto
Se a mente cria o medo
É a mente que liberta
E nos revela Deus dentro de nós

E se a vida é uma eterna
Roda da fortuna
Melhor mesmo é olhar para dentro
Porque o centro nunca gira

Estar seguro é estar consigo
O resto é dúvida

Então, para que o medo?
Viva tudo o que tiver para viver!
E pergunte a si mesmo:
Qual é o meu centro?

Nascemos sem nada
E morreremos igual
Ao entendermos isto
Passamos a ter tudo!

Trinta e cinco

Blackbird… You were only waiting for this moment to arise

Era tarde e chovia
Como de praxe na revolução do meu sol.
Para criar arco-íris, é fato!
Pois não aceito nada menos que isso: cores!
Meu coração de filha do quase inverno
Inflou de alegria! Fechei os olhos para sentir
O fino da chuva no meu rosto
– Eu estava sentada no sofá do quintal,
Observava as bandeiras do Nepal,
Que me presentearam um dia,
Penduradas, voltadas para o vento,
Carregadas de prece –
Pensei: Sidarta iluminou-se aos trinta e cinco!
Trinta e cinco…
E tanto ainda por viver!
Ainda virão novos sonhos no planeta
E novas florestas serão devastadas
Virão fatos, guerras, dores,
Janelas novas, novos ares,
Cachorro correndo no jardim, outras músicas, outras paisagens
Virá o dinheiro! – Ao menos acredito nisso…
(E se eu não acreditar, ninguém, por mim, o fará)
E virão os filhos! E os livros repletos das pequenas verdades
Sim! Virão as crianças um dia
E as novas poesias
E o amor, finalmente, será
Forma de sonho compartilhado
Transformado em casa construída a maneira que se queira
Calcada em alicerces que se movem, é certo, mas alicerçam
Porque segurança é a maior das ilusões humanas
Porém, tudo resiste ao amor! Aprendi aos trinta e cinco!
Entre uma simples mortal de trinta e cinco anos e Buda
Há algo em comum: sabemos que a vida é transitória!
Mas também sabemos que há aquilo que fica.
Nos próximos trinta e cinco anos, as cidades se transformarão,
Os filhos, meus e seus, nascerão e crescerão
Haverá centenas de novas estradas, carros
Indo e vindo, o sol todo dia irá nascer e se pôr
Mesmo que os homens insistam em esquecer sua humanidade
E quem sabe até lá já não saberemos mais da dobra do universo
Nos próximos trinta e cinco anos…
Mas no meio de tudo isso, como deve ser,
Permanecerão os amigos.
Amigo é que é presente de aniversário!
Se eu contasse os últimos anos e toda a amizade perdida…
Mas na minha solidão lapidei o meu desejo
E ganhei o inesperado
Ficaram os que deveriam ter ficado
Nestes trinta e cinco…
E vieram os novos, radiantes, para iluminar ainda mais o meu cenário
Chegaram trazendo flores coloridas, violino, contrabaixo,
Fotografia, viola, violoncelo, prosecco importado!
Vejam só…
Vieram devidamente trajados!
Juntaram com os produtores, os outros fazedores de arte,
Os locutores, os bailarinos, os insaciáveis
E vieram ainda com um cravo pra o barroco nunca mais sair da minha vida!
Porque me embriago mesmo é com três coisas
– Engana-se vc se acha que é com álcool –
É com palavra, sexo e Vivaldi!
E criaram, todos eles, juntos, os novos e os antigos,
Uma festa nas terras férteis do meu coração
Onde planto as melhores uvas de palavras e afetos
Para colher os vinhos dos amigos certos.
Fizeram lavoura: remexeram na memória
Juntaram o novo com a história
E o que se produziu foi um vinho único de safra nova!
Carrego comigo hoje um livro em branco
Pronto para os próximos trinta e cinco anos
Penso que daqui há um ano, já haverá algumas páginas escritas
E quero eu poder dizer aos trinta e seis:
Era uma vez uma vida que se permitiu ser o máximo que ela podia ser!
Mas dirá o cético: trinta e cinco e o que foi que vc fez?
Duvido ter feito algo que preste…
Eu, como boa oradora que gosta de desafiar, direi:
Ah, eu fiz foi muito!
Mas como boa geminiana, obviamente queria ter feito mais!
Porém, descobri que o insaciável é algo que também transita
Na roda da fortuna da vida
E que é possível estar em paz ao variar no mesmo tema.
As variações são sempre infinitas!
E que no ir e vir de um dia estar no alto e no outro no abismo
Só o que não gira é o centro
Descobri que é no coração que a natureza persiste.
Em meio a todo o ir e vir das belezas e das incertezas
Se tudo gira, o que fica é amor!
Aquele amor incondicional pela vida que pulsa na gente
Para que amemos também o outro incondicionalmente
Com as nossas mazelas, perdas, tristezas
E nos estranhos momentos de certeza.
Aquele amor que amigo sabe que existe
E que vem com a sabedoria da idade,
– muito embora, ela só vem se a gente se abre.
Não nos enganemos!
Descobri aos trinta e cinco
Que mais feio que enganar o outro
É enganar a si mesmo
Deveríamos ouvir mais os poetas
Faz tempo já disseram que viver não é nada preciso
Precisão é coisa de astrolábio e da matemática
A música é precisa! A vida não…
Trinta e cinco…
E penso no cético! Ele poderia estar certo
O que fizemos até aqui? O que deixei de viver até aqui?
O tempo é matéria que transforma tudo
Não perdoa, tanto quanto traz o perdão
E, de repente, quando me dou conta dele
E observo a chuva, as bandeiras do Nepal,
Penso no Buda, medito, encho uma taça.
Quando me dou conta dele e penso no sorriso dos que amo
E nos seus choros, medos, traumas, desejos
Aperta-me a alma saber que os próximos trinta e cinco
Passarão como um cometa
E é nessas horas que melhor que ouvir Bach
É lembrar aquela velha canção da adolescência:
“Hoje, o tempo voa, amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir que não há tempo que volte…
Vamos viver tudo o que há pra viver!
Vamos nos permitir!”
Porque, de repente, estaremos eu, você, toda a humanidade
Sentados no sofá do fim da vida
E não queremos pensar no que nossos medos impediram,
No que a nossa falta de coragem matou da poesia.
O caminho do risco é sempre o caminho mais bonito
Não se conhece o ouro sem passar pela alquimia!
Aprendi isso aos trinta e cinco!
Idade em que Sidarta descobriu que Deus existe mesmo
É dentro de cada um de nós!
Começo um novo ciclo.
Vem vindo uma revolução e ela é solar!
E é tão cheia de amigos e descobertas
Que eu poderia dizer que sou hoje a pessoa mais rica desse mundo.
Quiçá do universo inteiro!
Já que riqueza de verdade existe mesmo é na amizade
E naquela sensação de olhar no espelho e dizer: é, eu gosto do que eu vejo!

Trinta e cinco
Nem mais nem menos
O meio

O meio do infinito!

Escrito entre 17 e 19 de junho de 2015

Rio 450 gestos

Tens um gesto que se desdobra:
Aquele que reconheço no espanto!
Não soltas, nem amarras
Encantas e provocas medo
Mas presa ao medo e ao leme
Tens sorriso curtido de malandro
Sambas o romantismo do tempo dos poetas
E a alvorada dourada da Baía de Guanabara
Corres…
Fugidia e fugindo no lamento
De veias mal tratadas
Mas, ah, és o Rio!
Dos tantos que dormem matutinos pelos trilhos da Central
E aquele do bonde de outrora que atravessa
As minhas saudades mais bonitas de pôr do sol
Trilhos que levam às salas e às senzalas
E tua força reside é nesta gente que escapa
Nos meninos que correm descalços jogando futebol
Nos que deslizam nas ondas
Nas moças de beleza eternizada em música
Que sabem que são mais que uma beleza carimbada
O Rio é de muitas caras e “maracas”!
E, porque não, do terno e da gravata
E dos sinais que atravessam a Presidente Vargas
Mas como choras…
O choro vermelho de almas tão novas
Deveriam ser anjos,
Tão somente crianças a brincar nas tuas areias –
Choras ainda o choro alegre ao qual Villa fez sua reverência
E toda noite um bar também a faz.
Até Madureira chorou!
E tu, Rio, choras em cascatas por tua urbana floresta
E suas quente, cidade sem pudor
Sob o sol dos hoje mais de 40 graus diante de tanto motor
– O Rio 40 graus ficou no século XX e hoje tu ferves uma euforia nova –
E amas! Como tu amas, urbe desordenada!
Num aglomerado de corpos que dançam e passeiam quase nus,
Ainda que vestidos, travestidos e luminosos
A desafiar tuas vizinhas econômicas sem praia
Já disseram que és caos e beleza
E que continuavas linda com o barquinho a deslizar
Mas que hoje só o porto é maravilha.
Porém, vê bem, atenta-te!
Como um rio de amor sobre as avenidas
Que partiram uma cidade arquitetada na loucura,
Até que te saíste bem, por não saber quem te pariu
Foi Dom João quem fez?
Pedro quem fez?
O negro da Praça XI, o cigano perdido,
Um Pereira de passos dúbios e compridos…
Que importa quem te fez
Se é a tua natureza anterior a qualquer Debret
Que se impõe magistral sob os arcos da Lapa
E os navios que todos os dias invadem tuas águas.
Se são as tuas montanhas rindo
Ao pé de quem passa, dizendo:
“Aqui quem manda sou eu!”
Muito embora a deliciosa arrogância carioca
Suavize todo esse esplendor em seres a terra de São Sebastião
Minha alma canta
Estou hoje a celebrar que, Rio, és um rio
Tudo que por ti passa nunca sai o mesmo
Onde toda a dor que se sente
Alivia-se no baile ou nos braços do Redentor
E tem o horizonte do mar para desaguar
(Marinheiro, marinheiro,
Chega ao Rio e logo aprende a nadar…)
Peço licença e paz, com voz
A voz do morro e a do asfalto –
Para o maravilhoso gesto
Do espanto abre-alas
A traduzir arranhas-céus e favelas
Em mistura de funk, samba, bachiana e carnaval!
Para que eu toque então, para ti, Rio de Janeiro
Uma canção de amor
No Theatro Municipal!

Rio de Janeiro, março de 2015.
Escrita para concerto da orquestra Johann Sebastian Rio no dia 17 de maio de 2015, com performance de Márcio Sanchez sob o Prelúdio da Bachiana Brasileira nº 4, de Villa-Lobos.

Lar

Nunca ser de nada
Ou de nenhum lugar
Que não seja si mesmo
Nenhuma cidade, nenhum país
Ou território além do corpo
Sem medo de ir ou de ficar
E viver na liberdade
De poder criar raízes
Onde o amor brotar

máquina

uma poetisa que assim se nega,
embora seja tão dona das palavras,
então me disse:
encare o coração como uma máquina!
se ele não está funcionando direito
é porque está sobrando ou faltando alguma peça
lembre-se do nosso engenheiro sensacionista

e a ele dedico a minha prece:
ó grande senhor da poesia,
amado mestre,
que ama os navios e as engrenagens
porque eles funcionam,
conceda-me, mestre, a dádiva de também amar assim,
apenas aquilo que funciona como tem que funcionar,
porque hoje, que se dane a poesia, o abraço
e a chuva que cai lá fora pedindo aquele corpo do meu lado.
eu morreria mesmo é triturada por um motor
e não por sua rima

arte de viver

era um delírio quente
que me ardia a madrugada
de seiva bruta açucarada

escorria na água do chuveiro
como engrenagem tátil
encaixada no corpo retrátil
da celulose que se tramava
para escrever um novo livro

a tinta era de vinho
e diziam, tinha até sangue,
aquele cheiro tórrido da última noite de verão…
tinha alfazema e lírio
tinha o delírio do suco de desejo enrolado no edredom
e o ar frio que já começa a querer deixar seu rastro
e aproximar os corpos

e era mórbido…
porque havia morte também
e nascia um elemento estranho
como que fazendo graça na minha frente
pra dizer: esquece
faz tempo a tua aurora tem mais coragem
que a coragem vazia de quem ama as tempestades
apenas nas pinturas das paredes

a arte é pra quem vive

Meu mar português

Disseram-me em poesia
Que já sei o suficiente para não resolver
E que tenho o cronograma perfeito para o plano não traçado
Com o conselho amigo de navegar no barco dos meus sonhos
Abaixo, ao mar…
E deixar no alto o que é para estar no alto e lá morrer
Como luz de farol
Lugar que não faz parte do real
Apenas guia
E eu que me achava mergulhadora sábia…
Hoje cometo o excesso de me afogar num mar imprevisível
Eu não sabia era nada do fundo das águas
Eu não sabia era nada sobre a forma do desconhecido
Essa maleabilidade do amor líquido
Tantos anos a treinar meus pulmões
Para, na descida ao abismo, descobrir
Que ele é muito mais escuro que eu supunha
E que a água é muito mais fria
E tudo é tão lento e largo
Que o ar não cessa
Ele silencia
Dizem que mergulhar fundo traz sabedoria
Eu rio sempre dos axiomas tortos que derramam
As bocas que não conseguem ficar quietas

Mergulhar fundo asfixia
Mas depois que o ar se acalma nos pulmões exaustos
Não é sabedoria o que encontramos
Encontramos a nós mesmos no abismo
Como aforismo nietzschiano
Meu mar salgado é mistura de lágrima e suor
E já faz tempo me lancei além do Bojador
Mas não fui só, que só seria morte certa
Carreguei comigo as correntes burocráticas
Desejadas por lucidez – nos agarramos a tudo pela sensatez
E vesti uma roupa nova, de espessura mais grossa
Porque eu sabia que a descida não seria passageira
E agora?
Dizem que vale a pena
Se a alma não é pequena
Por isso eu sigo navegando e mergulhando
Pois meu mar português ainda tem muito a me ensinar
Como eu tenho a ensinar a ele como navegante
Ele vem com a onda, eu venho com o leme
Ele vem com a calmaria, eu deito no convés
À noite, repleta de estrelas, eu grito “eu te amo”
Ao dia de tempestade, eu danço
Às vezes, quando iço a vela
Ele faz que não tem vento
Mas depois, chega com brisa e toca o barco
Para o necessário momento
Tem dias que olho para o horizonte
E lhe desafio a acordar Netuno
E seguimos assim, no cronograma incerto do futuro
Onde noivas ficarão sempre por casar
E mães deverão chorar
É sua sina!
Um filho já nasceu e a reza é vã
Sua estrada é luminosa
Mas entregue aos desígnios do acaso
Deus joga dados o tempo inteiro
Mas é preciso reconhecer:
No mar, ao espelhar o céu,
Foi certeiro!