Como se

é como se sobrasse em mim uma fresta
e ela pudesse reter, no ar, o não dito

há que se sentir o ar que embriaga os pulmões!

é como se faltasse em mim
alguma coisa ainda…
e o vazio não fosse mais que uma intenção

alguns dias de solidão
e tudo ganha novo colorido

meio mês e nada faz sentido

e meu tato procura, cheio,
as peças perdidas no passado recente
que, por si próprias, semearam meu jardim

aquelas folhas que entraram pela janela, ao vento,
procuram por aquele cheiro

pelas portas que se abriram
e as luzes que descortinaram túneis

fez-se brusca a passagem

é que enovelei tanto…

é que tudo, naquele agora,
que nem foi há tanto,
foi verdade

alguns dias de solidão
e nem mesmo a saudade

o que se passa?

cabelo a procurar a tempestade…
a desejar o dia que chegará
e que, sequer, sei o que será

perder toda a luz
não se pode

não se pode, lançada tão de cara
a tanta falta de sentido
perder o dia em que todo ele
existiu, inteiro, nas mãos que tocaram as minhas

e numa corrente iluminada
a vibrar a vida nova
que bateu na porta

ampliada
carregada de placenta

vida que destroça a aorta

mas, fez a vida, tão bonita,
a loucura de deixar nascer
aquilo que, quando nasce,
muda, para sempre,
a si mesma

e a porta, aberta,
convidou a aorta
para a festa

poema do sutil

não!
não falarei do óbvio
este é um poema do sutil

este é um poema da escuta
que vê além das palavras surdas
e lê nas entrelinhas

este é um poema
que sabe

um poema
da intuição

não!
não falarei do óbvio
pois nada em ti é óbvio
a medida que carregas
no corpo a marca pulsante
da crueldade da existência

tudo em ti é sentido
e nada em ti foi naufrágio

pelo contrário

por isso
este não é um poema bandido

ele sabe o que é
tão claramente
que já vê a flor
quando olha pra semente

A poção infinita

chore amiga,
chore

que a tua dor é a dor de todos nós!

chore toda essa dor
que corrói as tuas vísceras
e debulhe cada pedaço do sonho que se foi

chore!
pois se choras no agora
tão rápido se vai a dor
para mais rápido voltar o amor

é que o mundo é uma curva

um dia, o que procuras,
novamente te encontrará

chore e esgote as lágrimas
elas passarão, e você, passarinho

e construa, só, o seu próprio ninho

o amor se torna ainda maior
quando é de nós mesmos
que cuidamos primeiro

chore
e deixe que a tua dor
espalhe pelo mundo
como vale a pena o amor

pois tudo vale a pena, pequena
tua alma é tão grande!

e tuas lágrimas são férteis
carregadas da potência
do que não mais pode ser
porque será outra coisa um dia

mais certa…
quem sabe, mais inteira

o amor sempre retorna
com o seu cheiro de flor de laranjeira

um dia, como quem não quer nada,
você abrirá a porta
e lá estará…

o inesperado!

chore

e se fortaleça!

a força da nossa solidão
é mais forte que qualquer
certeza alheia

chore amiga!
e depois esqueça

o mundo é grande
e sempre caberá
no breve espaço do beijar

pois desde Tristão e Isolda
todo dia é a mesma coisa

em cada canto do planeta
um amor termina
e em todo ele, também,
novas almas compõem novas rimas

e renovam o amor!

chore
e depois dance…

como bailarina!

réquiem

jamais
houve
metamorfose
maior
que esta
nem silêncio
tão doloroso
desses
de nascer
o novo
revirando
o próprio
poço
jamais
a vida
gritou
tão alto
dentro
do meu
corpo
alto,
tanto,
que sou
incapaz
de escuta
e deixo
que se derrame
todo
o pranto
sinto
é rasgo
no estômago
e o coração
pulsando
em cada
veia
desfazendo
toda
e qualquer teia
transformando
em cacos
os laços
para renascê-los
borboletas
sinto
é que rasguei
agora
a placenta
e ando
testando
a carga
nos fios
da solidão
para saber
até onde
aguenta
sei que não mais
haverá drama
estou farta
jamais
houve
metamorfose
mais rara
nem silêncio
tão precioso
desses
de celebrar
o novo
refazendo
o próprio

poço

feliz-cidade

estranha palavra
felicidade (tente soletrá-la)
que só o tempo
(para alguns?)
é capaz de fazer
b r o t a R
não posso dizer
que hoje sei
dessa tal
F-E-L-I-C-I-D-A-D-E
uma curiosa cidade
difícil de habitar
tão                                                      distante…
não se costuma chegar lá
(estrada looo o o   o   oo  o n g a
e acidentada)
mas algo, em mim, FALA
e algo em mim

é capaz, hoje, de escutar!

não sei se isto significa
que, finalmente,
depois de tanto espanto
eu descobri o que é
AMAR!
algumas palavras
anunciam na placa: perigo!
mas se sequer me importo
 – visto a novidade que é a falta do espanto – 
então, talvez,
SEJA!
perigo só é perigo
quando a gente, assim
                                               deseja… (perigo!)
porque autômatos
repetimos o que já
sabemos,

pois VEJA

perigo só é perigo
quando não há chance
de tudo ser
diferente
e HOJE eu sei
(EU SEI!)
há alguma coisa em mim que nunca houve…
(guarde isto!)
e um silêncio muito longo
parece pairar sobre o meu sono

(pausa)

talvez seja um
AMOR MAIOR
pela vida que é tão GRANDE
um soneto ainda a ser escrito
mas já esboçado no corpo
onde mal cabe tudo o que

sinto (sintosintosintosintosintosintosinto…)

e talvez seja a descoberta
dessa tal feliz-cidade
não sem DOR
é verdade (perigo?)
a dor
que
                               e s c o r r eeeeeee…
de se olhar no espelho
não
sem
dor
nunca
s e m…
desvelamento do véu de Maya

amém!

então, posso dizer
que FELIZ
ESTOU
e o que brotou dentro de mim
É MAIS

MAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIISSSSSSSSSSSSSSSS

muito mais

do que EU poderia

supor

filme de Almodóvar

chove
e me atravessa um cheiro de café
entonteço…

acendem um cigarro
e o cheiro do café e o trago
me trazem a lembrança daquela viagem

entonteço…

trabalho…
e eu quase poderia ser uma mulher
à beira de um ataque de nervos

chove
tenho fome e penso o óbvio

estou cansada
trabalho, ensaio,
entonteço…

queria a carne trêmula
a desvendar a flor do meu segredo

o cheiro do café…
a chuva
a memória

nenhum desespero
mas todo o desejo
entonteço…

trabalho
o cheiro do café
o cheiro do cigarro

está cinza
o vento é frio
por hoje chega
necessito um vermelho

é que chega uma hora
em que o corpo desaba
e a pele que habito pede um basta

tenho fome…

paro e desato
penso o óbvio

abrir um vinho
fazer um macarrão

e no labirinto da minha paixão
me esquecer a ver um filme de Almodóvar

entonteço…

cartas

relendo as cartas que escrevi pra ti
faz tempo

era vento que soprava leve
a angústia dos meus sentidos

aquela luz ecoava tempo incerto
que se foi e, perdido, não é mais
que palavra eternizada no papel

meu véu já não esconde mais teu rosto

foi-se o tempo
em que eu era tua aurora

sou, em tempo,
uma nova espécie de agora

o vento do tempo

faz pouco tempo
um vento, carregando o futuro,
entrou pelo meu quarto

era um vento forte
que fez voar as fotos
e carregava a sorte

vinha de longe
muito mais longe
que do mar e da montanha

vinha do tempo e de suas entranhas

vinha do tempo,
o vento,
do que se anuncia
e já, tão meu,
me enche de alegria

faz pouco tempo,
um vento entrou pelo meu quarto
e, no meu ouvido,
sem tempo,
sussurrou o seu rastro

Àquela que se perdeu

basta
todo jogo pálido
toda cena estúpida

chega desse jogo barato

pareces não saber mais
como se vive…

mostra a cara limpa
e deixe tudo claro

isso é raro?

cansada de toda farsa esquálida
escarro no teu rosto inválido
a fome de viver

escarro em tua alma morta
que esqueceu o que é paixão
o meu tesão bandido em viver

que triste tu és
alma pequena
que sequer consegue
murmurar desejos

tu
que teces fios sórdidos

pensas que não vejo!?

estou de olho na forma como costuras
e tenho pena de ti

tu que sofres e sequer se olhas
tu que levaste da vida porrada ácida agora
e nem assim

tenho pena de ti

mas esqueço
porque não tens por si
mais nenhum apreço

e grande é meu desejo
de sair por esse mundo
a alimentar música, poesia
e o beijo mais doce e quente
que já conheci um dia

sabe quando um homem te arrepia?
acho que tu já esqueceste…

talvez haja tempo
que ninguém lhe beije

tenho pena de ti
e digo

a paixão dá sentido

se esqueceste de si mesma
nada mais posso fazer
que ignorar-te

e viver a plenitude da mulher selvagem

porque sou mulher apaixonada
pessoa inflamada de arte
que olha com desprezo o teu mundo burocrata

se ninguém mais te beija
nada posso fazer que prestar-lhe
o meu pesar

mas falo da verdade do beijar

quem se esqueceu
também atrai quem já morreu

nada mais posso fazer
a não ser
desejar-lhe
sem remorso
que seu coração se acalme
e adoce sua alma disforme
para que um dia
possas ter também
a sorte
de ter o beijo do homem
que te refaz da morte

pois, de tão certo,
resignifica teu sexo
e, jubiloso,
sagrado o faz

não entendes o que digo?
muito sinto

pena não te ver
fazer valer o instinto

quem se perde de si
perde tudo

empobrece o mundo com o medo
e apequena a humanidade

tanto esforço inútil
por receio
da liberdade