Blog

A sedução da letra

a palavra
me seduz a todo instante
e insiste no torpor
da madrugada errante

corpo inflamado de amor
sigo obedecendo seu chamado

a palavra me alivia
os gritos dos sonhos sucessivos
e meus gestos de entrega, alados
o aperto do peito de lascívia
o desejo de um dia, a calmaria…

a palavra comunica meu afeto
e minha angústia
e com ferro e simpatia
vai tecendo, como linha,
o bordado do meu dia a dia

quisera tão somente a música…
mas é a palavra que dita minha física

minha palavra é beira e caminho
linha e linho

e, ríspida, tece a correnteza
da mais incerta das certezas

quisera tão somente
o silêncio da grande beleza…

mas a palavra é minha vida
e é nela que faço a minha lida

Entre medianeras e amores líquidos, é carnaval!

É noite de domingo. Um domingo de carnaval e Oscar. Resolvi escrever sobre relacionamentos. Nada a ver? Tudo a ver! É um bom tema para o carnaval. E também para o cinema. De fato, este é um bom tema para um texto a qualquer hora. Garante leitores e boas tiradas! Mas, diria uma amiga ligada nos 220 volts: nada a ver é escrever no carnaval…
Brincadeiras a parte, a vontade de escrever esse texto surgiu quando eu estava assistindo ao filme Medianeras, há algumas horas atrás. E, claro, juntou-se à importância que tem essa palavrinha na vida de todo mundo, inclusive na minha, e que sempre tira o sono da galera: relacionamentos!
Desde que o filme foi lançado no cinema eu quis assisti-lo. Mas as oportunidades não apareceram. Até hoje, quando liguei minha smartv, acessei o tal do Netflix e lá estava o filme entre as sugestões. E veio muito bem a calhar. Permita-me um prelúdio: na sexta-feira, decidida a não querer ver carnaval na minha frente, eu arrumei uma mala e parti para Niterói, disposta a ir ao Rio apenas em um dia deste carnaval, e para um único motivo somente. Nesta mesma sexta, a noite, tive uma crise nervosa e não parava de tossir. Graças a uma irmã que estuda acupuntura, dormi em paz e acordei outra pessoa. Isto não é muito difícil de acontecer em se tratando desta que vos escreve, mas eu acordei – pasmem – com vontade de brincar o carnaval! Então, ontem à noite, peguei a mala que mal desfiz e voltei para o Rio, enfrentando um engarrafamento enorme e levando algumas horas para chegar em casa. Meus amigos sempre me dizem: só você, Vanessa! Quantas vezes já cheguei em festas e quis voltar… Quantas vezes eu já disse “não vou” e logo depois eu mudei de ideia. Penso: isto é péssimo quando se tem um relacionamento. Ou não! Diria um amigo: até que se encontre alguém como você. Digo eu para ele: desde que esta pessoa entenda que o mesmo direito dela é direito do outro. E por aí vai… Realmente, relacionar-se não é nada fácil. Mas quem foi que disse que a vida é fácil, certo? A vida é a vida. Somos o que somos. E para tornar tudo mais leve e fácil, primeiro a gente deveria se aceitar um pouco mais e, depois, aprender a ser menos dono do outro. Fora a carência, ansiedade etc etc etc etc. Só que tudo isto é vida, e eu poderia parar esse texto por aqui. Mas vamos lá, posso fazer melhor, eu acho…
De volta ao Rio de Janeiro, sendo motivo de piada de todos os amigos que não acreditaram que eu ia fugir do carnaval (isso porque não tive carnaval a maior parte da minha vida, mas a memória das pessoas é sempre curta… desculpem amigos, sofro do mal de ser sincera…), eu tive que improvisar uma fantasia de última hora. Afinal, carnaval sem fantasia não tem a menor graça. Já era bem tarde e o bloco seria pela manhã, mas eu abri o armário, fui experimentando o que eu tinha e, voilà, o momento poético-musical de uma recém-chegada de Viena definiu: eu seria a amada imortal de Beethoven. Catei um vestido branco, colares de pérola, uma flor preta e sóbria para adornar os cabelos, peguei o livro com as cartas de Beethoven e fiz uma cópia das páginas da carta para a amada imortal. Tema da minha fantasia: o amor! Nada mais clichê… Domingo de manhã, lá fui eu, entre amigos super empolgados e outros nem tanto. Se a brincadeira durou cinco horas, foi muito. Cheguei, chapei, cansei e parti. Encontrei uma amiga no metrô, fomos almoçar, falamos da vida. Assunto? Dou um doce se você adivinhar. Assunto principal nos bares e no WhatsApp nos últimos meses? Dou mais um doce se você adivinhar. Assunto quente no WhatsApp hoje no grupo das amigas? Muito bem! Bingo! 
Estou rodeada de amigos casados, descasando, em crise no casamento, terminando namoros de longa data. Parece que todo mundo resolveu entrar em crise ao mesmo tempo. Eu, a amiga solteira, que já dividiu as escovas de dentes por um bom tempo, teve paixões intensas e passou por poucas e boas até decidir que iria parar de sofrer, fico fazendo aquele papel de ouvido e de conselheira. Este último, às vezes, é risível. Mas, comecei cedo no assunto vida a dois, após uma adolescência complicada… Depois perdi a linha. Aí voltei para a vida a dois. E vi que não era para ser. E me apaixonei. E vi que não era para ser. E resolvi ficar sozinha. Aí me apaixonei de novo. E morri de medo de sofrer tudo de novo. E me atrapalhei por conta da minha ansiedade. Até me dar conta de que eu tinha comigo algo muito mais precioso e que merecia cuidado. Assim, já mais envelhecida em barris de carvalho, comecei a me acalmar. Não vou dizer que estou tirando nota dez nos quesitos harmonia e evolução, mas o júri está ligado que as coisas mudaram e que estou muito mais inteira. É que, finalmente, descobri que posso ser feliz sozinha. Claro que para um ansioso do signo de gêmeos, isso não basta. Porque eu quero ser feliz sozinha, com o outro, com os amigos, em todas as cidades que amo, comendo todas as comidas que gosto, bebendo todos os vinhos. Mas eu descobri também que a minha ansiedade já deu o que tinha que dar e que é chegada a hora de dar um chega pra lá definitivo nessa história. Ansiedade crônica é um dos grandes entraves ao bom fluir dos relacionamentos. Este conselho eu posso dar para os amigos em crise!
Relacionar-se é mesmo algo complicado. Mas não deveria ser, afinal, somos seres relacionais. A gente sempre diz que não deveria ser… É ou não é? Acredito que complicamos porque temos dificuldades de realmente aceitar o outro como outro, porque nossos traumas fazem das relações situações em que acabamos repetindo padrões, porque dá trabalho mudar e assusta se revelar (e relações sempre nos transformam e nos revelam), porque queremos que o outro seja nosso e seja como gostaríamos que fosse… Enfim, motivo não falta. Complicar é uma especialidade humana! Mas descomplicar também! Amém! E parece que quando a gente ama, queremos nos fundir no outro. Reconheço que esta é uma sensação maravilhosa. Mas, alto lá minha gente, o outro será sempre o outro, um grande mistério. Às vezes, nós mesmos somos um grande mistério pra gente, que dirá o outro… Querer se fundir no outro deveria vir separado de querer controlar o outro. Façamos essa gentileza ao planeta! Eu, você e todos. Além disso, essa sensação também traz toda a carga das experiências passadas, e a gente inevitavelmente associa uma coisa à outra e tende à repetição de padrões. Quando o padrão não se repete, a gente chega a estranhar. Outro dia mesmo eu vivi uma situação dessas. Eu estava super achando que ia sofrer (e sem muitos motivos, devo confessar a mim e a outra parte da história) e, como não me vi sofrendo, a primeira reação foi: tem alguma coisa errada. Depois eu percebi que tinha, na verdade, alguma coisa muito certa.
Medianeras é um filme que fala sobre os relacionamentos no mundo contemporâneo. Um mundo altamente conectado e, ao mesmo tempo, um mundo onde se multiplicam solitários. Zygmunt Bauman diz que vivemos a era do amor líquido, das relações rasas e mediadas. Bauman poderia ter escrito o roteiro do filme. Outro dia, estava eu na casa de um amigo muito especial. Alguém com quem é inevitável não tocar no assunto relacionamentos. Era madrugada, ele dormia e eu tinha perdido o sono. Havia um silêncio profundo. Eu estava sentada com o olho arregalado olhando para as paredes, os quadros e a fresta na janela por onde entravam os primeiros sinais de claridade. Olhei para o lado, sem muita emoção e um pouco de enjoo e vi um livro: Amor Líquido. No auge da minha insônia eu me pus a pensar sobre o livro, sobre as relações, cheguei a algumas conclusões, depois desfiz, depois cheguei a outras, o dia clareou e eu estava confusa. Este foi o primeiro livro do Bauman que eu li. Na época, discordei. Até concordei, mas sempre achei o Bauman um alarmista e, grosso modo, achava que ele estava exagerando. Hoje, já não penso mais assim e não sei muito bem de mais nada. Só sei de uma coisa: que eu acredito no amor. A forma como o vivemos é que parece ter mudado muito. Se existem relações rasas? Muitas. Como sempre existiram, embora eu concorde que a tecnologia facilite a multiplicação de relações superficiais e produza muitas inseguranças. A questão é: isto é um problema, como Bauman coloca? Talvez, pensando no sentido de comunidade que, segundo ele, se perde na modernidade líquida. Mas talvez seja cedo para dizer. Talvez seja romântico dizer que sim. Talvez seja frio dizer que não. Mas, se é problema, a pergunta traz outras perguntas mais importantes, genealógicas. Problema por quê? Para quê? O que o torna um problema? E trazendo para o âmbito da pessoa: é um problema para mim? Por quê? 
Não vou desenvolver este assunto em um texto de carnaval, mas minha pseudofilosofia não me deixa outra alternativa a não ser refletir um pouco mais. Parece-me interessante pensar sobre isso a partir do ponto de vista da expectativa. Em tudo na vida a gente põe expectativa. Disto é difícil fugir quando não se é monge budista. Na carreira, nos filhos, na repercussão de um trabalho ou estudo, nas amizades e, claro, nos amores. Conheci um gerente de marketing que disse uma vez que a vida se tornava mais fácil quando a gente gerenciava as expectativas. Na hora eu ri por dentro e minha vontade foi perguntar para ele se ele tinha tesão ou se ele sabia o que era se arrepiar ao ouvir uma música. Hoje eu prefiro dizer que ele não está certo, mas também não está errado. Não sei se é bem uma questão de gerenciar expectativas, mas sei que precisamos aprender a nos desapegar das grandes expectativas que criamos. E quando o assunto é relacionamentos, elas podem por tudo por água abaixo ou criar aqueles malditos duplos vínculos. Este sim me parece um aprendizado para nos tornamos seres menos neuróticos. Nossas neuroses e psicoses matam as relações. E, com elas, é muito fácil ficarmos presos em emaranhados que nada mais são que suas construções, que vamos desenvolvendo conforme o tempo vai passando, conforme vamos nos amoldando à cultura – sempre achei o melhor texto de Freud O mal estar na civilização… Acho que a maior parte do que a gente acredita, imagina e tem convicção é pura invenção. Nossa vida é nossa maior ficção. Mas posso estar enganada…
Pois bem, o carnaval está aí, época em que muitos relacionamentos começam, muitos terminam e multiplicam-se as relações rasas. Mas relações rasas podem gerar impactos profundos… Porém, eu sou uma moça que gosta mesmo é de relações que se aprofundam. As rasas têm o seu valor, mas acredito que só vivemos plenamente o humano e a vida quando vivemos relações profundas, inclusive com nós mesmos, porque é no mergulho que a gente se conhece mais e consegue ter mais vivência, mais contato com os mistérios e as maravilhas da vida. Claro que o conceito de profundo também é um problema, e não é com todo mundo que a gente consegue manter relações profundas. Profundas mesmo acho que dá para contar nos dedos. Mas, dizia Paul Valéry que “o mais profundo é a pele”. Para Deleuze e Guattari, deslizar na superfície, multiplicar-se, é que tem uma conexão com a plenitude, e o conceito de profundo muda de figura quando o espaço liso, a superfície, ganha importância. Porém, acredito que o profundo não necessariamente é uma descida. Pode-se mergulhar para cima e para os lados. O profundo me parece mais uma abertura a se deixar tocar e modificar. De toda forma, rasa ou profunda, que seja uma relação sincera e desejada por todas as partes envolvidas, é o que eu desejaria. Talvez esta seja a questão mais importante. E, em sendo uma relação profunda, que não precise ser uma relação pesada. Parece que a gente andou por alguns séculos associando uma coisa com a outra. Culpa dos românticos? Não sei. Eu não sou romântica, embora eu seja a amada imortal de Beethoven, e serei para sempre. Eu também acredito em para sempre, assim como acredito no amor. Enquanto a gente está vivo, a vida é eterna e tudo o que sentimos também pode ser. O para sempre é circunstancial. Mas nem por isso deixa de ser o que é e de ter a força e a potência que tem de unir pessoas e criar mundos. Complicado? Quero acreditar que pode ser diferente. Afinal, é sempre isso que move os corações, acreditar que pode ser diferente. E pode! Enquanto estivermos vivos e houver desejo de diferença, sempre poderá ser diferente. Basta estarmos dispostos. 
Assim, vou chegando ao fim deste texto, feliz por ter um relacionamento sério com a palavra. Está aí o que é a minha grande companhia! E feliz por ter conseguido escrever em pleno carnaval. Eu que desisti dele, voltei atrás e desisti de novo, cá estou: vidrada no computador há algumas horas, este que se tornou uma extensão de mim, rodeada por uma purpurina que não deveria estar aqui, um copo de cerveja vazio, uma cama grande, livros, música e um espelho. Olhei nele agora, vi minhas olheiras, percebi que é preciso trocar o piercing porque o meu está abrindo toda hora e lembrei o quanto eu preciso voltar a cuidar da minha ansiedade, e que já sei o que devo fazer pra isso, basta apenas começar… Olhei também para a cama e constatei o quanto ela é grande e pensei que, grande desse jeito, merecia ter alguém sempre ali com quem eu pudesse “disputar o espaço”. Mas penso também que o amor acontece quando tem que acontecer e que a cama voltará a ser compartilhada na hora certa. E lembro o quanto eu gosto de me esparramar nela sozinha, tanto quanto eu gosto de ter alguém do lado. Mesmo que eu não saiba dormir de conchinha – embora eu tente, mas dura poucos minutos. Gostaria era de dormir com mais facilidade, mas eu também já sei o que fazer para isso. E não é tomar Rivotril… Bem, mas como concluir um texto sobre algo que não dá para se chegar a nenhuma conclusão num ensaio, no carnaval, quiçá, na vida? Vamos lá, vou tentar.
Acho que bom mesmo é acordar, se olhar no espelho e cantar para si mesmo o refrão delicioso do Ultraje a Rigor: “eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim”. Mas, tão bom quanto é ter também para quem cantar Fogo e Paixão do Wando. Dure o amor uma semana, um mês, um ano ou a vida inteira. Comece rápido, devagar, de forma fácil ou aos solavancos. O que importa é que ele exista e que nos deixemos tocar por ele. E aceitemos que tudo dura o tempo que tem que durar. É fácil. Só é complexo. Mas a vida não teria a menor graça se não fosse assim. É o que a gente sempre diz também…

o inevitável

passou, o passado
e radicaliza sua falta de sentido
nesta hora

passou o passado

anunciou sua demora
e partiu

uma hora passa
uma hora se transforma em filme
que deixa marca
mas que não é mais que marca
porque se não gera esforço para lembrar as cenas
elas sequer são lembradas

o acontecido ficou lá
no tempo em que foi presente
e o presente é tão somente o presente

um dia fica tão distante
que deixa de existir no tempo
e se torna uma curiosidade afetiva

somos espectadores da nossa própria vida
o que importa é o que está sendo

passou o passado
e o que vem a partir de agora
é a excitante novidade

o novo que nem sei
e aquele que já brota
fruto de semente plantada sem querer
no rastro de uma gaivota

Como se

é como se sobrasse em mim uma fresta
e ela pudesse reter, no ar, o não dito

há que se sentir o ar que embriaga os pulmões!

é como se faltasse em mim
alguma coisa ainda…
e o vazio não fosse mais que uma intenção

alguns dias de solidão
e tudo ganha novo colorido

meio mês e nada faz sentido

e meu tato procura, cheio,
as peças perdidas no passado recente
que, por si próprias, semearam meu jardim

aquelas folhas que entraram pela janela, ao vento,
procuram por aquele cheiro

pelas portas que se abriram
e as luzes que descortinaram túneis

fez-se brusca a passagem

é que enovelei tanto…

é que tudo, naquele agora,
que nem foi há tanto,
foi verdade

alguns dias de solidão
e nem mesmo a saudade

o que se passa?

cabelo a procurar a tempestade…
a desejar o dia que chegará
e que, sequer, sei o que será

perder toda a luz
não se pode

não se pode, lançada tão de cara
a tanta falta de sentido
perder o dia em que todo ele
existiu, inteiro, nas mãos que tocaram as minhas

e numa corrente iluminada
a vibrar a vida nova
que bateu na porta

ampliada
carregada de placenta

vida que destroça a aorta

mas, fez a vida, tão bonita,
a loucura de deixar nascer
aquilo que, quando nasce,
muda, para sempre,
a si mesma

e a porta, aberta,
convidou a aorta
para a festa

poema do sutil

não!
não falarei do óbvio
este é um poema do sutil

este é um poema da escuta
que vê além das palavras surdas
e lê nas entrelinhas

este é um poema
que sabe

um poema
da intuição

não!
não falarei do óbvio
pois nada em ti é óbvio
a medida que carregas
no corpo a marca pulsante
da crueldade da existência

tudo em ti é sentido
e nada em ti foi naufrágio

pelo contrário

por isso
este não é um poema bandido

ele sabe o que é
tão claramente
que já vê a flor
quando olha pra semente

A poção infinita

chore amiga,
chore

que a tua dor é a dor de todos nós!

chore toda essa dor
que corrói as tuas vísceras
e debulhe cada pedaço do sonho que se foi

chore!
pois se choras no agora
tão rápido se vai a dor
para mais rápido voltar o amor

é que o mundo é uma curva

um dia, o que procuras,
novamente te encontrará

chore e esgote as lágrimas
elas passarão, e você, passarinho

e construa, só, o seu próprio ninho

o amor se torna ainda maior
quando é de nós mesmos
que cuidamos primeiro

chore
e deixe que a tua dor
espalhe pelo mundo
como vale a pena o amor

pois tudo vale a pena, pequena
tua alma é tão grande!

e tuas lágrimas são férteis
carregadas da potência
do que não mais pode ser
porque será outra coisa um dia

mais certa…
quem sabe, mais inteira

o amor sempre retorna
com o seu cheiro de flor de laranjeira

um dia, como quem não quer nada,
você abrirá a porta
e lá estará…

o inesperado!

chore

e se fortaleça!

a força da nossa solidão
é mais forte que qualquer
certeza alheia

chore amiga!
e depois esqueça

o mundo é grande
e sempre caberá
no breve espaço do beijar

pois desde Tristão e Isolda
todo dia é a mesma coisa

em cada canto do planeta
um amor termina
e em todo ele, também,
novas almas compõem novas rimas

e renovam o amor!

chore
e depois dance…

como bailarina!

réquiem

jamais
houve
metamorfose
maior
que esta
nem silêncio
tão doloroso
desses
de nascer
o novo
revirando
o próprio
poço
jamais
a vida
gritou
tão alto
dentro
do meu
corpo
alto,
tanto,
que sou
incapaz
de escuta
e deixo
que se derrame
todo
o pranto
sinto
é rasgo
no estômago
e o coração
pulsando
em cada
veia
desfazendo
toda
e qualquer teia
transformando
em cacos
os laços
para renascê-los
borboletas
sinto
é que rasguei
agora
a placenta
e ando
testando
a carga
nos fios
da solidão
para saber
até onde
aguenta
sei que não mais
haverá drama
estou farta
jamais
houve
metamorfose
mais rara
nem silêncio
tão precioso
desses
de celebrar
o novo
refazendo
o próprio

poço

feliz-cidade

estranha palavra
felicidade (tente soletrá-la)
que só o tempo
(para alguns?)
é capaz de fazer
b r o t a R
não posso dizer
que hoje sei
dessa tal
F-E-L-I-C-I-D-A-D-E
uma curiosa cidade
difícil de habitar
tão                                                      distante…
não se costuma chegar lá
(estrada looo o o   o   oo  o n g a
e acidentada)
mas algo, em mim, FALA
e algo em mim

é capaz, hoje, de escutar!

não sei se isto significa
que, finalmente,
depois de tanto espanto
eu descobri o que é
AMAR!
algumas palavras
anunciam na placa: perigo!
mas se sequer me importo
 – visto a novidade que é a falta do espanto – 
então, talvez,
SEJA!
perigo só é perigo
quando a gente, assim
                                               deseja… (perigo!)
porque autômatos
repetimos o que já
sabemos,

pois VEJA

perigo só é perigo
quando não há chance
de tudo ser
diferente
e HOJE eu sei
(EU SEI!)
há alguma coisa em mim que nunca houve…
(guarde isto!)
e um silêncio muito longo
parece pairar sobre o meu sono

(pausa)

talvez seja um
AMOR MAIOR
pela vida que é tão GRANDE
um soneto ainda a ser escrito
mas já esboçado no corpo
onde mal cabe tudo o que

sinto (sintosintosintosintosintosintosinto…)

e talvez seja a descoberta
dessa tal feliz-cidade
não sem DOR
é verdade (perigo?)
a dor
que
                               e s c o r r eeeeeee…
de se olhar no espelho
não
sem
dor
nunca
s e m…
desvelamento do véu de Maya

amém!

então, posso dizer
que FELIZ
ESTOU
e o que brotou dentro de mim
É MAIS

MAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIISSSSSSSSSSSSSSSS

muito mais

do que EU poderia

supor

filme de Almodóvar

chove
e me atravessa um cheiro de café
entonteço…

acendem um cigarro
e o cheiro do café e o trago
me trazem a lembrança daquela viagem

entonteço…

trabalho…
e eu quase poderia ser uma mulher
à beira de um ataque de nervos

chove
tenho fome e penso o óbvio

estou cansada
trabalho, ensaio,
entonteço…

queria a carne trêmula
a desvendar a flor do meu segredo

o cheiro do café…
a chuva
a memória

nenhum desespero
mas todo o desejo
entonteço…

trabalho
o cheiro do café
o cheiro do cigarro

está cinza
o vento é frio
por hoje chega
necessito um vermelho

é que chega uma hora
em que o corpo desaba
e a pele que habito pede um basta

tenho fome…

paro e desato
penso o óbvio

abrir um vinho
fazer um macarrão

e no labirinto da minha paixão
me esquecer a ver um filme de Almodóvar

entonteço…

cartas

relendo as cartas que escrevi pra ti
faz tempo

era vento que soprava leve
a angústia dos meus sentidos

aquela luz ecoava tempo incerto
que se foi e, perdido, não é mais
que palavra eternizada no papel

meu véu já não esconde mais teu rosto

foi-se o tempo
em que eu era tua aurora

sou, em tempo,
uma nova espécie de agora